As diferentes versões da visita de relatora da ONU a Porto Alegre

Para avaliar o andamento das obras da Copa do Mundo 2014 no Brasil, a relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para o direito à morafia adequada, Raquel Rolnik, esteve em Porto Alegre esta semana. Queres saber a que conclusão ela chegou? Escolhe a tua versão. Para descobrir o que a Prefeitura quer que tu penses, entra no site da Prefeitura (aqui e aqui), por óbvio, ou lê o Correio do Povo, que não foi além do release. Se a opção for não saber nada, vale ler a Zero Hora (conteúdo segue abaixo porque está indisponível no site). Para conhecer os argumentos da urbanista baseados em exemplos concretos, que criticam o estado e o município ao mesmo tempo em que valorizam ações positivas na comparação com outras cidades-sede, a leitura indicada é o Jornal Sul21.

Começa, aliás, pelo tamanho da matéria e pelas fotos. Estas são todas do Ramiro Furquim, o fotógrafo do jornal eletrônico, em lugares diferentes, o que demonstra que a reportagem de fato acompanhou a presença da relatora. O tamanho não significa só perfil de escrita, mas normalmente quer dizer que o veículo considera o tema importante e que dedicou tempo e esforço para cobri-lo.

Um outro ponto importante a se considerar é a profundidade da notícia apresentada ao leitor. Fica absolutamente clara a diferença entre os veículos que adaptaram um release – ou nem isso, no caso da Zero Hora, embora tenha até assinatura de repórter – e os que efetivamente buscaram a notícia.

O Jornal do Comércio segue o caminho do Sul21, embora de forma um pouco mais resumida. Fica evidente que ao menos eles se esforçaram para compreender a avaliação da relatora em sua totalidade, sem fechar em apenas um ponto que mais interesse à linha editorial do jornal – que nem sempre é o que interessa à maioria dos cidadãos e cidadãs. A diferença entre buscar a notícia ou recebê-la pronta é o que chamamos de fazer jornalismo.

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Foto: Ramiro Furquim/Sul21

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Zero Hora – 19 de agosto de 2011 | N° 16797

VISITA À CAPITAL

Olhar da ONU em obras de moradias

Relatora das Nações Unidas avalia infraestrutura de locais afetados por projetos da Copa do Mundo

Relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para o direito à moradia adequada, Raquel Rolnik está desde ontem em Porto Alegre para visitar locais afetados por obras relacionadas com a Copa do Mundo de 2014. Na primeira etapa do giro, que termina hoje, a urbanista identificou dois problemas: infraestrutura precária no local que abriga as famílias da antiga Vila Dique, com falta de posto de saúde e escola, e ruído na comunicação entre líderes comunitários, prefeitura e população.

As observações de Porto Alegre, somadas a de outras cidades como Rio, São Paulo, Belo Horizonte e Fortaleza, darão base para uma Carta de Alegações, documento que será encaminhado à Missão Permanente do Brasil junto à ONU, em Genebra, na Suíça. Raquel começou a avaliar Porto Alegre com base na visita pela Vila Nova Dique, que já recebeu cerca de 500 famílias vindas da área que dará lugar à ampliação do aeroporto Salgado Filho. Passou depois pela antiga Dique.

Ela irá hoje à Vila Tronco e ao Morro Santa Tereza. A urbanista acredita que a Tronco pode vir a ser um modelo de reassentamento, e aí está um alento. Em comparação com as cidades onde já esteve a trabalho [implicância da autora: será que a urbanista nunca tinha viajado a trabalho antes?], a relatora da ONU afirma que Porto Alegre trata melhor quem é afetado por obras da Coba:

– A situação aqui é melhor. Mas alguns temas se repetem, como a falta de informações (dos moradores).

Ela também escutou quem acha a situação melhor. Como uma cadeirante, instalada na nova casa. A relatora perguntou como estavam as coisas.

– É bem melhor do que lá (na antiga Dique) – respondeu a mulher.

CARLOS GUILHERME FERREIRA

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As diferentes versões da visita de relatora da ONU a Porto Alegre

‘Rasgaram o Plano Diretor de Porto Alegre’, avaliou Beto Moesch

Vereadores de Porto Alegre aumentam os índices construtivos

Por Fernanda Bastos, na edição impressa do Jornal do Comércio de 02/12

Apenas 35 dias depois de a revisão do Plano Diretor de Porto Alegre ter entrado em vigor, a Câmara Municipal aprovou na sessão de ontem texto do Executivo que estabelece novo índice de aproveitamento para reformas ou ampliações em centros esportivos, clubes, equipamentos administrativos, hospitais, hotéis, apart-hotéis (residenciais com serviços de hotelaria), centros de eventos, centros comerciais, shopping centers, escolas, universidades e igrejas.

