A oposição entre os Fóruns da Igualdade e da Liberdade

Entre hoje e amanhã, dois eventos bem diferentes acontecem de forma simultânea em Porto Alegre. A primeira edição do Fórum da Igualdade nasceu como contraponto às ideias defendidas pelo Fórum da Liberdade, que já está em sua 24ª edição anual. A cidade das oposições e dos contrapontos é o lugar mais adequado para receber os dois eventos.

As diferenças começam pelos organizadores. O Instituto de Estudos Empresariais (IEE) é o responsável pelo Fórum da Liberdade, enquanto a Central Única dos Trabalhadores do estado (CUT-RS) e a Coordenação dos Movimentos Sociais organizam o Fórum da Igualdade. De um lado empresários, de outro trabalhadores. Lembra até a base da teoria marxista, com a oposição entre capital e trabalho.

Os palestrantes, nos dois casos, são uma lista bem extensa. O que têm de semelhante no tamanho diferencia-se no perfil. O neoliberalismo é a ideologia defendida pela grande maioria dos participantes do evento na PUC-RS, que pagam R$ 50 para assistir a programação. A principal defesa a unir os participantes do Fórum da Igualdade, gratuito, na Assembleia Legislativa, é a democratização da comunicação, tema central do evento. Não consigo imaginar alternativa de alguém se identificar com ambos os foruns.

De certa forma, porém, nenhum dos dois escapa à contradição. Liberdade é coisa rara na sociedade defendida pelos participantes do Fórum que leva esse nome. Uma sociedade profundamente desigual, forjada no Estado-mínimo, garante liberdade apenas para uma minoria. O mercado é livre, e assim o são todos os que adotam sua cartilha. A massa, no entanto, diferencia-se pela falta de acesso aos serviços mais básicos, nos quais o Estado deixa de investir, já que quem manda é o mercado, e a falta de recursos impede que consigam exercer a liberdade de que teoricamente dispõem. É, portanto, uma liberdade falsa, daquelas que se encontram no papel, mas não na prática do dia-a-dia.

O Fórum da Igualdade, por outro lado, cai na contradição no momento em que surge como oposição ao da Liberdade, e apenas por isso. Acontece que igualdade e liberdade não se contradizem, muito pelo contrário. Para que haja uma sociedade justa e igualitária, é preciso haver liberdade. Uma liberdade muito diferente da defendida pelo Fórum do IEE. Uma liberdade garantida por um Estado atuante, o que não é o mesmo que um Estado repressor.

Igualdade não disputa com liberdade, mas abrange-a.

Participo, nestes dois dias, do Fórum da Igualdade, que, embora caia nesta contradição por colocar-se como um contraponto, defende justiça social com liberdade de fato. Contradiz-se no nome, não na forma. A discussão encontra-se, inclusive, em um dos painéis do evento: “Democratização da democracia: Existe liberdade sem igualdade?”. A maior prova é o tema escolhido para o evento. A democratização da comunicação é a maior forma de promover igualdade e tornar livre de amarras o cidadão de qualquer lugar e qualquer classe social. Dar voz a quem não tem é a verdadeira libertação do povo.

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A oposição entre os Fóruns da Igualdade e da Liberdade

Racismo, machismo e homofobia: a dificuldade de uma transformação cultural

O que mais surpreende na entrevista que o deputado Jair Bolsonaro deu pro CQC e na nota de explicação publicada a seguir é a naturalidade com que ele disse as coisas que disse. Ele não achava que estava falando nenhum absurdo quando fazia comentários machistas ou homofóbicos. Isso mostra o tamanho do desafio que a gente tem pela frente, que é o de enfrentar distorções culturais arraigadas na nossa sociedade.

Assim como a violência contra a mulher, fruto de uma cultura paternalista que coloca o homem em posição superior à mulher na sociedade, o mesmo tipo de influência cultural faz com que sejamos racistas, com que desprezemos os relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo. Por quê? De que forma essas relações nos prejudicam, nos afetam negativamente? Por que a gente não pode entender o outro como um igual? Por que a gente não pode respeitar as decisões do outro?

Assim como um tem olhos escuros e outro olhos azuis, um é branco e outro é negro.

