60 anos no trono -> e a democracia, hein?

O Reino Unido fica eufórico com essas coisas de realeza. Jubileu de Diamante, pra mim, tem um significado: que os cidadãos britânicos estão há 60 anos sob o jugo de uma chefe de Estado que não escolheram. Na prática ela pode até não mandar, mas é a “monarca constitucional” e “chefe de Estado” de uma penca de Estados. Para quem não sabe, até Canadá e Austrália continuam sob o regime de monarquia, tendo Elizabeth II como sua rainha. Além do poder político, ela também é governante suprema da Igreja da Inglaterra, chefe da Comunidade das Nações, comandante-em-chefe das Forças Armadas do Reino Unidos e ainda tem mais uns outros títulos de nobreza.

Ou seja, uma pessoa que não foi escolhida por ninguém (sequer por seu pai ou sua família, já que só obedeceu a regra de sucessão) manda oficialmente nos poderes político e militar e na religião de povos gigantescos, entre eles um dos países mais importantes política e economicamente desde a Revolução Industrial.

Ninguém me convence a chamar o Reino Unido de democracia enquanto formalmente sua chefe for uma pessoa não eleita pelo voto popular (isso sem falar nas limitações de um sistema político baseado no bipartidarismo e na eleição indireta do primeiro-ministro, mas isso deixamos para outra ocasião).

Mas o que me exaspera de fato é observar que a galera adora a família real. Que os críticos a ela são minoria e, mesmo entre eles, muitos acham que vale mantê-la porque leva turismo à ilha. Tudo na Inglaterra e na Escócia (que foram os lugares em que estive, mas acredito que também no País de Gales e na Irlanda do Norte) gira em torno da monarquia. Estudar história, por lá, significa decorar a sucessão de reinados. Os prédios importantes têm significado pelo que eles representam para a monarquia (lugar x é onde a rainha vai passar o inverno, lugar y é onde ela encontra os netos e assim por diante). E agora imagino que o país e especialmente Londres estejam em polvorosa com as comemorações dos 60 anos de trono, o segundo maior tempo da história da família real inglesa, perdendo apenas para a rainha Vitória (vale lembrar que a história da monarquia inglesa é basicamente a história de grandes mulheres).

Pois bem, essa adoração desmedida está em alta este ano. Ela vem acompanhada de um acriticismo aterrador, que representa um conservadorismo muito grande. Não há questionamento sobre a validade da existência de uma monarquia, sobre o que ela representa. A situação é tomada como dada, imutável. Não peço nem uma crítica à monarquia, mas um questionamento, uma reflexão, um espaço para o contraditório. Em suma, que os meios de comunicação considerem nossa capacidade de pensar.

E quem pensa que o puxa-saquismo está restrito aos súditos da rainha engana-se. Documentário produzido e exibido pela GloboNews só faltava desejar que fôssemos incluídos na Comunidade das Nações. Diz a Wikipedia que em 2009 a rainha Elizabeth II foi considerada a 23ª mulher mais poderosa do planeta. Na lista de 2011 da Forbes ela sequer aparece entre os 70, enquanto a presidenta Dilma Rousseff encontra-se na 22ª posição. Mas, fazendo jus ao seu papel de submissa às grandes potências (mesmo quando elas já não estão mais tão grandes assim), para a Globo, ela é “a mulher mais poderosa da Terra”. Ela também “tem pele de porcelana e usa pouca maquiagem” e é “um ícone da moda”, entre otras cositas más.

