Globo assume – naquelas – o apoio ao golpe de 1964. E não pede desculpa!

Eis que o Globo faz um mea culpa e se diz arrependido de ter apoiado o golpe militar no Brasil. Peraí, é isso mesmo? Hmm, na verdade, não exatamente.

O editorial em que o jornal carioca assume que quase 50 anos atrás fez outro editorial comemorando o 1º de abril de 1964 como o ressurgimento da democracia diz sim que foi um erro, mas não chega a dizer que não deveria ter feito o que fez ou que hoje não faria o mesmo.

Ok, assumir um erro, antes tarde do que nunca, é válido, assim como responder ao clamor das ruas. Mas só é válido mesmo se é legítimo. E desconfio que não seja o caso.

Primeiro, o texto cita outros jornais e “parcela importante da população” como que para dizer que não estava sozinho e diminuir sua culpa. Manhê, o Joãozinho jogou bola dentro de casa, daí eu joguei também e quebrei o vaso. A culpa é tão do Joãozinho quanto minha. Ou seja, bora apontar o dedo pros outros pra tentar aliviar a consciência, diminuir um erro que é nosso, só nosso. Ainda mais quando já somos bem grandinhos e podemos – devemos – tomar decisões sozinhos.

Depois, criticam João Goulart, suspeito ainda de dar um golpe, o que justificaria, então, outro golpe defensivo. Hein? Boa estratégia, defender um golpe pra evitar outro golpe que seria dado pelo presidente democraticamente eleito, que, por sua vez, foi antidemocrático ao retomar o presidencialismo através de um, vejam bem, plebiscito, com votos do povo. Muito coerente. Tem um parágrafo ali tão torto, tão contraditório e tão cheio de ódio que chega a dar preguiça. Mas que comprova que as intenções do editorial não são tão verdadeiras assim.

materia-o-globo-de-07-10-1984Aí querem nos fazer crer que passaram a ditadura inteira tentando convencer os militares a acabar com ela. Aham. Pra isso, citam um editorial de Roberto Marinho em 1984. Elogiando Geisel, um presidente-ditador, ainda que tenha sido ele o responsável pela abertura inevitável. “Destacava também os avanços econômicos obtidos naqueles vinte anos, mas, ao justificar sua adesão aos militares em 1964, deixava clara a sua crença de que a intervenção fora imprescindível para a manutenção da democracia”. Ou seja, reconhecia totalmente o erro, só que não. E ainda o justificava.

“Em todas as encruzilhadas institucionais por que passou o país no período em que esteve à frente do jornal, Roberto Marinho sempre esteve ao lado da legalidade.” E eu achando que era um texto pra reconhecer que tinha acontecido exatamente o contrário e pra pedir desculpa a todos que foram expulsos do país, que foram presos, torturados, mortos. Já no fim, ainda diz: “Os homens e as instituições que viveram 1964 são, há muito, História, e devem ser entendidos nessa perspectiva”. Não, não são. Muitos deles estão vivos e ainda buscam, no mínimo, um pedido de desculpa, já que a justiça parece tão distante. Esse pedido não veio. E, na boa, sem ele esse texto todo não vale nada.

É bonito dizer que foi um erro, mas “pareceu aos que dirigiam o jornal e viveram aquele momento a atitude certa, visando ao bem do país.” Em determinado momento, o editorial diz que é preciso compreender os atos e os posicionamentos dentro do seu contexto. De fato, por justiça, é preciso entender o momento histórico. Nesse caso, é hipócrita não dizer que as Organizações Globo lucraram imensamente com a a ditadura. Não seriam o que são hoje sem ela. E isso, olha só, não está no texto.

Ainda que fosse um mea culpa de coração, não seria suficiente. A sociedade continua pagando pelos posicionamentos das grandes organizações da mídia. Ainda espero um editorial da Globo assumindo a criminalização dos movimentos sociais, o apoio na eleição do Collor, a perspectiva neoliberal por que rege seu noticiário, a tentativa de derrubar governos democraticamente eleitos porque são de esquerda e tantas outras coisas.

De qualquer forma, já é possível dizer com certeza que o período de 64 a 85 foi, na verdade, uma ditadura civil-militar, com apoio de parcelas poderosas da sociedade civil, como grandes grupos de imprensa.