É uma cultura forte que vem de séculos, por conta da influência religiosa, da escravidão, da disputa entre nações e outros fatores. O que explica, mas de forma alguma justifica. Não há explicação que justifique esse ódio, essa discriminação, esse preconceito tão grande.

Mudar isso, transformar a cultura, é muito complicado, um desafio enorme. Mas que está posto e que temos que enfrentar em nome de uma justa. Em nome de mais igualdade, dos direitos humanos, dos direitos de cada cidadão. Porque não há lugar algum que diga que um ser humano é superior é outro pela sua cor, pela sua orientação sexual, pelo seu gênero.

Racismo, machismo e homofobia: a dificuldade de uma transformação cultural

A liberdade seletiva do Instituto Millenium

Aconteceu hoje mais um Fórum da Liberdade, no Rio de Janeiro, organizado pelo neoliberal Instituto Millenium. Um bando de gente reúne-se para debater a liberdade de acordo com o seu conceito ideológico. Eles se furtam de discutir para quem é a liberdade que defendem. Quando o diretor de conteúdo do Grupo Estado ou o vice-presidente institucional e jurídico do Grupo RBS fala em liberdade de comunicação, por exemplo, ele se refere à atual liberdade de disputar comercialmente quem tem mais dinheiro para estabelecer um grande grupo de comunicação que influencie a opinião pública ou o acesso de toda e qualquer pessoa, independente de raça, credo, classe social, região, gênero, à produção de conteúdo?

Será que um escritor que critica a criação de leis por parte do Estado com base no argumento da liberdade de cada cidadão também é contra a lei que proíbe a organização sindical, aprovada semana passada pelo estado de Wisconsin, nos Estados Unidos? Esquece o dito pensador que o Estado existe com a função, entre outras, de criar leis para permitir que a liberdade seja para a maioria das pessoas. Para que os mais fortes ou poderosos não imponham suas ideias ou vontades sobre os outros cidadãos por causa do poder que detêm. Ou seja, para que o lema de que a liberdade de um termina quando começa a do outro seja respeitado.

Mas o Fórum não deixa de ser divertido. Uma mesa com a participação de Leandro Narloch, Marcelo Tas, Reinaldo Azevedo e Rodrigo Constantino, com a mediação de Monica Waldvogel, por exemplo, deve ter sido um excelente programa de humor. Hilário é também um livro intitulado O Estado-babá, daquele pensador que critica a criação de leis. O Fórum da Liberdade é isso, uma comédia da sociedade atual. Uma reunião de ditos pensadores em defesa de uma ideologia fracassada, que, ao ser colocada em prática, gerou a maior crise mundial desde 1929. Aliás, o correto seria que nem precisássemos mencionar esse tipo de evento, se não estivéssemos presenciando um renascimento do neoliberalismo na União Europeia e nos Estados Unidos, que aplicam no doente o vírus que o acamou.

O contraponto

Nos dias 10, 11 e 12 de abril, acontece em Porto Alegre o Fórum da Igualdade, com uma agenda voltada para a inclusão social, em uma programação em torno da questão da comunicação, com protagonismo de blogueiros, chargistas e outros distantes da tal grande imprensa que participa ativamente de discussões como a que se deu hoje no Rio. Apesar de louvar a iniciativa de um contraponto, fica a ressalva de que liberdade e igualdade não se opõem, mas se complementam, como já comentei por aqui. O Fórum da Liberdade não valoriza a igualdade, mas o contraponto deve enfatizar a existência de ambas, combinadas.

A liberdade seletiva do Instituto Millenium

Feminismo nada mais é que a luta por igualdade

Já tive épocas de não concordar com isso de Dia da Mulher, Dia do Negro, Dia do Índio etc. Achava que o fato de ter um dia específico para marcar cada categoria (na falta de uma denominação melhor) era por si discriminatório, que escancarava que existiam diferenças onde não deveria haver.

Até que eu me dei conta que o Dia da Mulher não serve para ganharmos flores. Que o Dia da Mulher – assim como do Negro, do Índio e outros – representa a luta de cada um desses que foram oprimidos, discriminados, explorados, submetidos. Que não é o Dia da Mulher, mas o dia da luta da mulher pelo seu espaço na sociedade. Acima de tudo, um dia de reflexão sobre por que diabos a mulher ainda hoje tem menos espaço que o homem.