O aniversário do mais novo casamento real

Há cerca de um mês, os britânicos enlouqueceram de novo com o primeiro aniversário de casamento do herdeiro do trono com a plebeia. Como se a festa fosse de membros de sua família, uma loucura. Naquela ocasião, assisti um documentário inglês na GNT que era uma mistura de futilidade (passou acho que metade do tempo falando nas roupas da mulher do príncipe) e puxa-saquismo, adoração. Foi entrevistado o pai de um homem que foi assassinado ano passado nos protestos que descambaram para a violência em algumas cidades britânicas. Lá pelas tantas, falando na visita que o príncipe William lhe fez, ele chega a soltar um “eu não sou ninguém”, achando-se muito mais alguém depois que a família real notou sua existência. Isso e o fato mesmo de a monarquia existir, caracterizando uma entidade de pessoas que se colocam acima do resto todo do reinado (superioridade concedida por quem?), vai diametralmente contra a ideia de igualdade.

Nesse mesmo documentário, era feita uma louvação desmedida da caridade da realeza, do assistencialismo a que se dedicam os homens e principalmente as mulheres da família real. Nem toco no questionamento sobre se é só fachada ou não, mas na falta de crítica de fundo da imprensa. Não é preciso ser gênio pra ter ideia de que o que de fato muda as coisas, que faz efeito sobre a pobreza, é mudar a lógica, mudar o sistema. É deixar de existir pessoas superiores e pessoas inferiores (lógica na qual não há espaço para monarquia).

Isso sem falar na questão toda do conto de fadas em torno do casamento real, que esconde em si um profundo machismo no incentivo às meninas a acreditarem na história do príncipe encantado, como se existisse um homem perfeito e ele consistisse em alguém para tomar conta da menina indefesa. Uma história de Cinderela, irreal e extremamente prejudicial.

O território real

Além de Austrália e Canadá e do óbvio Reino Unido da Grã-Bretanha (que inclui Inglaterra, Escócia e País de Gales) e Irlanda do Norte, são súditos da rainha Elizabeth II os povos de Antígua e Barbuda, Bahamas, Barbados, Belize, Granada, Jamaica, Nova Zelândia, Papua-Nova Guiné, São Cristóvão e Névis, Santa Lúcia, São Vicente e Granadinas, Ilhas Salomão e Tuvalu.

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60 anos no trono -> e a democracia, hein?

Uma Europa que não é mais a mesma

Não, não é engraçado, mas é um tanto irônico. Quando a ministra da Saúde da França, Nora Berra, comete um “lapso” e diz para os sem-teto não saírem de casa durante o inverno, ela sem querer evidencia essa grande transformação por que passa o mundo e explicita que a sua França já não é mais a mesma. Foi um lapso. Mas um lapso de quem: a) não está acostumada a lidar com esse tipo de problema; b) não costuma considerar muito importante essa gente pobre que normalmente não vota. O problema é ter quem comete esse tipo de lapso no poder.

A letra ‘a’ diz respeito ao empobrecimento da Europa. À crise. A uma França diferente da de alguns anos atrás, uma França diante de problemas de “terceiro mundo”. Fui a Paris pouco tempo atrás, na metade de janeiro. Sabia da crise, sabia do desemprego, sabia do empobrecimento. Mas não imaginava a quantidade de sem-teto que eu veria por lá. Às 2h da madrugada, hora em que o metrô fecha nos fins de semana, todos os bancos de uma estação da periferia serviam de cama. Em Londres, naquela Inglaterra onde a crise também está pegando, é nítido o aumento de moradores de rua a cada mês, pelo menos pelos últimos seis meses. É o retrato de uma Europa que há séculos não existia desse jeito. Pobreza houve muitas vezes. Gente na rua, também. Desigualdade, muita. Mas nunca antes no mundo capitalista a Europa se via deixando de ser a referência, perdendo importância, vendo-se obrigada a pedir ajuda a países do Sul. Nunca antes ela via inverter o cenário da geopolítica mundial como agora, tendo que buscar alternativas em exemplos do Sul. E principalmente, vendo que esse “Sul” de que a gente fala não é um país, mas vários. Um momento em que o mundo fica cada vez mais multipolar.

