Porto Alegre precisa de mais espaços públicos de convivência

Soube essa semana da intenção da Prefeitura de transformar parte da praça em frente ao Gasômetro em estacionamento. Descobri que faz parte da obra de revitalização prevista para o local. Foi assim que fiquei sabendo que fazer estacionamento significa revitalizar, para a administração municipal (a foto aí do lado é de divulgação da tal revitalização, sem mostrar a parte onde vão ficar os carros).

Eu fico realmente triste com esse tipo de notícia, porque ela nos faz constatar na prática a inversão de valores que já se dá em tantas questões do nosso cotidiano coletivo. Coletivo, mas não comunitário. E é justamente essa a questão.

Uma vez conversei com o geólogo Rualdo Menegat (infelizmente não encontrei a entrevista, que foi publicada no Sul21 em junho de 2010, mas vou achar o arquivo e republicar aqui nos próximos dias) e ele me falou muito da importância de retomar a vida em comunidade, de a gente reaprender a conviver, de sentar na calçada, conversar com o vizinho, fazer composteira no condomínio. Um monte de coisas bacanas, que não são nada utópicas e contribuiriam enormemente pra gente enxergar um pouco mais o outro e ter uma vida mais leve, menos egoísta. Fazer da experiência de viver um negócio bom, prazeroso.

E isso significa andar mais a pé, deixar o carro um pouco de lado, usar as praças, apropriar-se coletivamente dos espaços públicos. Usá-los, usufrui-los.

O que a Prefeitura faz é exatamente o contrário. Ela fecha espaços de convivência e aumenta a área destinada aos carros. Quanto mais automóveis nas ruas, menos gente a pé, menos prazer de andar a pé. Menos vida nos espaços públicos. Foi assim que o largo Glênio Peres virou um estacionamento depois das 18h e que várias ruas do Centro antes destinadas a pedestres viraram trafegáveis (aumentando o caos para quem circula por ali).

O que falta em Porto Alegre são justamente espaços de convivência decentes, pra retomar uma vida mais comunitária, mais saudável, em que as pessoas conversem, se conheçam. Do jeito que vai, cada dia mais a gente vai ficar dentro dos nossos micro-espaços, isolados. Saio do meu apartamento, entro no meu carro, vou até o shopping (onde eu não converso, porque não vou lá pra passear, vou pra comprar), volto pro meu carro e me fecho de novo no meu apartamento. É óbvio que essa é uma caricatura exagerada, mas parem pra pensar em quanto a gente tinha de convivência antes e quanto a gente tem agora. Minha vó conhecia os vizinhos da rua inteira!

(Não odeio carros, viu. Acho que eles são super úteis, mas que não servem pra ir comprar pão na esquina e que não são legais quando a regra é ter uma pessoa dentro de cada carro pra ir de um lugar a outro no dia-a-dia. Há exceções, óbvio, mas falo em linhas gerais.)

Mas voltando pra questão da cidade, a gente precisa priorizar alternativas de convivência. E isso passa por investir em praças e parques, iluminação pública (voltada para as calçadas), bicicletários e ciclovias, cultura popular etc.

Em vez de preservar, promover espaços de convivência, cuidar do que é público, o que vem acontecendo é que a Prefeitura deixa degradar os nossos espaços para vir com o argumento de que como está não dá pra ficar, daí empurra qualquer solução pra cima do povo. Foi o que tentaram fazer no Pontal do Estaleiro, por exemplo.

É uma política invertida, toda errada, que privilegia no curto prazo uma parcela pequena da população. Mas que no final, na verdade, acaba prejudicando todo o mundo, na medida que essa visão de sociedade excludente não faz bem pra ninguém.