É por isso que, mesmo atrasada, resolvi escrever.

No colégio, a cada data dessas representantes de alguma luta, discutíamos em sala de aula, pesquisávamos, fazíamos trabalhos a respeito… Entendíamos melhor a história e o contexto que levou à criação da data, e lembro muito bem de ficar espantada e indignada com algumas coisas que eu aprendia. Entendi, com o passar dos anos, que aquela era uma oportunidade justamente disso, de gerar indignação. Que, mesmo que não fosse mudar radicalmente o pensamento e principalmente o comportamento da maioria da população, pelo menos criava uma simpatia pela causa, um debate saudável.

Esse ano, temos um motivo especial para comemorar. Independente de identificação política ou da forma como foi construído o imaginário popular ao longo da campanha do ano passado, não é pouca coisa termos uma presidenta mulher. O fato de ser mulher, evidentemente, não garante bom governo ou acerto político. Não garante comprometimento ou sensibilidade. Não garante nada. Mas termos elegido uma mulher para presidenta do Brasil significa que rompemos barreiras de preconceito paternalista e machista. E é seguindo o mesmo raciocínio da defesa de um Dia da Mulher que hoje defendo a utilização do termo presidenta no lugar do neutro presidente. É preciso marcar a conquista, como uma forma de enfiar na cabeça das pessoas que, sim, ela pode, nós podemos, todos podem.

Feminismo por solidariedade

Ontem assisti a reprise de uma conversa na GloboNews – no Entre Aspas, com Mônica Waldvogel – sobre o feminismo. As convidadas apresentaram perspectivas muito interessantes a respeito. Primeiro, enfatizaram a questão da chamada para a reflexão provocada pelas datas simbólicas.

Não vou entrar no mérito do debate sobre feminismo comparando culturas ocidentais e orientais. Tema delicado, pelo qual passaram muito bem as convidadas. Nesse ponto quero apenas destacar a relação que a filósofa e estudiosa do feminismo Márcia Tiburi estabeleceu entre a alijante vestimenta muçulmana, que proíbe a mulher de mostrar até o rosto, com a nudez ocidental, especialmente a brasileira, que também ofende e subjuga a mulher, tratada como objeto. A cultura da mulher magra, gostosona, um “modelo imposto”, como acrescentou Mônica Waldvogel.

Mas prefiro destacar as posições de Márcia Tiburi que apresentam o feminismo como uma luta por igualdade, pelos direitos dos seres humanos, não simplesmente por um gênero. “O feminismo é uma busca de voz”, para que mulheres tenham os tais “direitos humanos” como todo ser humano.

A parte mais interessante é quando Márcia Tiburi provoca as mulheres para que se tornem “feministas por solidariedade”. Se a mulher já desfruta de direitos iguais aos de seus colegas e amigos homens, ela pode se tornar feminista para garantir condições iguais entre os gêneros que beneficiem a grande maioria de mulheres que sofrem com isso.

Por experiência própria

Eu circulo entre pessoas de esquerda, muita gente esclarecida, que luta diariamente pela igualdade, pelos direitos dos que mais sofrem, dos que normalmente não são vistos pela maioria da população. Dos que não são lembrados. É gente que luta pelos direitos humanos, enfim. E convivo quase que diariamente com manifestações de incredulidade. Me olham torto, com uma cara de interrogação, como quem pergunta o que eu estou fazendo ali, naquele trabalho de homens. Pior ainda são os que se surpreendem ao constatar que ela até que é competente para uma mulher. Não é o pessoal com quem trabalho diretamente, mas muitos dos homens com quem acabo tendo que lidar em função do trabalho ou de outras atividades. Independente de vinculação partidária, identificação política, classe social ou estilo de vida.