Vamos com calma, o Brasil ainda não é mais importante que a Europa como referência mundial, e possivelmente não venha a ser. Mas o importante do que está acontecendo agora é que os países do Sul, especialmente da América Latina, crescem com uma política de inclusão enquanto os europeus encolhem ao mesmo tempo em que excluem. São movimentos inversos, e isso é fundamental para entendermos o que está acontecendo. E, apesar de nossa desigualdade ainda ser enorme, aqui, ao contrário da Europa, o Estado funciona, como testou a Katarina Peixoto em Porto Alegre.

O lapso da ministra não é simplesmente uma gafe, o que nos leva à letra ‘b’. É o lapso da ministra de um governo conservador, reacionário, que fala nas classes mais baixas apenas por obrigação, para não ficar feio, e não porque realmente se importe com elas. Um governo que não pensa de verdade em como as pessoas se sentem na rua no frio. Há quase um mês, quando estive em Paris, o frio já era considerável, com temperaturas não muito distantes de zero. Para mim, protegida com um casaco carésimo que comprei com medo do inverno europeu e hospedada em um hostel pra lá de ruim, mas com calefação, já era difícil. Agora imagina pra quem tem pouca roupa e nenhum teto e com um frio muitos graus mais cruel do que aquele, com neve.

Os sem-teto se multiplicam na Europa não só porque ela está em crise, mas porque ela está recheada de governos conservadores. Governos cujas medidas fazem aumentar a crise, o que leva a que se elejam governos ainda mais conservadores (pelo medo que o povo lá tem mostrado sentir, a exemplo recente das eleições espanholas). Mas mesmo em tempos sem crise, ou pelo menos sem uma crise tão grave, é normal a desigualdade crescer durante governos de direita, como nos mostra o Reino Unido. Aumenta o desemprego, fica ainda mais difícil subir de classe social e mais fácil cair. É a tendência natural de governos que governam para o mercado, para as elites de que fazem parte, e não para o povo, para o país. O que assusta é que a direita ganha cada vez mais força. E não é só uma direita moderada. Muitas vezes extrema, ela ganha espaço na França (Marine Le Pen é ameaça nas próximas eleições), na Espanha, na Itália, no Reino Unido etc. etc. À medida que ela ganha espaço, aumentam os os índices negativos dos países, mas ninguém parece perceber muito a relação entre as duas coisas. Não é tão óbvia?

P.S: A foto, da agência AFP, é na Itália, onde o frio está castigando e o governo é ainda pior, tendo passado de um conservador maluco pra um indicado do mercado financeiro alçado ao cargo por um golpe de Estado.

Uma Europa que não é mais a mesma

O metrô mais antigo do mundo

Três milhões de pessoas, duas vezes a população de Porto Alegre, passam pelo metrô de Londres todos os dias. O underground, ou tube, virou símbolo da cidade, disputando o espaço com os ônibus de dois andares, os táxis pretos e os potes de chá nas lojas de souvenir. Canecas com a famosa frase “Mind the gap”, dita em quase todas as estações para que as pessoas cuidem o vão entre o trem e a plataforma, abundam em meio às quinquilharias.

Pois a fama não vem do nada. O metrô de Londres é o mais antigo do mundo, prestes a fazer 150 anos, em 2013. E o sistema é realmente eficiente, e impressiona. Para quem vem de uma cidade em que ele não existe, é ainda mais excitante (mesmo que o meu maior choque tenha sido em 2007, em Madri, na primeira vez em que andei de metrô).

Em primeiro lugar, impressiona o tamanho e a quantidade das linhas. Londres é uma cidade enorme, não só em número de habitantes, mas em área. Com não muitos prédios altos, é espalhada. Só pra se ter uma ideia, com cerca de 3,5 milhões de habitantes a menos, a capital londrina tem aproximadamente 50 km² a mais que São Paulo (dados da Wikipedia). Na prática, isso torna a vida menos sufocante, mas muito mais difícil em termos de locomoção. E as 11 linhas de metrô chegam a todas as suas seis zonas, ainda que ele seja mais concentrado no centro e, em muitos lugares mais distantes, seja preciso ir de ônibus até a estação mais próxima.

