Mais uma daquelas tristes charges do Marco Aurélio

Eu nem queria escrever sobre a Zero Hora de novo, mas aí me deparo com isto e fico sem opção:

Se a crítica fosse ao governo, poderia até ser válida, dependendo de como fosse construída (embora eu não acredite muito que o Marco Aurélio consiga fazer uma crítica decente e ainda engraçada), mas desse jeito, tentando frustradamente ironizar a péssima colocação do estado no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) tendo como alvo os alunos, ela é só agressiva e descabida.

A história do humor crítico no Brasil é riquíssima, cheia de exemplos de como ser engraçado e contribuir para o fortalecimento da democracia a partir da provocação, do escárnio. É lindo quando esse espírito existe, em qualquer governo, em qualquer jornal, e a crítica pode ser bem contundente. Mas tem que saber fazer. Não dá pra basear a piada em preconceito e humilhação, coisa que só faz quem não sabe fazer. Não é a primeira vez que digo e repito: o principal chargista da RBS não serve pro metiê.

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Mais uma daquelas tristes charges do Marco Aurélio

Marcelo Adnet e a cabeça da elite brasileira

A paródia da elite feita pelo Marcelo Adnet me lembrou o dia, em outubro deste ano, em que eu esperava uma conexão atrasada em Congonhas. Era feriadão, praticamente todos os voos estavam atrasados. Sentei em uma daquelas confortáveis poltronas de aeroporto quase em frente a uma elegante mulher, vestida com um terninho bem alinhado, em cima de um salto que não parecia nada confortável, mas que depois vi andando com altivez. Estava ali, teclando no seu aparelhinho eletrônico que podia ser de tudo. Aliás, parecia qualquer coisa, menos um celular. Eu sentia que o mundo estava ali naquelas mãos. Pelo menos a vida dela devia estar, porque era o centro das atenções da mulher, que não parava de mexer naquelas teclas por um só minuto. Ela olhou para a pessoa que estava ao seu lado, fez uma cara de dor profunda e reclamou do alto do seu direito: “Está ficando difícil viajar, já foi bem mais fácil”.

Percebi que estava difícil por minha causa. Paguei bem menos na passagem de avião do que eu pagaria se fosse de ônibus de Porto Alegre ao Rio de Janeiro. Só nesse ano fui três vezes a São Paulo, uma a Buenos Aires, uma ao Rio, uma a Florianópolis. Pouco praquela mulher, provavelmente. Pra mim, um mundaréu de viagens de avião, como eu nunca imaginaria ter feito alguns anos atrás.

Andei de avião pela primeira vez aos onze anos. Quer dizer, primeiro quando eu tinha uns poucos meses, mas que eu lembre foi essa. Uma viagem de férias com meu pai a Buenos Aires. Era mágico. Além da emoção de ver o mundo de cima, que sempre me fascina, a sensação inevitável de riqueza. No avião, me senti chique, sabe. Aquela coisa que poucos ao meu redor faziam, que era voar.

Hoje é bobagem. Andei mais de avião do que de ônibus intermunicipal este ano. Eu incomodo aquela gente que nunca vira um feriado dar congestionamento aéreo. E o pior é que tem um mundo de gente com menos grana que eu que pode sentar do lado da riquinha da Zona Sul.

Isso não é lindo?

Marcelo Adnet e a cabeça da elite brasileira

Como Nasrudin criou a verdade

Do livro Os 100 melhores contos de humor da literatura universal, organizado por Flávio Moreira da Costa:

KHAWAJAH NASR AL-DIN (Séc. XIV | Turquia)

– As leis não fazem com que as pessoas fiquem melhores – disse Nasrudin ao Rei. – Elas precisam, antes, praticar certas coisas de maneira a entrar em sintonia com a verdade interior, que se assemelha apenas levemente à verdade aparente.

O Rei, no entanto, decidiu que ele poderia, sim, fazer com que as pessoas observassem a verdade, que poderia fazê-las observar a autenticidade – e assim o faria.

O acesso a sua cidade dava-se através de uma ponte. Sobre ela, o Rei ordenou que fosse construída uma forca.

Quando os portões foram abertos, na alvorada do dia seguinte, o Chefe da Guarda estava a postos em frente de um pelotão para testar todos os que por ali passassem. Um edital fora imediatamente publicado: “Todos serão interrogados. Aquele que falar a verdade terá seu ingresso na cidade permitido. Caso mentir, será enforcado.”

Nasrudin, na ponte entre alguns populares, deu um passo à frente e começou a cruzar a ponte.

– Onde o senhor pensa que vai? – perguntou o Chefe da Guarda.

– Estou a caminho da forca – respondeu Nasrudin calmamente.

– Não acredito no que está dizendo!

– Muito bem, se eu estiver mentindo, pode me enforcar.

