Individualismo versus solidariedade

Sabe, eu gosto de comer bem. Gosto também de uma cerveja de vez em quando, um vinho, algumas roupas que não precisam ter marca cara, mas que sejam de qualidade. Gosto de me sentir bem vestida, usar alguma maquiagem, ir a algum lugar diferente, viajar. Eu gosto de comprar coisas, sim. Passo longe da hipocrisia de me dizer comunista em um mundo capitalista e renegar todos os prazeres que no capitalismo só se consegue tendo algum dinheiro. Defendo o socialismo, ou alguma alternativa viável que fuja do capitalismo selvagem que temos hoje (e os Titãs já avisavam sobre a selva de pedra lá nos anos 80). Mas de aceitar a existência de um capitalismo razoável, que possa ser baseado na solidariedade, e aproveitar dos pequenos luxos que o dinheiro permite, até venerar o dinheiro pelo dinheiro vai uma distância grande.

Um causo marcante aconteceu comigo há alguns meses. Um grupo de pessoas reunia-se em torno de uma melancia doce como poucas nesses tempos de transgenia e agrotóxicos. Boa que só, de dar água na boca. Inevitavelmente, veio um comentário, alguém que dizia que adora melancia. Antes que o resto do mundo pudesse sequer absorver o sentido daquelas palavras, veio uma resposta imediata, precisa e cortante de outro alguém: “E eu adoro dinheiro”.

Já disse, gosto das coisas que no mundo capitalista só o dinheiro proporciona. Entre elas, melancia, por exemplo. Tenho vontade, sim, de ter dinheiro para ter coisas melhores. Mas gosto é das coisas. Gosto da melancia, da roupa, da cerveja, da comida, do vinho. Gosto da viagem, do brinco, do sapato. O dinheiro é um meio para obtê-las. Gostar do dinheiro pelo dinheiro é uma deturpação. Uma aberração. E é extremamente assustador. No cerne da questão, está a oposição entre o individualismo e a solidariedade. Os mesmos citados por Rualdo Menegat na entrevista que me concedeu para o jornal Sul 21.

Tenho medo especialmente pelas novas gerações. Um medo que me enche de pessimismo às vezes, de uma sensação que o mundo não tem solução.

Felizmente, o medo passa, e a gente segue lutando por um mundo melhor e mais solidário. Lutando e errando, aprendendo sempre, acertando às vezes. Mas sempre em busca de um pouco de humanidade.

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Individualismo versus solidariedade

Reflexo de tempos virtuais-impessoais

“Há quarenta anos, segundo as pesquisas, seis de cada dez norte-americanos confiavam na maioria das pessoas. Hoje a confiança mudou: só quatri de cada dez confiam nos demais.”

Eduardo Galeano, em De pernas pro ar: a escola do mundo ao avesso

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