Após três horas de debate, os parlamentares optaram por aceitar a proposta da prefeitura, que usou como justificativa os preparativos para a Copa do Mundo de 2014. Na prática, a medida garante o aumento de índices construtivos para esses equipamentos. A validade é até o final de 2012.

Com isso, o proprietário pode aumentar o seu empreendimento com mais facilidade, sem necessidade de recorrer à compra de Solo Criado, que é pago ao poder público. “É bom que se façam investimentos em shoppings e hotéis, que serão o cartão de visitas da cidade”, sustentou um dos defensores da matéria, vereador Idenir Cecchim (PMDB).

O vereador Sebastião Melo (PMDB) lembrou que a Câmara aprovou projeto semelhante para a realização da Arena do Grêmio, texto que tramitou na Câmara no fim do ano passado. “Demos para o Grêmio, então pensamos em hospitais e quem mais pode utilizar essa lei. Será bom para a cidade”, sustentou.
Na mesma linha, Adeli Sell (PT) defendeu que a alteração geraria benefícios para Porto Alegre, que considera uma “cidade de turismo de negócios”.

Apesar de ter sido aprovado com maioria – foram 23 votos favoráveis ao projeto contra sete contrários -, alguns parlamentares questionaram a alteração. Inclusive da base aliada do governo.

O vereador Beto Moesch (PP) argumentou que o texto deveria ter sido enviado pelo Executivo ao Legislativo durante o debate sobre a revisão do Plano Diretor. “Esse projeto tinha que vir na discussão do Plano, quando estávamos mobilizados e tínhamos técnicos”, apontou.

Moesch ainda afirmou que o projeto apresentado pela prefeitura é melhor do que a regra aprovada durante a revisão do Plano Diretor, mas que atenta contra a validade da revisão da lei, que irá valer menos que a lei aprovada ontem. “Talvez o projeto seja melhor, mas rasga o Plano Diretor”, analisou. “Continuamos sem respeito ao Plano.”

A vereadora Fernanda Melchionna (P-Sol) observou que o projeto chegou em 12 de novembro ao Legislativo e ainda não havia sido devidamente analisado pelos parlamentares. Fernanda também criticou o uso do Mundial de 2014 como justificativa para a mudança. “A Copa virá, mas a população da cidade já existia e seguirá depois da Copa”, reclamou. Sofia Cavedon (PT) indicou a necessidade de um estudo sobre o impacto da mudança na cidade.

Os vereadores também aprovaram emenda do vereador Luiz Braz que estende o mecanismo até o fim de 2012, a ideia original era de que ele só valesse até 2011.

O presidente do Sindicato de Hotelaria e Gastronomia de Porto Alegre (Sindpoa), José de Jesus Santos, encarou a adoção da medida como uma isenção para o setor. “É importante essa Casa ter entendido a oportunidade de valorização que essa isenção traz para a cidade”, comemorou. Jesus Santos tem expectativa de que a alteração incentive o crescimento do setor hoteleiro.

O orçamento de 2011, que estava na pauta, não foi votado. Deve ser apreciado na segunda-feira.

‘Rasgaram o Plano Diretor de Porto Alegre’, avaliou Beto Moesch

Faltou urbanismo na revisão do Plano Diretor, diz Pesci

Em entrevista a Guilherme Kolling, para o Jornal do Comércio, o arquiteto argentino Rubén Pesci faz diversas críticas ao novo Plano Diretor de Porto Alegre. Ele foi contratado nos anos 90 para ajudar a elaborá-lo, mas aponta diversas deturpações em alterações ocorridas na Câmara dos Vereadores, que criaram um “Frankstein”. “Se discute a arquitetura e se esquece o urbanismo”, resume. Seguem alguns trechos:

JC – Houve uma deturpação da ideia original?

