Revista Época defende privatização

Não está nas entrelinhas ou subentendido. A tinta está lá, preenchendo todas as letras das palavras que se articulam para dizer que a privatização é uma solução para o Brasil, no editorial da revista Época de 7 de março, edição nº 668.

Confesso que até achei a revista interessante, olhando a capa sobre homossexualidade. Até que descobri que é quase igual à da revista Fórum de janeiro deste ano. Coincidência, hmm? A matéria de capa é interessante, mas não parece ter recebido a importância devida. Relegada às páginas finais, quase que some ao lado de páginas e mais páginas de uma em geral machista reportagem sobre o Dia da Mulher, sobre o novo partido de Kassab, sobre os cortes no Orçamento de Dilma.

Mas voltemos ao ponto. O título do editorial já é bem claro: “Privatização não é palavrão”. Ok, continuemos. O primeiro parágrafo diz que o PT tentou, na última campanha, imprimir nos adversários – que não são nominados em nenhum momento do texto – o “estigma das privatizações”, como se os coitadinhos inocentes do PSDB nunca tivessem sido governo e nunca tivessem privatizado nada. Ou seja, eles não têm nada a ver com isso, os ingênuos, que se deixaram levar para sórdida manobra do governo. Isso na interpretação da revista, claro.

É interessante como a Época consegue dizer tanto em tão poucas linhas. São ao todo seis parágrafos. Na sequência do texto, critica a política econômica levada a cabo “há anos”, sem dizer se essa crítica se refere aos oito anos de governo Lula ou se abrange também os oito de FHC ou ainda antes. É uma forma de não criticar o governo FHC – porque, dentro do contexto, ele não aparece, e o leitor não relaciona o comentário ao governo tucano – sem poder ser acusada de mentir, já que não diz que o PSDB não executou a política que a revista está criticando.

Em seguida, Época elogia o ajuste fiscal de Dilma, explicita brevemente as medidas e, pimba, levanta a bola das privatizações, “tratadas como um anátema pelas alas mais ideológicas do PT”, no dizer da revista. E aí ela incorre em um erro bastante comum, de atribuir o “caráter ideológico” apenas às ideias de esquerda. Como se defender privatizações, Estado mínimo, livre mercado etc. não fosse também uma ideologia. Um erro intencional, é importante ressaltar. A ideia aí é mostrar para o leitor que a ideologia cega, impede de ver com clareza os aspectos técnicos. É o famoso tecnicismo que a direita defende na política. Mas é importante frisar que este tecnicismo também é ideológico. O objetivo aí é agir para que os números da economia fiquem bem bonitos, independente da situação da conta bancária e da mesa de cada cidadão.

O próximo passo é explicar os motivos da defesa da privatização como parte da política do governo. Defende a venda de empresas como a Infraero, os Correios, Companhias de Docas, Companhia Brasileira de Trens Urbanos com o argumento de que seriam geridas de forma mais produtiva e competente. Resta saber: produtivo e competente para quem, cara pálida? O papel do governo, de forma extremamente simplificada, é agir para a maioria da população, gerindo os bens públicos para que tragam maior benefício para seus cidadãos e cidadãs. Nas mãos da iniciativa privada, talvez os lucros das empresas até aumentassem, mas ficariam nas mãos da empresa privada, não seriam revertidos para a sociedade brasileira. E provavelmente essas empresas seriam geridas com o único objetivo de aumentar seus lucros e fazer um bom trabalho para quem mais pagar. Qual o interesse público – pelo qual o Estado deve zelar – de tal política?

Por fim, recorre mais uma vez à “carga ideológica”, pedindo que ela seja tirada da discussão, como se isso fosse possível. Como se os defensores da privatização não fosse uma defesa dos adeptos da ideologia neoliberal. A última frase pede que Dilma se afaste do discurso “vazio e irreal” da campanha e adote as privatizações. Epa, uma revista pedindo que o governante não aja de acordo com o que prometeu e pelo que foi eleito. Época pede que Dilma traia os brasileiros e aja de forma oposta à que afirmou durante a campanha. Eita, imprensa contraditória, sô!

O resto da revista

Eu gostaria ainda de poder comentar cada uma das matérias desta edição de Época. Em todas elas, uma contradição diferente e um forte conteúdo ideológico – aquele mesmo que a revista pediu que fosse afastado – de direita. Mas isso tomaria muito o teu tempo, caro leitor, ainda mais por uma revista que já nem mais está nas bancas – e peço desculpas pela crítica atrasada, mas só fui ter acesso a ela agora, e não podia deixar passar em branco essa defesa tão contundente das privatizações. Além do mais, a crítica teria que ser feita a cada edição de Época, o que se tornaria um tanto chato.