Como comentei essa semana, Londres é uma cidade concêntrica, dividida em zonas. Começa com um círculo no meio, onde fica o centro e é a parte mais antiga (a zona 1) e vai abrindo em anéis. Mais longe, mais barato de se viver. E mais difícil.

A utilização do underground é às vezes um pouco complicada, principalmente quando as linhas bifurcam, mas extremamente bem sinalizada. Para quem ainda não está acostumado com o sistema, é só dispor de um pouquinho de tempo para ler as diversas placas e os painéis eletrônicos. Estes, aliás, indicam a direção do próximo trem e quanto tempo falta para ele chegar – geralmente dois ou três minutos. O que nos leva a outro ponto: o metrô é ágil. A frequência é enorme e a velocidade é razoável, o que poupa um tempo enorme no cotidiano da cidade.

O sistema funciona até pouco depois da meia-noite (fecha ainda mais cedo nos domingos), o que, para mim, é inaceitável numa cidade não só do tamanho de Londres, mas com toda a vida que vibra aqui. A cidade do multiculturalismo, onde tudo acontece. É a cidade que mais recebeu turistas no mundo em diversos dos últimos anos . Com o preço que cobra para levar pessoas de um lado a outro, especialmente quando elas vão de metrô, seria mais do que honesto oferecer um serviço 24 horas.

Aliás, o preço é um problema ainda maior do que a falta de metrô durante a madrugada. Bem mais caro que ônibus, impede que muita gente tenha acesso a esse sistema que pode ser muito bom, mas que acaba se tornando um tanto injusto. Até porque, quanto mais zonas o teu cartão abranger, mais caro fica, o que prejudica os que moram mais longe, muitos dos quais acabam recorrendo ao ônibus e perdendo bastante tempo no transporte diário (da minha casa, na zona 2, até o centro eu levo menos de meia hora de metrô e mais de uma de ônibus).

Os passes podem ser para uma viagem, um dia, uma semana ou um mês. Nos três últimos, o uso é ilimitado dentro das zonas escolhidas. Ter um passe para viajar quantas vezes quiser em um período de tempo é extremamente útil e barateia bastante para quem usa muito o transporte. O crédito é feito em um cartão, o Oyster, que pode ser adquirido por 5 libras. Vale a pena, mesmo para quem for ficar pouco tempo, porque é mais prático, fica um pouco mais barato e as 5 libras são devolvidas quando o cartão é entregue de volta. Estudantes podem fazer um cartão próprio, com foto, pela internet, que dá direito a um desconto de 30%. É fácil, depende apenas da aprovação da escola ou universidade. E é entregue em casa.

Continua…

O metrô mais antigo do mundo

Ousadia e vanguarda, mas não pra todo o mundo

Continuação do post anterior

Da primeira vez que vim para Londres, em 2007, ainda era possível entrar por qualquer porta do ônibus e só encostar o cartão em algum dos leitores. Hoje, o fluxo é da frente para trás, aumentando o controle sobre as tentativas de driblar o motorista e andar de graça. Para quem for pego fazendo isso, a multa é salgadinha. Sinal dos tempos de crise, mais desemprego, mais desigualdade. Os ônibus não têm cobrador – o que poderia muito bem baratear o preço –, até porque não podem ser pagos em dinheiro, só com tickets ou o cartão que é o principal passaporte para o transporte na cidade. O Oyster Card funciona em praticamente qualquer tipo de transporte dentro de Londres. Ele pode ser carregado com um valor a ser descontado a cada uso ou com passes diários, semanais ou mensais.

