Leonardo Boff: “Natal: ver com os olhos do coração”

Compartilho esse texto de Leonardo Boff, teólogo e escritor, para que seja lido com os olhos do coração que ele menciona. Não para que seja interpretado como uma mensagem religiosa, mas para que seja compreendido como um recado de humanidade. Pode ser lido por católicos, como o padre excomungado por sua Teologia da Libertação, por evangélicos, protestantes, judeus, umbandistas, ateus. Pode ser lido por quem compartilha de qualquer fé, seja ou não religiosa. Eu, particularmente, sou daquelas que acreditam profundamente na solidariedade. Acredito no homem. Nos homens e mulheres do nosso mundo e em sua capacidade de exercer a generosidade.

Somos obrigados a viver num mundo onde a mercadoria é o objeto mais explícito do desejo de crianças e de adultos. A mercadoria tem que ter brilho e magia, senão ninguém a compra. Ela fala mais para os olhos cobiçosos do que para o coração amoroso. É dentro desta dinâmica que se inscreve a figura do Papai Noel. Ele é a elaboração comercial de São Nicolau – Santa Claus – cuja festa se celebra no dia 6 de dezembro. Era bispo, nascido no ano 281 na atual Turquia. Herdou da família importante fortuna. Na época de Natal saia vestido de bispo, todo vermelho, usava um bastão e um saco com os presentes para as crianças. Entregava-os com um bilhetinho dizendo que vinham do Menino Jesus.

Santa Claus deu origem ao atual Papai Noel, criação de um cartunista norte-americano Thomas Nast em 1886, posteriormente divulgado pela Coca-Cola já que nesta época de frio caía muito seu consumo. A imagem do bom velhinho com roupa vermelha e saco nas costas, bonachão, dando bons conselhos às crianças e entregando-lhes presentes é a figura predominante nas ruas e nas lojas em tempo de Natal. Sua pátria de nascimento teria sido a Lapônia na Finlândia, onde há muita neve, elfos, duendes e gnomos e onde as pessoa se movimentam em trenós puxados por renas.

Papai Noel existe? Esta foi a pergunta que Virgínia, menina de 8 anos, fez a seu pai. Este lhe respondeu:”Escreva ao editor do jornal local! Se ele disser que existe, então ele existe de fato”. Foi o que ela fez. Recebeu esta breve e bela resposta:

Sim, Virgínia, Papai Noel existe. Isto é tão certo quanto a existência do amor, da generosidade e da devoção. E você sabe que tudo isto existe de verdade, trazendo mais beleza e alegria à nossa vida. Como seria triste o mundo se não houvesse o Papai Noel! Seria tão triste quanto não existir Virgínias como você. Não haveria fé das crianças, nem a poesia e a fantasia que tornam nossa existência leve e bonita. Mas para isso temos que aprender a ver com os olhos do coração e do amor. Então percebemos que não há nenhum sinal de que o Papai Noel não exista. Se existe o Papai Noel? Graças a Deus ele vive e viverá sempre que houver crianças grandes e pequenas que aprenderam a ver com os olhos do coração.

É o que mais nos falta hoje: a capacidade de resgatar a imaginação criadora para projetar melhores mundos e ver com o coração. Se isso existisse, não haveria tanta violência, nem crianças abandonadas nem o sofrimento da Mãe Terra devastada.

A mensagem de Leonardo Boff continua aqui.

Leonardo Boff: “Natal: ver com os olhos do coração”

A política pode ser pura e humana

Pra fazer política, há que se ter estômago. A maioria dos políticos mais antigos que vemos por aí, mesmo que não corruptos, mesmo que íntegros e éticos, já não são puros. Por uma razão muito simples: se o são, são engolidos. Ainda assim, acho que devemos insistir em tentar nos fazer representar por políticos puros, ou pelo menos aqueles honestos e comprometidos.

Gosto de política. Acho difícil lidar com ela, mas gosto. Não pelas jogadas, pela arte de politicar. Muito menos pela politicagem. Mas porque sei que a política tem um lado muito maior que isso tudo. Que é o princípio de tudo, na verdade. Pelo menos ao meu ver.

