O PT e a democratização da comunicação

Desabafo de Claudia Cardoso, militante pela democratização da comunicação e autora do Dialógico, depois de a presidenta Dilma Rousseff prestigiar a festa de 90 anos da Folha de S.Paulo:

Se tem uma coisa que a militância pela democratização me ensinou é que a esquerda – em particular o PT – não tem política de comunicação.

Não basta ter uma editora, como a Perseu Abramo, que edita páginas e páginas sobre o tema. Não bastam os acadêmicos que escrevem e ensinam sobre o tema, centenas deles filiados. Não bastam movimentos sociais, muitos deles compostos por filiados ao partido, lutarem pela democratização das comunicações. Os dirigentes fazem o que bem entendem!

Ao custo de quê? Vivem a ilusão de que podem usar a mídia. Bernard Cassen, no Fórum Social Mundial de 2003 já denunciava isso.

Eu já não me surpreendo mais com isso. O presidente Lula resolveu dar o nome de Roberto Marinho a um prêmio que existia há anos no Ministério das Comunicações.

Assim, ainda está para nascer um mandatário de cargo eletivo que faça diferente em matéria de relacionamento com a mídia corporativa. Ou vocês acreditam que sai o Marco Regulatório das Comunicações neste novo período legislativo? A saber.

Veremos se sai uma nova Confecom esse ano, pra voltarmos a nos organizar em torno da democratização das comunicações.

No Rio Grande do Sul, pelo menos a intenção é positiva. Se o governo vai ter pernas para mudar alguma coisa são outros quinhentos. Mas a equipe que está trabalhando para isso só aumenta as expectativas. Parece que temos aqui um mandatário pensando assim, embora não prescinda do contato com a “imprensa corporativa”, “grande imprensa” ou como acharem melhor chamar aqueles jornais tradicionais que representam um discurso elitista de uma pequena camada da sociedade. Ainda falta alguém que assuma a bronca a nível nacional. No aguardo.

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O PT e a democratização da comunicação

Governo distribuiu renda até na publicidade

Não é de hoje, novidade nenhuma, que a imprensa – o que chamam PIG – não gosta do Lula. Não gosta do Lula, do PT, do governo, da Dilma. Sabe-se também que não gosta porque Lula é do povo, porque Lula não tem curso superior, por preconceito. Porque Lula distribuiu renda, não se curvou aos EUA e outros interesses estrangeiros, não cedeu totalmente às elites, mas olhou para o povo. Por preconceito e por poder. Como estavam, as coisas iam bem para as elites. Indo bem para as elites, os interesses da grande imprensa estavam contemplados. Não convém deixar um homem do povo, que fala para o povo e governa para ele chegue ao poder. E ainda resolve inverter a ordem das coisas. Onde já se viu?, perguntam eles.

Mas tem também um outro ponto que faz com que essa imprensa não goste do Lula, reclame de seu governo, queira ver Dilma longe. Ao preconceito e à sede de poder, somam-se os interesses econômicos diretos. Trocando em miúdos, a imprensa não gosta muito de perder dinheiro. E, quando se distribui, quando mais têm acesso, menos sobra para os poucos que antes tinham tudo.

Foi o que aconteceu com as verbas de publicidade, que nunca antes na história deste país chegaram a tantos veículos diferentes. Em 2003, 499 veículos recebiam publicidade do governo. Em 2010, sem aumentar o montante de recursos, são 8.094 os meios de comunicação que a recebem. De 182 municípios abrangidos, pulou para 2.733. Em dois aspectos esse dado é relevante. Primeiro pela valorização de veículos alternativos e incentivo à democratização na comunicação – quando os veículos recebem publicidade, mais condições eles têm de se manter e mostrar-se como uma alternativa à grande imprensa tradicional. Por outro lado, o governo demonstra que até enxerga o Brasil em sua totalidade. Se o fez com os programas sociais, por que seria diferente com a propaganda do governo? Pessoas que antes não eram vistas como consumidores, eleitores, cidadãos, agora têm acesso à mesma informação do governo que os moradores dos grandes centros. Até porque antes eles eram eleitores, mas muitos deles não eram consumidores e não se sentiam cidadãos.