Mas o pior, péssimo mesmo, é ter que desconversar sempre que um homem não consegue conversar com uma mulher sem ver nela algo a mais do que uma profissional. Dia desses recebi no trabalho a visita de um blogueiro que, além de ficar extremamente surpreso com o fato de eu manter um blog que lhe rendeu elogios, não conseguiu conversar sem elogiar traços físicos. Em não mais do que cinco minutos. E garanto, isso não é pela mulher ser linda, gostosa ou o que for. É só por ser mulher. Porque mulher, para ainda muitos homens, é só isso. Ou é principalmente isso. Eles até admitem a possibilidade de uma mulher se destacar em alguma atividade intelectual, mas muitos não conseguem ignorar o corpo. É o resultado de muito tempo de cultura machista. E justamente por isso é que é preciso afirmar, cada vez mais alto, que está errado. Que cada homem e cada mulher tem que fazer um exercício diário de conscientização. Para mudar. Para acabar de vez com o machismo. Espero pelo dia em que discutir feminismo seja algo ultrapassado e retrógrado. Algo desnecessário.

Feminismo nada mais é que a luta por igualdade

Argumentar é diferente de impor opinião

Sempre me incomodei muito com gente que não sabe discordar. Mas não sabia bem se devia escrever a respeito, e principalmente como fazê-lo. Sabe como é, o pessoal interpreta, pode achar que é recado pra alguém ou me achar um tanto arrogante. Talvez até seja – desculpa, gente, juro que tento mudar meus defeitos.

Na dúvida, em vez de não escrever, de deixar de lado um tema meio espinhoso, decidi simplesmente sentar e escrever. Bem assim, como me vier à cabeça. Não que isso seja exatamente uma novidade, mas enfim. Tá, chega de floreios e vamos ao que interessa.

O fato é que o Sakamoto escreveu antes de mim, e disse tudo bem parecido com o que eu penso. Mas, como o assunto pode ampliar, escrevo um pouco mais, sigo para outros caminhos dentro do mesmo tema.

Pro Sakamoto, pensar diferente não impede que se goste do convívio de alguém. Ok, acho que eu dificilmente vou casar com um cara de direita, mas esse convívio é mais extremo, mais intenso. Mas ir pra uma mesa de bar, maravilha. Posso discordar peremptoriamente. Mas não posso, de forma alguma, ultrapassar o limite do bom senso e partir para a agressão. E chegamos aonde eu queria, finalmente.

Pensar diferente não me dá o direito de achar que a razão está comigo. É evidente que eu acho que estou certa, afinal, é minha opinião (dã). Mas eu tenho sempre que considerar que posso, sim estar errada. Ou seja, tentar impor a minha verdade não só é desagradável como é muito feio.

E aí é fundamental diferenciar “impor a verdade” de “argumentar”. Posso construir uma argumentação lógica que mostre ao outro cidadão por que eu acredito que o que eu estou dizendo é mais correto. Ele pode concordar comigo ou não. Se ele não concordar, pode argumentar comigo ou não ser capaz de fazê-lo ou ainda nem querer fazê-lo. Mas, se ele optar pela argumentação, aí eu tenho que ouvir. Mostrar que tenho, sim, bom senso, e levar em consideração o que ele disser. Quem sabe até não mudo um pouco ou muito de opinião?

Ouvir o outro fulano me fornece inclusive subsídios para ratificar a minha defesa inicial, em alguns casos. Mostro que ouvi, considerei, mas aquilo não necessariamente faz sentido. Meu poder de convencimento aumenta.

Mas não é só por isso que devo ouvir. É principalmente porque é legal, sabe. Porque a gente constroi as ideias assim. A construção coletiva, com um pedacinho de cada um, costuma ser mais rica e mais completa. Porque, como disse o Sakamoto, não existem verdades absolutas. E, digo mais, não existem nem oposições absolutas. Quer dizer, a coisa não precisa ser isso ou aquilo, de forma rígida. Ela pode ser um pouco disso, um pouco daquilo, um tanto mais daquele outro, ou nada disso. E falando e ouvindo a gente aprende e cresce.

Mas aí tem que saber argumentar. Dosar a pílula. Quando a gente se exalta, perde a razão. Xingar – mesmo que às vezes o sujeito mereça – não é bom. Faz mal, é deselegante, mostra uma extrema falta de respeito e, ainda por cima, não é útil. De um modo geral, todo o argumento lógico se perde por conta de um escorregão assim.

