Liberdade com igualdade, sim senhor

Liberdade é fundamental. Mas ela só faz sentido se for para todos. Senão, e isso é muito importante de salientar, não liberdade.

Quando a liberdade de alguns ajuda a perpetuar desigualdades, o resultado é a restrição da própria liberdade.

Uns dias atrás, um comentário aqui no blog disse que “das ideias defendidas na independência americana (propriedade, igualdade e liberdade), a esquerda é mais inclinada a buscar um maior nível de igualdade, ainda que ao custo de uma maior restrição à liberdade de seus cidadãos, enquanto que a direita defende o contrário, um aumento na liberdade dos indivíduos, ainda que isso possa criar um pouco de desigualdade”.

Essa diferenciação é defendida por quem não acredita na possibilidade de existência de igualdade e liberdade ao mesmo tempo. Não acredita, portanto, na capacidade do ser humano de defender os seus iguais quando é livre para não fazê-lo. É um argumento interessante para justificar a desigualdade de nossas sociedades capitalistas. Interessante, mas falho. É coisa de quem baseia sua perspectiva de um ponto de vista cultural restrito. A ótica é sempre a americana. E ainda por cima distorcida.

Ainda que imperfeita, a Revolução Francesa, por exemplo, defendia a harmonia entre liberdade e igualdade, ainda com o acréscimo da fraternidade, em uma espécie de tripé da sociedade. No fundo, mesmo os americanos em sua independência defendiam a junção das duas (o brabo é aceitar a propriedade no mesmo patamar, como um valor social tal qual as outras duas – e antes que me critiquem, a grande diferença é que a liberdade e a igualdade visam o bem-estar das pessoas de um modo geral, o que não posso concordar que seja o objetivo da defesa da propriedade, mas continuemos). A noção de que igualdade e liberdade são incongruentes foi criada por aqueles que querem ser mais iguais que outros e precisam usar algum argumento para sustentar seu privilégio. Criam, então, um discurso falacioso, para convencer os demais.

Ao contrário da tese expressa no comentário, liberdade e igualdade só existem em sua possibilidade mais plena quando aplicadas em conjunto. A liberdade de que falam os defensores do livre mercado, por exemplo, anula-se quando gera desigualdade. Anula-se porque os mais desiguais, os considerados “inferiores”, os prejudicados na escala social não têm liberdade para agir e se expressar da mesma forma que os “superiores” (importante esclarecer que essa diferenciação entre “inferiores” e “superiores” refere-se apenas à posição social, não a características particulares).

No livre mercado, a liberdade é só para alguns. Não é, portanto, plena. Ou seja, não é liberdade.

A liberdade para todos nunca é total, porque baseia-se na velha máxima de que “a liberdade de um termina quando começa a do outro”. É impossível todos, ao mesmo tempo, fazerem tudo o que desejarem se houver vontades que agridam as vontades alheias. Por isso existem regras e leis, para regular a liberdade, de forma que ela exista em sua capacidade máxima, dentro das limitações da convivência social.

O mito da liberdade plena para todos é exatamente isso: um mito, uma falácia, defendida por aqueles poucos que a detêm dentro de um contexto de desigualdade. Quando apenas alguns são livres, insisto, não há liberdade.

Se o jornalismo dá voz a apenas poucos setores da sociedade e os outros não conseguem ter acesso aos meios de comunicação porque não têm condições financeiras – ou seja, por conta da desigualdade -, não há liberdade de expressão. Ela é restrita pelo mercado. Há liberdade de mercado, apenas. E é fundamental que não confundamos liberdade de mercado com liberdade, sem adjetivações.

É possível reduzir a desigualdade e restringir a liberdade ao mesmo tempo, o que não podemos aceitar. Mas a redução da desigualdade é, de um modo geral, uma fomentadora da liberdade, quando fornecidas as condições para que ambas aconteçam concomitantemente.

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Como bem citou a @fazendoanarcisa, retuitando o @diego_calazans: “Pafraseando Bakunin: ‘Liberdade sem igualdade é privilégio, igualdade sem liberdade é escravidão’.

http://twitter.com/#!/diego_calazans/status/29998332990464000

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Liberdade com igualdade, sim senhor

Ensino superior: uma sociedade mais fraterna passa pela reflexão sobre o nosso papel no mundo

É ótimo que consigamos levar ensino superior a grande parte dos jovens brasileiros, especialmente àqueles que não teriam acesso sem uma interferência do estado – igualdade: se uns têm acesso, todos devem ter -, mas é preciso rever o modelo de educação que queremos. Minha crítica vai para a infinidade de pequenas universidades particulares de dois ou três cursos que formam profissionais (?) que ganham seu diploma sem a devida responsabilidade que deve acompanhar o canudo. São aprovadas pelo Ministério da Educação, na maioria dos casos, mas educam?

