Uma Europa que não é mais a mesma

Não, não é engraçado, mas é um tanto irônico. Quando a ministra da Saúde da França, Nora Berra, comete um “lapso” e diz para os sem-teto não saírem de casa durante o inverno, ela sem querer evidencia essa grande transformação por que passa o mundo e explicita que a sua França já não é mais a mesma. Foi um lapso. Mas um lapso de quem: a) não está acostumada a lidar com esse tipo de problema; b) não costuma considerar muito importante essa gente pobre que normalmente não vota. O problema é ter quem comete esse tipo de lapso no poder.

A letra ‘a’ diz respeito ao empobrecimento da Europa. À crise. A uma França diferente da de alguns anos atrás, uma França diante de problemas de “terceiro mundo”. Fui a Paris pouco tempo atrás, na metade de janeiro. Sabia da crise, sabia do desemprego, sabia do empobrecimento. Mas não imaginava a quantidade de sem-teto que eu veria por lá. Às 2h da madrugada, hora em que o metrô fecha nos fins de semana, todos os bancos de uma estação da periferia serviam de cama. Em Londres, naquela Inglaterra onde a crise também está pegando, é nítido o aumento de moradores de rua a cada mês, pelo menos pelos últimos seis meses. É o retrato de uma Europa que há séculos não existia desse jeito. Pobreza houve muitas vezes. Gente na rua, também. Desigualdade, muita. Mas nunca antes no mundo capitalista a Europa se via deixando de ser a referência, perdendo importância, vendo-se obrigada a pedir ajuda a países do Sul. Nunca antes ela via inverter o cenário da geopolítica mundial como agora, tendo que buscar alternativas em exemplos do Sul. E principalmente, vendo que esse “Sul” de que a gente fala não é um país, mas vários. Um momento em que o mundo fica cada vez mais multipolar.

Vamos com calma, o Brasil ainda não é mais importante que a Europa como referência mundial, e possivelmente não venha a ser. Mas o importante do que está acontecendo agora é que os países do Sul, especialmente da América Latina, crescem com uma política de inclusão enquanto os europeus encolhem ao mesmo tempo em que excluem. São movimentos inversos, e isso é fundamental para entendermos o que está acontecendo. E, apesar de nossa desigualdade ainda ser enorme, aqui, ao contrário da Europa, o Estado funciona, como testou a Katarina Peixoto em Porto Alegre.

O lapso da ministra não é simplesmente uma gafe, o que nos leva à letra ‘b’. É o lapso da ministra de um governo conservador, reacionário, que fala nas classes mais baixas apenas por obrigação, para não ficar feio, e não porque realmente se importe com elas. Um governo que não pensa de verdade em como as pessoas se sentem na rua no frio. Há quase um mês, quando estive em Paris, o frio já era considerável, com temperaturas não muito distantes de zero. Para mim, protegida com um casaco carésimo que comprei com medo do inverno europeu e hospedada em um hostel pra lá de ruim, mas com calefação, já era difícil. Agora imagina pra quem tem pouca roupa e nenhum teto e com um frio muitos graus mais cruel do que aquele, com neve.

Os sem-teto se multiplicam na Europa não só porque ela está em crise, mas porque ela está recheada de governos conservadores. Governos cujas medidas fazem aumentar a crise, o que leva a que se elejam governos ainda mais conservadores (pelo medo que o povo lá tem mostrado sentir, a exemplo recente das eleições espanholas). Mas mesmo em tempos sem crise, ou pelo menos sem uma crise tão grave, é normal a desigualdade crescer durante governos de direita, como nos mostra o Reino Unido. Aumenta o desemprego, fica ainda mais difícil subir de classe social e mais fácil cair. É a tendência natural de governos que governam para o mercado, para as elites de que fazem parte, e não para o povo, para o país. O que assusta é que a direita ganha cada vez mais força. E não é só uma direita moderada. Muitas vezes extrema, ela ganha espaço na França (Marine Le Pen é ameaça nas próximas eleições), na Espanha, na Itália, no Reino Unido etc. etc. À medida que ela ganha espaço, aumentam os os índices negativos dos países, mas ninguém parece perceber muito a relação entre as duas coisas. Não é tão óbvia?

P.S: A foto, da agência AFP, é na Itália, onde o frio está castigando e o governo é ainda pior, tendo passado de um conservador maluco pra um indicado do mercado financeiro alçado ao cargo por um golpe de Estado.