Enfim, todo esse post meio inútil e sem sentido é pra dizer que a sociedade é plural. Que o conhecimento é múltiplo e que a construção é coletiva. Que a gente ganha muito mais trocando do que impondo. E pra dizer que é por tudo isso que eu sou de esquerda. Parece contradição, né, estou aqui defendendo que temos que ouvir todos os lados, que minha razão não é bem a razão e tal e coisa, mas o simples fato de um cidadão considerar que todos têm contribuições a dar faz dele um defensor da igualdade. Faz dele um cidadão de esquerda.

Argumentar é diferente de impor opinião

Liberdade com igualdade, sim senhor

Liberdade é fundamental. Mas ela só faz sentido se for para todos. Senão, e isso é muito importante de salientar, não liberdade.

Quando a liberdade de alguns ajuda a perpetuar desigualdades, o resultado é a restrição da própria liberdade.

Uns dias atrás, um comentário aqui no blog disse que “das ideias defendidas na independência americana (propriedade, igualdade e liberdade), a esquerda é mais inclinada a buscar um maior nível de igualdade, ainda que ao custo de uma maior restrição à liberdade de seus cidadãos, enquanto que a direita defende o contrário, um aumento na liberdade dos indivíduos, ainda que isso possa criar um pouco de desigualdade”.

Essa diferenciação é defendida por quem não acredita na possibilidade de existência de igualdade e liberdade ao mesmo tempo. Não acredita, portanto, na capacidade do ser humano de defender os seus iguais quando é livre para não fazê-lo. É um argumento interessante para justificar a desigualdade de nossas sociedades capitalistas. Interessante, mas falho. É coisa de quem baseia sua perspectiva de um ponto de vista cultural restrito. A ótica é sempre a americana. E ainda por cima distorcida.

Ainda que imperfeita, a Revolução Francesa, por exemplo, defendia a harmonia entre liberdade e igualdade, ainda com o acréscimo da fraternidade, em uma espécie de tripé da sociedade. No fundo, mesmo os americanos em sua independência defendiam a junção das duas (o brabo é aceitar a propriedade no mesmo patamar, como um valor social tal qual as outras duas – e antes que me critiquem, a grande diferença é que a liberdade e a igualdade visam o bem-estar das pessoas de um modo geral, o que não posso concordar que seja o objetivo da defesa da propriedade, mas continuemos). A noção de que igualdade e liberdade são incongruentes foi criada por aqueles que querem ser mais iguais que outros e precisam usar algum argumento para sustentar seu privilégio. Criam, então, um discurso falacioso, para convencer os demais.

Ao contrário da tese expressa no comentário, liberdade e igualdade só existem em sua possibilidade mais plena quando aplicadas em conjunto. A liberdade de que falam os defensores do livre mercado, por exemplo, anula-se quando gera desigualdade. Anula-se porque os mais desiguais, os considerados “inferiores”, os prejudicados na escala social não têm liberdade para agir e se expressar da mesma forma que os “superiores” (importante esclarecer que essa diferenciação entre “inferiores” e “superiores” refere-se apenas à posição social, não a características particulares).

No livre mercado, a liberdade é só para alguns. Não é, portanto, plena. Ou seja, não é liberdade.

A liberdade para todos nunca é total, porque baseia-se na velha máxima de que “a liberdade de um termina quando começa a do outro”. É impossível todos, ao mesmo tempo, fazerem tudo o que desejarem se houver vontades que agridam as vontades alheias. Por isso existem regras e leis, para regular a liberdade, de forma que ela exista em sua capacidade máxima, dentro das limitações da convivência social.

O mito da liberdade plena para todos é exatamente isso: um mito, uma falácia, defendida por aqueles poucos que a detêm dentro de um contexto de desigualdade. Quando apenas alguns são livres, insisto, não há liberdade.

Se o jornalismo dá voz a apenas poucos setores da sociedade e os outros não conseguem ter acesso aos meios de comunicação porque não têm condições financeiras – ou seja, por conta da desigualdade -, não há liberdade de expressão. Ela é restrita pelo mercado. Há liberdade de mercado, apenas. E é fundamental que não confundamos liberdade de mercado com liberdade, sem adjetivações.

