Massacre de Eldorado dos Carajás completa 15 anos de impunidade

Hoje faz 15 anos do massacre de Eldorado dos Carajás. Em 17 de abril de 1996, 19 trabalhadores rurais sem-terra foram mortos no sul do Pará, pela Polícia Militar do estado, sem direito a defesa. Hoje, uma década e meia depois, nenhum dos assassinos foi preso ou sofreu qualquer tipo de punição. As famílias ainda lutam por uma pensão decente.

Eles lutavam pela desapropriação de terras para a reforma agrária. Lutavam pelo direito de produzir. Sua morte chamou a atenção para o problema da extrema desigualdade no campo no nosso país. Sua morte não serviu para resolver o problema.

Desde a morte dos 19 trabalhadores no Pará, milhares de outros camponeses continuaram lutando pelo direito à terra. Tantos outros perderam anos de suas vidas, sofreram embaixo da lona preta, apanharam da polícia, morreram no caminho ou foram mortos. O assassino de Elton Brum, o sem-terra gaúcho baleado pelas costas por um policial em 2009, continua igualmente impune.

De que serviu a luta dessa gente?

Lutaram por um direito, por uma vida melhor, por igualdade.

Morreram por igualdade de direitos.

Lamentavelmente, 15 anos depois do massacre de Eldorado dos Carajás, a reforma agrária continua estagnada no Brasil. As desapropriações de terra acontecem em número extremamente reduzido, e a vontade de lutar por terra e por uma vida digna no campo vai arrefecendo.

Diante das dificuldades no acesso à terra e da vida sacrificada no campo, além do aumento do emprego na cidade, o êxodo rural aumenta.

Que hoje, nos 15 anos do massacre de Eldorado dos Carajás, possamos parar para refletir sobre o nosso modelo de uso da terra. Sobre as poucas vantagens oferecidas para os trabalhadores que produzem a maior parte do alimento que consumimos – são os pequenos que plantam a nossa comida; os grandes produzem para exportação.

Que o triste aniversário da morte dos 19 trabalhadores no Pará em 1996 sirva como um incentivo aos movimentos de luta pela terra, especialmente o MST, pela sua relevância política, e aos governos para que ajam no sentido de mais justiça no campo.

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Massacre de Eldorado dos Carajás completa 15 anos de impunidade

Pelo fim da impunidade no Uruguai

uruguaiEstão sendo votados hoje no Uruguai, além do presidente e outros cargos políticos importantes, dois plebiscitos. Um diz respeito ao voto de um de cada cinco uruguaios, os que residem no exterior. O país que expulsa seus jovens pela falta de oportunidades criada pelo desemprego, pela concentração de terras, agora quer impedi-los de votar.

“Nuestro país, país de viejos, no sólo castiga a los jóvenes negándoles trabajo y obligándolos al exilio, sino que además les niega el ejercicio del más elemental de los derechos democráticos.”Eduardo Galeano, em discurso essa semana (20 de outubro) em Montevidéu

O outro tema a ser votado é ainda mais importante. Diz respeito à anistia, ou, melhor dizendo, à impunidade aos ditadores militares, estabelecida em 1986 e aprovada através de plebiscito em 1989. É a oportunidade dos uruguaios de fazerem uma revisão histórica, de retomarem seu passado e condenarem os crimes cometidos. A única forma de alcançar justiça hoje é combater a impunidade de ontem.

Eduardo Galeano atribui a derrota em 89 ao medo, que agora não existe mais. Medo provocado pelo governo e pela mídia (por que não me espanto com isso?): “Creemos que aquella derrota nuestra fue en gran medida dictada por el miedo, un bombardeo publicitario que identificaba a la justicia con la venganza y anunciaba el apocalipsis, larga sombra de la dictadura que no quería irse; y creemos que nuestro país ha demostrado, en estos primeros años de gobierno del Frente Amplio, que ya no es aquel país que el miedo paralizaba”.

Encerro hoje por aqui, desejando a vitória de José Mujica e o fim da impunidade. Pelo menos no Uruguai, já é um começo.

Pelo fim da impunidade no Uruguai