Pesci – Sim. Quero ser categórico: havia sete estratégias e foi aplicada só uma, aquela que interessa aos prédios privados. Não tivemos uma política pública clara em matéria de mobilidade, de meio ambiente, nem em desenvolvimento daqueles eixos de centralidade, que descentralizariam e integrariam a cidade, para Viamão, Alvorada, para o Sul. As medidas para a preservação da orla e a recuperação dos grandes parques ambientais da zona Sul, em particular, não foram feitas. As políticas de moradia social, criando cidades e não bairros excluídos… Nada disso foi feito.

JC – Moradores da Vila Chocolatão irão para outro bairro mais afastado. O senhor considera equivocado reassentar vilas irregulares do Centro em outros locais?

Pesci – Equivocadíssimo. Tenho dito uma frase: “É preciso fazer cidade, não fazer casas.” Para resolver problemáticas sociais, tem que criar espaços que pareçam a cidade de todos. Aqueles não são cidadãos de segunda classe, têm que ser cidadãos de primeira classe. Com casas pequenas, não de luxo, mas fazendo parte do tecido social.

JC – A revisão do Plano saiu depois de oito anos. Alturas foram diminuídas, afastamentos entre as edificações aumentados. Ainda se discute medidas – áreas de interesse cultural, área livre permeável e vegetada nos terrenos além do Estudo de Impacto de Vizinhança.

Pesci – Estão errados. O setor público propõe um plano simplesmente para regular o investidor privado, ou seja, regular o solo privado. Isso não é um plano de cidade. Qual é a proposta de melhoramento do espaço público? Para os sistemas de mobilidade, para a orla? Não temos uma proposta de nova cidade. Se discute a arquitetura e se esquece do urbanismo.

JC – O senhor esteve diversas vezes em Porto Alegre nesses últimos 15 anos. Que mudanças percebeu na cidade?

Pesci – A medida mais acertada, que já estava definida antes do Plano Diretor, foi a Terceira Perimetral. Além dela, não vi avanços na cidade. Continuam desenvolvendo a cidade sem uma orientação inteligente.

JC – Que projetos mudaram cidades, por exemplo?

Pesci – Curitiba fez fama com o sistema de mobilidade. Medellín (Colômbia), com as intervenções nos setores sociais, através de bibliotecas-parque, mudando a realidade social dos menos favorecidos. O slogan de Medellín é “a mais educada”. Essas bibliotecas-parque são prédios de 3 mil a 5 mil metros quadrados. Custam pouquíssimo, R$ 2 milhões. E com isso se muda a realidade social de 10 mil, 20 mil crianças. Aí estão as minhas dúvidas em relação ao governo do PT (Lula). Não tem que subsidiar a mudança social, tem é que criar condições de riqueza e emprego. Não deram casas nem pacotes de alimentos em Medellín. Deram bibliotecas-parque. Em Bogotá, outro exemplo colombiano, fizeram um grande sistema de transporte público, muitas ciclovias.

JC – A ciclovia é só uma alternativa ou pode ser um meio de transporte?

Pesci – É limitado. Não dá para ir de bicicleta até Belém Novo. Mas pode complementar. A Cidade do México, de 20 milhões de habitantes, tem um sistema multimodal. Pode sair de carro, pegar um metrô até as áreas centrais e depois uma bicicleta, para as últimas 20 quadras. É perfeitamente possível. E já coloco outro exemplo, no meu país, em Rosário. Tem uma orla parecida com a de Porto Alegre. E hoje recebe um movimento artístico internacional, com obras de arquitetos europeus. São 27 quilômetros de orla colocados a serviço da população.

JC – E os 70 quilômetros de orla de Porto Alegre?

Pesci – Não se trata simplesmente de grama, pássaros e nada mais. Para que essa orla seja de utilidade social, é preciso equipá-la. Fazer possível a apropriação social todo o ano, 24 horas por dia, com centros esportivos, educativos, náuticos. Se Medellín tem bibliotecas-parque, aqui deveria haver as bibliotecas-orla.

Leia aqui a íntegra.

Faltou urbanismo na revisão do Plano Diretor, diz Pesci

A vitória de Dilma nos jornais

No dia seguinte à eleição de Dilma, fui à banca de revistas e “baixei tudo”, como diria o jornalista e professor Wladimyr Ungaretti. Bem, nem tudo, mas o que meu dinheiro e os limites da ainda em muitos aspectos provinciana Porto Alegre permitiram. Muita coisa não chega por aqui, então me limitei aos jornais nacionais de maior vendagem e aos locais. Fui para casa com Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo, O Globo, Zero Hora, Correio do Povo, Jornal do Comércio, O Sul e Diário Gaúcho de segunda-feira, primeiro de novembro de 2010. Reproduzo e comento as manchetes de cada um:

Folha: Um sóbrio “Dilma é a eleita”, sem tom de comemoração e sem sacanagem.

