Governo dos EUA tuita para que Irã imite Egito

Vejamos, “Hillary diz que EUA querem revolução como a do Egito no Irã”, está na capa da Folha.com. Interessante perspectiva. Bacana querer que outras ditaduras caiam. Epa, mas peraí, não são outras ditaduras. É uma só, apenas. Uma chegadinha na Wikipedia diz, por exemplo, que “os principais parceiros comerciais da Arábia Saudita são os Estados Unidos da América, o Japão, o Reino Unido, a Alemanha, a França e a Coreia do Sul”. Diz também que a “Arábia Saudita é uma monarquia absoluta, de forma que o rei não é apenas o chefe do estado mas também do governo” e que “o país tem mostrado um profundo desprezo pelos direitos humanos“.

Ainda que a enciclopédia não possa ser fonte para trabalhos científicos, ela se tornou bastante respeitada recentemente, justamente porque a colaboração, que a fundamenta, impede que erros grotescos ou distorções forjadas sejam mantidas. E lá diz que os Estados Unidos têm fortes interesses comerciais na Arábia Saudita, uma monarquia que desrespeita os direitos humanos, país mais poderoso que o Irã – e de muito petróleo.

Isso sem falar em Israel, onde há eleição, mas o governo assume praticamente só para impor sua política de força sobre os outros países da região e excluir os palestinos de seu território de forma completamente desumana. E o que dizer do próprio Egito, que durante 30 anos era um país bonzinho e dócil, mas de repente virou uma ditadura sangrenta, na opinião dos Estados Unidos.

Mas a política externa americana atua apenas e exclusivamente em causa própria, o que não é nenhum crime. Afinal, é natural, em praticamente tudo, que se defenda o que é seu. O grande problema é fazer isso independente das consequências, sem avaliar se isso vai fazer mal para alguém ou para algum grupo grande de pessoas. E “fazer mal” pode ser entendido como perder liberdade, perder direitos, perder dignidade, entre outras coisas ainda piores.

Os Estados Unidos chegam ao cúmulo de tuitar em farsi, para provocar uma revolta semelhante no Irã. O velho dois pesos e duas medidas, com o agravante de meter o bedelho no país dos outros. Agora, imagina se fosse o contrário. Uma nação emergente – e, importante, em uma conta que representa o governo dos Estados Unidos, que fala em nome da nação – criticar por uma rede social e provocar a insurgência entre os americanos. Não seria tratado como um verdadeiro atentado à soberania nacional?

O que, afinal, vale na cartilha americana?

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O mapa que ilustra o post foi tirado da Folha.com, e é bastante significativo. Estava intitulado, no site original, como “mapa-eixo_do_mal”, que aponta apenas três países como acusados de desenvolver armas de destruição em massa – um deles, o Iraque, comprovadamente uma mentira.

Governo dos EUA tuita para que Irã imite Egito

Para reflexão

Leio Antonio Luiz M. C. Costa dizendo que “ao menos um setor industrial, o bélico, será poupado de cortes significativos em meio à pior crise desde 1929, mesmo se gastos sociais são cortados sem piedade e a existência dessas armas nunca pareceu tão irracional”, na Carta Capital online. Quase que ao mesmo tempo, vejo José Junior, coordenador do AfroReggae, falar à MTV de dentro do Complexo do Alemão que armas matam muito mais do que drogas, mas ninguém nunca viu um plano Estados Unidos ou um plano Israel como vemos o Plano Colômbia, porque armas dão muito mais dinheiro do que drogas.

Para reflexão

A “reportagem” de uma fonte só

Por que o que a Veja faz não pode ser chamado de jornalismo

Sei que chovo no molhado, mas acho importante dissecar aquilo que chamam de reportagem e que foi publicado naquilo que chamam de revista. A Veja publicou mais de 13 mil caracteres com o único e nítido objetivo de levar José Serra para o segundo turno. Como a campanha do tucano não emplaca pelo bem, que seja então na falcatrua. Já chegamos no vale tudo.