Globo assume – naquelas – o apoio ao golpe de 1964. E não pede desculpa!

Os jornalistas, esses semideuses

Ontem, Pedro Bial, aquele do Big Brother, lançou um programa destinado, basicamente, à defesa do preconceito. Despolitização é a palavra que melhor se encaixa.

E o fez consciente e descaradamente. Primeiro, promoveu a defesa do músico Alexandre Pires, acusado de promover o sexismo, o machismo, o preconceito racial, com o clipe da música Kong. Segundo a Ouvidoria Nacional da Igualdade Racial, “o vídeo usa clichês e estereótipos contra a população negra” e “reforça estereótipos equivocados das mulheres como símbolo sexual”.

E o apresentador do Big Brother o fez usando – ele e seus convidados, escolhidos intencionalmente pela sua produção – do velho argumento falacioso e manipulador da censura, da ditadura disfarçada.

Como se não bastasse defender o vídeo que fala de negros e é ilustrado com macacos, ainda reforçou o discurso preconceituoso ao levar ao palco do seu programa pessoas vestidas de gorila e mulheres “popozudas”, que apresentam uma visão sexista do papel da mulher na sociedade, vista como objeto. E ó, eu não faço parte de nenhum movimento feminista, mas como mulher me sinto ofendida com esse uso da imagem, com a consolidação, o reforço de algo que há tanta luta para romper, que é estereotipar a mulher, mostrá-la como um ser que não pensa. Além do apelo sexual da figura da mulher, é um incentivo ao tratamento superficial das pessoas, reduzidas à aparência.

Da mesma forma que a mídia não pode condenar antecipadamente acusados ainda não julgados de algum crime, também não cabe a ela inocentá-los, principalmente quando se trata de um suposto crime contra a coletividade. Qual era o propósito de absolver Alexandre Pires em rede nacional? Para que comprar essa história?

Isso sem falar que o assunto está velho, o caso já foi até arquivado. E o irônico é que Bial começou o programa criticando assédio sexual e assédio moral, que esse tipo de apelo sexual e rebaixadamento da mulher à categoria de objeto incentivam absurdamente.

A linha do programa já ficava clara pela escolha dos participantes. Destaco o reacionarissimo Luís Felipe Pondé, tratado a pão de ló. Apesar de estar presente também Antônio Carlos Queiroz, a diferença de tratamento foi evidente. Queiroz é autor da cartilha “Politicamente correto & Direitos”, criada pelo governo federal como uma tentativa de combater preconceitos e criticada pelo apresentador, o mesmo que diz que críticas não servem pra nada, que nem ouve as direcionadas a ele.

“A cartilha foi dedicada a professores, policiais etc. etc. (aqui entrou uma lista de profissões que eu não vou saber repetir, todas passíveis de receber orientação externa) e… tchan tchan tchan, jornalistas (os intocáveis). E aí você mexe com a liberdade de expressão.” Fora o que está dentro dos parênteses e os et ceteras, foi bem assim que o Bial falou, com o tom dramático que traduz em absurdo jornalistas sofrerem qualquer tipo de influência, inclusive a de uma orientação.

Opa, jornalista, como formador de opinião, não pode receber orientações sobre preconceito, para evitar na sua prática diária que forme opiniões discriminatórias contribuindo para que as diferenças de gênero, classe, cor etc. nunca tenham fim. É a velha história do jornalista como dono da verdade. A gente não erra, não mente, não manipula, não tem ideologia (não pode!), então não tem por que ter nosso trabalho observado. Jornalista tem direito a fazer o que quiser, mesmo que isso ofenda a dignidade de outras pessoas. Afinal, somos semideuses, perfeitos. Vai ver é por isso que o diploma é desnecessário. Afinal, a faculdade orienta, e jornalistas estão acima desse tipo de coisa.

Não vou falar em decepção com esse programa porque né, 12 anos de BBB não deixam criar nenhuma expectativa. Mas um mínimo de bom senso vinha bem, viu.

Isso tudo sem contar o nome do programa, que seria bacaninha uns 15 anos atrás, quando a gíria era moderninha.