Mas há algumas observações que cabem ser feitas. Foco em duas matérias mais emblemáticas. A primeira é sobre a política externa do governo Lula. Uma crítica ao investimento em países pobres, alguns com governos de esquerda, o que seria uma “preferência ideológica” do governo. Hein, como assim? A política externa também não pode conter ideologia? Que critérios usamos, então? Vale lembrar que a simples definição de quais critérios serão adotados para decidir para onde vai a ajuda humanitária também é ideológica.

A política externa tem uma orientação, assim como qualquer política do governo. Durante o governo FHC, também ocorria isso: tínhamos uma posição de subserviência, de pedir esmolas para tentar estar entre os mais poderosos do mundo, em uma estratégia falha e burra, que afastava o Brasil de outros países em condições semelhantes, sem contribuir com sua influência para que os mais pobres ganhassem espaço. O texto contradiz completamente o título – “Humanitário e oportunista” – e a linha de apoio, extremamente agressivos e, olha aí, ideológicos. Os entrevistados afirmam claramente que essa ajuda humanitária se dá porque estamos em outro patamar na geopolítica mundial, e que acontece de forma natural, dada a política externa desenvolvida.

A segunda reportagem que destaco é a do Dia da Mulher. Uma série de matérias compõe a “homenagem”. Tratam das dificuldades das mulheres no Brasil de hoje. Pena que é apenas das mulheres de uma determinada camada social e, ainda assim, de forma preconceituosa. Em nenhum momento, são mencionadas as agressões que uma em cada cinco mulheres sofrem no Brasil. Não se fala nas diferenças de raça que ainda assolam as relações sociais e deixam as negras em desvantagem. A segunda matéria, embora trate de empresas privadas, tem um título cretino: “Presidente? Não, obrigada”. Aliás, não se fala na enorme conquista de uma mulher ter chegado ao posto mais alto da nossa República. Mais da metade das matérias trata das questões tradicionalmente “de mulherzinha”, como a preferência por determinado tipo de homem e um “guia essencial” de compras, com dicas de roupas, cremes, bolsas, sapatos.

Chama a atenção a matéria “Diários públicos”, que trata da predominância de mulheres na blogosfera. E aí são citados blogs de moda, cool variedades e literatura, diário íntimo, casa e decoração e gastronomia. É como se não existissem blogueiras econômicas ou políticas – em uma lista geral de blogs certamente apareceria o Noblat, por exemplo – ou blogs femininos de defesa de causas, como meio ambiente e feminismo. Ou seja, a mulher ganha seu espaço, invade terrenos “masculinos”, mas continua a mesma mulherzinha de sempre, com interesses restritos. Reportagem elitista e machista.

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Revista Época defende privatização

Ainda há quem panfleteie por ideologia

Panfleteando às vésperas das eleições, cruzamos muitas vezes com outros panfleteadores de ideias. Alguns, panfleteadores de nomes, só. O mais engraçado é quando a pessoa pega o santinho e diz “vou pegar pra te ajudar”. Se houvesse mais tempo, se o ônibus não estivesse chegando, se a eleição não estivesse tão perto, dava vontade de chamar a pessoa pra um chope pra conversar. Não, amigo, não precisa pegar o panfleto “pra ajudar”. Não quero esse tipo de ajuda porque não estou sendo paga para me livrar daqueles papéis entregando para o maior número possível de pessoas e quanto antes eu terminar mais cedo vou para casa.

Fico triste de pensar que hoje muita gente não entende que se panfleteie por ideologia, que só se entrega papelzinho de candidato em troca de um dinheiro no fim do turno. Que eu posso estar na muvuca do Centro de Porto Alegre no fim da tarde de sexta-feira, quando uma penca de gente se aglomera para voltar para suas casas e curtir o fim do dia, da semana, e outros tantos buscam o ônibus que os levará para o interior, para votar em sua cidade natal.

Se eu estou lá distribuindo a colinha dos meus candidatos a deputado (Ivar Pavan federal e Marcelo Sgarbossa estadual), senador (Paim e Abgail), governador (Tarso) e presidente (Dilma), é porque acredito neles. É porque vejo neles a possibilidade de continuar construindo um país mais justo e mais igual. Gostaria de acreditar que cada um que lá está pegasse o seu folder e o lesse com atenção. Sei – porque ajudei a construir linha por linha das que lá estão – que tudo o que está dito é verdadeiro. Se está lá é porque é possível fazer e porque o meu deputado irá lutar pra fazer.