Estadão: Um bem sacana “A vitória de Lula”, que menospreza a capacidade de Dilma e atribui a vitória a Lula, como se ele fosse governar em seu lugar. É parecido com o que a imprensa vem fazendo com a presidente argentina Cristina Kirchner, principalmente desde a morte de seu marido, Nestor Kirchner. Revela um machismo ainda muito forte nos setores mais conservadores da sociedade, como se as mulheres não fossem capazes de governar sozinhas, tampouco de conquistar uma vitória sem a presença de um homem por trás.

O Globo: Segue na mesma linha preconceituosa do Estadão, mas com o agravante de alfinetar o PT e colocar Dilma apenas como um tapa-buracos entre dois governos de Lula, já que ele não poderia disputar um terceiro mandato consecutivo. Diz que “Lula elege Dilma e aliados já articulam sua volta em 2014”. Além de menosprezar a capacidade de Dilma, zomba da decisão soberana do povo brasileiro, ao dizer que quem elegeu Dilma foi Lula, como se os cidadãos brasileiros não tivessem ido às urnas e expressado sua vontade.

Zero Hora: “A presidente do Brasil”. Além da manchete neutra, o jornal traz ainda um bonito perfil de Dilma nas páginas 4 e 5, assinado por Moisés Mendes.

Correio do Povo: “Mulher no poder”. Uma manchete interessante, oposta à do Estadão e d’O Globo, atribui o poder a Dilma e valoriza o fato de o Brasil ter eleito uma mulher.

O Sul: No alto diz “Dilma” e completa no pé com “A primeira mulher presidente do Brasil”. O fraco jornal gaúcho não é exatamente criativo, mas ressalta o fato histórico de se alçar uma mulher à Presidência, que foi o principal destaque nos jornais do mundo inteiro.

Jornal do Comércio: “Dilma é a primeira mulher presidente”, na mesma linha d’O Sul, mas um pouco mais sóbrio, como é do perfil do periódico.

Diário Gaúcho: Do grupo hegemônico RBS, um jornal popular, mais conhecido por suas capas grosseiras, recheadas de violência e nudez, com uma pitada de futebol, dá um golpe de mestre nos jornais do centro do país, com um gigante “Brilha a estrela de Dilma”. Usa um trocadilho com o símbolo do PT sem ficar ridículo, faz um título bonito e atribui a vitória a Dilma, não ao partido nem a Lula. A estrela que brilhou foi a dela.

Em seguida, comentei que a melhor manchete fora essa, do Diário Gaúcho. De fato, dentre os veículos que comprei, é uma das melhores. Mas hoje o Cloaca News publicou a capa do jornal uruguaio La República, excepcional, que resume em uma frase toda a sacanagem que foi essa campanha eleitoral: “Nem a direita, nem a mídia, nem o papa puderam com a candidata do PT que ganhou por 56% a 44%”. Outras manchetes de veículos internacionais podem ser vistas no RS13. Vale a visita para comparar os estilos de se fazer jornalismo do Brasil com o exterior.

A vitória de Dilma nos jornais

Superpopulação e as metas do milênio

A população mundial pode chegar a 10 bilhões até 2050. Já são quase 7 bilhões, segundo estimativas da ONU. Matéria do Jornal do Comércio de ontem, 12, relata que 156 países vão recontar seus habitantes nos próximos dois anos. Se só no Brasil já é mobilizado um verdadeiro exército de 190 mil recenseadores para auferir seus quase 200 milhões de pessoas, imagina a quantidade de gente para entrar na casa de mais de 6 bilhões. É 30 vezes a população brasileira.

Os números assustam. Nas próximas décadas, o boom demográfico deve continuar, o que significa mais necessidade de energia, de moradia, de comida, de infraestrutura, em uma maioria de países que não dão conta de distribuir esses direitos de forma igual. A vantagem é que Brasil e América Latina agora contam com a maioria de sua população em idade ativa, o que melhora a economia. Não é mais preciso que uma pessoa trabalhe para sustentar outra. Como desemprego já não é mais a principal preocupação do país (foi o que responderam os gaúchos em pesquisa divulgada ontem, 12, na Zero Hora), a situação é positiva.