Não admira que a tentativa de andar de graça tenha obrigado a administração a aumentar o controle. O transporte é caro e pode ser bem cruel com quem ganha menos ou está desempregado. E convenhamos que esse não é um problema a ser desconsiderado, afinal, Londres é a capital do país famoso pelo seu sistema classista e pela sua desigualdade. Burlar a cobrança do transporte, então, é uma questão de necessidade, em alguns casos. Especialmente porque – e isso dá a impressão de ser feito por pura sacanagem – quanto mais longe se mora do centro, mais caro é o transporte. O passe só de ônibus dá direito a todas as zonas pelo mesmo preço, mas o que inclui metrô tem preço menor quando é só para andar pelas zonas 1 e 2 e vai aumentando gradativamente. A conclusão óbvia é que, mais uma vez, os mais pobres são os que se dão mal, já que moram mais longe. Ou porque perdem muito mais tempo andando de ônibus, que é bem mais barato, ou porque têm que pagar muito mais para ir para sua zona. E estudante aqui tem 30% de desconto no transporte, não 50%, como no Brasil.

Um dos motivos por eu só ter andado de táxi quando estava com malas realmente incarregáveis é o fato de não depender deles a nenhuma hora do dia. O metrô fecha logo depois da meia-noite, mas Londres tem ônibus 24 horas a cada 20 ou 30 minutos (e em alguns casos até menos). Não são todas as linhas, mas as opções são bem grandes. Uma cidade desse tamanho e com tanta vida não podia não ter um sistema noturno realmente eficiente, ainda que eu ache que Londres merece também linhas noturnas de metrô (mas isso é assunto para o post sobre o underground).

Sobre duas rodas

O que é estranho é que não se veem muitas motos por aqui. Em compensação, bicicleta é meio de transporte para muita gente. O mais legal é que os motoristas respeitam. Em muitos lugares, não tem ciclovia, até porque as ruas podem ser consideravelmente estreitas. Mas os ciclistas não se deixam acuar e seguem pelo seu caminho, seja ele onde for. Muitas vezes andam mais devagar que os carros, e falta espaço para passarem ambos ao mesmo tempo. É comum, então, vermos motoristas diminuírem a velocidade e andarem pacientemente atrás da bicicleta até que tenham uma oportunidade de ultrapassar. O mesmo acontece com os ônibus, já que os ciclistas também usam a faixa destinada ao transporte público.

Para quem não tem a sua própria, é possível também alugar bicicletas na rua, a qualquer hora. Tem decks em diversos lugares pelo centro, até partes da zona 2, e é só retirar uma onde for mais perto e devolver no destino. E elas até são boas, apesar de um pouco pesadas. Mas de novo, podia ser mais barato. Pra de vez em quando, tudo bem, nem se sente. Mas se quiser usar com frequência o preço compete com o do ônibus. A vantagem é que, com esse meio de transporte, se a distância for média, é mais rápido do que ir de ônibus ou táxi, que ficam presos no trânsito. E mais interessante e barato do que de metrô (e às vezes também mais rápido). Além de mais ecológico e saudável, claro.

Para os mais sofisticados…

Pretos, rechonchudinhos e elegantes, os táxis são sinônimo de sofisticação. Pra ser sincera, nunca andei em um, mas a quantidade deles pelas ruas é estarrecedora. E depois têm os minicabs, os táxis que não parecem táxis e só podem ser pegos quando reservados por telefone ou internet, dando origem e destino antes da viagem, o que faz com que o cliente já embarque sabendo quanto vai pagar. Não sei se isso já existe no Brasil, mas outro dia reservei um por um aplicativo para Android no celular. Tá, ele chegou bem atrasado, mas me mandaram uns quantos e-mails e me ligaram (o motorista e a companhia) a cada minuto para me avisar que o trânsito estava horrível e me avisar em quanto tempo chegaria.

O lado “errado”

Por fim, não poderia faltar um dos maiores charmes do Reino Unido: a mão invertida das ruas. O visitante literalmente de primeira viagem não precisa se preocupar (muito) porque em todas as sinaleiras há um aviso de pra que lado da rua se deve olhar. Claro que em algum momento ele vai esquecer e ser xingado por algum dos não muito corteses motoristas ingleses. E pode ficar tranquilo que, se não tiver sinaleira, mas tiver faixa de pedestres, mesmo o mais mal-educado dos motoristas para.

