Uma falsa e perigosa polêmica

No dia do aniversário do golpe que mergulhou o Brasil em mais de 20 anos de ditadura, a Zero Hora publica um artigo (“A dita dura brasileira”) de um coronel que defende os responsáveis por toda a dor causada naquele período. Não vou entrar no mérito do artigo, mas de sua publicação. Generais e coronéis de pijamas existem uns quantos, e alguns deles não se importam de assumir o ridículo de defender uma ditadura que causou mortes, torturas, desaparecimentos.

Antes que surjam os argumentos de que o jornal gaúcho estava apenas abrindo espaço para o contraditório, antecipo-me a contestá-los. As mortes, as torturas, os desaparecimentos, embora não tenham sido julgados, são incontestáveis. Abrir espaço para que alguém, o coronel Sparta, defenda o regime de exceção que causou-os é como ceder a página a um assassino em série para que defendesse seus atos. Não para que se dissesse inocente, mas para que justificasse as mortes, dizendo-as necessárias e apontando consequências positivas em tirar vidas.

O jornal diz que prega a democracia e não se furta de criticar enfaticamente cada vez que se faz qualquer movimento que possa ser interpretado como censura (até os que não o são). Pois esse jornal publica um artigo de um coronel que justifica e defende um período em que os jornais não podiam contar os fatos a seus leitores, em que a censura era regra. Fica por conta do leitor avaliar a contradição.

Vão dizer que queriam causar polêmica, suponho. Então quero que me expliquem onde está a polêmica, o que querem discutir. Querem que apareçam pessoas dizendo que os mortos da ditadura não estão mortos? Ou, pior, que estão mortos porque mereciam? Essa polêmica é falsa, porque os fatos estão dados. Permitir esse “debate” é incentivar que não investiguemos a nossa história e proporcionar uma reavaliação do passado que pode, em última análise, reavivá-lo.

Sei bem que a Zero Hora, como a maioria dos jornais, não necessariamente concorda com as opiniões publicadas em suas colunas. E isso é democracia, concordo (embora ache importante observarmos que dificilmente o jornal publica opinião de representantes de movimentos sociais, por exemplo, e não seja tão democrático assim). Mas quando isso significa publicar uma opinião defendendo a ditadura, isso extrapola os limites da democracia. A defesa da ausência de democracia não tem como ser democrática.

Há duas opções. A primeira é a de que jornal acredita que houve um golpe militar e que milhares de pessoas desapareceram, morreram e sofreram nas mãos de seus coronéis e generais e assume que, sabedora disso, aceitou publicar um artigo que defende esses atos – insisto, é tortura e assassinato. Ou então ele publicou porque não acredita que existiu o tal regime de exceção, e aí, bom, aí nem preciso continuar a comentar.

Não ficou claro? Partamos para uma comparação. Parece admissível que qualquer veículo europeu publique uma defesa do holocausto? Não, e é por isso que eles não o fazem. As proporções podem não ser as mesmas, mas a crueldade de uma época e de outra não é tão diferente. Tanto o holocausto quanto a ditadura militar brasileira mataram sem julgar, torturaram, sumiram com pessoas e fizeram muitas outras saírem forçadamente de seu país. Nenhum dos dois é aceitável, e trata-los como assunto passível de debate é justificá-los.

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Uma falsa e perigosa polêmica

Um pueblo llamado Salvador Allende

11 de setembro de 1973, um dia de superlativos. Foi quando um golpe derrubou o mais promissor governo socialista que já houve no mundo para instaurar a mais sangrenta das ditaduras latino-americanas.

Uma homenagem a Salvador Allende, que morreu em nome da utopia de transformar o seu país em um lugar melhor para todos os seus cidadãos. Nada mais justo que seja feita por Eduardo Galeano (em parte responsável pelo nome deste blog).

Via O Esquerdopata.

Um pueblo llamado Salvador Allende

As velhas novidades do WikiLeaks

Nenhuma novidade na terrinha. Um monte de documentos veio à tona através de uns vazamentos. O responsável pela publicação – não por vazar os dito-cujos, fique bem claro – foi preso, é o inimigo número 2 dos Estados Unidos. Muito se tem questionado o motivo de sua prisão. Comentaristas apontam para o fato de ele não ter cometido crime ao divulgar os documentos e a falta de coerência na sua prisão enquanto outros que ajudaram a espalhar a notícia continuam soltos e louvados como defensores da liberdade de imprensa. Mas tem outra questão.

Por que tanto esforço pra prender o cara se a única coisa que ele fez foi provar aquilo que todo o mundo já sabia? Afinal, o que apareceu de mais polêmico, entre outros, foi que:

– Os Estados Unidos se acham os donos do mundo e querem que todos os países – que julga inferiores – lhe prestem obediência;

– O ministro da Defesa brasileiro, Nelson Jobim, é devoto do imperialismo norte-americano e não é confiável;

– O PSDB quer entregar o Brasil de lambuja para investidores estrangeiros;

– O Vaticano procurou esconder casos de pedofilia envolvendo padres;

– O ex-presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, gostaria de ter invadido a Venezuela com forças militares;

– As mudanças no Código Florestal propostas pelo deputado Aldo Rebelo (PC do B) favorecem interesses estrangeiros;

– O golpe sobre Manuel Zelaya em Honduras foi exatamente isso, um golpe, inconstitucional.