Sei disso porque uma vírgula fora do lugar era motivo de comentário do coordenador da campanha: “mas isso não dá pra fazer, não adianta. Não, tem que colocar desse jeito”. Às vezes, os textos ficavam grandes demais. Como explicar tantas propostas em tão pouco espaço? Mas me orgulho de dizer que trabalhar ao lado de Ivar Pavan é contribuir para o exercício coerente e honesto da política.

E é por isso que panfleteio de coração, porque minha consciência manda que eu faça o máximo, que eu me dedique a fazer o que estiver ao meu alcance para eleger um deputado federal comprometido com as necessidades do povo que representa. Que vai lutar por ele e que tem capacidade para garantir muitas conquistas.

Por isso, amigo, não pega o panfleto para “me ajudar”. Pega e lê com carinho, com o cuidado de quem tem o poder de escolher. Com a certeza de que quem distribui esse material o faz por convicção. Que não é como tantos vinte e cinco alguma coisa, quarenta e cincos, quinzes que me dizem “eu pego um teu e tu pega um meu pra terminar mais rápido”. Ali, não há quem o faça por certeza de um futuro melhor. Aqui há.  E é por isso que nesse último dia pré-eleição arranjei um tempo para explicar por que voto em Ivar Pavan e Marcelo Sgarbossa. Está no próximo post.

Ainda há quem panfleteie por ideologia

Para que serve a política eleitoral?

Em teoria, o sistema eleitoral é uma solução democrática, inteligente. Candidatam-se nomes e a maioria decide quem as representa. Voto direto, simples. Não tem como dar errado.

Mas aí entram o dinheiro e o poder, que muitas teorias esqueceram de incluir na análise. Primeiro que muitos dos candidatos a qualquer cargo – eu diria a maioria – não está interessada simplesmente em fazer o melhor dentro de sua visão política, de sua ideologia. E aí nem entro no mérito de esquerda e direita, do que é melhor de fato para a população. Naquela visão política primitiva, o povo seria capaz de julgar a partir dessas questões, e cada eleitor escolheria um candidato cujas posições convergissem com as suas.

Em uma eleição, o dinheiro se torna muito mais definidor do que propostas ou ideias. Um cara que tem grana para fazer uma boa música, espalhar muitas placas e cartazes, pagar por uma equipe experiente e um bom material de campanha, normalmente se elege. Ganha quem aparece mais. Aparece mais quem tem dinheiro.

Acompanhei uma reunião de campanha de um candidato a deputado estadual sem grana. Havia uma pessoa além dele completamente dedicada a fazê-lo se eleger, que disponibilizaria todas as horas dos seus dias nos próximos meses para isso. Ele seria o coordenador da campanha, o tesoureiro, o mobilizador. O resto do pessoal faria o possível depois do trabalho, nas noites em que não tivesse aula, quando não ficasse preso em alguma reunião, quando não tivesse que cuidar dos filhos. Dedicação mesmo, na garra, no amor. Bonito até. Mas avalio que ele não se elege. Diria que é praticamente impossível.

Esse cara tem sua carreira voltada para os direitos humanos. É uma pessoa boa, séria, verdadeiramente comprometida, com vontade de fazer coisas bacanas no Rio Grande do Sul.

Quantos outros vão se eleger sem esse perfil?

Fico imaginando não só candidatos assim, mas quantas pessoas capazes, sérias, com perfil político ou técnico de qualidade, discutindo por sei lá eu quanto tempo como proceder com o jingle da campanha. Perdendo tempo nisso que ajuda a eleger o candidato, mas que não vai mudar em absolutamente nada a sua atuação. Que importância tem a música, a cor do fundo da foto, o número de placas a serem espalhadas?

Política. Ideias se transformam em negócio.

E aí políticos do mesmo partido, com ideias semelhantes em muitos pontos – e que divergem em outros, como todo o mundo – acabam se afastando, porque a rotina da disputa diária acaba com as relações.

Fico imaginando aquelas equipes que investiram não só muita grana, mas também tempo, dedicação, amor a uma campanha e não veem o nome de seu candidato entre a relação de eleitos. A frustração. A sensação de tempo perdido, de quanto tudo aquilo era inútil. E por quê? Para quê?

Fico com a sensação de que alguma coisa está errada. Ou será que sou eu?

Para que serve a política eleitoral?

O conveniente discurso da falta de ideologia

Faço um desabafo meio rançoso, mas que ainda acho que se aplica de fato. É uma complementação ao post anterior, que discute a política de alianças e a falsa ideia de que, em função de coligações não muito lógicas, coloca todos os partidos e todos os políticos no mesmo balaio.

