Como a imprensa brasileira retrata Ollanta Humala

É possível reparar uma tendência clara na forma de noticiar as eleições peruanas da nossa imprensa tradicional. Foco no exemplo da GloboNews, pela quantidade de matérias, mas o discurso é parecido em todos os jornais.

Observa a construção do discurso. Todo encadeado para fazer crer que Ollanta Humala é um esquerdista radical, aliado daquele que a Globo já faz há tempos seus espectadores acreditarem ser um ditador bandido – o presidente da Venezuela, Hugo Chávez –, avesso ao diálogo e, como se não bastasse, contraditório. Quer dizer, quando Humala faz o discurso mais radical, ele está errado. Quando a conversa é mais amena, ele está igualmente errado. Assim se dá a tentativa de construção do pensamento sobre a América Latina na imprensa tradicional brasileira.

Repara aqui que Fujimori é ex-presidente, não ditador. Diferente do tratamento de governantes de outros países da região, que, ao contrário de Fujimori, foram eleitos pelo voto.

O discurso do risco para os empresários não lembra nada? Aquele medo criado artificialmente em 2002, na campanha eleitoral brasileira que levou Lula à Presidência, repete-se agora no Peru. E é reforçado pela mesma mídia brasileira que levou a cabo aquela espécie de terrorismo nove anos atrás. Não é que não tenha aprendido. É que não convém aprender.

“Alguns eleitores temem que a vitória do candidato nacionalista represente mudanças no modelo econômico que está dando certo”, diz um dos vídeos da GloboNews. Estranha que seja mais enfatizado o medo pela eleição de Humala do que pela de Keiko Fujimori, filha do ex-ditador que afundou o Peru. Causa estranheza também o fato de as matérias se referirem ao radicalismo de Humala, para a esquerda, mas não mencionarem o radicalismo de Keiko, à direita, como se pode ver aqui. Isso permanece até na notícia da vitória de Humala.

Na Zero Hora, jornal impresso do grupo RBS, afiliada da Rede Globo, à qual pertence a GloboNews, o tratamento é até mais gritantemente pejorativo, como denota o termo “esquerdista”, que aparece no título, em referência ao novo presidente peruano (disponível aqui para assinantes). A tentativa de desqualificar Humala segue intensa no primeiro parágrafo, que começa com “Identificado internacionalmente com o polêmico presidente da Venezuela, Hugo Chávez..” e segue no mesmo tom. A ligação com Chávez não seria negativa, se não estivesse em um jornal que cotidianamente tenta denegrir a imagem do presidente venezuelano. O resto da matéria é uma grande tentativa de mostrar como Humala não conta com apoio popular, sendo eleito por ser o “menos pior”. É a forma encontrada de tirar a legitimidade do presidente eleito pelo voto.

Por esses exemplos é possível tomar a “grande mídia” como um todo, com raras exceções. A integração latinoamericana não é prioridade no tratamento de América Latina. Os países são vistos de forma isolada, geralmente sem considerar sua plataforma política – apenas as observações mais genéricas de identificação e linhas gerais – e o continente como um todo, em sua potencialidade de desenvolvimento e crescimento.

Mais vídeos aqui, aqui e aqui.

Anúncios
Como a imprensa brasileira retrata Ollanta Humala

A visita de Obama e a imprensa

Incomodou a idolatria e a falta de critério da imprensa brasileira nesses dois dias em que o presidente dos Estados Unidos esteve no Brasil. O governo pisou feio na bola ao deixar seus ministros serem revistados e fazer os moradores da Cidade de Deus saírem de suas casas para a passagem de Obama, mas a parte de Dilma, pessoalmente, ela fez muito bem, e a visita pode ter terminado com saldo positivo – a ver nos desdobramentos. Mas a nossa imprensa, pra variar, não conseguiu tratar a visita de forma um pouco mais neutra. Deslizou até cair no ridículo da idolatria (a ver a chamada musicada da GloboNews – “O homem vem aí… O homem vem aí…” – e o repórter da mesma emissora chamando Obama de “o” cara, em uma clara distorção do encontro entre o presidente americano e Lula, no primeiro ano de governo de Obama).