Porque a política tem um caráter humano muito profundo. Porque tudo que é feito pelos homens e mulheres exclusivamente dedicados à política se reflete na vida de cada um de nós. Pro mal, mas também – e felizmente – pro bem.

Abro um parênteses. Falo nesses que se dedicam apenas a isso porque a política não é só a atividade parlamentar, não é só o exercício de cargos eletivos. Política se pratica no dia a dia, a cada contato, a cada relação, a cada discussão, negociação. Seja em empresas, no relacionamento profissional ou na vida pessoal, nas conversas com amigos, no abrir mão de determinadas coisas pelo bem de um relacionamento.

Parênteses fechados. Voltando, então, à política como a conhecemos, a atividade à qual atribuímos esse nome. Às vezes nos esquecemos, porque se fala muito pouco na política com esse caráter, mas ela é fundamental para a organização em sociedade. Corrompê-mo-la, sim, mas culpados somos nós, por não levarmos a sério atividade tão importante. Não a corrompemos só roubando, mas fazendo dela essa coisa feia, da qual as pessoas criam asco.

Tarefa nossa, de quem atua diretamente na política ou a retrata pelos meios de comunicação, é lembrar desse lado a cada dia. Mostrar a quem quiser ver – e a quem não quiser também – que a política pode ser pura e bonita. Pelo menos assim espero e ainda acredito. Que cada ato, cada decisão de uma figura eleita por nós pode ser pensada para que se reflita positivamente na vida do maior número possível de cidadãos, de forma a tornar a sociedade cada vez mais justa e mais igualitária.

A política pode ser pura e humana

Individualismo versus solidariedade

Sabe, eu gosto de comer bem. Gosto também de uma cerveja de vez em quando, um vinho, algumas roupas que não precisam ter marca cara, mas que sejam de qualidade. Gosto de me sentir bem vestida, usar alguma maquiagem, ir a algum lugar diferente, viajar. Eu gosto de comprar coisas, sim. Passo longe da hipocrisia de me dizer comunista em um mundo capitalista e renegar todos os prazeres que no capitalismo só se consegue tendo algum dinheiro. Defendo o socialismo, ou alguma alternativa viável que fuja do capitalismo selvagem que temos hoje (e os Titãs já avisavam sobre a selva de pedra lá nos anos 80). Mas de aceitar a existência de um capitalismo razoável, que possa ser baseado na solidariedade, e aproveitar dos pequenos luxos que o dinheiro permite, até venerar o dinheiro pelo dinheiro vai uma distância grande.

Um causo marcante aconteceu comigo há alguns meses. Um grupo de pessoas reunia-se em torno de uma melancia doce como poucas nesses tempos de transgenia e agrotóxicos. Boa que só, de dar água na boca. Inevitavelmente, veio um comentário, alguém que dizia que adora melancia. Antes que o resto do mundo pudesse sequer absorver o sentido daquelas palavras, veio uma resposta imediata, precisa e cortante de outro alguém: “E eu adoro dinheiro”.

Já disse, gosto das coisas que no mundo capitalista só o dinheiro proporciona. Entre elas, melancia, por exemplo. Tenho vontade, sim, de ter dinheiro para ter coisas melhores. Mas gosto é das coisas. Gosto da melancia, da roupa, da cerveja, da comida, do vinho. Gosto da viagem, do brinco, do sapato. O dinheiro é um meio para obtê-las. Gostar do dinheiro pelo dinheiro é uma deturpação. Uma aberração. E é extremamente assustador. No cerne da questão, está a oposição entre o individualismo e a solidariedade. Os mesmos citados por Rualdo Menegat na entrevista que me concedeu para o jornal Sul 21.

Tenho medo especialmente pelas novas gerações. Um medo que me enche de pessimismo às vezes, de uma sensação que o mundo não tem solução.

Felizmente, o medo passa, e a gente segue lutando por um mundo melhor e mais solidário. Lutando e errando, aprendendo sempre, acertando às vezes. Mas sempre em busca de um pouco de humanidade.

Individualismo versus solidariedade