Pois bem, esse discurso é típico da classe média (e para a classe média), tenho que dizer. Essa classe média do esterótipo, que lê a Veja, acha que entende de política mas não sabe direito o que caracteriza esquerda e direita e esbraveja contra a existência de moradores de rua porque enfeiam a cidade. A tese defendida aqui não é nova, muito pelo contrário, mas tampouco se trata de uma teoria da conspiração.

Acontece que, além de ser feito por e para a classe média, ele é incentivado pela mídia. Não há como negar, é só ler os jornais. É que interessa. Serve perfeitamente aos interesses oportunistas dos sem-projeto e sem-ideologia, que a imprensa dita grande representa.

A lógica é simples: se duas pessoas querem a mesma coisa, mas só uma tem o diferencial que a permite alcançar o objetivo, para a outra é bom que se acredite que todos possuem aquela característica. No lugar de aparecer como inferior, aparece como igual. Não é melhor, mas também não é pior que o outro.

Se o PMDB não tem ideologia, é melhor que ninguém tenha. Assim nenhum diferencial vai orientar a disputa, que fica de igual pra igual. Conveniente.

O conveniente discurso da falta de ideologia

O problema não é a crise de hegemonia, mas como lidar com ela

Não se consegue mais controlar pessoas pela ideologia. Não há uma forma de pensar, uma forma de ver o mundo que partilhe da unanimidade – ou quase – da população, um senso comum. Não há um american way of life que faça com que todos hajam da mesma maneira, tenham os mesmos objetivos, julguem a vida a partir da mesma ótica. Esse é o argumento principal da matéria de Antonio Luiz M. C. Costa sobre a crise de hegemonia do Ocidente, capa da Carta Capital dessa semana.

A hegemonia é tratada por ele do ponto de vista de Gramsci, que é mais ou menos isso que foi descrito no parágrafo anterior como inexistente, como em crise. Não sei se concordo. Compartilho da visão do jornalista de que surgem o tempo todo grupos que divergem do tal senso comum, que na Europa principalmente a coisa é muito grave com relação aos imigrantes, que nos Estados Unidos aparecem terroristas que definitivamente não concordam com a visão do Estado.

Mas ainda acho que há um senso comum capitalista. Ele é centrado no consumismo, tem nele sua base. Emir Sader falou em uma palestra, também já li textos dele a respeito, que o mais difícil de enfrentar na direita é a dominação ideológica, centrada justamente no consumismo. Isso é difícil de romper, é o terreno onde fica mais complicado de lutar.

A matéria informa que é devido a essa crise de hegemonia, que concordo que há, mas em escala menor do que o autor atribui, que são tomadas medidas autoritárias, que usem a força. Naquela velha tática de que quando conversar não resolve, palmada. É a força bruta, guerras, violência contra imigrantes, mas também coerção, humilhação, invasão. Tanto por grupos extremistas como pelo governo.

Humilham-se os imigrantes, a xenofobia só cresce, tanto na Europa quanto em outros lugares, inclusive na América Latina – em São Paulo, por exemplo, cidade que recebe muita imigração, bolivianos são tratados como lixo. Nos Estados Unidos, foi aprovada a continuidade de medidas coercivas do governo Bush, como vigilância telefônica, invasão de residências etc. E como não lembrar da paranóia em que se transformaram os aeroportos?

Isso tudo serve para combater supostos terroristas, ou seja, a divergência, o pensamento diferente. Funciona? Claro que não. A paranóia só tem aumentado, acompanhada de medo, pânico. E com eles a desorganização, o caos. A violência só aumenta, porque as divergências ficam mais claras com esse combate a elas. E aumentam.

Se há uma crise de hegemonia que vem preocupando pela exacerbação da violência, pelo crescimento do número de atitudes radicais, pela força cada vez maior da extrema direita, ela não pode ser combatida com mais hegemonia. A matéria não fala qual é a solução para o problema, até porque encontrá-la é tarefa das mais difíceis, e resolveria os conflitos atuais mais importantes. Mas definitivamente, boicotar as ideias divergentes não parece o melhor caminho. A Carta Capital afirma: “A combinação de ódio, medo e força acabam com as possibilidades de consenso”. Mas o consenso é bom? Bom para quem? A dominação fica mais fácil, é fato. As elites lucram com a calmaria. Já diria Nelson Rodrigues que toda unanimidade é burra. E olha que ele era de direita, que é exatamente onde se encontram aqueles que querem coibir a qualquer custo os que não se encaixam no padrão ocidental.