Para quem quiser acompanhar com o texto original, infelizmente, o único lugar que sei que publicou a íntegra é o Blog do Noblat. Pensei em postar aqui, mas vai contra meus princípios copiar a Veja.

A ideia é nos fazer crer que Israel, o filho de Erenice Guerra, que substituiu Dilma na Casa Civil, é um lobista do governo. Descoberto isso, parte-se para a conclusão evidente de que Dilma não presta.

De onde veio a certeza da informação?

O principal de tudo é de onde saiu a informação. Nunca se diz o que exatamente foi contado. Não é mostrado de onde os dados saíram, quais são os documentos mencionados, nada. Mais de uma vez, Escosteguy fala que entrevistou várias pessoas. Apenas um nome é explicitado. Os outros são só “clientes, lobistas, advogados, empresários”. A primeira citação, dessa única fonte, aparece quando já haviam sido digitados quase 9 mil caracteres. É do empresário que teria negociado com o filho de Erenice. Ainda assim, diz apenas que Erenice “deixou evidente” que tudo acontecia com seu aval e “senti que não estavam blefando”. Ou seja, o repórter Diego Escosteguy ouve relatos de uma fonte que não se sabe qual a credibilidade e que apenas entendeu que Erenice estava por dentro, supôs. Na Veja, isso vira certeza absoluta, afirmação contundente. O detalhe interessante da coisa é que essa fonte, o empresário Fabio Baracat, já desmentiu a história.

Vamos por partes

Comecemos pelo título: “O Polvo no poder”. Pelo menos, é de um baita mal gosto.

Apesar de o centro da história contada ser Israel, o filho, a foto no Blog do Noblat é de Erenice, a mãe. E no site da Veja é de Erenice com Lula. Ou seja, “olha aí, ele também faz parte, não esqueçam”. São as duas imagens que ilustram esse post. Peço perdão aos leitores, mas não comprei a edição impressa. Me recuso.

Linha de apoio: o tom é de certeza. O fato de o filho de Erenice Guerra ser lobista não é colocado como suposição nem a informação é atribuída a alguém. Ele simplesmente é, porque a revista diz, e ponto.

A primeira linha remete a uma reportagem de outra edição: quem falou que o que a Veja publica são reportagens? Já explico por que esse texto não pode ser chamado de jornalístico. O objetivo dessa retomada é mostrar como o PT tem amplo histórico de atos ilícitos, marcar isso na cabeça do leitor.

No segundo parágrafo aparece pela primeira vez a localização física do gabinete de onde atuava Israel, completamente insignificante, mas repetida incessantemente, por sacanagem, para ligar o ato ilegal ao presidente Lula, marcar bem a ligação. Afinal, se não tem nada concreto que ligue Lula e Dilma a falcatruas, liga-se do jeito que der. Inventa-se. Meu chefe trabalha na sala ao lado da minha e não sabe tudo o que eu faço. O que a matéria tenta sugerir é que Lula sabia porque estava logo ali embaixo.

Terceiro parágrafo: começa a forçar a ligação de Dilma com a questão. Apesar de ela não ser acusada de nada na matéria, Erenice a sucedeu na Casa Civil, então não votem em Dilma. O trecho “Lula inventou Dilma, que inventou Erenice, que é mãe de Israel” é só maldade. Pura. Para transferir a suposta culpa a todos os nomes relevantes na sucessão presidencial e que a Veja quer queimar.

“Num eventual governo Dilma, portanto, ela é presença certa”: isso é terrorismo. Quem disse? A afirmação é de Diego Escosteguy, que assina a matéria. Quem é ele para fazer uma afirmação dessas?

A citação do tal dossiê de 2008 que teria investigado Ruth Cardoso e FHC é uma tentativa de ligar a imagem do PT a dossiês, como sendo prática comum do partido. Vem sendo adotada pela imprensa de um modo geral.