A maioria atende a alguns pré-requisitos que o MEC impõe. Têm um currículo de acordo com as normas, professores com formação (ainda que não saibamos se sua formação não provém de uma universidade desse mesmo tipo), infraestrutura etc. O que falta é uma avaliação maior do objetivo das profissões. Isso passa pela qualidade dos cursos – que devem promover essa reflexão de para que serve, independente da área – mas também pela sociedade. A classe média que tem acesso ao ensino superior – muitas vezes é só ter dinheiro que se tem acesso a qualquer dessas universidades – está cada vez mais banalizando esse tipo de formação.

O reflexo vem em cerimônias que são uma verdadeira palhaçada para marcar o final, o momento em que o fulano deixa de ser uma pessoa genérica e se torna um profissional certificado de alguma área. Lembro de ainda criança assistir formaturas – faço a ressalva de que eram da área de humanas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul – em que o discurso dos oradores era uma manifestação política. E aqui é importante diferenciar manifestação política de manifestação partidária. Era política porque promovia uma reflexão sobre o papel que vinham desempenhar na sociedade. Tinham consciência de que não estavam se formando apenas para sua realização pessoal, mas para contribuir para a construção de um complexo sistema que permite que cada um, dentro de uma área específica, trabalhe e ajude a construir uma harmonia de atividades, que constituem a sociedade.

Toda profissão tem sua importância social, mesmo que indiretamente, e é fundamental que cada profissional saiba disso. Mas se sabe cada vez menos.

Hoje os discursos dos oradores não são mais uma mensagem daquela turma para a sociedade, que reflita sobre a profissão e o lugar no mundo. Que mostre o posicionamento daqueles formandos diante das questões sociais e a que eles vêm.

Generalizando um tanto, hoje os discursos refletem uma completa ausência de consciência social. Mostram que os formandos pouco se importam – sequer se preocupam em fazer demagogia – com os outros, nunca nem pensaram na sua função na sociedade, nunca foram instigados a isso. Os discursos são cheios de menções internas, são dos formandos para os formandos, sem conteúdo, vazios de significado.

Ainda que a preocupação social, com o outro, não seja completamente verdadeira, é mais bonito acreditar que nosso papel é importante para fazer a grande engrenagem social andar. Confere grandeza à profissão e a cada profissional.

A reestruturação do sistema educacional deve passar por essa reflexão. Os cursos têm que promover o questionamento, instigar, fazer pensar. Têm que mostrar que somos parte de algo muito maior. Assim, formaremos melhores profissionais – certamente um engenheiro vai se dedicar com mais afinco a um projeto se pensar nas pessoas que dependem dele e que ali vão morar ou trabalhar, por exemplo – e melhores cidadãos.

Para diminuir o individualismo, é preciso que entendamos que estamos integrados em uma sociedade em que cada um de nós tem seu papel para que o todo funcione melhor. Uma sociedade mais fraterna depende dessa conscientização.

Ensino superior: uma sociedade mais fraterna passa pela reflexão sobre o nosso papel no mundo

Brasil pratica a solidariedade internacional

Uma vez, num passado já distante (oito anos hoje em dia são uma eternidade), o Brasil era um país grande, com uma população enorme, mas submisso a interesses estrangeiros. Qualquer livro de escola ensina que, grosso modo, fomos colônia de Portugal, daí nos libertamos politicamente e mantivemos a dependência econômica que já tínhamos da Inglaterra. Quando ela se tornou menos importante que a cria, passamos para outras mãos, dos Estados Unidos, mas sempre baixando a cabeça também para a ainda poderosa nação europeia. Isso em uma redução bem grosseira, repito.

Durante esse tempo todo, éramos mais fracos. Não soubemos enfrentar com dignidade a força política e econômica dos que nos subjugaram. Durante esse tempo, interessava a Inglaterra, Portugal, EUA, que assim fosse. Tínhamos obrigações, mas muito poucos direitos.

Agora a coisa mudou um tanto. A articulação entre uma política bem desenvolvida de relações internacionais e uma crise que golpeou os países “ricos” fez com que crescêssemos e passássemos a ser vistos com olhos mais condescendentes. Agora, a “Grã-Bretanha quer relançar relações com América Latina”. Agora convém a eles. Afinal, ” expectativa é de que o comércio com esses lugares contribua com a recuperação econômica da Grã-Bretanha, que atravessou uma forte recessão e está cortando gastos públicos para reduzir o déficit público, o que deve se refletir numa queda da demanda interna”.