Foto: TV GLOBO / Renato Rocha Miranda

Os jornalistas, esses semideuses

A cobertura da primeira cerimônia da Copa

O primeiro evento oficial da Copa do Mundo de 2014 no Brasil aconteceu ontem, com o sorteio dos times para as eliminatórias. A Zero Hora.com destacou as atrações que comandariam o megashow, a pirotecnia acompanhada de um forte esquema de segurança, o grande “feito” de Ronaldo ao deixar Espanha e França no mesmo grupo e até a fala da presidenta Dilma Rousseff durante a cerimônia, claro que ressaltando como é bom receber um evento desse porte. Inclusive transmitiu ao vivo o fuzuê no site. Tudo extremamente positivo. Encontrei quatro matérias neste sábado, duas antes do evento e duas depois. Não há absolutamente nenhuma menção ao protesto contra o excesso de poder de Ricardo Teixeira e suas arbitrariedades à frente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

A manifestação aconteceu durante o sorteio, e foi amplamente divulgada nas redes sociais, sendo inclusive o assunto mais comentado do Twitter durante um bom tempo. Mas Zero Hora optou pelo show e não pelo interesse social.

Já o Jornal Sul21, por exemplo, focou apenas nas manifestações. O sorteio em si teria como única consequência, a rigor, a definição da grade das eliminatórias. A divulgação desse fato é simples, basta dar os dados. Interessa muito mais o que está por trás deles e como eles vão chegar às pessoas. A diferença de abordagem, como fica muito claro neste caso, demonstra a diferença na forma de se fazer e de se pensar o jornalismo. O óbvio e raso show ou as consequências de cada fato para a vida dos cidadãos e cidadãs?

O Luiz Carlos Azenha informa no Viomundo que pela TV a cobertura não foi muito diferente da feita pela Zero Hora. Segundo ele, o sorteio para as eliminatórias da Copa foi apresentado em uma “versão higienizada do Brasil para consumo da ‘família FIFA’”.

A Copa, nos grandes meios de comunicação tradicionais, é só futebol e espetáculo. Embora o argumento da competição seja futebol, ela envolve muito dinheiro e grandes implicações sociais, estes sim verdadeiramente relevantes para a vida das pessoas. Se futebol é importante para o brasileiro – e não nego que é –, ele ainda é lazer. Já a casa de tanta gente que está sendo removida é questão básica de sobrevivência e qualidade de vida. E a concentração de poder em torno de uma figura extremamente polêmica e antidemocrática como Ricardo Teixeira implica em decisões verticais sobre a organização de um evento que, sabemos, não é atividade exclusivamente privada, como uma empresa qualquer. A Copa do Mundo envolve dinheiro público e obras que vão mudar a vida das pessoas para melhor ou para pior. Não é possível que uma única e superpoderosa pessoa tenha o controle de como isso vai ser feito. E que ainda conte com o silêncio complacente da grande mídia em função de negociatas escusas.

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Foto: Adilson Filho, no Viomundo

A cobertura da primeira cerimônia da Copa

Revista Galileu: uma irresponsável cobertura de meio ambiente

Irresponsável. É a palavra que melhor define a edição da revista Galileu de março, com a matéria de capa “Livre-se dos mitos verdes”. E essa crítica não é feita com base em nenhum ambientalismo xiita ou intransigente. É apenas uma breve análise das contradições que aparecem dentro da própria reportagem. Reportagem, aliás, taxativa demais para quem pretende desbancar mitos, ou seja, relativizar a questão. Não se relativiza algo colocando uma certeza absoluta no lugar de outra. Mas já na capa ela diz: “*Alimentos locais; *Sacolas de papel; *Carros elétricos; *Produtos recicláveis: NADA DISSO VAI SALVAR O PLANETA!”.

A revista peca exatamente no mesmo ponto que motivou sua pauta. Considera apenas um aspecto da questão e não consegue avaliar os “mitos” de uma perspectiva mais global e abrangente. Isso sem contar que usa como uma espécie de narrador-personagem o humorista Danilo Gentili, que já responde por demonstrações de preconceito tanto no CQC quanto no Twitter, além da falta de respeito aos entrevistados e a qualquer um que discorde de seu ponto de vista.

