E Merval Pereira virou imortal

Tem momentos em que a gente entende direitinho o que significa ter #vergonhaalheia. O brabo é quando a vergonha alheia não é só pelos outros, ou seja, quando os outros tomam decisões em nome de um grupo muito grande de gente. E quando a gente faz parte desse grupo, então…

Hoje foi um dia de bastante vergonha. Começa assim, pelo absurdo dos outros, por aquela coragem que as pessoas têm de fazer algo tão esdrúxulo. Mas quando a gente fala em Academia Brasileira de Letras, ela deve representar o melhor da literatura nativa. Está ali, no nome. Mas quem decide quem vai integrar o clubinho são os que já fazem parte dele. Ou sejá, não é lá muito democrático.

O fato é que hoje foi escolhido para entrar para a confraria uma pessoa que escreveu dois livros. Tudo bem, o critério é ter um livro publicado, então não há irregularidade. Mas cabe questionar se Merval Pereira foi escolhido pela sua capacidade literária ou se pelo papel deprimente que faz ao comentar política em “grandes” emissoras de TV e jornais. A polêmica tem uma força engraçada, que operou aí. Merval Pereira ocupa seu posto pelas opiniões de suas colunas, que, na minha humilde avaliação, são tão elitistas quanto mal-fundamentadas. Mas o fato de suas opiniões e sua visibilidade terem influenciado na decisão – e não me venham dizer que não influenciou! – é grave indepentendemente de se concordar ou não com elas, mas porque isso não representa em nada sua capacidade literária. Até porque literatura é muito diferente de jornalismo, e ter qualidade em um (quando é o caso) não significa que se vá ter no outro.

E mais, vale pensar sobre por que outros tantos nomes muito mais significativos nas nossas Letras não entraram na disputa. Uma entidade que escolhe José Sarney para integrá-la sem qualquer tipo de critério e que deixou tantos nomes importantíssimos da história da nossa literatura de fora já caiu em descrédito faz tempo.

Que a Academia Brasileira de Letras deixe, pois, de ser notícia. Porque já não serve mais ao que se propõe. Que não seja referência de nossas Letras. Isso, claro, sem desmerecer os grandes nomes que um dia já honraram seu posto.

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E Merval Pereira virou imortal

O político Mario Vargas Llosa

Como Caetano Veloso, muitos músicos, atores, escritores, podiam se ater a sua arte. Quando fogem de sua jurisdição, às vezes falam besteira. Pelo menos alguns deles têm a consciência de que podem falar, mas que se meter com política é tarefa difícil, para poucos.

Mario Vargas Llosa diz que aprendeu muito quando concorreu à Presidência do Peru, em 1990, mas reconhece que sua visão de política é limitada: “careço de virtudes, olho a política pelo viés da literatura”. Não deixa de ser uma definição bonita a do homem que julga que a atividade política traz à tona o que o homem tem de melhor, mas também o que tem de pior.

É bom, porque seus julgamentos são pautados pelo viés neoliberal. Foi para um encontro de jovens pensadores do neoliberalismo que veio a Porto Alegre pela primeira vez. A segunda foi para uma mesa-redonda sobre política e literatura. Não adianta, a mistura entre os dois assuntos é inevitável na conversa com o Prêmio Nobel de Literatura e ex-candidato a presidente.

Infelizmente, a coletiva de imprensa que antecedeu a palestra no Fronteiras do Pensamento, que acontece hoje à noite (14), na capital gaúcha, não aprofundou temas culturais. As primeiras perguntas não saíram do raso em que muitos jornais geralmente se pautam, mas quando houve uma tentativa de aprofundamento, Vargas Llosa logo cortou: “isso faz parte da conferência de hoje à noite”.

América Latina e seus governos

Assim, contentemo-nos com a discussão sobre temas gerais e sobre política. Dos mineiros chilenos aos governos latino-americanos. Sobre esses, vê um progresso considerável na comparação com 30 anos atrás. Progresso, para Vargas Llosa, é haver democracia. Para ele, pouco importa se de direita ou de esquerda, se a vida do povo melhora ou não, o importante é que seja democrático. Não discordo do valor da democracia, mas não é o único ponto a se considerar. E, bem, para o escritor, a Venezuela é uma semi-ditadura.