Ou seja, verbas públicas, daquelas que a imprensa tanto reclama de serem mal aplicadas, de serem gastas em cargos de confiança e patati patatá, estão sendo distribuídas de uma forma um pouco mais justa no que diz respeito à publicidade. E aí a verba sai dos bolsos dos veículos. Por que será que nesse caso eles não reclamavam da concentração e da alta quantidade de recursos investidos?

Diante do preconceito, do poder e do dinheiro, a imprensa mente, distorce, calunia e se autoproclama perfeita, já que não pode ser criticada. Uma instituição que não cometa erros – intencionais ou não – decerto não é gerida por pessoas. Afinal, pessoas erram. Menos as pessoas da grande imprensa brasileira, claro.

A mesma grande imprensa que reclama, esbraveja, ironiza. Inventa. Os blogueiros que entrevistaram Lula no mês passado, por exemplo, ganham insinuações. Tornam-se “progressistas” por decreto governamental. Quando a Folha é chapa-branca com governos de seu agrado, aí vale. Se blogueiros de esquerda entrevistam o presidente, provavelmente são comprados, certo?

Errado, meus amigos. E é por não entender de nada disso que a grande imprensa está perdendo força, poder, dinheiro. É por não enxergar que o mundo vai além da Barão de Limeira, com limite em Higienópolis. Quem sabe um dia ela aprende e muda. Ou perde a vez.

Governo distribuiu renda até na publicidade

A maior vitória da história do PT

Se tudo se encaminhar dentro dos conformes e o resultado das urnas for o previsto, o PT se encaminha para a maior vitória de sua história. Uma vitória de muitas consequências.

Dilma presidente no primeiro turno – em último caso com grande percentual em um eventual segundo turno.

No RS, Tarso governador também no primeiro turno, derrubando o anti-petismo enfiado goela abaixo pela RBS.

No resto do país, perspectiva de 19 governadores governistas, segundo a IstoÉ.

Nunca antes a base aliada no Senado e na Câmara dos Deputados foi tão grande como será a partir de 2011.

Essa vitória do PT é histórica. É grande, contundente e rema contra a maré do que se tenta impor para os brasileiros. É uma vitória do partido, mas é antes uma vitória da democracia e do povo em sua autonomia. As urnas mostrarão que as pessoas não aceitam que lhes digam como devem agir. Que não são marionetes, que pensam, que podem decidir sozinhas.

O papel da imprensa será questionado

Como consequência, será questionado o papel da imprensa no Brasil. Por ter assumido uma posição tão forte e ter defendido com unhas e dentes um lado no pleito, a imprensa torna-se um partido político, como bem admitiu a presidente da Associação Nacional dos Jornais, Judith Brito. E, por isso, ela sai derrotada. Não é só o PSDB que perde a eleição. É o PSDB, o Grupo Abril, o Grupo Folha, a Rede Globo, o Estadão. Toda a “grande imprensa” abraça-se ao lado derrotado.

Não se poderá sair dessa eleição sem um sério questionamento sobre o papel dessa imprensa. Sobre como se deve agir ao fazer jornalismo, qual a função dos jornais e se eles a estão de fato cumprindo. A contundência das urnas fará com que se pense em uma regulamentação para a comunicação, cujo modelo mostra-se falido.

A força das urnas dará força ao governo. Dilma poderá propor a discussão, já puxada por Lula. A imprensa tentará um golpe, mas o povo apoiará o governo. Ele já mostrou que não se deixa manipular, que pensa.

A disputa de espaços no jogo político será alterada

Por outro lado, a vitória estrondosa do PT muda de forma consistente o cenário político brasileiro. O PSDB sairá bastante enfraquecido, podendo comemorar apenas a vitória de Alckmin em São Paulo. Os altos índices de Aécio Neves para o Senado por Minas Gerais fortalecem Aécio, não o partido. Ele é esperto, está muito além do PSDB e vê que a sigla não resistirá à força do tempo. Sabe que sua carreira política deverá ser consolidada em outra legenda. Que poderá ser o PMDB, o PSB ou algum novo partido. Virá com força. O tamanho dela só saberemos no futuro. Vai depender das coligações que fizer e de sua atuação no Senado. Pode surpreender, e é o único nome que hoje me assusta na oposição.