Se há uma solução para essa crise, ela passa pela tolerância. Religiosa, racial, de gênero, de fronteiras. É no respeito à diversidade que se vai chegar à paz. Se isso vai de fato acontecer, impossível saber. Mas só enxergo essa alternativa. Quanto mais agredida uma pessoa se sentir por determinada característica ou forma de pensar, mais revoltada ela vai ficar. Violenta. A solução se resume em tolerância e solidariedade.

O problema não é a crise de hegemonia, mas como lidar com ela

PMDB, PT, PDT e a negociação de apoios no RS

Voltando ao assunto dos apoios e coligações no RS, as disputas e alianças entre PMDB e PT, envolvendo PDT, PTB etc., só de pode chegar a uma conclusão: que coisa feia que é a política brasileira! Tem nomes bons, sim, mas eles acabam se perdendo nesse mar de lama e de jogos de interesse. Os partidos teoricamente se constituiriam em torno de uma ideia. Faz parte do partido quem compartilha daquela ideia. Ideologia, se chama isso.

Pff, parece coisa do passado. A gente lê no jornal como uma coisa natural o PMDB gaúcho estar dividido entre o apoio a Dilma ou a Serra e cogitar ainda a ideia de um candidato próprio do partido – com o qual só os gaúchos ainda sonham, diga-se. Como pode um partido estar dividido entre dois projetos antagônicos? Cadê a ideologia? Qual é a ideologia do PMDB?

Claro, falar do PMDB é sempre muito divertido. É o caso mais evidente dessa muvuca que a gente chama de política partidária. É o partido que é sempre oposição e governo, que apoia qualquer tipo de candidato sem corar o rosto de seus líderes.

Mas não é o único a lidar com tal desfaçatez, muito pelo contrário. Vejamos outro exemplo: no RS, PMDB e PT são como vinagre e azeite, não se misturam de jeito nenhum. Todas as eleições preveem uma disputa entre os dois partidos, embora alguns acabem correndo por fora. O PSDB do estado não tem a mesma força do nacional, de forma que foi quase um golpe de sorte – ou de muito azar, no caso – a eleição de Yeda Crusius como governadora. Mas não tem nenhum outro nome que se destaque. O dela própria, aliás, já não se destacava.

Ainda assim, com essa polarização entre PT e PMDB, o PDT fica negociando o apoio nas eleições de 2010. Joga uns dados com um, vai lá e joga mais uns com o outro. Vai acabar fechando com o PMDB, como já está quase certo, até porque herda a prefeitura de Porto Alegre, à qual o peemedebista José Fogaça vai renunciar para se candidatar ao governo do estado, deixando o posto de brinde para José Fortunatti, ex-PT, atual PDT. Mas namorou por bastante tempo a ideia de apoiar a candidatura de Tarso Genro, do PT. O objetivo de toda a negociação era ver com qual dos dois apoios o PDT sairia com mais vantagens. Em nenhum momento se cogitou analisar projetos e estabelecer uma afinidade ideológica.

Assim, a política brasileira é uma confusão de siglas, nomes, alianças. Um partido pode ter uma postura completamente diferente em dois estados ou em nível federal. Chega a ser quase maldade pedir para o leitor lembrar em quem votou na última eleição, apesar de isso ser bastante importante.

E dá pra levar a sério uma coisa dessas?

PMDB, PT, PDT e a negociação de apoios no RS

O PMDB

Descobri na Carta Capital que chegou ontem na minha casa (edição n° 565), na coluna Andante Mosso, do Maurício Dias (sempre muito boa, por sinal) uma informação interessante:

“Orestes Quércia e Michel Temer trocaram de posição.

Em 2002, Quércia apoiava Lula e tentou demover Temer que apoiava Serra. Agora, Quércia apoia Serra e tenta demover Temer que apoia Lula.

Na conversa entre os dois, Temer se sustentou na coerência para sair do cerco de Quércia. E disse:

‘Tanto naquela época como agora meu argumento é um só: o PMDB está no governo e deve apoiar o candidato do governo’.”

É um oportunismo bem coerente mesmo. Agora, do ponto de vista ideológico…

Mas bom, afinal de contas, dentro do PMDB alguém ainda sabe o que é ideologia?

(Para quem leu e pensou que eu podia ter dito “dentro da política brasileira” em vez de “dentro do PMDB”, vai uma breve explicação: se eu dissesse isso, pecava pela generalização, já que colocava os poucos que se salvam dentro do mesmo balaio do restante que já está podre. Mas, restringindo ao PMDB, não corro esse risco. Não há os poucos que se salvam!)

O PMDB