Crise prejudica cumprimento das metas do milênio

O que preocupa mesmo é o que está na página ao lado no Jornal do Comércio. As matérias são independentes, mas seu conteúdo está estreitamente ligado. A crise mundial pode comprometer o cumprimento das regras do milênio no nosso continente, segundo a Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal). A principal das metas afetadas pela crise que começou em 2008 é a redução da pobreza pela metade, que se pretendia conseguir até 2015.

Se a redução da pobreza diminuiu seu rumo e a população só aumenta, a sitaução tende a se complicar. A proporção de pessoas que saem de condições de vida degradantes tende a se tornar cada vez menor.

A boa notícia é que o Brasil está entre os três países da região que já cumprem a meta de reduzir a pobreza pela metade, junto com Chile e Peru. O país historicamente marcado pela sua desigualdade agora mostra os resultados de um governo preocupado com o social, que efetivamente investiu na sua população e reduziu as diferenças.

Superpopulação e as metas do milênio

A não-cobertura eleitoral de Zero Hora

É quase engraçado. Ontem uma das duas principais candidaturas à Presidência da República deu a largada de sua campanha em Porto Alegre, com um ato para cerca de 5 mil pessoas no Centro. Tudo bem, por decisão editorial, talvez o espaço até pudesse ser dividido com Serra, embora a largada de Dilma fosse muito mais notícia por ter sido aqui. Mas independente do local escolhido por cada um, são eles os postulantes ao principal cargo do país, que mais vai influenciar o destino político do Brasil e as vidas dos brasileiros.

Ao mesmo tempo, as candidaturas estaduais também foram lançadas. A de Tarso, inclusive, junto com Dilma, na “capital dos gaúchos”, como a Zero Hora costuma chamar Porto Alegre. E aliás, sempre que possível, enaltece quando o estado é valorizado de alguma forma por alguém.

Por que agora não? A escolha da manchete do jornal é completamente incompreensível, sobre altos salários no RS. Não é a queda de um avião, nada de absoluta novidade ou que não possa esperar um pouco, de repente aparecer ainda na capa, mas com menos destaque. E a foto principal da capa é de um debate ocorrido na sede da rádio Gaúcha entre os candidatos a governador. Tudo bem, importante, mas não mais que a largada da campanha em seus atos oficiais.

O Correio do Povo e o Jornal do Comércio dedicaram bons espaços na capa para o lançamento das candidaturas, com grande quantidade de fotos, principalmente no Correio. O JC não deu manchete: a escolhida, sobre os negócios da bolsa em junho, até é explicável em função da linha editorial do jornal, voltada para a economia. Ainda assim, não se justifica. E detalhe: a foto é apenas do PT. No Correio, fotos das três candidaturas principais do RS e uma de Dilma. Nada de Serra em nenhuma das duas capas.

Mas o pior não é nem a forma de Zero Hora, mas o conteúdo. Dentro do jornal a coisa degringola de vez. Na matéria relacionada à foto da capa, sobre o debate entre os candidatos do RS, a diferença no tratamento entre os três presentes – Pedro Ruas (PSOL), Tarso Genro (PT) e José Fogaça (PMDB) – é nítido.

Fogaça é sempre positivo, ativo, atuante, só briga quando é preciso brigar, quando a causa é justa. É mostrado como “compenetrado” Tarso é o provocador, o que ficou tentando “constranger” o adversário através de “provocações sutis”. “Já Fogaça nunca demonstrou perfil agressivo ao fazer política”, diz o repórter Paulo Germano. Ou seja, a inércia, a passividade de Fogaça e o fato de o PMDB ser sempre contra e a favor de tudo é mostrado como algo positivo. Ruas, coitado, esse é o brigão, agressivo. A tentativa é de demonstrar que ele não sabe dialogar, não aceita diferenças.

A decisão editorial da quase omissão de fatos relevantes seria estranha, se não fosse nitidamente intencional. Diante das circunstâncias, quanto menos se falar em Dilma, melhor. Aliás, quanto menos se falar em eleições, em política, é sempre melhor para o jornal. Despolitiza, desinforma, tenta fazer pensar menos. Mas que não se enganem, o leitor não deve mais votar pelo que eles estão dizendo em suas páginas.

A não-cobertura eleitoral de Zero Hora