A entrevista de Lula à blogosfera: que seja bem aproveitada

A imprensa não pode ser só de esquerda, só de direita, só feminista, só conservadora… Refiro-me à linha ideológica dos veículos. Sabe-se que todos inevitavelmente a têm, por mais plural que tentem ser.

O grande problema é que, se conversarmos com a grande maioria dos brasileiros, eles se informam pelos mesmos veículos. E é com eles que os governantes conversam. Afinal, eles têm uma força realmente muito grande, que pode abalar estruturas.

É nesse sentido que amanhã se torna um dia histórico. Amanhã o presidente do Brasil concederá entrevista coletiva a dez blogueiros. Blogueiros sujos, segundo o candidato da oposição nas eleições de 2010.

Não sei se sairão informações muito diferentes. Não sei se algumas perguntas não serão muito chapa-branca. É possível, embora eu confie na capacidade jornalística dos representantes dos blogueiros brasileiros que se reunirão com o presidente às 9h de amanhã em Brasília.

Que vire rotina

É um formato a ser adaptado com o tempo, por ambos os lados, até adquirir sua melhor forma. Talvez a novidade atrapalhe um pouco. Dá aquela sensação de ter que aproveitar da melhor forma, fazer a melhor pergunta, não decepcionar. Se virar rotina, isso tende a melhorar. Ainda mais se nas próximas vezes for aberta a possibilidade de inscrições diversas.

De qualquer forma, está sendo anunciada a possibilidade de participação dos internautas, e alguns dos blogueiros inclusive pediram sugestão de perguntas. Uma entrevista que já tem o mérito de ser, pelo menos, diferente de tudo o que já se fez no gênero.

O que faz deste um acontecimento importante é o fato de o governo reconhecer o papel dos blogs e valorizá-los. É a iniciativa na direção de pluralizar o debate e de abrir uma relação nova com essa mídia que vem mostrando sua força, mas ainda tem muito pouco espaço e muito pouco acesso (já comentei aqui sobre quando tentei entrevistar um secretário do governo Yeda no RS e ouvi da assessora que no Palácio “nem era permitido abrir blogs”, o secretário não “perderia o tempo dele” comigo).

É por essa valorização dos meios alternativos que este momento merece divulgação. Espero que todos os lados entendam a importância de se aproveitar da melhor forma a ocasião.

Presidente Lula vai dar a primeira entrevista à blogosfera

Por Renato Rovai em seu blog

23/11/2010

Amanhã (quarta-feira) o presidente Lula concederá a primeira entrevista “da história deste país” à blogosfera. Solicitada por um grupo de blogueiros progressistas, ela já tem as presenças confirmadas de: Altamiro Borges (Blog do Miro), Altino Machado (Blog do Altino), Cloaca (Cloaca News), Conceição Lemes (Viomundo), Eduardo Guimarães (Cidadania), Leandro Fortes (Brasilia Eu Vi), Pierre Lucena (Acerto de Contas), Renato Rovai (Blog do Rovai), Rodrigo Vianna (Escrevinhador) e Túlio Vianna (Blog do Túlio Vianna). Outros dois blogueiros buscam desmarcar compromissos para se integrar ao grupo.

O evento acontecerá às 9h da manhã, no Palácio do Planalto, e será transmitido ao vivo pelo Blog do Planalto, pelos blogs que participarão do encontro e por todos que tiverem interesse de fazê-lo. Ainda hoje vamos explicar como isso será possível.

Será uma entrevista coletiva, mas também é um momento de celebração da diversidade informativa. Ao abrir sua agenda à blogosfera o presidente demonstra estar atento às transformações que acontecem no espaço midiático e ao mesmo tempo atesta a importância dessa nova esfera pública da comunicação.

Como as coisas na blogosfera são diferentes e mais colaborativas, não serão só os presentes ao encontro que participarão. A coletiva será aberta ao público que poderá participar enviando perguntas pelo chat. O objetivo é garantir o maior grau possível de interatividade.

Por conta dos senões da agenda presidencial, só agora nos foi confirmado o evento e liberada a divulgação. Por isso temos pouco tempo para nos organizar e produzir a repercussão que a entrevista merece.

Contamos com vocês nessa tarefa: divulgando, transmitindo em seus blogs e fazendo perguntas pelo chat.

A blogosfera dá mais um passo importante.

Um passo “nunca dado na história deste país”.

A entrevista de Lula à blogosfera: que seja bem aproveitada

As eleições da internet – Parte 2

A força da internet não é visível a olho nu. Ela parte dos bastidores e se faz sentir por quem a olha com cuidado. A disseminação de boatos, muito usada pelo PSDB entre o final do primeiro turno e o segundo, é mais fácil de identificar, se mostra mais. Mas as redes sociais foram também importantes.