Lendo essas palavras comparo com a política levada a cabo pelo governo Lula. A altivez do Brasil em relação aos que antes nos dominavam aparece de outra forma na relação com as nações política e economicamente mais frágeis que a nossa. Com Bolívia, Paraguai, Moçambique, Angola, o Brasil manteve, ao longo desses últimos oito anos, uma relação cordial, de troca e respeito. Embora a nossa elite conservadora, que inclui o oligopólio midiático, quisesse que fizéssemos com os outros países o mesmo que fizeram com a gente, o presidente Lula, o chanceler Celso Amorim e o assessor para Assuntos Especiais Marco Aurélio Garcia optaram pela solidariedade.

O desejo da elite baseia-se em dois aspectos principais, que estão interligados: uma vingança estocada contra os que nos subjugaram, não importa que direcionada a nações que não tiveram culpa nenhuma, e a uma vontade de parecer superior a alguém, seja quem for. Não basta ser igual, tem que ser melhor.

É esse tipo de sentimento que perpetua a intolerância, o desrespeito e a desigualdade. Que incentiva a competição sem fim e leva a conflitos, guerras.

Se me pedissem para defender uma só política do governo Lula, sem medo de cometer injustiça, seria a política externa. A fraternidade mostra compreensão da igualdade entre todos os seres humanos, independente de fronteiras, e conduz à paz.

Brasil pratica a solidariedade internacional

O exemplo de Madiba: somos todos iguais

mandela_last Nelson Mandela pode não ter transformado a África do Sul em um país completamente justo. Pode não ter conseguido acabar com a corrupção nem ter erradicado a pobreza. Pode até vir a terminar sua vida em um dos países mais desiguais do mundo. Mas não podemos analisar o depois sem enxergar como era antes. E a mudança é gigantesca.

Se não foi feito tudo o que devia, foi feito muito mais do que parecia possível, diante de um dos regimes mais cruéis que a História presenciou. Restringir uma pessoa a determinados nichos, proibindo-a de dividir espaços, de utilizar o mesmo transporte, de viver a vida da mesma maneira, é privá-la de liberdade. É humilhá-la. Poucas coisas são tão cruéis quanto a humilhação.

Nelson Rolihlahla Mandela acabou com o regime de humilhação aos negros que imperava na África do Sul. Não fez guerra, não matou, não prendeu, não torturou. Ao contrário, Madiba perdoou. Passou 27 anos na cadeia, tentaram calá-lo. Não adiantou, o movimento antiapartheid criado antes de sua prisão fez os gritos de “Libertem Nelson Mandela” se multiplicarem. Sua voz ecoou, fugiu dos muros da prisão, ganhou o país, o continente, o mundo. E mudou a África do Sul.

Perdão

Quando saiu da prisão, Mandela pôde conhecer um país diferente. Tão diferente que permitiu que ele, um negro, assumisse seu posto mais alto. Quatro anos depois de solto, foi eleito presidente da República, em 1994. A primeira coisa que o negro Madiba fez aos brancos que o prenderam, o humilharam, foi perdoá-los.

Confesso, não sei se eu teria estômago para tanto. Dificilmente alguém faria o mesmo que Mandela. Aí está o seu diferencial, que o torna tão nobre. Ele perdoou porque sabia que a raiva levaria a África do Sul a mais ódio, mais sofrimento, mais preconceito. Que dividir negros de brancos de tantas outras etnias que povoam o país não resolveria sua injustiça, antes a atiçaria.

Nelson Mandela passou por cima de seu sentimento pessoal pelo bem do coletivo. Engoliu a raiva que imagino que devia guardar dentro de si para transformar a África do Sul em um lugar melhor para se viver.

O exemplo de Mandela para África do Sul hoje

Infelizmente, as injustiças eram tantas que muitos problemas sobreviveram. Legalmente, os direitos são iguais, mas na prática o preconceito é enorme e a situação sócio-econômica ainda é muito díspare.

mandelaNelson Mandela é dessas figuras que deveriam durar para sempre. Ontem ele completou 92 anos, incríveis para alguém que já passou por tanto. Que cada dia vivido por Mandela sirva como uma lição. São mais de 30 mil lições que a África do Sul pode aprender.

Que todos lá possam se respeitar do jeito que forem. Que lutem juntos por um país melhor, por uma vida melhor. Que entendam que a África do Sul só vai se tornar um lugar bom de se viver quando cada sul-africano enxergar no outro um irmão. Não irmão no sentido bíblico, mas no sentido revolucionário. Porque a paz, em um mundo injusto, desigual e cruel, é uma verdadeira revolução. Que cada um, que todos troquem o enfrentamento pela união, pela fraternidade.

Que a África do Sul pense em Madiba como um exemplo de superação das diferenças, de busca da igualdade. Porque somos diferentes, sim, mas não somos melhores nem piores. Em direitos, somos iguais.

O exemplo de Madiba: somos todos iguais