Vamos por partes. Vou tentar focar apenas nos aspectos principais, os mais gritantemente restritos, para não tomar muito o teu tempo e a tua paciência, caro leitor. Por isso, logo mais vou comentar os itens numerando-os conforme feito na revista, o que nos levará a lacunas na numeração, já que não abordarei todas. A reportagem é assinada por Guilherme Rosa, com fotografia de Victor Affaro e ilustrações de Alexandre Affonso.

Linha de apoio da matéria, na página 45: “Novas pesquisas mostram que bom mesmo é comer alimentos importados, dirigir carro usado…” e continua. Assim mesmo, sem margem pra dúvida ou questionamento. Sem interpretações divergentes ou possibilidade de pesquisas com métodos diferentes. E conclui: “Isso se você realmente quer evitar que o mundo vire uma estufa”. Ou seja, a culpa é toda tua, cara pálida.

Sempre tenho medo de interpretações que avaliem apenas um ponto de vista sobre determinados temas. Geralmente, uma viseira como aquelas de cavalo lhes impede de enxergar o todo. É o que acontece em praticamente todos os mitos “desmascarados” pela reportagem, que foca apenas na emissão de CO2 como a única responsável pelos problemas ambientais e pelo aquecimento global. E mesmo assim, cai em contradição. Seguem os mitos:

1. “Coma só alimentos locais” – O texto diz que é muito mais negócio comer alimentos importados do que locais. O argumento é restrito à análise da quantidade de emissão de CO2, como se esse fosse o único aspecto a considerar. A defesa é de que a produção em grande escala produz menos gás carbônico e que o tipo de comida influencia mais que a distância do transporte, chegando ao ponto de afirmar que, se fulano come carne de boi local, ele prejudica mais o meio ambiente que o ciclano que come a fruta da estação que vem do outro lado do mundo. A comparação não é válida, porque, se o fulano gosta de carne, ele vai comer carne daqui ou da China. Vale, então avaliar qual dessas duas opções é a melhor. Isso sem contar que existem outros aspectos na questão, como o social e o econômico. Produção em larga escala geralmente utiliza menos mão-de-obra, favorece a exploração do trabalhador e prejudica a economia local. Sem falar nos próprios aspectos ambientais, como o uso de venenos, muito menor nas pequenas propriedades, que acabam produzindo um alimento mais saudável poluindo menos a terra e a água.

2. “Precisamos das conferências climáticas” – Alguém esqueceu no meio do caminho que as conferências não são atitudes para melhorar o meio ambiente, mas deveriam ser espaços onde se discutem e se decidem possíveis atitudes. O fato de não ser bem assim é outra história, mas não podemos confundir alhos com bugalhos.

3. “A energia eólica é a mais sustentável” – Como não se pode errar todas, nesse ponto a revista foi sensata. Critica as fontes de energia mais poluentes, baseadas em combustível fóssil sem cair na ingenuidade de defender a energia eólica como única fonte a ser utilizada, o que seria inviável em nossa civilização, mesmo que todos economizassem ao máximo.

4. “Proíba as sacolas plásticas” – Já aqui ela parte de uma perspectiva aparentemente sensata, ao relativizar a troca de sacolas de plástico pelas de papel, trazendo argumentos geralmente ignorados, como a produção do papel. Mas a abordagem parece esquecer todos os prejuízos do plástico, ignora o tempo de decomposição dos diferentes materiais e quase propõe liberar geral, como se o fato de outras soluções não serem absolutas fazer com que a solução inicial deixe de ser prejudicial.

5. “Recicle, recicle, recicle” – A reportagem defende que se queime grande parte do lixo, inclusive os recicláveis, como plástico e papel, como forma de reaproveitar a matéria-prima na geração de energia. Mais uma vez, a viseira atrapalha, e se esquece de falar na poluição e na liberação de gás carbônico causadas pela queima. Ou seja, funciona de forma exatamente inversa ao que defende a publicação e no ponto que ela mais enfoca, a liberação de CO2, que é muito alta com a queima que eles defendem

7. “Compre um carro elétrico” – O argumento é que o carro elétrico não compensa quando a forma de obtenção de energia utilizada no país, que servirá de combustível para o carro, for suja. É evidente, mas isso não justifica que se deixe de cogitar a utilização desse tipo de meio de tranporte, certo? Cai em contradição quando diz que, nos países em que a energia é poluente, os resultados não foram positivos, “chegando em algumas situações a poluir mais do que o carro convencional”. Ou seja, se mesmo onde a energia é produzida de forma suja, o carro elétrico só deixa de valer a pena em algumas situações, imagina se forem feitos investimentos combinados tanto na geração de energia limpa quanto no desenvolvimento de carros elétricos! E mais, ela afirma que tais automóveis também são prejudiciais porque sua produção é poluente. Mas carros movidos a gasolina não são igualmente produzidos em fábricas, utilizando o mesmo tipo de material?