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Uma Europa que não é mais a mesma

Portugal sente a crise

Não precisa mais que alguns poucos dias em Portugal para ver e sentir que a coisa está feiatugal para ver e sentir que a coisa est. O país nos recebe bem e é um lugar extremamente agradável de visitar. Mas talvez não esteja mais tão bom assim de morar. A impressão passa pela sensação de insegurança ao andar nas ruas, de tristeza pela quantidade enorme de gente pedindo dinheiro (incluindo muitos idosos), a gurizada vendendo drogas em dia claro, o aviso constante para cuidar dos pertences por causa de assalto. Fica a impressão mais subjetiva de que falta alguma coisa, de que já não é como era, mesmo que eu nunca estivesse pisado em terras portuguesas antes desta última semana. Isso vem na voz dos portugueses. E nas páginas dos jornais.

Com a notícia de que a Grécia vai fazer um referendo para decidir se continua ou não na zona do euro e a incerteza que isso causa, Portugal tremeu. Sabe que está na fila e sua vez está chegando. É o próximo a encarar o furacão, dependendo de como as coisas andarem no companheiro ainda mais fraco que está se segurando para não ir à bancarrota. Na verdade, se segurando para não admiti-la, ela que já é evidente.

A Europa está tensa. O imprudente presidente francês – que o professor universitário português Viriato Soromenho-Marques chamou, no jornal Diário de Notícias, de “insulto continuado à grandeza da França” –, Nicolas Sarkozy, já disse que seria melhor a Grécia não ter adotado o euro, mas agora treme diante da possibilidade de ela fazer-lhe a vontade.

O referendo chamado pelo governo grego é uma oportunidade de o povo exercer a democracia, ainda que não tenha sido chamado por esse motivo. A verdade é que a Grécia está numa sinuca de bico, e aceitar as condições impostas desde Berlim não é tarefa fácil. As medidas de austeridade vão prejudicar ainda mais o já combalido povo grego, especialmente, como sempre, os mais pobres. Então o governo faz um pacote e joga a batata assando para as mãos dos eleitores. Ou ficam na zona do euro e aceitam as medidas ou demonstram sua soberania negando a imposição externa, mas assumem as consequências de abandonar a moeda comum. Não há meio termo.

A culpa, nesse momento, não é exatamente do primeiro-ministro grego, George Papandreou. A União Europeia lhe impôs a condição, e ele repassou-a ao povo. A situação agora é imprevisível, ainda que mais de 70% dos gregos não queiram abandonar o euro. Os mercados devem flutuar nesse tempo de incerteza até o começo de dezembro, quando o referendo deve ser realizado.

Portugal vai continuar observando e torcendo, enquanto os articulistas de seus jornais clamam por uma postura sensata de fazer o que for necessário para resguardar a estabilidade e proteger a moeda. É o que a chanceler alemã, Angela Merkel, quer, como já deixou claro ao afirmar que salvar o euro é mais importante do que salvar a Grécia. Ela sabe que a União Europeia está em crise e o euro pode dançar à medida que os países endividados (já estão na lista também Espanha e Itália, além da Irlanda) forem quebrando. A gente vê nas ruas de Portugal o resultado da sensatez de abdicar de sua soberania e submeter-se às vontades da EU. Como elo fraco, nunca dá as cartas, sempre baixa a cabeça. E como elo fraco, sempre arca com o prejuízo.

O país das grandes navegações agora vê seu navio balançar. Para a Europa, perder Portugal pode não ser tão simples quanto perder a Grécia (não que isso o seja). Mas quando a estabilidade do euro está em jogo…

Portugal sente a crise

Aldo Rebelo e a História

Texto de Demilson Fortes

Nos anos 60, milhões de pessoas estavam nas ruas de Paris e queriam mudanças. O Partido Comunista Francês (PCF) retraiu-se, não apoiou os movimentos. Juventude, trabalhadores, intelectuais, homens e mulheres, estavam nas ruas, e o PCF tentava entender o que acontecia. A história estava ali, aos olhos de todos, materializada em milhões de pessoas nas ruas, universidades, fábricas e praças, movimentando-se como um rio furioso, arrastando tudo e transbordando às margens, que tentavam inutilmente detê-lo. O PCF e suas velhas fórmulas não entenderam a realidade.