Uma verdadeira força-tarefa. O passo a passo da visita, a ansiedade dos repórteres na especulação sobre os passeios turísticos da família e as definições de agenda, as entradas periódicas na programação, tudo exagerado, desproporcional.

Mas pior que a quantidade foi a qualidade. Obama era tratado como o dono do mundo, aquele que manda em tudo e todos e que precisamos agradar para conseguir qualquer coisa. O tom era de puxa-saquismo, o mesmo que a política externa de Fernando Henrique Cardoso adotou nos oito anos em que foi governo. De agradar o vizinho mais forte para ver se sobra uma migalha.

Ei, não funciona, viu (dizem que quem avisa amigo é).

E continuou já na cobertura da visita ao Chile, quando o Jornal Nacional de hoje (21) destacou que Obama “elevou a região, acostumada a ficar em segundo plano, à categoria de parceira preferencial dos Estados Unidos”. É um discurso duplamente colonizado. Em primeiro lugar, coloca nas mãos do presidente americano o poder de promover uma região autônoma cujos países são soberanos. Em segundo plano, mostra que essa elevação se dá pura e simplesmente pela posição na troca comercial com os americanos.

E outra, não é papel da mídia fazer esse tipo de coisa, certo? Acho tão engraçada nossa impensa. É brasileira e adora louvar nosso país em eventos esportivos, principalmente. Mas age contra a nossa soberania. Idolatra o presidente americano e critica as ações de fortalecimento da nossa autonomia. Em vez de valorizar o fato de o presidente americano ter nos concedido essa visita, em uma demonstração de prestígio, prefere inverter a ordem e apontar as vantagens para os Estados Unidos, retirando qualquer valor do Brasil.

Nesse caminho, aproveitam para usar a visita de Obama e a postura da política externa do governo Dilma para depreciar Lula, o torneiro mecânico pobre que mostrou ao mundo que não era inferior a Bush por causa do lugar onde nasceu ou da classe social a que pertencia. Um presidente que valorizou o país para o resto do mundo e nos colocou em um grau de respeitabilidade nunca antes visto.

A visita de Obama é usada para resgatar aquele preconceito de classe que já apareceu tantas vezes nos nossos jornalões – sejam de TV, rádio, internet, impresso. Um preconceito tão forte que vai desde a  intolerância com o pobre, atribuindo-lhe uma suposta incapacidade, até o menosprezo pela postura e a influência política conquistada pelo Brasil no cenário mundial. São, no fundo, frutos de um mesmo sistema de classes herdado dos tempos da colônia, quando todos sabiam o “seu lugar”, tanto na estrutura social interna quanto no cenário internacional.

A imprensa brasileira parou no tempo. Ela responde por uma camada social que igualmente não evoluiu em seu comportamento. Nossa imprensa pode ter melhorado tecnicamente, ter mudado a linguagem, mas o conteúdo do discurso continua preconceituoso e vassalo.

———

Ponto extra: o figurino

O interesse exacerbado na roupa de Dilma no dia da posse foi guardado na gaveta, e não ouvi sequer um comentário em um meio de comunicação tradicional sobre Obama ter falado sem gravata e o desprestígio que isso simboliza.

A visita de Obama e a imprensa

Imprensa e o segundo turno

Cinco comentários pós-apuração (o resto fica pra amanhã).

– O primeiro é uma pergunta: por que o Serra e os jornalistas da GloboNews estão comemorando como se o tucano tivesse ganhado as eleições – a ponto de um jornalista falar na “derrota” de Dilma?