“O empresário sabe que sem o empurrão de algum poderoso, por melhor que seja sua proposta em termos de custo e eficiência, ela não será nem analisada”: mais uma vez, quem disse? A ideia é mostrar que o governo só age por interesse. Tenta quebrar a imagem de competência, a que mais sustenta Dilma.

Mais uma vez, e já estamos no nono parágrafo, é descrito o andar do Planalto em que atuam, reforçando a proximidade com Lula.

Diego diz que esse tipo de ato é frequente nesse governo e em anteriores, mas que esse é diferente, por causa do destino do dinheiro que sobra para o filho de Erenice, os ditos 6% de “taxa de sucesso”. Ele iria para “saldar compromissos políticos”. Quando quero saber como era aplicado o “lucro” antes de Lula, para entender a diferença, fico no ar, isso não é explicado. Os erros descritos são apenas os do governo atual.

Em seguida, apela para o que mais incomoda a classe média típica: dinheiro. E dinheiro para impostos, que ela vê como se estivesse jogando no lixo. No caso, no bolso do PT. O texto tenta mostrar que o dinheiro de cada brasileiro saiu do seu bolso direto para o de Israel, o filho de Erenice, a assessora de Dilma, a inventada de Lula. Tenta aproximar do leitor comum, mostrar como ele é afetado diretamente, para ele criar mais raiva.

Um dos momentos divertidos é quando cita João Paulo Cunha, apresentado como “o deputado mensaleiro”, em um explícito juízo de valor. Ou quando descreve os carros de Israel. O fato de ter dois “carrões” no nome de Erenice torna óbvio, para Veja, que ele é corrupto. Claro.

Ou seja…

E é por tudo isso que esse texto não é uma matéria e muito menos pode levar o nobre nome de reportagem. Um texto desse tamanho, de tal importância política, com apenas uma fonte (que já desmentiu), recheado de juízos de valor e sem indicar a origem das informações não pode ser considerado jornalismo. É boato.

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Leituras relacionadas:

A Veja não é jornalismo, é panfleto sujo, do Tijolaço do Brizola Neto.

A Veja nossa de cada dia, d’O biscoito fino e a massa, blog de Idelber Avelar.

Dilma defende Erenice Guerra de denúncia da revista Veja, e Vaccarezza diz que quem usá-la vai cavar a própria cova, d’O Globo.

Em nota, ‘Veja’ diz ter gravações e documentos, do G1. Aham!

Sei que chovo no molhado e o que vou dizer já é consenso. Mas me sinto no dever de dissecar aquilo quechamam de reportagem e que foi publicado naquilo que chamam de revista. A Veja publicou mais de 13 mil

caracteres com o único e nítido objetivo de levar José Serra para o segundo turno. Como a campanha do

tucano não emplaca pelo bem, que seja então na falcatrua. Já chegamos no vale tudo. Fica mais fácil

acompanhar o ponto a ponto com o texto em mãos. Infelizmente, o único lugar que sei que publicou a íntegra

é o Blog do Noblat, então é preciso dar audiência para ele. Ainda assim, é menos ruim que comprar a edição

impressa. Pensei em postar aqui, mas vai contra meus princípios copiar a Veja.

Comecemos pelo título: “O Polvo no poder”. Mal gosto é pouco para descrevê-lo.

Linha de apoio: o tom é de certeza. O fato de o filho de Erenice Guerra ser lobista não é colocado como

suposição nem a informação é atribuída a alguém. Ele simplesmente é, porque a revista diz, e ponto.

Primeira linha: quem falou que o que a Veja publica são reportagens? Já explico por que esse texto não pode

ser chamado de jornalístico.

Segundo parágrafo: a localização física é insignificante. A tentativa é de ligar o ato ilegal ao presidente

Lula.