A história e as circunstâncias. É preciso decifrá-la, compreender seus movimentos, conflitos e protagonistas. Na França, do final dos anos 60, a história atropelou o PCF, para os quais a realidade não coube nas suas leis de bronze, no roteiro pré-definido. Queriam que a realidade das ruas nele se encaixasse. O povo na rua atropelou o PCF, que perdeu influência na política francesa e entrou em declínio. Para Marx “os homens fazem a história, mas não escolhem as circunstâncias”, mas, para ele, “é preciso forjar as circunstâncias humanamente”, e assim fazer a história de maneira consciente. Somos nós e nossas circunstâncias dadas ou criadas, com possibilidade de fazer história, ou ser arrastados por ela.

Em Brasília, será votado o Código Florestal. É um encontro dos deputados com a história. Aldo Rebelo é o relator e o maior responsável, mas todos os deputados federais têm responsabilidade. Esperamos que a história seja justa com aqueles que fragilizaram a proteção ambiental e colocaram em risco o futuro, pensando no econômico e no imediato. As próximas gerações saberão da escolha.

O relatório do Código Florestal de Aldo poderia ser chamado de uma traição histórica. Isso seria justo com Aldo Rebelo, com a agricultura familiar, com os ecologistas, com os movimentos sociais, com nossos tantos lutadores sociais do campo e da cidade, alguns mortos nos conflitos, como Chico Mendes e Irmã Dorothy.

Aldo Rebelo entra para a história como o comunista que se tornou ídolo do setor mais reacionário, atrasado e conservador do país, os grandes ruralistas. Na França, a história acertou as contas com os que não a entenderam. Aqui, espero que assim seja!

Aldo Rebelo e a História

Zero Hora desrespeita os trabalhadores franceses

Certamente, quando os trabalhadores lutavam pela redução das jornadas de 14, 16 horas de trabalho, ainda no século XIX, havia setores mais conservadores da sociedade que jogavam sobre eles a acusação de “não gostar de trabalhar”. Décadas, séculos depois, suas reivindicações foram reconhecidas como justas.

Essa visão que atribui respeitabilidade apenas às pessoas que dedicam sua vida inteira ao trabalho baseia nossa sociedade ainda um tanto moderna, querendo entrar na pós-modernidade. Só é sério quem gosta, quem quer dedicar todo o tempo que tem disponível ao trabalho. É elogio dizer que “fulano é muito trabalhador”. Falta um questionamento de por que vivemos, o que devemos fazer ao longo da vida. Dedicar-se somente ao trabalho é, em certa medida, deixar de viver boa dose de vida.

A questão previdenciária que ganha atenção agora com as manifestações na França é bem diferente da luta pela redução da jornada no século XIX. É preciso considerar o aumento da expectativa de vida e as dificuldades de bancar um contingente cada vez maior de idosos frente a uma diminuição crescente da população jovem, em idade ativa.

O tema é controverso, pois opõe a capacidade do Estado aos direitos trabalhistas, que andam cada vez mais questionados pelos governos conservadores, hoje maioria na Europa, e que correram sérios riscos durante a onda neoliberal, que já foi bem mais forte e, diante da crise financeira de 2008, vê frustradas suas expectativas. Mas justamente pela polêmica que envolve, em que se podem encontrar causas justas dos dois lados, que é preciso ter cuidado. Dizer que os franceses “não gostam de trabalhar” é uma falta de respeito que remonta ao conservadorismo de dois séculos atrás.

Incrivelmente, é o que podemos ler na coluna de Gabriel Brust, que integra a Reportagem Especial da Zero Hora de hoje, dia 20 (“Para eles, trabalhar é coisa do passado”). O jornalista ilustrou seu texto com um caso específico de um homem que desistiu de trabalhar para viver às custas do governo, como se esse tipo de atitude representasse uma tendência da maioria da população. Gabriel Brust afronta a classe trabalhadora da França e do resto do mundo e a história de luta que marca o país, da qual os franceses têm muito que se orgulhar. É quase como alguém chamar aposentados de vagabundos, veja só.

O repórter ironiza e generaliza, mostrando uma grande falta de respeito e de responsabilidade: “Os franceses não querem mais trabalhar e, para deixar isso claro, há dias estão tomando as ruas de Paris e de outras cidades para protestar. Fazendo greve, claro, para que o trabalho não atrapalhe a manifestação”.

Gabriel Brust ignora que os protestos vão além da luta contra as reformas na previdência, que têm como ponto principal de conflito a elevação da idade mínima para aposentadoria. Os protestos questionam a gestão de Nicolas Sarkozy, um governo autoritário, conservador e xenófobo, que figura no meio de escândalos de corrupção e é o principal fomentador do preconceito, impedindo que os desiguais tenham direitos iguais no país símbolo da luta por igualdade.