Qual a novidade? Fora, é claro, a comprovação de que não somos loucos paranóicos por dizer tudo isso tempos antes de ser comprovado, como a mídia brasileira gostava de fazer crer.

Mais informações qualificadas sobre os vazamentos do WikiLeaks no blog mantido pela jornalista independente Natália Viana na Carta Capital.

As velhas novidades do WikiLeaks

Existe um real perigo de golpe no Brasil?

Do Blog do Tsavkko:

Muitos blogs vem discutindo seriamente esta possibilidade, a de um novo golpe no Brasil. Um golpe branco, mas ainda assim golpe.

As razões são inúmeras, mas o principal indicador passa pelo judiciário, tanto TSE quanto STF. Por mais que ainda existam por lá elementos confiáveis, democratas, constitucionalistas, enfim, os honestos (menção honrosa para Joaquim Barbosa) que não permitiriam que a normalidade democrática fosse abalada, sabemos que também existem as maçãs podres, os golpistas, conservadores ligados ao latifúndio e ao que há de pior no país.

Lula foi condenado pelo menos 4 vezes por propaganda antecipada. O PSDB nenhuma vez sequer. Não tiro a razão das condenações contra Lula, acredito que não foram justas, mas posso aceitar a tese da diferença de interpretação. O problema é quando o “outro lado” faz o mesmo, e até pior, e não sofre absolutamente nada.

O caso do site “Gente que Mente” é emblemático.

Acreditar que existe um complô de setores conservadores aliados à elementos do judiciário não é errado, na verdade é extremamente factível, mas daí a temer um golpe?

Argumentos favoráveis à opinião de que pode sim haver golpe se sustentam de diversas maneiras.

Continue lendo aqui.

Existe um real perigo de golpe no Brasil?

Ah, a mídia…

celsoamorim_afpA postura do Brasil em Honduras foi realmente a mais acertada, um golpe de mestre. O país se destaca como líder regional, defensor da soberania e da legalidade, com alta capacidade diplomática e ainda assume uma posição clara de defesa de um governo que, se não é o melhor do mundo, representa uma postura de esquerda. O mundo inteiro reconhece o Brasil como o grande mediador e vê no país a importância estratégica fundamental que assumiu ao asilar Zelaya em sua embaixada. Ali, naquele momento, o Brasil contribuiu de forma decisiva para encurralar o governo golpista de Micheletti. Ao “presidente de facto”, como chama a nossa mídia golpista, não restam muitas alternativas.

A mídia. Ah, essa mereceria um estudo à parte. Como foi dito, o mundo inteiro reconhece e louva o papel do Brasil. Menos os golpistas de Honduras, alguns setores mais direitistas dos Estados Unidos e a mídia brasileira. Para eles, o Brasil está se metendo onde não deve, invadindo a soberania de Honduras, criando tumulto, gerando violência.

Balela, mentira, lorota, aldrabice. 

Salvam-se alguns jornalistas e alguns poucos veículos – talvez só a Carta Capital, dos de periodicidade mais frequente -, mas a imprensa, de um modo geral, está corrompida por uma visão extremamente reacionária. Porque, como disse Cynara Menezes no fim da excelente matéria sobre Honduras na edição dessa semana da Carta – todas dela o são, diga-se, como já comentei aqui -, “não se trata de simpatia ou antipatia pelo neobolivariano, mas de defesa de princípios”.

No caso, princípios democráticos, pois, quando um presidente não-eleito toma o lugar de outro que foi eleito pelo povo e o expulsa do país sem lhe dar direito à defesa, isso caracteriza um golpe. Diz Luiz Gonzaga Belluzzo que “os fatos relatam que Zelaya, alta madrugada, foi retirado da cama, enfiado no avião e despachado para fora do país. Em qualquer região civilizada do globo habitada por cidadãos acostumados ao exercício da democracia e ao respeito às regras do Estado de Direito, tal cometimento dos gorilas de Honduras, fardados ou não, seria chamado de golpe”. Não importam os motivos. E os motivos, em Honduras, não justificam a expulsão, mesmo se a defesa tivesse sido garantida.

zelaya embaixada

Ao contrário do que dizem as vejas e as folhas por aí, Zelaya não pretendia ficar indefinidamente no poder. Ele pretendia apenas propor uma consulta sobre a celebração de um referendo, que definiria uma Constituinte e a possibilidade de reeleição, à qual ele próprio não concorreria. E o fato de ele chamar o povo a resistir e desobedecer o governo também não é ilegal. Descobri na matéria de Cynara Menezes que Honduras tem um artigo na Constituição que nenhum outro país tem e que é muito bacana:

“Ninguém deve obediência a um governo usurpador nem a quem assuma funções ou empregos públicos pela força das armas. (…) O povo tem o direito de recorrer à insurreição em defesa da ordem nacional.”

Mas a mídia brasileira, que hoje parece, pelo grau de certeza das suas declarações, ter estudado profundamente a história e a política hondurenhas, não sabe nada disso.

Ou seja, poupem-me, né.

Os trechos citados são da matéria de Cynara Menezes e do artigo sobre as “teratologias semânticas” da imprensa brasileira, de Luiz Gonzaga Belluzzo. Vale também a leitura da matéria do Luiz Antonio M. C. Costa sobre a postura clara do Brasil contra o golpe versus a postura ambivalente norte-americana e de seu texto curto de desmistificação das lendas urbanas que se criaram em torno do golpe (uma parte já postada aqui). Todos da Carta Capital dessa semana.
Ah, a mídia…