Terceiro parágrafo: começa a forçar a ligação de Dilma com a questão. Apesar de ela não ser acusada de nada

na matéria, Erenice a sucedeu na Casa Civil, então não votem em Dilma. “Lula inventou Dilma” é só maldade.

Pura.

Repete a localização física, por sacanagem, para marcar bem a ligação. Afinal, se não tem nada concreto que

ligue Lula e Dilma a falcatruas, liga-se do jeito que der. Inventa-se. Meu chefe trabalha na sala ao lado

da minha e não sabe tudo o que eu faço. O que a matéria tenta sugerir é que Lula sabia porque estava logo

ali embaixo.

“Num eventual governo Dilma, portanto, ela é presença certa”: isso é terrorismo. Quem disse? A afirmação é

de Diego Escosteguy, que assina a matéria. Quem é ele para fazer uma afirmação dessas?

A citação do tal dossiê que teria investigado Ruth Cardoso e FHC é uma tentativa de ligar a imagem do PT a

dossiês, como prática comum do partido. Vem sendo adotada pela imprensa de um modo geral.

“O empresário sabe que sem o empurrão de algum poderoso, por melhor que seja sua proposta em termos de

custo e eficiência, ela não será nem analisada”: mais uma vez, quem disse? A ideia é mostrar que o governo

só age por interesse. Tenta quebrar a imagem de competência, a que mais sustenta Dilma.

A repetição das ideias “lobista”, “assessora de Dilma”, “futura ministra” e outros do tipo são para

reforçar a ligação do governo e da candidata governista com atos ilícitos. Mais uma vez, e já estamos no

nono parágrafo, é descrito o andar do Planalto em que atuam, reforçando a proximidade com Lula.

Diego diz que esse tipo de coisa é frequente nesse governo e em anteriores, mas que esse é diferente, por

causa do destino do dinheiro que sobra para o filho de Erenice, os ditos 6% de “taxa de sucesso”. Ele iria

para “saldar compromissos políticos”. Quando quero saber como era aplicado o “lucro” antes de Lula, para

entender a diferença, fico no ar, isso não é explicado. Os erros descritos são apenas os do governo atual.

Em seguida, apela para o que mais incomoda a classe média típica: dinheiro. E dinheiro para impostos, que

ela vê como se estivesse jogando no lixo. No caso, no bolso do PT. O texto tenta mostrar que o dinheiro de

cada brasileiro saiu do seu bolso para o de Israel, o filho de Erenice, a assessora de Dilma, a inventada

de Lula.

Um dos momentos divertidos é quando cita João Paulo Cunha, apresentado como “o deputado mensaleiro”. Ou

quando descreve os carros de Israel. O fato de ter dois “carrões” no nome de Erenice torna óbvio, para

Veja, que ele é corrupto. Claro.

O principal de tudo é de onde saiu a informação. Nunca se diz o que exatamente foi contado. Não é mostrado

de onde os dados saíram, quais são os documentos mencionados, nada. Mais de uma vez, fala que entrevistou

várias pessoas. Apenas um nome é falado. Os outros são só “clientes, lobistas, advogados, empresários”. A

primeira citação aparece quando já haviam sido digitados quase 9 mil caracteres. É do empresário que teria

negociado com o filho de Erenice. Ainda assim, diz apenas que Erenice “deixou evidente” que tudo acontecia

com seu aval e “senti que não estavam blefando”. Ou seja, Diego Escosteguy ouve relatos de uma fonte que

não se sabe qual a credibilidade e que apenas entendeu que Erenice estava por dentro, supôs. Na Veja, isso

vira certeza absoluta, afirmação contundente.

E é por isso que esse texto não é uma matéria e muito menos pode levar o nobre nome de reportagem. Um texto

desse tamanho, de tal importância política, com apenas uma fonte (que já desmentiu) e sem indicar a origem

das informações não pode ser considerado jornalismo. É boato.

