Por que Igreja não combina com religião

Olha, não é muito difícil de explicar essa discrepância. Na verdade, difícil é entender como as coisas chegaram à situação atual. Por situação atual, refiro-me aos últimos séculos. Estou tratando, fique bem claro, de Igreja Católica.

Peguemos a síntese, a base da fé cristã. A história de Jesus que nos é contada dá conta de um homem pobre, nascido no meio do nada, filho de pais puros – ainda que um não fosse bem o pai, mas uma espécie de padrasto, e me refiro a José (aliás, esse parentesco me intrigava muito na infância, dado que concubinato não era aceito, mas José criava o filho da esposa com outro homem, que não era exatamente um homem… mas estou tergiversando) -, humilde, bom, generoso. Jesus, aquele judeu da história escrita naquele livro que chamam de Bíblia, defendia a igualdade entre os homens – não tanto entre as mulheres, mas pulemos essa parte por enquanto.

Corta. Passam uns 15 séculos.

Europa medieval. Católicos x muçulmanos. Invasões de lado a lado, disputa de impérios. Não é de agora que a Igreja, com sede em Roma, não gosta muito dessa história de dividir território. E aí falo literalmente. As cruzadas foram guerras “religiosas” com o objetivo econômico de dominar o espaço e conquistar poder.

1492. Os muçulmanos são expulsos de Granada, a última cidade espanhola que resistia. Ao mesmo tempo, católicos de fé chegam às Índias Ocidentais. A América.

Os índios ocupam estas terras. Ocupavam. Seres inferiores segundo a ótica europeia-cristã, são explorados, escravizados, trucidados, massacrados. Os europeus são mais iguais do que os índios na igualdade do Jesus do século XV.

Ao mesmo tempo, na Europa, mais iguais que as mulheres são os homens. Os católicos são mais iguais que os judeus. Bruxas, homossexuais, negros não são tão iguais assim. A igualdade de Jesus, 15 séculos depois, virou a igualdade do poder. Quem tem poder é igual a quem tem poder. Os outros são diferentes. A Inquisição durou centenas de anos, com mais intensidade em momentos diferentes em cada lugar.

Passam mais alguns séculos. Agora estamos na metade do século XX. 1964. No Brasil, o país que quase não tem mais índios – em Porto Alegre ainda os há, mendigando nas ruas e praças com suas crianças se arrastando pelos chãos -, alguns homens decidem que o presidente não pode mais governar. O motivo? É comunista. Famílias unem-se aos militares, chamados pelo poder de deus. A Igreja usa seu deus para amedrontar as famílias de bem contra o terror dos comedores de criancinhas. Nada pode ser pior do que um vermelho no poder, dizem.

As famílias acreditam. Não questionam. Não questionam. Não faz sentido. Mas não questionam.

Por que os comunistas são malvados? Eles defendem, afinal, que todos vivamos em igualdade. Não era igualdade o que pedia Jesus? O Jesus pobre quer ser igual, mas quando fica rico entende a diferença. Quer ser mais diferente. Ou mais igual?

Vinte séculos depois do humilde Jesus, filho de uma pobre Maria e de um desgraçado José, um fardado arrogante usa sua imagem para subir ao posto máximo da nação brasileira.

Nos 21 anos seguintes, homens perseguem homens. Os mais iguais torturam os menos iguais. Exilam. Seviciam. Matam.

Era isso que queria Jesus?

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Aviso aos leitores: antes que sejam feitas interpretações equivocadas, deixo claro minha posição. Apesar de não crer, respeito quem acredita na história de Jesus. Minha crítica se refere ao que a instituição Igreja fez da imagem dele. Jesus, se existiu, foi deturpado, transformado, usado para atender interesses de uns poucos detentores de poder que julgam poder julgar. Que selecionam – com que poder, meu deus? – quem merece mais e quem não merece nada. Que escolhem quem é bom e quem é mau, de acordo com seus critérios, que obedecem exclusivamente a seus interesses. Minha crítica não é, pois, a Jesus, mas ao que fizeram dele.

Por que Igreja não combina com religião

Igreja é hipócrita ao pregar bondade

O irmão do papa, que é padre, admitiu que maltratava meninos do coral de Regensburg, na Alemanha, que ele comandou de 1964 a 1994.

“No começo eu dava uns tapas no rosto, mas me sentia mal sobre isso.”

Ah, fiquei com muita pena, o pobrezinho se sentia mal. Isso sem contar nas denúncias de abusos cometidos por outros integrantes da Igreja com o mesmo coral. E o irmão do papa vem dizer que não sabia de nada. É de dar nojo. Depois falam mal da camisinha, criticam pesquisa com células tronco, posam de santos. E não querem ser criticados. Ai, fico tão indignada quando leio uma coisa dessas. Porque, por mais que o “pecado” de Georg Ratzinger tenha sido pequeno se comparado ao de outros padres, ele fere os princípios que os verdadeiros católicos, os bons, defendem. Eu acho que não é preciso uma religião para acreditar nisso, mas o Catolicismo prega a bondade, o perdão, o dar a outra face. Soa tudo tão hipócrita…

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As informações são da Zero Hora, inclusive a citação de Georg Ratzinger.
Igreja é hipócrita ao pregar bondade

Crueldade

cruzÉ notícia hoje, todos os jornais falam. Uma menina de onze anos está grávida de sete meses, internada no hospital, a gravidez é de risco. Foi estuprada pelo padastro. Os jornais também lembram outro fato recente e parecido. Dessa vez a menina tinha nove. Crianças. Nesse caso, optou-se por não levar a gravidez adiante, ela era muito nova, não se sabia como seu corpo reagiria, que sequelas aquele absurdo poderia deixar. Nenhum jornal fala em como a criança lida com isso, em como ela sofre com isso, embora esteja implícito. A interrupção da gravidez foi recomendada pelo médico, por motivos clínicos, não psicológicos ou sociais. Pelo menos o médico foi sensato.

No Jornal Hoje, um padre velho, com cara de velho, não só de idade, mas de espírito, aparência feia de pessoa de alma feia, foi justificar a excomunhão do médico e da mãe da menina. Onde já se viu interromper uma gravidez? E a vida? “Os fins não justificam os meios”, ele disse. A menina tinha nove anos. Ela provavelmente não vai se recuperar do que lhe aconteceu nunca. Ela foi estuprada, dá pra imaginar? Ela, que brincava, e que brincaria ainda por muito tempo. Sabe-se lá o que ela pensa agora, como ela vai pensar no futuro. E era essa menina que o padre queria que carregasse outra criança. Isso tudo me é tão absurdo que não consigo nem articular um pensamento que explique esse absurdo. Para mim, está explícito, qualquer um vê. O que a Igreja (Católica, ressalte-se) fez, o que ela faz, o que ela sempre fez e parece que vai continuar fazendo por muito tempo ainda é crueldade. Crueldade.

Esse caso escancara a crueldade. Mas ela é cruel quando não permite o prazer às pessoas, quando defende a elite e pune quem ousa falar pelos pobres. Ela é cruel quando persegue outras religiões, quando mata em nome de deus. Que deus? Quando pune quem pensa diferente, quando joga na fogueira, quando faz velhinhas pensarem que deus é amor. O deus dessa Igreja é ódio. Será tão difícil de ver que tudo o que a Igreja traz para o mundo é maldade? E não é nenhuma obra de caridade feita em alguma paróquia por aí, ou algum pensamento ecumênico mais recente que vai me fazer mudar de ideia. É fachada. A Igreja é cruel em seu cerne. É má, ponto.

Crueldade