9. “O aquecimento global vai acabar com a Terra” – Essa é a melhor parte, que começa dizendo: “Nada disso, quem corre o risco de desaparecer é você”. Óbvio ululante! Parte-se do evidente pressuposto de que, quando se defendem medidas contra o aquecimento global, queremos preservar a nossa vida, nossa civilização, o que só será possível com respeito à natureza e convivência pacífica, com a consciência de que somos parte da natureza da Terra. Não imagino que alguém interprete a questão do aquecimento global como uma grande explosão que acabe com o planeta, mas ninguém quer que o ser humano deixe de existir. Aí o texto diz que não, o aquecimento global não é esse bicho papão, nós vamos só deixar de existir, mas o planeta continua. Ah tá! Teremos fome, desaparecimento de florestas, seca, tempestades, guerras, alagamentos, deslizamentos, furacões, doenças… Mas não precisamos nos preocupar, porque a crosta do planeta continuará aí. A revista trata o leitor como um retardado que não consegue fazer essa interpretação crítica. Aí está um bom resumo da falta de perspectiva e de abrangência da reportagem.

Revista Galileu: uma irresponsável cobertura de meio ambiente

Novela da Globo não conhece meio termo

Qualquer autor de obra de ficção tem o poder de transformar a receptividade para determinados temas ou abordagens, dependendo dos personagens da boca dos quais coloca a informação – e como coloca. Quanto maior a audiência e menor a profundidade, maior é a influência sobre o senso comum. Novelas têm especial apelo para isso. O que dizer, então, de uma novela das nove da Globo?

Fazia tempo que eu não assistia novela. Decidi agora acompanhar essa pra ter um momento de ócio nada criativo, em que eu pudesse descansar sem pensar em nada. Aviso, não está funcionando. Já fui bem noveleira, mas agora a reação que as novelas provocam em mim é de incredulidade e uma certa raiva, por conta dos valores que tentam passar para a grande maioria dos brasileiros.

E não se trata só de política. Um tema bastante recorrente, por exemplo, é o sexo. E nessa “Insensato Coração” ele é particularmente maltratado. Há uma situação em que ele aparece com maior intensidade, em uma época da vida em que é mais tabu, mais difícil de lidar, a adolescência, o começo da vida adulta.

Uma menina de 18 anos decide transar com um rapaz simplesmente para “perder a virgindade”. Quando vi a situação que se configurava, imaginei que viria uma discussão saudável sobre a pressão que meninas e meninos sofrem para beijar, quando ainda crianças, e para transar, quando chegam mais próximo do fim do colégio – ou até um tanto antes. Ser virgem muitas vezes é visto como aberração, e todo o mundo está careca de saber que adolescente quer mesmo é ser aceito. Logo, valeria um debate sobre a necessidade de o jovem fazer o que os amigos querem que ele faça, e não o que manda sua vontade.

Pff, doce ilusão. O autor colocou do outro lado – porque em novela tudo só tem dois lados, sem meio-termos – a mãe da moça, que, por acaso, é a malvada da novela. Ou seja, tudo que ela porventura possa dizer tem grandes chances de vir a ser interpretado como errado pelo telespectador mais incauto.

Imediatamente, ela repudia a atitude da filha, acusando-a de ter entregado a um qualquer seu maior “trunfo”. Ridículo, seria um completo desserviço à sociedade se a argumentação fosse tida como séria, podendo dificultar ainda mais a relação de jovens com seu corpo e sua cabeça. A boa notícia é que ela é malvada, então tende a desmistificar a sacralização do sexo.

O grande problema está do outro lado. Lembrando que só há dois lados, como falei. A menina vê a relação sexual como um ritual de rompimento de hímen. Algo como escovar os dentes, sem graça e quase sem importância. A única coisa que a atrai é a curiosidade, satisfeita de forma fria e distante.