Pela primeira vez, os grandes veículos de comunicação não puderam manipular informações como bem entendessem para passá-las ao público. Até porque mudou a relação repórter-leitor, produtor-consumidor de informação. A produção de conteúdo, a disseminação de informação começou um processo de horizontalização, em que produtor e receptor misturam-se e confundem-se.

Internet: avaliação e fiscalização

Às matérias disseminadas nos canais de mais audiência e nas revistas e jornais de maior tiragem sempre havia olhos atentos com espaço para publicar desmentidos. Se poucos leram no Twitter antes de a Veja sair que a história da Erenice não era bem aquela que a revista contava, os próprios veículos sabiam que estavam sendo fiscalizados por leitores atentos e que mentir poderia afetar de forma inexorável sua credibilidade.

Eles tentaram. Muito factóide foi gerado e informação falsa circulou, mas, pela sentimento de raiva e ódio despertado nessa campanha, pode-se imaginar que teria sido muito pior se não houvesse um meio para desmascarar as tentativas de mostrar os fatos com alguns detalhes diferentes que mudassem seu significado.

Pautando a agenda

Nesse sentido, a mobilização na internet se deu mais pela fiscalização dos meios de comunicação e pela influência na agenda de discussões do que pela mudança direta de voto. Mesmo que a maioria dos brasileiros eleitores não tenham acesso à rede, as informações que circularam nela pautaram em diversas ocasiões os veículos pelos quais se informam.

Houve declarações e fatos que antes não seriam dados e que acabaram na tevê porque a rede escancarou-os e ficaria muito feio as emissoras fingirem que não viram, que não sabem. Muita mentira foi desmentida, algumas antes até de serem publicadas no papel. Exemplo maior é o episódio da bolinha de papel. A Globo deu distorcido, mas esse ato não passou em branco: até seus repórteres acabaram envergonhados porque confrontados com os fatos que já circulavam na rede e que não havia como negar.

Interatividade e tecnologia

Não havia como negar, aliás, porque em 2010 em todo lugar, em cada canto havia lá um celular com câmera gravando um vídeo que mostrava uma cena. Como dizer que aquilo não ocorreu se havia uma prova material? O desenvolvimento tecnológico, que acompanha mais ou menos o ritmo em que se processa a influência da rede, contribuiu para que, apesar de tudo, as eleições de 2010 fossem mais transparentes. Foram baixas, de muita mentira, mas de muita mentira desmentida.

A tecnologia, então, ajuda quem está nas redes sociais fiscalizando as informações transmitidas a mostrar o que de fato aconteceu, quando retratado de forma diferente.

Equipes mobilizadas e mobilizando militantes do Brasil inteiro estavam contratadas pelas campanhas. Muita gente, com infraestrutura montada especificamente para a atuação nos meios digitais, havia nas diferentes campanhas. Mas havia, além da estrutura montada pelos partidos, militância voluntária, que foi o grande diferencial. Blogueiros estavam presentes diariamente, pegando as deixas dos veículos, fazendo matérias e ajudando a divulgar o que outros blogueiros postavam.

O papel da blogosfera

A força da rede se deu principalmente com a atuação dessas pessoas. Incomodou tanto que o próprio Serra se revoltou e xingou a blogosfera, dizendo que esses blogueiros eram pagos pelo PT, eram “blogueiros sujos”. A reação a essa declaração acabou dando o efeito contrário do que queria o tucano e fortalecendo os “sujos”, que passaram a ostentar o título com orgulho.

O período eleitoral coincidiu com a realização do I Encontro de Blogueiros Progressistas, em São Paulo. Em sua maioria identificados ideologicamente com a campanha Dilma, mas independentes, sem incentivo governamental ou partidário, organizaram-se em uma espécie de rede. Embora fosse proposta do evento, do qual participei, não chegou a ser efetivado um espaço para reunir as atualizações dos blogueiros participantes, mas serviu para conhecer pessoalmente muita gente que antes parecia uma imagem difusa, porque virtual. Nesse sentido, dá força para que a dedicação aumente, porque cria uma identificação.

Eram eles que produziam a maior parte do conteúdo que circulava na rede na campanha dos candidatos de esquerda, mas mesmo os textos produzidos pela equipe da campanha não teriam a mesma força se não fossem repercutidos por esse pessoal.

Por tudo isso, digo sem medo de errar que 2010 foi o primeiro ano em que a internet entrou pra valer na disputa eleitoral no Brasil. 2012 deve ser ainda mais e 2014 eu nem consigo imaginar. Mas já começamos com força esse ano.

As eleições da internet – Parte 2

Sobre cibercultura, jornalismo, Twitter e um trabalho de conclusão

Encontrei nesse texto do Eduarno Nunes muitas reflexões que faço com frequência, mas mais bem elaboradas e com um referencial teórico que o legitima. Pudera, ele fez seu trabalho de conclusão de curso sobre “o uso jornalístico do Twitter no contexto da inteligência coletiva”. Selecionei alguns trechos pra dividir aqui, mas a íntegra vale a pena e está disponível no blog do rapaz.