A “reportagem” de uma fonte só

De como Israel é prejudicial até para os judeus

Não é de hoje que o Estado de Israel se sustenta na sua condição de vítima eterna para justificar seus atos. O Holocausto e a história de perseguição do povo judeu são terríveis, mas poderiam ter servido para fortalecer uma visão humanitária, para que Israel entendesse como é ruim ser vítima e passasse a respeitar seus opositores. Para que se permitisse uma postura solidária em relação ao resto do mundo.

Infelizmente, não o fez. Ao contrário, usa uma história triste para justificar outra história triste, de dor e sofrimento, mas do outro lado. Chega a ser uma falta de respeito ao povo judeu, que sofreu tanto, a utilização de sua história com esses objetivos.

Aliás, tudo o que Israel consegue com essa postura é causar revolta, é mover a opinião pública mundial contra um governo autoritário, terrorista, segregador. Tenho visto pessoas criticarem os judeus. Outros veem que não são os judeus os culpados, daí criticam apenas os sionistas. Peraí, eles também não têm culpa.

O sionismo é um movimento bem antigo, que nasceu para reivindicar uma terra para o povo judeu. Terra que lhe foi roubada, sim, e que eles têm o direito de querer. Mas o movimento sionista não diz que ter a terra de volta significa expulsar árabes, fazer uma guerra, segregar, matar. A convivência seria possível se não estivesse viciada. Se fosse simples, eu diria para pararem um pouco e pensarem. O que nessa história faz sentido? Nada. Guerra para quê, se somos todos humanos e podemos conviver em paz, respeitando as diferenças?

Mas não é simples. E o que o Estado de Israel, com sua postura bélica, faz é incentivar essa segregação, incentivar esse ódio, que se volta inclusive para os próprios judeus. No fim, é péssimo para quem mora em Israel. Conheço israelenses que são contra a postura do governo. Porque é possível discordar do chefe do país, pensar diferente. Mas os israelenses, por culpa do governo, ficam tachados, têm que carregar consigo a marca de serem terroristas.

E sei que vou receber críticas, tanto de judeus quanto de palestinos – ou de quem critica, com razão, o Estado de Israel – por alguma frase desse texto em que parece que digo que os judeus são todos terroristas ou que dê a entender para olhos viciados que defendo a atitude de Israel. É isso que posturas como a de ontem, de destruir um barco de ajuda humanitária em águas internacionais, conseguem. Criar um maniqueísmo odiento, em que, quando se é judeu, tem que se odiar os árabes e, quando se é árabe, tem que se odiar os judeus, senão parece que é um traidor, que não é suficientemente árabe ou judeu. Uma tristeza total.

De como Israel é prejudicial até para os judeus

Os soldados de Israel

soldados israelHoje em dia é feio defender Israel. Especialmente quem é de esquerda não pode achar nada de positivo na Terra Santa. É o país apoiado pelos Estados Unidos, militarizado, especialista em guerra, que oprime os palestinos e blá blá blá. Ok, é tudo isso, sim. Mas convivi durante dez dias com uma realidade um pouco diferente. Na verdade, com um ponto de vista diferente.

Israel é o Estado judeu defendido por um povo oprimido inúmeras vezes ao longo da história. A mais famosa é recente ainda. Seis milhões de judeus foram mortos no Holocausto. Seis milhões é muita gente, ainda mais pra um povo fechado, que não cresce muito. Ok, atrocidade não justifica atrocidade, mas esses repressões de que o povo judeu foi vítima explicam muita coisa.

