Conforme o partido envolvido em denúncias, muda o tratamento dos jornais

Vem em momento oportuno a matéria da Folha sobre as fraudes na licitação do metrô. Porque é importante saber essas coisas antes de depositar o voto nas urnas. Ela é sóbria, sem juízos de valor. Como seria bom se as denúncias envolvendo o PT e Dilma fossem assim sérias.

O texto escancara uma fraude incontestável, que privilegiou empresas na licitação de obras do metrô. Na época, José Serra era o governador. Foi durante sua gestão que os nomes chegaram à Folha, evidenciando um direcionamento na licitação para as empresas escolhidas. O jornal citou o nome de Serra uma única vez. Imagino se em seu lugar, um ex-governador concorrendo à Presidência da República, estivesse um petista. Estaria no título, sem dúvida, e palavras fortes de crítica e denúncia espalhar-se-iam ao longo do texto.

Faltou a Folha dizer como conseguiu a informação, mas o jornal foi esperto ao registrar em cartório, em abril, o resultado da licitação, que saiu em outubro (na quarta-feira passada). Acertou todas as empresas das linhas 2 à 8 do metrô.

De resto, fica a questão: por que fiquei sabendo dessa matéria quase que por acaso? Tenho a impressão de que se trata de um caso grave de beneficiamento que envolve José Serra, um candidato à Presidência, diretamente. Deveria estar sendo gritado aos quatro ventos.

Por que Globo e cia. ainda não repercutiram? Por que a Folha deu mais destaque na capa ao depoimento de Erenice do que às tramoias de Serra? O beneficiamento no metrô é novidade (jornalisticamente a novidade do fato é um dos critérios para definir a sua relevância e o seu espaço), é um furo (os jornais sempre querem dar as notícias em primeira mão e vangloriam-se quando conseguem) e é mais importante, por se tratar do candidato à Presidência e não de um subordinado, por se tratar de uma denúncia nova e não do andamento de uma denúncia antiga (quase que requentada). Mas o que esperar do jornal que fez isso e que agora sequer enfatiza que o candidato está envolvido?

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Conforme o partido envolvido em denúncias, muda o tratamento dos jornais

A fajuta democracia americana

Não, não acho certo que oposição tenha mais votos e situação fique com mais vagas, como aconteceu na Venezuela. Mas isso me lembra outro caso bem pior, que não foi tratado com tanto assombro por aqui. Mas antes de chegar lá, quero comentar algo que li na Zero Hora semana passada. Não encontro o link agora, mas era uma nota pequena, nem lembro ao certo a notícia, mas o repórter dizia alguma coisa como “parece estranho alguém dizer que a democracia brasileira é mais perfeita que a americana, reconhecida sempre como um exemplo”. As palavras eram outras, mas o conteúdo ia no sentido de dizer que a democracia dos ianques era tida como a ideal.

Pois é essa democracia que permite, por exemplo, que um presidente seja mais votado e outro, um Bush, assuma o posto. E, em se tratando de presidente da República, a coisa é bem mais grave. Até porque a Venezuela adota um sistema de representação distrital, escolhe parlamentares para representarem regiões. O presidente não representa regiões, mas o conjunto do povo. Ou seja, devia ser aprovado pela maioria absoluta.

Como no Brasil, aliás. Nesse Brasil que a imprensa vem acusando de pouco democrático. Que tem o sistema eleitoral mais avançado do mundo, que quase elimina fraudes. Que tem problemas, sim, e muitos. Que poderia contar com formas mais diretas de democracia, como a participativa, que tem no Orçamento Participativo criado pelo PT na Prefeitura de Porto Alegre seu exemplo máximo. Mas, considerando democracias representativas, é um exemplo para os americanos.

Estados Unidos, sistema político baseado no bipartidarismo. No Brasil, reclamam que o PT vai para o terceiro mandato, que vai chegar a 12 anos de poder. Nos Estados Unidos, foram séculos de alternância entre dois grupos políticos hegemônicos. E que continuam tendo o mesmo poder que sempre tiveram. Um um pouco mais conservador que o outro, mas nenhum efetivamente progressista (no sentido original da palavra, não o surrupiado pelo PP). Naquele 2000 em que Bush foi alçado ao cargo máximo do poder americano, o governo da Flórida estava nas mãos de seu irmão. Por coincidência, as regras das eleições foram alteradas pouco antes do pleito, as cédulas lá foram “mal planejadas” e dificultaram as eleições, atrasando a contagem dos votos e oportunizando fraudes. E, mesmo depois da eleição de Bush, continua sendo tratado como exemplo de democracia. Não é.

Tida como exemplo, torna-se ainda mais fajuta que as outras.

Ou seja, se vamos falar de democracia, se vamos questionar Venezuela, até mesmo Irã – não defendo o sistema político iraniano, por favor -, vamos questionar Estados Unidos. Vamos chamar na chincha a “democracia perfeita”.