O contexto

Cibercultura. Aquela configuração social que se estabelece a partir da popularização do acesso às redes de computadores e que é fortemente marcada pela interconexão. Redes conectadas, computadores conectados, pessoas conectadas.

Tudo é instantâneo, tudo é agora, tudo é aqui.

[…]

As teorias da cibercultura podem ser divididas, a grosso modo, em duas vertentes principais (e rivais), que o bom Chico Rüdiger define como a dos tecnófilos e a dos tecnófobos. O leitor familiarizado com o idioma de Platão já percebeu que os pensadores de uma das correntes celebram as inovações técnicas e seus efeitos, enquanto os adeptos da outra morrem de medo dos monstros tecnológicos que vivem no armário e embaixo da cama.

Utilizo como arcabouço teórico (seja isso o que for) as teorias de um tecnófilo da gema, o francês Pierre Lévy, autor de livros como A Inteligência Coletiva: Por uma Antropologia do Ciberespaço e Cibercultura.

Lévy desenvolve, nestas e em outras obras, a teoria da inteligência coletiva, descrita pela metáfora do hipercórtex, segundo a qual a humanidade, ao se conectar a si mesma e realizar trocas simbólicas em diversos níveis, converte-se num gigantesco organismo inteligente. A inteligência desse mega cérebro ou hipercórtex aumenta na medida em que aumentam os fluxos comunicacionais entre os neurônios do sistema (ah, e nós somos os neurônios).

[…]

Não há maniqueísmo na ciranda de impulsos elétricos do hipercórtex. A inteligência coletiva aumenta na medida em que aumentam as formas de interconexão e o conteúdo partilhado (ou vendido, pois ninguém é de ferro) nos diversos ambientes de interação.

[…]

Neste contexto de inteligência coletiva, em que trocas simbólicas constantes enriquecem a inteligência do coletivo, um sem-número de práticas e funcões sociais ganha novo estatuto – entre elas o jornalismo, cerne da pesquisa que resultou na monografia.

Webjornalismo

[…]

OK, você pergunta, se o jornalismo é sempre jornalismo, desde que respeite esses cânones, o que diferencia o jornalismo tradicional do jornalismo de internet?

As características que fazem do webjornalismo uma variante do jornalismo tradicional são, basicamente, as seguintes:

Hipertexto

O texto impresso é bidimensional. Não consegue romper as barreiras impostas pela superfície em que foi aprisionado. Está preso aos ditames inexoráveis da Física.

O texto eletrônico é multidimensional. Permite o uso de portas para outros mundos, de túneis para outras dimensões. Essas portas são os hiperlinks, hoje abreviados para “links”. Recurso metalinguístico: para saber o que é um link, clique aqui. 😛

Interatividade e “participação”

Interatividade é uma das palavras da moda… mas, o que significa, para o jornalista? Significa que o público, que antes era uma entidade disforme, distante, quase imaginária, agora está logo ali.

No webjornalismo, a relação entre produtores e consumidores de notícias é muito próxima (e às vezes a diferenciação entre uns e outros inexiste).

Isso coloca em xeque a própria existência da profissão de jornalista. Ora, pensa o cidadão, se agora qualquer mané, incluindo eu mesmo, pode ter o seu próprio blogue e postar notícias, porque eu deveria ler os conteúdos produzidos por jornalistas e por empresas de jornalismo?

Em nosso socorro, vem a pesquisadora Christa Berger. Ao analisar a teoria dos campos sociais do sociólogo francês Pierre Bourdieu e aplicá-la no âmbito do jornalismo impresso, ela oferece uma possível resposta, válida também para o webjornalismo:

A nossa hipótese é que o Campo do Jornalismo detém, privilegiadamente, o Capital Simbólico, pois é da natureza do Jornalismo fazer crer. O Capital do Campo do Jornalismo é, justamente, a credibilidade. (BERGER, Christa. Campos em confronto: a terra e o texto. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1998 – p.21)

Os portões da informação estão aí, com um cadeado de fácil abertura. Antes, o jornalista era o “gatekeeper”, o porteiro, o único com a chave para abrir os portões e deixar passar as torrentes de informação.

Com a internet, o cadeado pode ser aberto por mais pessoas. Mas o jornalista passa a ser o “gatewatcher”, o vigia do portão, aquele que, investido da credibilidade que é o capital do seu campo social, tem legitimidade para nos mostrar quais são, dentre as torrentes de informação características do nosso tempo, os conteúdos mais relevantes e que atendem aos critérios de veracidade e exatidão.

Sobre cibercultura, jornalismo, Twitter e um trabalho de conclusão