O preconceito está na TV

A Globo até é mais profissional que a ainda e sempre provinciana RBS e não usar o mesmo palavreado, mas o conteúdo ideológico de mãe e filha é rigorosamente o mesmo.

Quando Luiz Carlos Prates dividiu no ar as pessoas em classes e decidiu que uma pode e a outra não pode – naquele infeliz comentário sobre os pobres e os carros -, não fez diferente do Jornal da Globo de ontem (disponível na íntegra para assinantes). Ambos representam o pensamento da elite preconceituosa e conservadora.

Christiane Pelajo chegou a mudar o tom de voz ao fazer a escalada do jornal – aquele início em que o apresentador lê os destaques do dia. Quando falou no aumento da venda de material de construção, o nojo transparecia no comentário de cunho pejorativo: “Brasil, o país do puxadinho”. Isso porque as classes que mais compraram material de construção foram as que antes não tinham acesso a ele, as classes C, D… É o pequeno consumidor, o que faz “puxadinho”.

Os do nível de Pelajo constroem, mas pobre faz “puxadinho”. As classes A e B fazem reforma, nunca aumentam a laje. A diferença na expressão utilizada demonstra o preconceito. Por que usar palavras diferentes para dizer a mesma coisa?

Qualquer melhoria na vida das classes “inferiores” é tratada com desprezo, como se elas estivessem tomando conta de algo que não lhes pertence.

A imprensa brasileira, neste caso representada pelo Jornal da Globo, tenta a todo custo manter as diferenças de classe, o status. Por isso o ódio do governo Lula, que subtraiu essa diferença, além de ele próprio ser um “pobre” de origem. Afinal, para a mídia, pobre não é condição financeira, é característica intrínseca, que por si só desmerece o cidadão, taxando-o.

Como pode depois querer condenar o preconceito da sociedade, tão exacerbado na última campanha eleitoral, se é ela a principal incentivadora?

O preconceito está na TV

Para o Jornal da Globo, Lula é o culpado de tudo de ruim que acontece no mundo

Vi a chamada e fiquei com um pé atrás. De tanto que o Jornal da Globo fala mal dos países de esquerda, já acho sempre que vem bomba. A matéria de ontem, sobre o rompimento de relações entre Venezuela e Colômbia, foi crítica a Hugo Chávez, claro, mas até que não foi das piores – quando nosso parâmetro de comparação é baixo, qualquer coisa razoável passa por fantástica.

Foi irônica, como sempre, com algumas pausas lacônicas como a tratar de um ser notadamente inferior, que não merece consideração, apenas pena ou desprezo. Mas a sacanagem maior ficou por conta da chamada no primeiro bloco, que responsabilizava o Brasil pela crise entre Venezuela e Colômbia. Como se tivesse voltado os olhos para o Oriente Médio e esquecido da América Latina. Ou seja, a suposta omissão, a alegada falta de intervenção do Itamaraty teria causado a tensão. Bem simples assim, sem mais elementos complicadores na história. Incrível como cabe tanto significado em tão poucas palavras.

Resta a Globo definir se a sua posição é de defender que o Brasil deve ou não intervir na relação entre outros países. Ficar mudando de opinião de acordo com as conveniências é que não dá.

Assinantes da Globo.com podem assistir aqui. Os demais têm acesso à matéria, mas não a íntegra do jornal, em que aparece a chamada do primeiro bloco.

Para o Jornal da Globo, Lula é o culpado de tudo de ruim que acontece no mundo

A elite se regozija com o Jornal da Globo, que a trata a pão de ló

O Jornal da Globo tem um público bem definido, claro até demais. É o jornal mais requintado da emissora, com mais cuidado nos acabamentos, nos detalhes técnicos. É extremamente bem feito. Porque é todo voltado para a elite conservadora. Ou seja, absurdamente reacionário em suas posições políticas. Criticar a esquerda latino-americana e os movimentos sociais são o exemplo mais corrente e inflamado dessas posições

Pois hoje não só a ideologia política o demonstrou, mas a composição do jornal. Chamou a atenção o bloco comentado por Arnaldo Jabor, acho que o terceiro ou quarto. Boa parte dele dedicado a Cuba. A malhar Cuba, a denegrir Cuba. E, de quebra, a achincalhar Lula, que está em Cuba. Arnaldo Jabor não poupou veneno, foi bastante acintoso, dizendo que o presidente omite os fatos e os transforma com palavras. Ou seja, que mente, em bom português. Não é pouco chamar o presidente da República – aquele bem popular – de mentiroso.

Quando acabou o comentário de Arnaldo Jabor, apareceu William Waack em sua bancada, com o já tradicional sorrisinho sarcástico. E disse, introduzindo a matéria seguinte: “E para os apaixonados por carrões…”. Quer coisa mais elitista? Xingar Cuba, Fidel e Lula e coroar com uma matéria sobre carrões. A burguesia se delicia…

A elite se regozija com o Jornal da Globo, que a trata a pão de ló