– O segundo vai na mesma linha, na relação entre o pessoal da emissora e o segundo colocado nas eleições presidenciais. A galerinha da imprensa trata o herdeiro de FHC nitidamente como um chefe. Em uma redação, a conversa era mais ou menos um pedido de desculpas, “a gente falou que o Serra não agradeceu a Marina e não fez não sei o que mais, mas ele fez”, e Mônica Waldvogel completou: “ainda bem, né”. Sabendo que a única chance de o tucano se eleger é fazer acontecer uma combinação de elementos que envolvem herdar todos os votos da Marina, criar mais uns factoides e rezar (em todas as religiões, a católica do Serra, a evangélica da Marina…), sua puxação de saco à candidata verde é importante para que o PSDB faça uma votação expressiva. Torcendo para isso, a GloboNews comemora. Aliás, nunca vi – especialmente nos últimos meses – a Cristiana Lobo tão risonha quanto agora. Repito, parece que fizeram 80% dos votos.

– Como é possível que 440.128 pessoas votem no casal Roriz?

– Como pode o Plinio fazer pouco mais da metade dos votos obtidos pelo palhaço Tiririca?

– O segundo turno em si não me assusta. Acho uma experiência democrática válida, que propicia o debate e tenho convicção da vitória de Dilma. O problema vai ser o desgaste por que cada um de nós vai ter que passar ao enfrentar por mais quatro semanas a baixaria que vai tomar conta do país. São quatro capas da Veja e 28 da Folha, além de 24 edições do Jornal Nacional.

Imprensa e o segundo turno

Internet e a transparência das instituições democráticas

A internet como alternativa de transparência. O Cidades e Soluções desta semana, na GloboNews, levantou essa possibilidade de utilização da rede. É interessante porque ela permite uma análise da internet não só do ponto de vista da comunicação e do acesso principalmente à produção de conteúdo. Ela se torna também uma ferramenta para disponibilizar dados importantes do ponto de vista da democracia. Utiliza meios novos para fortalecer um sistema de democracia tradicional.

O que quero dizer é que a internet aparece para a comunicação como uma porta aberta para que setores da sociedade que não encontram espaço na grande mídia tenham onde se expressar, produzam seu próprio conteúdo, e fortalece a democracia a partir do momento em que mais gente ganha voz. Mas fortalece também o sistema democrático que já conhecemos há tempos, as instituições parlamentares, o Executivo. Sites como o Transparência Brasil, dirigido por Cláudio Weber Abramo – com destaque para o coordenador de projetos, o jornalista Fabiano Angélico -, apresentam dados para que o internauta consiga interpretar o cenário político brasileiro a partir da atuação de cada um de seus membros, e daí fazer sua escolha na hora de votar.

A rede aparece, então, como um espaço importante de acesso a dados, não só de produção de conteúdo. Pode-se, na internet, descobrir coisas que nos tempos de papel seriam muito complicadas, exigiram muita pesquisa e dedicação, como a ficha corrida de cada deputado. No Excelências, hospedado no Transparência Brasil, é possível descobrir processos contra o parlamentar, os projetos que apresentou, sua assiduidade etc. E o Transparência vai muito além: clipagem de notícias de jornal relevantes, acompanhamento de licitações, monitoramento do desempenho dos ministros do STF, financiamento eleitoral. Tudo está a um clique, hospedado no site.

Recomendo uma circulada pelo conteúdo do Transparência Brasil, aproveitando para louvar a iniciativa de quem o cria e o mantém. É possível, além de conhecer a atividade parlamentar de cada deputado, ter acesso a um relatório geral do nosso parlamento, por exemplo.

Mas o que me motiva a escrever a respeito é a fascinação que me causam os meios digitais. Sei que tudo isso só é possível porque temos uma rede mundial de computadores livre. E porque há pessoas interessadas em usar essas ferramentas que nos estão disponíveis para fortalecer a nossa democracia. Para quem previa que a internet continuaria a concentração de poder dos meios de comunicação, essa é uma prova de que, apesar de a audiência dos grandes portais ser absurdamente maior que a de blogs de esquerda, há espaço para iniciativas produtivas, democráticas.

