Por que o aborto deve ser legalizado

Na sequência da discussão…

Mas mais do que se tratar de saúde pública, o aborto deve ser um direito. Como exigir que uma mulher tenha um filho que não quer? O que vai ser da vida dessa mãe? Que tipo de criação vai ter uma criança dessas?

Chega a ser cruel ter um filho sem desejar tê-lo, às vezes sem dinheiro para mantê-lo com uma vida digna, às vezes sem condições para dar o amor e atenção de que necessita.

Muita gente procura saber de quem é culpa para evitar que novos abortos aconteçam. Tem a mulher, que se deixou engravidar. O homem, igualmente responsável e raramente mencionado. O governo, que falhou nas campanhas de prevenção. O Estado, que não dá a devida assistência social – mas peraí, elas não são pobres, não é falta de dinheiro. Então, de quem é a culpa? Não sei. Mas acho que essa discussão, sinceramente, é irrelevante.

A questão é que decidir o que fazer com o próprio corpo, com a própria vida, é um direito. Não importa quem errou, importa o que vem pela frente. Aí vem aquele discursinho de que depois que fez tem que assumir as consequências. É um sétimo da população feminina brasileira entre 18 e 39 anos! Não é uma questão de irresponsabilidade, pura e simplesmente. São todas criminosas? Devemos prendê-las? Talvez deixá-las sofrer com abortos mal-feitos, já que são todas culpadas? O pai, esse pode assistir. Quando está presente.

É engraçado que muitos dos que condenam o aborto são aqueles que viram a cara para a criança pedindo esmola. Muitos são a favor da pena de morte. A mesma Igreja que acoberta a pedofilia condena o aborto.

Falso moralismo, conservadorismo, cinismo, hipocrisia, demagogia, sei lá o nome que tem. Pra mim é maldade. Ser contra o aborto é defender que uma mulher seja obrigada a ter um filho que não quer. É ruim para a mulher, para a criança e até para aquele que é contra o aborto, que, em alguns dos casos, vai ter que conviver com um jovem que cresceu sem pai, ou sem acesso a bens e serviços mínimos, ou sem amor, ou sem que os pais tivessem tempo para se dedicar para ele. Tantas possibilidades…

O certo é que tem que haver um debate. Não dá pra fechar os olhos, tem que se discutir. Porque está acontecendo, é grave, é cruel com as mulheres e fingir que não existe não resolve o problema.

Por que o aborto deve ser legalizado

Política da grande imprensa: a lei quando ela interessa

São no mínimo irônicos os comentários do pessoal da Globo, da Associação Nacional dos Jornais (ANJ) e da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) sobre o papel de empresas estrangeiras no mercado de internet do Brasil, em função da discussão que está rolando no Senado sobre a regulamentação da internet.

Porque a lei é clara, estrangeiros não podem controlar empresas de comunicação. Pela Constituição, o capital tem que ser nacional (máximo de 30% para capital estrangeiro), o controle administrativo e editorial deve ficar nas mãos de brasileiros natos etc. etc. Bonita essa lei. Cumpra-se, defendo totalmente.

Mas então vamos cumprir as leis todas. Que tal aquela que impede que uma mesma empresa controle mais de dois canais de televisão aberta no mesmo estado, com um máximo de dez em todo o território nacional? Comecemos pela RBS, tão dentro dos parâmetros legais. Quais dos 18 canais  no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina da afiliada da Rede Globo serão fechados? Que programas vão deixar de ser exibidos para privilegiar programação local, como manda a lei?

Mas que bobagem. Por que, afinal de contas, dividir o poder se se pode ficar com todo ele? Tendo o monopólio – ilegal -, cumprir a lei é desimportante. Mas se chega uma ameaça ao monopólio, chega uma ameaça ao poder. E aí a lei existe, alguém lembra dela – porque é para os outros. Nunca se encaixou melhor o “aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei”, literalmente.

Ok, demos os devidos nomes aos bois. Um se chama Hipocrisia. Outro atende por Cinismo. A Ironia é uma vaquinha mirrada, que o dono do rebanho (que atende pelo nome de Grande Imprensa) usa apenas para servir aos bois.

Ironia é definitivamente muito pouco para o que faz esse pessoal.

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Para saber mais:

Matéria veiculada no Jornal Nacional
– Da Agência Senado: Seminário discute direitos autorais e conteúdo jornalístico no contexto da internet
Informações sobre a legislação da radiodifusão, do site do Ministério das Comunicações
Dados sobre serviços da RBS, do próprio site da emissora

Política da grande imprensa: a lei quando ela interessa

O significado do Natal

Natal.

Faz tempo que ele não tem pra mim o significado religioso. Melhor, nunca teve. Quando eu era pequena, ainda não decidira que essa coisa de religião não serve pra mim, passava o Natal com minha família católica, que continua tendo a religião como uma coisa séria e importante. Poderia ter tido natais comemorativos do nascimento de Jesus. Afinal, essa é a data mais importante para os católicos (muito embora incongruente, já que a contagem dos anos começou a partir do nascimento de Cristo, o que nos levaria a crer que isso teria ocorrido em primeiro de janeiro – nunca entendi direito essa parte).

Mas mesmo quando eu ainda me deixava levar apenas pelo que os outros diziam, o Natal era a data de comer bem e ganhar presentes, muitos, os melhores. E só.

Depois, passaram a ler algumas orações, mas nada que prejudicasse a parte dos presentes e da comida. Eu sentia que aquilo era mais pra dar um sentido à coisa. A oração vinha como uma forma de diminuir a culpa, de dizer “olha, eu não sou tão interesseiro assim, eu vejo o verdadeiro significado do Natal”. Mas ele continuava girando em torno do pecado – a gula, a avareza, a soberba. Houve épocas em que celebrei o Natal com um certo sentimento de obrigação. Criticava a data, o consumismo exagerado me irritava, via hipocrisia em todas as palavras de todas as pessoas. Uma fase mais adolescente.

Hoje, a celebração do consumo ainda me incomoda profundamente e tenho diversas críticas à forma com que essas datas são celebradas, até à existência das datas em si. Enfim.

Mas tenho uma visão um pouco mais otimista. Não tenho mais meus avós, mas agora já aparecem as primeiras crianças da família depois de mim. Se antes o Natal era uma forma de reunir a família e deixar minha avó feliz, hoje é uma forma de reunir a família e celebrar as crianças. Esse ano voltam as armações para fingir que o Papai Noel entrou pela janela enquanto a Ester dorme. É meio mágico. É inocente, bonito.

Não, o Natal não tem significado religioso pra mim. Muito longe disso. Mas percebi que o que mais me marcou nos natais, o que nunca era diferente, e o que é bacana, é que eu estava sempre com minha família. E acho que esse foi o significado bom que ficou, resumindo. Família. Em memória dos meus avós.

O significado do Natal

Hipocrisia

No vidro do carro da frente, um adesivo que era um aviso. Não, era antes um recado. Queria dizer: “Atenção, eu sou um cara legal”, para que as outras pessoas se comovessem. Mas dizia simplesmente: “Atenção: eu paro na faixa”. Tinha do lado uma mão, com os cinco dedos bem abertos, um sinal.

Opa, a luz amarela ficou vermelha. Um ponto vermelho no céu azul. Mas ele está indo mais rápido. Quando o carro da frente passou pelas tiras largas e brancas deitadas no chão, já fazia tempo que a luz no alto avermelhara.

O que se gabava de parar na faixa, olha só, passou reto no sinal.

Hipocrisia