O exemplo de Madiba: somos todos iguais

mandela_last Nelson Mandela pode não ter transformado a África do Sul em um país completamente justo. Pode não ter conseguido acabar com a corrupção nem ter erradicado a pobreza. Pode até vir a terminar sua vida em um dos países mais desiguais do mundo. Mas não podemos analisar o depois sem enxergar como era antes. E a mudança é gigantesca.

Se não foi feito tudo o que devia, foi feito muito mais do que parecia possível, diante de um dos regimes mais cruéis que a História presenciou. Restringir uma pessoa a determinados nichos, proibindo-a de dividir espaços, de utilizar o mesmo transporte, de viver a vida da mesma maneira, é privá-la de liberdade. É humilhá-la. Poucas coisas são tão cruéis quanto a humilhação.

Nelson Rolihlahla Mandela acabou com o regime de humilhação aos negros que imperava na África do Sul. Não fez guerra, não matou, não prendeu, não torturou. Ao contrário, Madiba perdoou. Passou 27 anos na cadeia, tentaram calá-lo. Não adiantou, o movimento antiapartheid criado antes de sua prisão fez os gritos de “Libertem Nelson Mandela” se multiplicarem. Sua voz ecoou, fugiu dos muros da prisão, ganhou o país, o continente, o mundo. E mudou a África do Sul.

Perdão

Quando saiu da prisão, Mandela pôde conhecer um país diferente. Tão diferente que permitiu que ele, um negro, assumisse seu posto mais alto. Quatro anos depois de solto, foi eleito presidente da República, em 1994. A primeira coisa que o negro Madiba fez aos brancos que o prenderam, o humilharam, foi perdoá-los.

Confesso, não sei se eu teria estômago para tanto. Dificilmente alguém faria o mesmo que Mandela. Aí está o seu diferencial, que o torna tão nobre. Ele perdoou porque sabia que a raiva levaria a África do Sul a mais ódio, mais sofrimento, mais preconceito. Que dividir negros de brancos de tantas outras etnias que povoam o país não resolveria sua injustiça, antes a atiçaria.

Nelson Mandela passou por cima de seu sentimento pessoal pelo bem do coletivo. Engoliu a raiva que imagino que devia guardar dentro de si para transformar a África do Sul em um lugar melhor para se viver.

O exemplo de Mandela para África do Sul hoje

Infelizmente, as injustiças eram tantas que muitos problemas sobreviveram. Legalmente, os direitos são iguais, mas na prática o preconceito é enorme e a situação sócio-econômica ainda é muito díspare.

mandelaNelson Mandela é dessas figuras que deveriam durar para sempre. Ontem ele completou 92 anos, incríveis para alguém que já passou por tanto. Que cada dia vivido por Mandela sirva como uma lição. São mais de 30 mil lições que a África do Sul pode aprender.

Que todos lá possam se respeitar do jeito que forem. Que lutem juntos por um país melhor, por uma vida melhor. Que entendam que a África do Sul só vai se tornar um lugar bom de se viver quando cada sul-africano enxergar no outro um irmão. Não irmão no sentido bíblico, mas no sentido revolucionário. Porque a paz, em um mundo injusto, desigual e cruel, é uma verdadeira revolução. Que cada um, que todos troquem o enfrentamento pela união, pela fraternidade.

Que a África do Sul pense em Madiba como um exemplo de superação das diferenças, de busca da igualdade. Porque somos diferentes, sim, mas não somos melhores nem piores. Em direitos, somos iguais.

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O exemplo de Madiba: somos todos iguais

Um ponto a menos para a humanidade

Não é só tristeza pelo caso. É muita tristeza pelo caso, mas é também revolta com o mundo. Essa semana, apesar de seus pontos altos, teve alguns momentos que me deram profunda tristeza e desesperança.

O mais grave foi essa noite. Alguém, ou alguéns, picharam e urinaram em um mendigo enquanto ele dormia. Mesmo que ele fosse um criminoso, mesmo que tivesse feito algum mal, já seria baixo, vil. Mas como foi, com todo o jeito de revolta social, de ódio de classe, de sentimento de superioridade, a coisa fica mais feia.

Aparentemente, não houve motivação. Repito, não existiria motivação a justificar, mas sem ela é ainda pior. Posso estar enganada, espero que ninguém tome o que vou dizer agora como informação verdadeira, mas consigo enxergar um grupo de jovens bem vestidos, classe média, querendo impressionar uns aos outros, tentando se mostrar superiores e corajosos, voltando de sua “noite” em Porto Alegre.

Veem um cara dormindo na rua. O que é aquele cara? Um bicho? Pior, um nada. A escória. Para eles, é a escória. Não é uma pessoa. Não tem dignidade.

Dignididade. Quem pichou e urinou no morador de rua não sabe o que é isso. Não tem ideia de cidadania. Egoísta, egocêntrico, não sei nem como classificar. Mau. Como acreditar que o mundo tem solução, que a humanidade tem salvação?

Talvez pela fala de Ratinho, que acordou coberto com tinta prata até no rosto, desnorteado: “Espero que estas pessoas não façam nenhum outro mal para alguém como fizeram comigo”. Depois de ter sido humilhado, ele pensa nos outros. É uma esperança.

Crédito da imagem: Cristiano Estrela
Um ponto a menos para a humanidade