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Porto Alegre precisa de mais espaços públicos de convivência

Movimento defende instituição do Parque do Gasômetro

Do site da Câmara Municipa de Porto Alegre:

Licia Peres lembrou que chaminé do Gasômetro identifica Porto Alegre

A presidente do Movimento Viva Gasômetro, Jacqueline Sanchotene, defendeu nesta terça-feira (26/4) à tarde, durante reunião da Comisssão de Urbanização, Transporte e Habitação (Cuthab) da Câmara Municipal de Porto Alegre, a criação do Corredor Parque do Gasômetro, mediante lei específica. A instituição do Corredor foi aprovada na recente revisão do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano Ambiental (PDDUA) da Capital, que prevê a sua implantação, mediante lei específica, 18 meses após a vigência do novo PDDUA.

De acordo com Jacqueline Sanchotene, o Viva Gasômetro é um movimento apartidário, e a luta pela criação do Corredor Parque do Gasômetro teve seu início em dezembro de 2006, nas reuniões de discussão do Fórum de Planejamento Região Centro sobre a revisão do PDDUA. A proposta prevê que o Corredor abranja uma área que se estenda desde a Rua Brigadeiro Sampaio até a Avenida Loureiro da Silva.

Cinturão Verde

A socióloga Licia Peres, também integrante do Movimento, disse que o Parque significará a criação de um cinturão verde integrando vários espaços culturais localizadas na área central da cidade. “O espaço será uma grande conquista para Porto Alegre. Toda a cidade tem a sua identidade, e a chaminé da Usina do Gasômetro identifica Porto Alegre”, afirmou. Ela ressaltou a importância da exploração dos espaços públicos de cultura e lazer da cidade como forma de tornar o Centro Histórico acessível a pessoas de todo o Estado.

Presente à reunião, o secretário municipal de Planejamento, Márcio Bins Ely, observou que o Executivo tem ainda prazo de doze meses para a implantação do Corredor Parque do Gasômetro, uma vez que o PDDUA entrou em vigência há cerca de seis meses. Ele manifestou seu apoio à proposta e disse que, neste período, a prefeitura deverá ouvir os porto-alegrenses a fim de recolher sugestões para a elaboração de um projeto de lei do Executivo que estabeleça a criação do Corredor. Elaborado o projeto, explicou Bins Ely, ele deverá ser remetido à Câmara Municipal para discussão e votação.

O presidente da Cuthab, vereador Pedro Ruas (PSOL), manifestou o apoio da Comissão ao movimento dos moradores do Centro e garantiu que a Câmara fiscalizará o cumprimento dos prazos estabelecidos.

Revitalização

Já o engenheiro Rogério Tubino Dal Molin, integrante do Fórum de Planejamento Região Centro, lembrou que muitos imóveis estão abandonados nessa área, pois não possuem viabilidade econômica. “Hoje, o projeto do Cais Mauá reacendeu o interesse pelo Centro Histórico. O Corredor Parque do Gasômetro é uma proposta para articular espaços públicos de cultura e lazer na região, a fim de que eles sejam ocupados pela população. Ele irá coroar a revitalização do Centro, pela movimentação de pessoas naquela área”, disse Dal Molin.

Vice-presidente da Cuthab, o vereador Engenheiro Comassetto (PT) observou que a Usina do Gasômetro é “a porta de entrada para a zona sul da cidade”. Ele defendeu que a Câmara crie um grupo de trabalho para agilizar a implementação do Parque do Gasômetro. Em sua opinião, o governo do Estado precisa estar integrado na discussão do projeto. Comassetto ainda propos que a Cuthab elabore um documento, a ser encaminhado ao governo do Estado, e que uma comitiva abra uma agenda com o governo federal para discutir esse assunto.

Também presentes à reunião, Ariane Leitão, da Assessoria de Movimentos Sociais da Casa Civil, e Rodrigo Maroni, da Secretaria Estadual de Turismo, manifestaram o apoio do governo do Estado à proposta. Ainda se manifestaram favoravelmente à ideia os vereadores Elias Vidal (PPS), Nilo Santos (PTB), Alceu Brasinha (PTB) e Paulinho Rubem Berta (PPS).

Carlos Scomazzon (reg. prof. 7400)

Foto: Mariana Fontoura

Movimento defende instituição do Parque do Gasômetro