Internet e a transparência das instituições democráticas

Embaixador americano dá aula de democracia a Miriam Leitão

A questão não é ter opinião sobre se o apoio do Brasil ao Irã é bom ou ruim. A questão é que não há unanimidade sobre se o Brasil de fato apoia Irã. Eu, por exemplo, enxergo no Brasil uma posição de diálogo, de conversação, de negociação. Com todos os lados, sem criminalizar nenhum. E sei que muita gente pensa parecido (vi o assessor da Presidência Marco Aurélio Garcia dando essa opinião outro dia). Foi assim que Lula recebeu no país, além de Ahmadinejad, o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, mas também o presidente israelense Shimon Peres, e foi assim que visitou o Estado judeu.

Pois a jornalista Miriam Leitão, no programa Espaço Aberto, da GloboNews, disse claramente que Lula – não é nem o Brasil, olha a sutileza – apóia o Irã e perguntou para o embaixador americano Thomas Shannon o que ele achava disso. Teve que engolir um “eu não acho que Lula esteja apoiando o Irã”. Vejam bem, o embaixador americano não acha, mas a Globo – e a imprensa brasileira, sempre dona da verdade – acha. Bem, nada surpreendente, considerando o nome da profissional que conduziu a entrevista.

E isso nem foi o mais grave da entrevista com o embaixador, que assisti ontem à tarde. A jornalista citou outros países latino-americanos, entre eles Venezuela, Bolívia e Equador (e ela disse os nomes desses países) afirmando que havia movimentos que lembravam as guerrilhas da década de 70, e arrematou: “a situação hoje é muito parecida com a década de 70. O senhor acha que a América Latina parou no tempo?”. Epa, peraí, como assim?

Na década de 70 vivíamos sob ditaduras de direita, que oprimiam, censuravam, torturavam, matavam. Hoje vivemos sob ditaduras de esquerda. As guerrilhas que ela citou – o caso do Paraguai, por exemplo – são movimentos narco-traficantes. Na década de 70 eram movimentos de libertação, de esquerda. Não há, em hipótese alguma, nenhuma relação. A distância, aliás, é gigantesca. Motivação, método, estratégia, objetivo. Tudo é diferente. A única coisa que talvez se pudesse apontar em comum é o uso de armas por pessoas não ligadas a governos.

Bem feito, levou uma resposta a altura. Shannon (a coisa é grave quando um americano tem que defender a esquerda latino-americana para jornalistas brasileiros!) afirmou que a região está aprofundando a democracia.

O cara já estava quase irritado com as perguntas. O motivo é claríssimo como água. Sei que às vezes essa palavra soa um pouco forte, meio exagerada, mas nesse caso é manipulação da informação, distorção. Grosseira, gritante.

Embaixador americano dá aula de democracia a Miriam Leitão

Reinaldo Azevedo: humor gratuito

Atualizado às 00h02min do dia 6 de março.

Eu e Reinaldo Azevedo concordamos em alguma coisa. É uminha só, não se espantem. Hoje ele disse que o Lula é muito inteligente em suas estratégias políticas. Concordo. Ele disse isso no programa Entre Aspas, da GloboNews, e foi adulado o tempo inteiro (mais uma prova de que o PIG anda se soltando por aí, assumindo seu lado mais reacionário abertamente).

Só que, olha que engraçado, ele disse que o Lula não deixaria a Presidência para colaborar na campanha porque, se Dilma estiver tão mal lá por agosto que o Lula precise fazer isso, ele não vai deixar o Sarney no lugar dele, e sim compor com o Serra.

E mais: que a “notícia” havia sido plantada pelo PT para alertar Serra de que teria que enfrentar diretamente o grande Lula. E claro, que o grande Lula – que Reinaldo considera muito inteligente em suas estratégias políticas – tinha fracassado, fazendo uma leitura equivocada das consequências da falsa notícia da licença que tiraria. Ligeiramente contraditório, mas faz parte do discurso.

Sério, alguém acredita no que esse cara diz? Pelo menos temos humor de graça.

Reinaldo Azevedo: humor gratuito