Com telhado de vidro, não se atira pedra nos outros.

A fajuta democracia americana

As maracutaias no governo gaúcho e o silêncio da imprensa

Walney Fehlberg foi demitido hoje. Não lembra quem é? Ah, claro, ninguém mais fala nele. O ex-diretor de Marketing do Banrisul, o banco dos gaúchos, foi preso semana passada, junto com dois diretores de agências de publicidade, com o equivalente a R$ 3,4 milhões em dólares, euros, libras e reais por não conseguirem explicar sua origem. Já foram todos soltos, mas a fraude, que diz-se chegar a R$ 10 milhões em superfaturamento, ainda não foi explicada.

O Ministério Público Estadual e o Ministério Público de Contas podem até estar dando prosseguimento à Operação Mercari, mas a imprensa, à exceção louvável do Sul 21, parece ter esquecido que o superfaturamento ficou no ar e que ainda precisamos de esclarecimentos.

A fraude aconteceu na gestão de Fernando Lemos, do PMDB, afilhado político de Pedro Simon e processado por gestão temerária do banco.

Quem assumiu o lugar de Fehlberg foi Ildo Musskopf, ex-gerente da Agência Parcão.

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Enquanto isso, descobre-se que jornalistas, principalmente do Grupo RBS, tinham 10 senhas para acessar informações sigilosas de forma privilegiada. A imprensa faz silêncio. Assim como se omite de insistir, perguntar, investigar, questionar, desconfiar de quem é o mandante do esquema de arapongagem promovido pelo governo do estado do Rio Grande do Sul. O sargento César Rodrigues de Carvalho foi solto hoje, mas ficou preso vários dias. Sozinho. Mas parece que ninguém quer ver que a senha usada por ele para chegar às informações descobertas pelo promotor Amílcar Macedo era de uso exclusivo de altos escalões. Quem foi o alto escalão que a passou para o sargento?

O sargento ganhou a liberdade mesmo sem nada no quadro mudar. Talvez porque, se ficasse preso, não ganharia nada em manter a boca fechada. Era preciso dar uma contrapartida para que o bode expiatório do governo gaúcho continue sendo praticamente o único culpado (o tenente coronel Frederico Bretschneider Filho também foi apontado no esquema e afastado do cargo), sem delatar os mandantes, os interessados nas informações obtidas.

As maracutaias no governo gaúcho e o silêncio da imprensa

Fraude no Banrisul foi no governo tucano, mas sob gestão do PMDB

Vale lembrar que a fraude descoberta no Banrisul, envolvendo o ex-diretor de Marketing Walney Fehlberg e o desvio de R$ 10 milhões, aconteceu durante o governo Yeda Crusius (PSDB), mas sob gestão de Fernando Lemos, que à época era presidente do banco e é do PMDB. Porque, embora José Fogaça finja desconhecer a ligação, o PMDB foi da base de sustentação do governo Yeda. Teve cargos no governo.

Agora, Yeda e Fogaça são adversários na disputa pelo Piratini, mas seus partidos integraram, sim, o mesmo governo. Nenhum dos dois gosta de lembrar, mas não podemos brigar com os fatos.

E os fatos nos dizem mais. Dizem, por exemplo, que o ex-presidente do banco Fernando Lemos hoje é juiz do Tribunal de Justiça Militar do Estado, apesar de estar sendo processado por “gestão temerária” da instituição que presidia. Lembram-se? Ele comandou a venda de ações do Banrisul, foi denunciado pelo vice-governador, Paulo Feijó, por fraude em sua administração, mas continuou à frente do banco, costurando a aliança entre PSDB e PMDB.

A indicação de Lemos ao Tribunal de Justiça foi um prêmio dado por Yeda ao afilhado político de Pedro Simon (o mesmo que agora tenta tirar casquinha e declara voto a Dilma). Afinal, manter as boas relações com o PMDB lhe concedeu importantes benefícios, como o fim do processo de impeachment contra ela e o abafamento dos escândalos de corrupção em seu governo. Agora o ex-presidente do banco e atual juiz militar tem garantida uma aposentadoria bem rechonchuda e para todo o sempre.

Fraude no Banrisul foi no governo tucano, mas sob gestão do PMDB

A grana do Banrisul

O assunto já foi bem abordado pela imprensa. Enquanto não houver mais informações divulgadas, não há muito o que dizer. Só lembrar que, por mais que se diga que a fraude no Banrisul envolve apenas cargos técnicos, a decisão de manter um funcionário que foi preso tentando sair do Brasil com US$ 20 mil é política. Ainda mais em um cargo de diretoria.

De qualquer forma, era preciso deixar registradas as imagens do dinheiro apreendido, puxadas do Blog da Rosane de Oliveira. É o equivalente a mais de R$ 3 milhões.

A grana do Banrisul