A vitória no primeiro turno, com ampla base aliada, permitirá ao governo que realize reformas importantes para tornar a sociedade mais justa. O Brasil poderá cair mais para a esquerda, com Lula puxando a opinião pública mundial favoravelmente e os brasileiros decidindo que a melhoria nas suas vidas conta mais do que a opinião do William Bonner.

A disputa de forças se dará em outro nível, com um enfraquecimento muito grande da direita tradicional. Se as pessoas continuarem ascendendo socialmente, até inexistir a miséria no Brasil, a tendência é que aumente o esclarecimento da maioria e a consequente participação na vida política. A democracia brasileira ruma para um fortalecimento, ao contrário do que prega a imprensa antes do pleito, fazendo terrorismo principalmente baseado em distorções da liberdade de expressão.

O cenário, como se pode ver, é positivo. Espero não estar sendo otimista demais.

A maior vitória da história do PT

Lula: O Brasil vai ter que discutir comunicação, pelo bem da democracia

Sempre critiquei a política de comunicação do governo Lula, de seus oito anos. Agora mantenho a crítica, mas observo sua astúcia política nas críticas que tem feito recentemente. Não encarou a bronca quando presidente, porque a disputa ia ser feia, podendo prejudicar outros projetos devido à resistência ainda maior que ia sofrer, na tentativa da mídia de manipular a opinião pública. Mas Lula agora aproveita sua popularidade nas alturas, quando já vai deixando a Presidência, para forçar a discussão. Ele pode fazer isso, vai ser ouvido pelas pessoas – que o respeitam e o admiram – e sem comprometer seu governo. E mais, ainda chama para si a raiva da imprensa, deixando Dilma mais livre nessa reta final de campanha. Chama para si, que é praticamente inatingível, que é um fenômeno de comunicação.

Aliás, é preciso dizer que a astúcia política de Lula nunca para de surpreender – na comunicação e em outros setores. Ele tem uma visão do cenário, da sociedade brasileira, que nunca vi em nenhum outro político. Cada um de seus atos é muito bem pensado, com clareza e lucidez. E, acima de tudo, com inteligência. Isso fica claro na entrevista que concedeu ao portal Terra e que foi publicada na quinta-feira passada (links no final).

Se Lula parecia não valorizar a Confecom e as demandas por uma comunicação mais democrática, ele agora retoma a necessidade de se discutir comunicação, porque a legislação data da década de 60, está caduca. E de a sociedade participar do processo, para que efetivemos as mudanças necessárias da forma mais democrática possível, com ampla participação.

Quem pode ter medo da democracia?

Quem tem o poder, claro. É quem tem o que perder. Para se ter justiça e igualdade, em qualquer setor, uns têm que ceder o que têm sobrando para os que não têm. No caso, o espaço, a voz. Eles estão nas mãos das nove ou dez famílias apontadas por Lula, que concentram os principais meios de comunicação. Quando se veem acuados, atacam. Atacam tentando inverter a lógica da pluralidade democrática, confundindo o leitor-espectador-internauta-ouvinte e acusando o governo de censura ou intimidação.

Comunicação no governo Dilma

O mais sensacional na entrevista de Lula é que parece claro que um próximo governo petista assume disposto a discutir o tema. Parece que a comunicação será, sim, um setor estratégico do governo Dilma, como pedi aqui. Fica explícito quando diz: “o Brasil, independentemente de quem esteja na Presidência da República, vai ter que estabelecer o novo marco regulatório de telecomunicações desse País. Redefinir o papel da telecomunicação. E as pessoas, ao invés de ficarem contra, deveriam participar, ajudar a construir, porque será inexorável”.

A crítica da crítica

Quando jornalistas como Merval Pereira, William Waack, Miriam Leitão dizem que Lula quer cercear a liberdade de expressão por conta de algumas declarações dele reclamando do papel da mídia – sem nenhuma interferência concreta do governo na sua atuação, diga-se –, eles estão cometendo o mesmo “crime” de que acusam o presidente. O crime de se manifestar livremente, de exercer sua liberdade de expressão na crítica a uma instituição.