(Porque toda aquela tradição de educação em excesso não se aplica ao trânsito, onde não é totalmente incomum ver gente saindo do carro para discutir com o motorista de trás.)

O interessante é que o fluxo de ir pela esquerda e voltar pela direita às vezes funciona também nas calçadas, com os pedestres. Dentro do metrô, é regra, e chega a ser engraçado. Mesmo em momentos de maior tumulto, quando o fluxo de que vem é muito grande, sempre se deixa um espaço para o sentido inverso. Sem cordas ou ninguém controlando, quem vai tem seu espaço garantido e não invadido pela montoeira de gente que vem. Em resumo, um senso de ordem que está no sangue britânico (e que, convenhamos, nem sempre pode ser considerado um elogio) e que resiste em muitos aspectos mesmo com toda a mistura de línguas e culturas da capital da diversidade.

Ousadia e vanguarda, mas não pra todo o mundo

Ousadia e vanguarda em transporte

Centro de um dos maiores impérios que já existiram, coração do maior mercado financeiro da Europa, sede da monarquia mais famosa do mundo, destino de milhares de imigrantes, palco de todo tipo de atividade cultural, cidade da diversidade. Ao contrário de muitas cidades em que a história está em cada esquina, Londres mantém-se viva. Não vive do passado, mas de um sem número de pessoas que por aqui chegam todos os dias de olho no futuro. Mas também não esquece a história e faz o possível para preservar seus patrimônios. Seus imponentes, exuberantes patrimônios.

Cidade com história, cidade antiga. Ou seja, urbanizada quando ainda não existiam carros, ônibus, trens. Ou seja, ruas e prédios não planejados para toda seus mais de 7 milhões de habitantes e os tantos milhares de turistas que passam por ela todos os dias. Tampouco para as nossas necessidades tão contemporâneas e as máquinas que fomos criando com o tempo. Isso inclui os carros.

São muitos. O que faz de Londres uma cidade demorada no trânsito. É comum um trajeto levar uma hora ou mais. O centro da cidade é muito antigo, não tem ruas geometricamente planejadas nem grandes avenidas. E é lá que tudo acontece. Isso significa não simplesmente um bairro, mas toda uma grande zona central. Londres é dividida em zonas concêntricas, a mais antiga e principal no meio e outros cinco anéis ao redor. Como na maioria das grandes cidades, geralmente a periferia é a região mais pobre. Quanto mais central, mais fácil de viver. E mais caro.

Resumindo, o transporte tem tudo para ser caótico e, em muitos pontos, realmente o é. O ponto negativo reside basicamente no trânsito. Um inferno. No centro, principalmente ônibus vermelhos e táxis pretos avançam devagar tentando levar pessoas de um canto a outro. Por outro lado, mesmo que a velocidade não seja grande, é muito difícil parar completamente. Isso porque a cidade tem tradição em transporte e é ousada no tema.

Em 2013, a primeira linha de metrô do mundo vai fazer 150 anos. Hoje ela é parte da Hammersmith & City, no centro de Londres. O underground merece um capítulo a parte, que fica para mais adiante. Por enquanto, fica o registro do papel de vanguarda da capital da Revolução Industrial.

Mas não é só. Diante dos problemas de trânsito, a cidade adotou uma medida polêmica. Todo carro tem que pagar uma taxa diária bem alta para circular no centro. É por isso que o que não se veem tantos automóveis particulares nas ruas quanto no Brasil.

Ainda nas ruas está outro dos principais símbolos de Londres. Os ônibus vermelhos de dois andares são mesmo charmosos. Com calefação, têm o conforto suficiente para atender bem seus passageiros, ainda que geralmente estejam sujos – como a cidade em geral. Mas são razoavelmente frequentes – não tanto quanto o metrô – e muito bem sinalizados.