– Mas se o enforcarmos por mentir, faremos com que aquilo que disse seja verdade!

– Isso mesmo – respondeu Nasrudin, sentindo-se vitorioso. – Agora vocês já sabem o que é a verdade: é apenas a sua verdade.

Como Nasrudin criou a verdade

Umberto Eco, encantador

O Umberto Eco é sensacional. Bom, isso não é novidade, mas vale a pena repetir. Cada nova entrevista traz frases que dá vontade de anotar e citar para as pessoas no momento propício. A última é de hoje, do Estadão (que está com novo site, mas não perdeu a mania de atualizar a página de tempos em tempos enquanto estou lendo, o que me faz ter que procurar sempre o ponto em que parei).

Não há novidades tão grandes, mas suas ideias são muito válidas. Por exemplo, eu não tinha parado para refletir que as informações retiradas da internet podem trazer sérios problemas para a educação. Afinal de contas, como um aluno de 6ª série vai saber que o site que traz informações sobre o Egito Antigo é confiável? Como diz Eco, essa avaliação depende unicamente de vivência pessoal, o que uma criança provavelmente não tem.

Seu humor, pelas descrições, é encantador. Demonstra a humildade em um homem inteligente e, pior, reconhecidamente inteligente. O mundo inteiro sabe o valor de seu trabalho, mesmo os que lhe criticam. Diante disso, a arrogância é um passo fácil. Bons são aqueles que não se deixam levar por ela. São mais humanos. E provavelmente mais felizes.

Fiquei louca para conhecer sua biblioteca de 50 mil livros. Os corredores que o repórter descreve, preenchidos por estantes. Que cena bonita. Da organização do acervo é ele mesmo que dá conta, porque a ordem dos livros depende das necessidades do dono da biblioteca, que mudam. Mas é delicioso organizar uma biblioteca, vai dizer. A minha é bem pequenininha e já me divirto pacas. E adorei que ele tem problemas parecidos com os meus: há livros que podem ser catalogados em diversas categorias, difícil organizá-los. O amor de Umberto Eco pelos livros (“O livro, para mim, é como uma colher, um machado, uma tesoura, esse tipo de objeto que, uma vez inventado, não muda jamais.”) é comovente.

Mas de tudo isso, o que eu mais gostei de ler na entrevista, o que me deliciou de verdade, foi a informação de que do lado de seu aparelho de DVD tinha uma cópia de Ratatouille. Gênio.

Umberto Eco, encantador

Direita e esquerda, e vice-versa

O Millôr tem um livro de fábulas. 100 fábulas fabulosas é o título. A primeira delas eu li em um dia de discussão via twitter sobre o que é esquerda, o que é direita, qual o papel de cada uma, declarações de uns, comentários de outros, e várias outras dúvidas que não têm resposta, mas que, paradoxalmente, devem ser discutidas. Então, ponhamos um pouquinho de humor na história. Não está entre aspas nem em itálico, mas tudo o que segue foi tirado do livro do Millôr.

MUDANÇAS IMUTÁVEIS

À maneira dos… chineses

“Se você não consegue fugir, você é muito corajoso.”

Olin-Pin, abastado negociante de óleos e arroz, vivia numa imponente mansão em Kin-Tipê. Sua posição social e sua mansão só não eram perfeitas porque, à direita e à esquerda da propriedade, havia dois ferreiros que ferravam ininterruptamente, tinindo e retinindo malhos, bigornas e ferraduras. Olin-Pin, muitas vezes sem dormir, dado o tim-pin-tin, pan-tan-pan a noite inteira, resolveu chamar os dois ferreiros e ofereceu a eles 1.000 ienes de compensação, para que ambos se mudassem com suas ferrarias. Os dois ferreiros acharam tentadora a proposta (um iene, na época, valia mil dólares) e prometeram pensar no assunto com todo empenho. E pensaram. E com tanto empenho que, apenas dois dias depois, prevenidamente acompanhados de advogado, compareceram juntos de Olin-Pin. E assinaram contrato, cada um prometendo se mudar para outro lugar dentro de 24 horas. Olin-Pin pagou imediatamente os 1.000 ienes prometidos a cada um e foi dormir feliz, envolvido em lençóis de seda e adorável silêncio. Mas no dia seguinte acordou sobressaltado, os ouvidos estourando com o mesmo barulho de sempre. E quando ia reclamar indignadamente pela quebra do contrato, verificou que não tinha o que reclamar. Os dois ferreiros tinham cumprido fielmente o que haviam prometido. Ambos tinham se mudado. O ferreiro da direita tinha se mudado pra esquerda, e o da esquerda tinha se mudado pra direita.

MORAL Cuidado quando a esquerda e a direita estão de acordo.

Direita e esquerda, e vice-versa