Falo com relação ao povo. Sobre o governo, não me sinto apta a falar, pelo menos por enquanto. Convivi diretamente com soldados israelenses. Meu guia israelense, não o que organizava as atividades, mas o que explicava o que estávamos vendo, na verdade era gaúcho. Ele merece um post só pra ele, então não vou falar muito. É suficiente dizer que ele decidiu ir para Israel para lutar no exército e defender esse Estado judeu. Virou paraquedista, da elite do exército. Agora não está mais lá, mas é reservista até os 40 anos e pode ser chamado em caso de guerra, como qualquer soldado. Além dele, cinco soldados israelenses se juntaram ao nosso grupo durante cinco dias. Nenhum deles era terrorista, eles não gostavam de matar pessoas. Eram gente boa, jovens como todos nós, alguns muito bonitos, fizeram festa com a gente. Normais, o que é óbvio, mas nem tanto. Três deles eram mulheres. Conversamos também com mais alguns soldados que passaram pela gente em alguns momentos.

O que se vê lá é um amor por aquela terra que é muito diferente do amor imenso que o brasileiro sente pelo Brasil. Lá o que é muito forte é a necessidade de defender Israel para que ele não deixe de existir. É um Estado muito recente, mas os israelenses têm um sentimento de pertencimento àquela terra de séculos, milênios. Aquela, para eles, é a terra do povo judeu. Apenas um dos soldados me deu a impressão de que odeia os muçulmanos. Os outros parecem acreditar de verdade que fazem o que podem, que não matam porque são maus, mas só quando há necessidade extrema. Que o fato de morrer menos israelenses do que palestinos deve-se apenas à qualidade do exército, que se defende bem, e isso é um ponto positivo. Um deles me disse que o exército de Israel é um exército de defesa, não de ataque. E falou sinceramente, pude notar.

Israel é a terra para onde todos os judeus do mundo podem ir. É onde eles querem que se una o povo judeu e onde ele se fortaleça. É um porto seguro pra quem teve que fugir tantas vezes de suas casas, de suas terras. Para os judeus sionistas, ali é sua casa, a casa de todos os judeus. A terra de Israel é uma proteção para esse povo, e isso não é errado.

Sionismo, só pra esclarecer, é a defesa da existência de um Estado judeu. Em suma, a defesa da existência de Israel, a terra do povo judeu. O programa de que eu participei, como não poderia deixar de ser, é sionista. Senão não nos levariam pra lá, certo? E essa ideologia nos foi passada durante todos os dias do programa. Nos foi passada, não nos enfiada goela abaixo. Foi de forma muito intensa, mas muito sincera. Nos falavam do Estado de Israel com muita sinceridade e muito amor. Por conta disso, era muito forte a forma com que essa ideologia chegava até nós.

Só pra ficar claro, não estou defendendo guerra, evidentemente, muito menos a postura de Israel. Só estou tentando entender a motivação dos soldados comuns, daqueles que não têm poder de decisão e ainda assim sentem orgulho de lutar em nome de um Estado judeu. Eles não são criminosos por conta disso. Eles defendem uma causa, não querem matar pessoas (de um modo geral). E eles querem paz, sonham com isso. Mas, se perguntares a um soldado se há solução para os confrontos, ele vai dizer que não enxerga nenhuma. E vai ficar triste com isso.

Os soldados de Israel

Voando para Israel

bandeira IsraelAcabo de voltar de viagem e achei que era uma boa hora de dar as caras por aqui. Pra quem não sabe, passei dez dias no Rio de Janeiro e emendei com outros dez dias em Israel. Ganhei a viagem para a Terra Santa porque judeus ricos decidiram que todo jovem judeu entre 18 e 26 anos tem direito de conhecê-la. É uma forma de incentivar o judaísmo, para que não morra. Comprovei que meus avós eram judeus e me fui.

Mais adiante eu falo sobre o Rio, que também merece várias linhas, mas agora Israel está mais recente e mais forte na minha cabeça. A viagem começa no aeroporto. Vou direto para o de Guarulhos, que sobre Porto Alegre não tem muito o que dizer (fora que, apesar de pequeno, nosso aeroporto é o melhor que eu conheço). Fiquei horas passeando pelos corredores sem-graça do aeroporto de Guarulhos. Encontrei umas pessoas que foram de POA para o Taglit (o nome do programa), assim como eu, e ficamos arranjando o que fazer até chegar a hora de fazer o check in.