Cada parada (ou ponto, para os não-gaúchos) tem uma letra ou duas que a identificam. Com ela, é possível ir ao mapa afixado ali do lado e visualizar as outras paradas por perto. Isso se torna especialmente útil por causa da lista de destinos logo abaixo, onde o passageiro pode localizar para onde quer ir e descobrir qual ônibus pegar e em qual parada. Do lado, um poste indica os números das linhas que passam por ali, com o itinerário resumido e a frequência. Uma mão na roda para turistas e nativos.

Continua…

Ousadia e vanguarda em transporte

A cidade mais multicultural do mundo

Ainda que alguns possam argumentar que Nova York faz concorrência direta, Londres é, para mim, a cidade que mais mistura gente. Uma observação um tanto leviana, aviso, já que nunca fui aos Estados Unidos e, bem, não conheço quase nada do mundo. Mas simplesmente parece impossível ter mais gente de tantos lugares tão diferentes do que aqui.

Faz quase seis meses que estou na capital do Reino Unido. Eu sei, eu sei, deveria ter escrito muito antes sobre o que a gente vê por aqui. Mas, antes tarde do que nunca, resolvi me redimir. Espero que a contento.

Londres não cabe em um post. Claro, Londres não cabe nas observações de uma só pessoa. Mas nem só a minha Londres cabe em tão pouco espaço.

O primeiro assunto de praticamente qualquer um que chega aqui, além do clima maluco, é o transporte. Mão invertida, metrô, táxi, bicicletas, carros, ônibus de dois andares, organização das ruas.

Um pouco atrasada, começo agora uma pequena série de posts, com impressões – muito mais do que certezas – a respeito desse mundo multicultural, tão rico, cheio de coisas boas e ruins, certas e erradas. Ou… sem certo nem errado.

A cidade mais multicultural do mundo

The Economist analisa as transformações no trabalho doméstico no Brasil

Em uma edição mais rechonchuda e com cara de especial, às vésperas do Natal, a revista britânica The Economist traz uma comparação entre Brasil e Inglaterra. O detalhe que inquieta o leitor é que é o Brasil do começo do século XXI com a Inglaterra de quando o século XX despontava. O tema é o trabalho doméstico e as relações de classe social.

A perspectiva é interessante, na medida em que a matéria sustenta que o Brasil está, de certa forma, libertando suas domésticas (a grande maioria são mulheres) em uma transformação social em que o pobre não mais se submete ao rico em tudo, porque não precisa mais. Segundo a revista, no início do século passado, os ricos começaram a sentir com desconforto as transformações que ocorriam nas bases da ordem social no Reino Unido.

O Brasil, por outro lado, começa a ver uma transformação no trabalho doméstico no início dos anos 2000, quando, de acordo com a The Economist, se assemelhava à Inglaterra dos anos 1880: desigual, sem oferecer educação para as massas e com longa tradição de trabalho doméstico. Os antes imigrantes nordestinos em São Paulo passam a voltar para seus estados, que experimentam um grande crescimento econômico. As empregadas domésticas exigem mais de suas patroas (e ainda impera a perspectiva de que quem cuida das coisas da casa é a mulher) e pedem demissão com muito mais facilidade. Elas têm vida social (não vivem mais apenas para o trabalho e nem moram na casa da patroa) e, nela, frequentemente mentem a respeito de sua atividade, devido ao precoceito que sofrem.

Reino Unido tem tantos empregados domésticos quanto na era vitoriana

Mas se o Reino Unido teve sua grande transformação um século antes do Brasil, ele não continuou evoluindo durante todos os 100 anos que a seguiram e continua um dos países mais desiguais entre os considerados desenvolvidos. Embora muito tenha mudado desde a Inglaterra vitoriana, do fim do século XIX, ainda é um país de classes sociais bastante definidas, com uma elite (aristocracia) dominante, oposta a um grande número de trabalhadores (muitos desempregados) pobres. A diferença entre classes grita quando a revista mostra o exemplo da escola de mordomos, para a qual muitos aristocratas mandam seus funcionários. Em 2011.