As discussões entre as duas personagens são a parte mais surreal da história. A mãe grita de um lado que a menina entregou seu maior trunfo, enquanto a garota rebate que apenas rompeu seu hímen.

O que o autor faz é criar duas situações possíveis para a discussão sobre sexo. Ou sacraliza ou banaliza. Nenhuma das duas favorece o debate franco e saudável, a tratar o sexo como algo natural e gostoso, que faz bem, mas deve ser feito com vontade, sem precipitação. Não por uma questão moral da sociedade, de preservação da virgindade, algo que não faz muito sentido. Mas por respeito ao próprio corpo e aos sentimentos de todos os envolvidos. Especialmente o seu, de forma ainda mais profunda e relevante com adolescentes.

Novela da Globo não conhece meio termo

O preconceito está na TV

A Globo até é mais profissional que a ainda e sempre provinciana RBS e não usar o mesmo palavreado, mas o conteúdo ideológico de mãe e filha é rigorosamente o mesmo.

Quando Luiz Carlos Prates dividiu no ar as pessoas em classes e decidiu que uma pode e a outra não pode – naquele infeliz comentário sobre os pobres e os carros -, não fez diferente do Jornal da Globo de ontem (disponível na íntegra para assinantes). Ambos representam o pensamento da elite preconceituosa e conservadora.

Christiane Pelajo chegou a mudar o tom de voz ao fazer a escalada do jornal – aquele início em que o apresentador lê os destaques do dia. Quando falou no aumento da venda de material de construção, o nojo transparecia no comentário de cunho pejorativo: “Brasil, o país do puxadinho”. Isso porque as classes que mais compraram material de construção foram as que antes não tinham acesso a ele, as classes C, D… É o pequeno consumidor, o que faz “puxadinho”.

Os do nível de Pelajo constroem, mas pobre faz “puxadinho”. As classes A e B fazem reforma, nunca aumentam a laje. A diferença na expressão utilizada demonstra o preconceito. Por que usar palavras diferentes para dizer a mesma coisa?

Qualquer melhoria na vida das classes “inferiores” é tratada com desprezo, como se elas estivessem tomando conta de algo que não lhes pertence.

A imprensa brasileira, neste caso representada pelo Jornal da Globo, tenta a todo custo manter as diferenças de classe, o status. Por isso o ódio do governo Lula, que subtraiu essa diferença, além de ele próprio ser um “pobre” de origem. Afinal, para a mídia, pobre não é condição financeira, é característica intrínseca, que por si só desmerece o cidadão, taxando-o.

Como pode depois querer condenar o preconceito da sociedade, tão exacerbado na última campanha eleitoral, se é ela a principal incentivadora?

O preconceito está na TV

A Globo hipócrita

A campanha de final de ano de 2010 da Globo reforça uns quantos estereótipos. É uma série de vinhetas de 30 segundos com artistas e jornalistas da emissora entregando presentes na casa de pessoas que escreveram cartas de Natal com seus pedidos.

Incentiva o imaginário popular de que basta acreditar muito que os sonhos se realizam, sem esforço, como se fosse mágica. Tudo muito fácil. “Realizar sonhos é mais simples do que você imagina”, dizem as vinhetas.

Segue a visão de que o povo precisa de alguém que consiga as coisas para ele. Dois equívocos são reforçados: primeiro, o de que não é capaz. Segundo e mais grave, o de que o que o povo precisa é de caridade e não de políticas públicas de redução das desigualdades.

Essa imagem afasta a população das decisões políticas, porque incentiva a ideia de que não vale lutar por distribuição de renda e justiça, porque as soluções parecem simples e rápidas. Fica difícil compreender a necessidade de planejamento e políticas de transformação social para mudar a realidade de todos, não de alguns escolhidos. Se a Globo pode realizar sonhos, decerto o governo não realiza porque não quer. Simplifica um problema bastante complexo, essa tal desigualdade social.

Tudo isso é feito com o objetivo principal de fortalecer a ideia da Globo boazinha, que esconde os verdadeiros e representativos atos da emissora, que surgiu para referendar a ditadura militar e ajudou a eleger governos corruptos e perpetuadores de desigualdade. A Globo hipócrita.

A Globo hipócrita