É possível reduzir a desigualdade e restringir a liberdade ao mesmo tempo, o que não podemos aceitar. Mas a redução da desigualdade é, de um modo geral, uma fomentadora da liberdade, quando fornecidas as condições para que ambas aconteçam concomitantemente.

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Como bem citou a @fazendoanarcisa, retuitando o @diego_calazans: “Pafraseando Bakunin: ‘Liberdade sem igualdade é privilégio, igualdade sem liberdade é escravidão’.

http://twitter.com/#!/diego_calazans/status/29998332990464000

Liberdade com igualdade, sim senhor

Ensino superior: uma sociedade mais fraterna passa pela reflexão sobre o nosso papel no mundo

É ótimo que consigamos levar ensino superior a grande parte dos jovens brasileiros, especialmente àqueles que não teriam acesso sem uma interferência do estado – igualdade: se uns têm acesso, todos devem ter -, mas é preciso rever o modelo de educação que queremos. Minha crítica vai para a infinidade de pequenas universidades particulares de dois ou três cursos que formam profissionais (?) que ganham seu diploma sem a devida responsabilidade que deve acompanhar o canudo. São aprovadas pelo Ministério da Educação, na maioria dos casos, mas educam?

A maioria atende a alguns pré-requisitos que o MEC impõe. Têm um currículo de acordo com as normas, professores com formação (ainda que não saibamos se sua formação não provém de uma universidade desse mesmo tipo), infraestrutura etc. O que falta é uma avaliação maior do objetivo das profissões. Isso passa pela qualidade dos cursos – que devem promover essa reflexão de para que serve, independente da área – mas também pela sociedade. A classe média que tem acesso ao ensino superior – muitas vezes é só ter dinheiro que se tem acesso a qualquer dessas universidades – está cada vez mais banalizando esse tipo de formação.

O reflexo vem em cerimônias que são uma verdadeira palhaçada para marcar o final, o momento em que o fulano deixa de ser uma pessoa genérica e se torna um profissional certificado de alguma área. Lembro de ainda criança assistir formaturas – faço a ressalva de que eram da área de humanas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul – em que o discurso dos oradores era uma manifestação política. E aqui é importante diferenciar manifestação política de manifestação partidária. Era política porque promovia uma reflexão sobre o papel que vinham desempenhar na sociedade. Tinham consciência de que não estavam se formando apenas para sua realização pessoal, mas para contribuir para a construção de um complexo sistema que permite que cada um, dentro de uma área específica, trabalhe e ajude a construir uma harmonia de atividades, que constituem a sociedade.

Toda profissão tem sua importância social, mesmo que indiretamente, e é fundamental que cada profissional saiba disso. Mas se sabe cada vez menos.

Hoje os discursos dos oradores não são mais uma mensagem daquela turma para a sociedade, que reflita sobre a profissão e o lugar no mundo. Que mostre o posicionamento daqueles formandos diante das questões sociais e a que eles vêm.

Generalizando um tanto, hoje os discursos refletem uma completa ausência de consciência social. Mostram que os formandos pouco se importam – sequer se preocupam em fazer demagogia – com os outros, nunca nem pensaram na sua função na sociedade, nunca foram instigados a isso. Os discursos são cheios de menções internas, são dos formandos para os formandos, sem conteúdo, vazios de significado.

Ainda que a preocupação social, com o outro, não seja completamente verdadeira, é mais bonito acreditar que nosso papel é importante para fazer a grande engrenagem social andar. Confere grandeza à profissão e a cada profissional.

A reestruturação do sistema educacional deve passar por essa reflexão. Os cursos têm que promover o questionamento, instigar, fazer pensar. Têm que mostrar que somos parte de algo muito maior. Assim, formaremos melhores profissionais – certamente um engenheiro vai se dedicar com mais afinco a um projeto se pensar nas pessoas que dependem dele e que ali vão morar ou trabalhar, por exemplo – e melhores cidadãos.

Para diminuir o individualismo, é preciso que entendamos que estamos integrados em uma sociedade em que cada um de nós tem seu papel para que o todo funcione melhor. Uma sociedade mais fraterna depende dessa conscientização.

Ensino superior: uma sociedade mais fraterna passa pela reflexão sobre o nosso papel no mundo