Tudo isso – a atitude golpista da imprensa, a crítica de Lula a ela, a contracrítica da mesma imprensa e até a manifestação dessa que vos fala – é possível porque vivemos em uma democracia, ainda que algumas partes desse processo abusem da democracia de que usufruem – mentindo, deturpando, difamando. Bem disse Leandro Fortes no Twitter: “Nosso maior dilema republicano: quando Lula critica a mídia, é ataque; quando a mídia ataca Lula, é crítica”.

E como eu mesma disse no post anterior: a imprensa vem batendo na questão da comunicação, como se Lula tivesse fechado os principais órgãos de imprensa e feito a revolução. Infelizmente não fez, apenas exerceu seu direito democrático de criticar quem o critica.

Ou como disse o próprio Lula na entrevista ao Terra: “O que acontece muitas vezes é que uma crítica que você recebe é tida como democrática e uma crítica que você faz é tida como antidemocrática”. Onde está a democracia que vale para um lado e não vale para o outro? Democracia de uma perna só, capenga. Hipócrita. Felizmente, não é o caso brasileiro, em que todos se manifestam até demais.

O que acontece, na verdade, é que a imprensa mente, difama, desonra, acusa sem provas. Isso, em um Estado democrático, não é admissível. Lembra a máxima de que a liberdade de um termina quando acaba a do outro. A liberdade de expressão não pode se sobrepor à presunção de inocência, por exemplo.  Ou a outras liberdades do tipo. Ou seja, para a democracia existir de fato, é preciso fazer valer o controle social da mídia, sim. Afinal, dizer qualquer bobagem, causando danos à sociedade, não é saudável à nossa tão batida democracia.

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Os links da entrevista de Lula ao portal Terra. Vale especialmente a primeira parte, que trata mais da comunicação.

Lula: “nove ou dez famílias” dominam a comunicação no Brasil

Lula: Erenice jogou fora a chance de ser uma grande funcionária

Lula diz que tiveram “medo” de tentar derrubá-lo em 2005

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Fotos de Roberto Stuckert durante a entrevista.

Lula: O Brasil vai ter que discutir comunicação, pelo bem da democracia

ZH favorece discurso neoliberal

Tudo bem, a matéria é sobre os supersalários, que são de fato um absurdo. Mas a estratégia não é nada nova, diz respeito a um suposto inchaço da máquina pública. Saiu ontem (10) em Zero Hora, criticando quem ganha demais às custas do povo. Só que tem tudo a ver, parte do mesmo princípio e tem o mesmo fim que a campanha que criou uma verdadeira ojeriza aos senadores e aos políticos de um modo geral no ano passado, com aquela função toda que usou o Sarney (que não defendo, evidentemente) para achincalhar com toda a categoria política.

A tentativa de dizer que o Estado brasileiro está inchado (e me lembro bem de uma capa da Folha de S.Paulo que criticava investimento em pessoal) não se sustenta na comparação com países do Hemisfério Norte, dito desenvolvidos.

Essa posição só valoriza uma política privatista, de Estado mínimo, que favorece meia dúzia de gatos pingados. No fim das contas, cai na velha discussão de fortalecimento do Estado que opõe Dilma e Serra, PT e PSDB. E que, ao defender Estado mínimo, a imprensa se coloca ao lado do neoliberal tucano.

E repara que o quadro principal não coloca o percentual de supersalários em cada órgão. A Assembleia Legislativa tem muito mais funcionários que o Tribunal de Contas do Estado, por exemplo, então proporcionalmente a quantidade é muito menor. Mas, do jeito que está, alimenta ainda mais o preconceito contra a classe política, fazendo parecer que são os maiores “ladrões” do dinheiro do povo. Generalizando.

Difícil dizer que essa imprensa não tem lado. Bem, talvez oscile dentro de alguns parâmetros, já que agora parece enaltecer Marina Silva, também neoliberal mas mais simpática. Mas definitivamente, a grande mídia brasileira sabe muito bem de que lado não está. Do lado dos trabalhadores, da esquerda, do Estado, do público, do coletivo. Esse lado é de Dilma, não da Folha ou da Zero Hora.

ZH favorece discurso neoliberal