Os franceses protestam justamente contra o desrespeito a sua história. O protagonismo na luta pelos direitos sociais está sendo solapado por uma onda conservadora que toma conta da Europa, contra a qual os europeus, especialmente no país da greve geral de maio de 1968, têm todo o direito de reivindicar.

Gabriel Brust desrespeita os franceses que estão nas ruas, a história da França e a história das lutas trabalhistas. E mais, reforça a ideia de que só o trabalho torna uma pessoa digna e respeitável, a velha ideologia que ignora o direito ao lazer como parte fundamental da experiência fantástica que é viver.

Zero Hora desrespeita os trabalhadores franceses

Cresce xenofobia na Europa

Chegam ao Brasil informações de aumento da xenofobia nos Estados Unidos e na Europa que assustam. Especialmente no nosso país, que acolheu tantos europeus em período de dificuldades no Velho Continente, a notícia chateia. Mas o grave mesmo está acontecendo com grupos de origem muçulmana, ciganos, africanos e até europeus mesmo, de países mais pobres, do Leste.

O preconceito é de classe, de cor e de religião, além da questão nacional. Antonio Luiz M. C. Costa dá um retrato muito bom na Carta Capital dessa semana. A xenofobia assusta quem se coloca no lugar dos imigrantes e até quem tenta imaginar o futuro dos europeus “legítimos”.

Os casos mais flagrantes vêm se dando na França. O presidente Nicolas Sarkozy tem atacado grupos de ciganos, proibiu o uso de véu pelas mulheres em território francês e vai minando as culturas estrangeiras. Mas os imigrantes já vêm sendo uma parcela cada vez mais significativa dos país europeus. No futuro, os “brancos” serão minoria.

Xenofobia é igual a falta de solidariedade

O preconceito contra eles é grave porque demonstra uma falta de humanidade muito grande. Ofende o princípio da igualdade, que deveria transcender as fronteiras. Se todos os homens são iguais, não são todos os homens brasileiros ou todos os italianos ou todos os marroquinhos, mas TODOS de fato. E se a lei trata de forma diferente os que nascem no país, seja ele qual for, dos que vêm de fora, o nosso princípio de amor ao próximo, de solidariedade, de fraternidade e principalmente de justiça e igualdade deveria prevalecer e reger nossas relações. A xenofobia é o egoísmo tomando força.

É nesse sentido que a xenofobia se identifica com a direita. É porque igualdade e justiça são princípios historicamente defendidos pela esquerda. Diante da crise, a direita se fortalece, e junto com ela cresce essa onda discriminatória, que diferencia um homem de outro como se um tivesse um gene que o tornasse melhor que o outro.

A xenofobia não é diferente do preconceito já condenado por lei que leva à cadeia aquele que ofende um negro por conta da sua cor ou daquele que despreza uma mulher como se fosse de uma classe inferior.

Europeus “brancos” serão vítimas de si mesmos

É prejudicial para os imigrantes, claro, que veem sua cultura vilipendiada e sofrem diariamente, mas um dia há de trazer prejuízos também à Europa mais tradicional, que vai precisar da população mais jovem que vem com a imigração para não sobrecarregar o sistema previdenciário da população europeia, que vai ficando cada dia mais velha.

Mas quem consegue usar a razão contra o preconceito? Se houvesse algum pensamento lógico na cabeça de quem agride, a discriminação não aconteceria, porque ela não faz sentido algum.

Cresce xenofobia na Europa

Até onde vai a crueldade humana

Ao mesmo tempo em que certas coisas me dão esperança de um mundo melhor, como comentários de pessoas a favor de direitos humanos, ou mesmo a iniciativa de governos nesse sentido, algumas outras me desanimam muito com relação à capacidade de bondade dos seres humanos. A capacidade de serem efetivamente humanos.

Uma experiência realizada na França provou que as pessoas são capazes de crueldades enormes, de forma deliberada, proposital. Eram 80 participantes que achavam estar em um piloto de um reality show chamado O Jogo da Morte. Só o nome já seria absurdo. Mas o impressionante é que eles, sendo incentivados, dispuseram-se a aplicar choques até voltagens fatais em um homem.

Não sabiam que era um ator, mas nesse caso pouco importa. Não efetivaram o crime apenas porque a experiência era falsa, mas eles acreditavam estar matando alguém. Tinham a intenção disso. E 64 deles iam até o final, matariam um homem se tivessem oportunidade e fossem incentivados para tal.

Ignoravam os pedidos de clemência do ator e não se comoveram com o silêncio final. Assustador.

Até onde vai a crueldade humana