A média mais baixa de gasto com trabalho doméstico foi registrado em 1978, mas quadruplicou desde então. De uma forma diferente, mas ainda refletindo a grande desigualdade entre as classes, ainda que muitos tenham alguma qualificação (como para ser babá) e ganhem relativamente mais. Hoje os ricos pagam para que seus cães sejam levados para passear ou para limpar o forno. O resultado é que estimativas do órgão responsável pelos dados estatísticas no país estima que hoje haja o mesmo número de trabalhadores domésticos que na Inglaterra vitoriana.

No Reino Unido não existe a menor possibilidade de um trabalhador chegar ao poder. Ele nem sequer teria a chance de concorrer, porque só participar de um partido político já é uma atividade extremamente elitizada, o que traz como consequência um Parlamento majoritariamente composto por membros da classe A (não que o brasileiro não o seja, mas na terra da rainha a coisa é ainda pior).

Isso um século depois de as bases da ordem social inglesa terem sido alteradas, como diz a revista. Meu primeiro pensamento foi de que isso poderia ser um sinal de que temos que ter cuidado com o que está sendo feito no Brasil, um medo do que pode acontecer, não daqui a 100 anos, mas talvez nas próximas décadas, já que as transformações tendem a ter consequências cada vez mais imediatas.

Mas aí parei um pouco para pensar e comecei a questionar a publicação. Muito da análise tem sentido. De fato, o Brasil está sentindo uma mudança gigante em sua estrutura social, milhões de pessoas estão subindo de classe e passando a consumir, as perspectivas de trabalho estão também se transformando e, com isso, as relações sociais. Mas o contexto é diferente, e a forma como a mudança está sendo possibilitada, também.

Enquanto no Reino Unido, 100 anos depois de as mudanças no trabalho doméstico começarem a ser sentidas, ainda é impossível um trabalhador chegar a ser primeiro-ministro, no Brasil, elas aconteceram justamente porque já tivemos um trabalhador como presidente.

Na Inglaterra do início do século XX, a razão principal da mudança era muito mais a emancipação da mulher, que via abrirem-se as portas para um novo mercado de trabalho, do que por uma ascensão social, como é o caso do Brasil de 2011 (embora a situação prove que ainda existe um grande preconceito de gênero nas relações de trabalho no Brasil em prejuízo das mulheres).

O que deve mudar daqui para a frente

O futuro do Brasil, de acordo com a The Economist, são mudanças nos hábitos do dia-a-dia. Mais comidas congeladas nas mesas das famílias (uma boa cozinheira pode custar 4 mil reais por mês), escolas particulares quase todas de turno integral, roupas que não precisam ser passadas começam a ser mais procuradas, baby-sitters para uma ou outra noite mais especial ocupam o lugar de babás permanentes, homens vão assumir mais tarefas domésticas. Muitas mansões paulistas não têm certas comodidades domésticas, como máquina de lavar louça ou água quente na cozinha, porque têm empregados de tempo integral, o que deve mudar.

O que a revista não diz é que mudanças todos vão sentir, mas de formas diferentes. Em vez de começar a cozinhar e passar roupa, a madame compra a comida pronta e a roupa que não amassa, porque ela não se submete ao trabalho doméstico, que ainda é considerado inferior e continua gerando preconceito contra quem o faz. A classe média alta vai comer mais comida pronta e gastar o dinheiro jantando fora de vez em quando, com seus filhos estudando em escolas particulares que oferecem todo o amparo que precisam. Mas a classe média baixa continua dependendo da escola pública e contando as moedas. O cenário é bem diferente de quando essa mesma pessoa não tinha sequer moedas para contar e seus filhos trabalhavam em vez de estudar, mas o Brasil só vai ser igual de verdade quando todos puderem jantar em bons restaurantes e a educação for pública e de qualidade para os filhos de todas as famílias.

The Economist analisa as transformações no trabalho doméstico no Brasil