A El Al, companhia israelense, tem apenas três voos por semana para o Brasil, então não tem guichê fixo, ele foi montado na hora. Formou-se uma fila imensa, em que conhecemos o resto do pessoal (tinha gente de São Paulo, Rio, Floripa, Curitiba). O check in não acontece antes de uma entrevista com o pessoal da El Al. Apesar de eu estar no Brasil, fui entrevistada em inglês. Não adiantava eu dizer que não entendia alguma palavra ou frase, a mulher não falava mais devagar. E me encarava com olhos inquisidores, procurando me fazer cair em contradição. Isso era muito claro pra mim. Ela queria saber se eu era judia, o que eu fazia para preservar meu judaísmo, que datas eu comemorava, de que forma. Tive que enrolar. A sorte foi que eu não entendia tudo, o que abreviou um pouco a entrevista, mas foi um momento bastante tenso. A minha entrevista foi leve, comparando com a de alguns colegas de Taglit. Um guri com cara de árabe teve mais dificuldade e uma menina de Porto Alegre, convertida ao judaísmo para casar, há cerca de um ano, foi a que mais sofreu. Ela é pequena, quietinha, tem uma cara absurdamente inocente. Mas ficou séculos falando em inglês com um israelense careca com cara de mau (muitos israelenses são carecas por causa do exército). Fizeram ela recitar um negócio do judaísmo que eu nem sabia que existia. Em hebraico. A guria sabia porque os judeus são super exigentes na conversão. Ela estudou bastante e fez uma prova difícil, segundo ela. Era a mais judia de todos. Dizem que escolhem as pessoas com mais cara de inocente porque são os que aceitam mais facilmente levar encomendas que podem ser perigosas.

Depois, nossos guias brasileiros, que vou chamar de madrichim (no plural), madrich (o guia homem) e madrichá (a guia mulher), porque foi assim que me acostumei, nos explicaram que aquele era o esquema de segurança da empresa, que os israelenses são grossos mesmo e que a El Al é a companhia aérea mais segura do mundo por causa disso. Aí vem uma reflexão que me ocorreu um pouco depois. Poxa, não é à toa que ela precisa fazer tudo isso para tirar um avião do chão. Esse ódio desmedido entre judeus e muçulmanos (sobre o qual vou falar mais adiante) faz com que ambos os lados tenham medo de tudo, sempre. Um ódio que eles alimentam me faz ser humilhada para poder visitar Israel, uma terra que deveria ser patrimônio da humanidade, que tem importância fundamental para as três principais religiões monoteístas do mundo, que é história por todos os poros. Uma terra linda. Até consigo entender, mas me é impossível justificar. Fora que nos fizeram quase provar nosso judaísmo sendo que não é preciso ser judeu para visitar Israel. Como me tratariam se eu me dissesse católica, por exemplo? Ou atéia?

Nos disseram que na volta seria pior, que lá eles eram mais estúpidos e tal. Foi bem tranquilo, na verdade. Um cara simpático, falando espanhol, me perguntou se era eu que tinha feito minha mala, se eu levava alguma coisa pra alguém, se a mala tinha ficado comigo o tempo todo e tal.

Ah, e só para encerrar. A parte de os israelenses serem grossos foi comprovada já no avião. Eita comissários antepáticos. E depois em qualquer mercado, em qualquer boteco (por justiça devo dizer que me refiro à maioria, porque tem alguns muito simpáticos). E nos justificam que eles são assim por causa da situação de Israel, a convivência com a guerra, que é muito difícil pra eles lidar com isso e patati patatá, mas que por dentro eles são doces e não sei mais o quê. Bom, falta descobrir essa parte.

Voando para Israel