Uruguai, Brasil e Chile (na época de Bachelet) são exemplos de democracias de esquerda citados. O Chile atual, Peru e Colômbia, democracias de direita. Todos “fenômenos novos e muito positivos”. Já a Argentina… “Hoje não se recorda que já foi um país desenvolvido, é triste pensar que esse país está nas mãos do casal Kirchner”.

Opinião questionável, ainda mais quando pautada por uma visão conservadora de imprensa. Uma visão mercadológica, que não vê o interesse social. Assim é a sociedade ideal de Mario Vargas Llosa, que louva a democracia política e a economia de mercado. Para os brasileiros defensores do mesmo neoliberalismo de Vargas Llosa e que hoje pautam a discussão sobre um falso moralismo, a posição se torna incômoda quando esplicitada pelo mesmo escritor que defende a legalização das drogas.

Literatura estimula a reflexão

O mais interessante, como é de se supor, fica na visão sobre a literatura. Uma pena que o assunto tenha sido abordado de forma tão ligeira. Ele diz que suas ideias sobre literatura foram mudando com o tema. No início, foi muito inspirado por Sartre, mas avisa: “ele é muito inteligente, mas muito sério, não via a possibilidade de humor”, que Vargas Llosa descobriu em Pantaleão e as Visitadoras. O Prêmio Nobel de Literatura via essa arte como um instrumento de transformação da sociedade, uma “arma política”.

Com o tempo, viu que a realidade não confirmou essas ideias. “A literatura não produz mudanças históricas imediatas e não pode ser usada como um instrumento de ação política. Creio que atua de uma maneira lenta, indireta, através das consciências e da sensibilidade que ajuda a formar. E de uma maneira também imprevisível, que não se pode planificar, programar.” É por conta disso, porque a literatura “estimula uma mentalidade diferenciada” que todas as ditaduras exerceram controle sobre ela.

O político Mario Vargas Llosa

Poder: “o perigo de uma história única”

São quase 19 minutos capazes de uma verdadeira mudança de paradigma. O discurso é meio longo para esses tempos de velocidade, mas não estamos falando justamente em mudar parâmetros? Roubei do blog do Sátiro, que roubou do Brizola Neto, o relato da escritora nigeriana, Chimamanda Adichie, que faz repensar nossas concepções. Se o espectador acha que a África é um país cheio de macacos cercados por crianças esqueléticas ou se tem uma visão mais verdadeira e humana do continente, pouco importa. Vai interessar a ambos. Talvez de jeitos diferentes, talvez toque em pontos diversos do sentimento e da compreensão. Mas vai tocar.

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“Poder é a habilidade de não só contar a história de uma outra pessoa, mas de fazê-la a história definitiva daquela pessoa.”

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Para legendas, é só clicar em subtitles e escolher o idioma.

Poder: “o perigo de uma história única”

Luto por Saramago

Morreu hoje um dos escritores mais fantásticos da Língua Portuguesa. Um homem generoso, extremamente inteligente e lúcido. Faltam palavras para descrever a figura que foi José Saramago, suas ideias. Felizmente, ele as deixou todas para nós. Não apenas por seus livros, os melhores. Um homem que, aos 87 anos, dispõe-se a manter um blog (Outros cadernos de Saramago), não é um homem qualquer. Um comunista sem ranço, que enxergava longe, além.

Ainda bem que quem deixa Ensaio sobre a cegueira não nos deixa completamente sem chão. Não morre nunca.

Luto por Saramago

Tudo tem limite

Concordo, tem que lutar contra certos abusos, defender suas causas, reivindicar, criar organizações, movimentos, agregar pessoas.

Mas tudo tem limite, e às vezes as pessoas ultrapassam o bom senso. Essa de processar o Gabriel García Márquez por apologia à prostituição infantil por ele ter vendido os direitos de Memória de Minhas Putas Tristes para fazer um filme é demais. A iniciativa foi da ONG Coalizão Regional Contra o Tráfico de Mulheres e Meninas na América Latina e Caribe (CATW-LAC).

É preciso cuidado pra não ficar cego tentando enxergar demais.

A informação é da Folha de S.Paulo.

Tudo tem limite