O município e a escolha de prioridades

Faz pouco tempo que me convenci de que a política municipal é a mais importante para a transformação de uma sociedade. Tem a ver com aquela frase do Franco Montoro que diz que “Ninguém vive na União ou no Estado. As pessoas vivem no Município”, mas não só por causa do espaço geográfico – e tenho certeza que a frase tinha uma conotação mais ampla. O município desempenha um papel fundamental porque são as ações de sua responsabilidade que de fato podem mudar a cabeça, os hábitos e as perspectivas dos cidadãos.

Claro, o papel dos estados e da União é extremamente importante na mudança de uma sociedade, principalmente porque são eles que respondem direta e indiretamente por boa parte da renda da população e que definem os rumos da economia. Foi a política nacional que proporcionou uma vida melhor, tirando da pobreza e fornecendo alternativas de educação e emprego, a milhões de pessoas. Foi ela também que deu ao Brasil protagonismo nas relações internacionais, por exemplo.

Mas é no município que se dão as transformações pequenas do dia-a-dia, justamente aquelas que mudam mais profundamente corações e mentes.

Percebi isso mais claramente assistindo ao programa Londres Assim, um dos vários sobre a capital britânica nesse período de Olímpiadas, no GNT. Hoje, segundo o programa, 95% dos habitantes da cidade vão trabalhar de transporte coletivo, de bicicleta ou a pé. Incrivelmente, há menos carros circulando pelas ruas de Londres hoje do que há 10 anos. E isso não é assim por acaso, e aí entra o ponto que me deu o clique.

Há cerca de 40 anos, foi proibida a construção de estacionamentos em edifícios comerciais. O metrô, isso é fato mais conhecido, é o mais antigo do mundo, e funciona tremendamente bem. As linhas de ônibus são muitas e muito frequentes, além de muito bem sinalizadas (sem falar que boa parte da frota é ecológica). Entrar de carro na área central exige o pagamento de um pedágio bem carinho. E, muito importante, o cidadão londrino respeita o ciclista. A cidade é cheia de ciclovias e toda sinalizada para o uso de bicicletas. Aquelas alugáveis estão espalhadas por toda a área central.

Nada é muito barato. Nem ônibus, nem metrô, nem alugar bicicleta. Mas mais caro ainda é pagar para ter carro, já que ele não é prioridade na cidade. Estacionar é superdifícil, o trânsito é lento, ir de um canto a outro de carro demora mais do que de metrô e, muitas vezes, mais do que de bici.

Ainda assim, mesmo o transporte individual não sendo prioridade, o trânsito consegue ser caótico em determinados pontos e horários. Imagina se o número de veículos tivesse aumentado. Como seria a vida da cidade? Como estaria a qualidade de vida de seus cidadãos?

Agora imagina isso em Porto Alegre.

Incentivar o uso da bicicleta não é uma excentricidade defendida por gente alternativa. É uma opção de modelo de cidade. Que funciona, até na fria e chuvosa Londres. Optar por qual cidade queremos é optar pela nossa qualidade de vida.

E o transporte é só o tema que me toca mais, mas há muitos outros. A importância da política municipal está justamente no estabelecimento de prioridades sociais. A existência de espaços públicos de convívio social é outra questão importantíssima, por exemplo. É uma questão urbanística, mas que tem impacto em diversas áreas, já que incentiva a vida em comunidade, humaniza as pessoas, proporciona espaços de convívio. E reflete em uma cidade mais saudável e uma sociedade mais feliz.

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O município e a escolha de prioridades

Uma Europa que não é mais a mesma

Não, não é engraçado, mas é um tanto irônico. Quando a ministra da Saúde da França, Nora Berra, comete um “lapso” e diz para os sem-teto não saírem de casa durante o inverno, ela sem querer evidencia essa grande transformação por que passa o mundo e explicita que a sua França já não é mais a mesma. Foi um lapso. Mas um lapso de quem: a) não está acostumada a lidar com esse tipo de problema; b) não costuma considerar muito importante essa gente pobre que normalmente não vota. O problema é ter quem comete esse tipo de lapso no poder.

A letra ‘a’ diz respeito ao empobrecimento da Europa. À crise. A uma França diferente da de alguns anos atrás, uma França diante de problemas de “terceiro mundo”. Fui a Paris pouco tempo atrás, na metade de janeiro. Sabia da crise, sabia do desemprego, sabia do empobrecimento. Mas não imaginava a quantidade de sem-teto que eu veria por lá. Às 2h da madrugada, hora em que o metrô fecha nos fins de semana, todos os bancos de uma estação da periferia serviam de cama. Em Londres, naquela Inglaterra onde a crise também está pegando, é nítido o aumento de moradores de rua a cada mês, pelo menos pelos últimos seis meses. É o retrato de uma Europa que há séculos não existia desse jeito. Pobreza houve muitas vezes. Gente na rua, também. Desigualdade, muita. Mas nunca antes no mundo capitalista a Europa se via deixando de ser a referência, perdendo importância, vendo-se obrigada a pedir ajuda a países do Sul. Nunca antes ela via inverter o cenário da geopolítica mundial como agora, tendo que buscar alternativas em exemplos do Sul. E principalmente, vendo que esse “Sul” de que a gente fala não é um país, mas vários. Um momento em que o mundo fica cada vez mais multipolar.

Vamos com calma, o Brasil ainda não é mais importante que a Europa como referência mundial, e possivelmente não venha a ser. Mas o importante do que está acontecendo agora é que os países do Sul, especialmente da América Latina, crescem com uma política de inclusão enquanto os europeus encolhem ao mesmo tempo em que excluem. São movimentos inversos, e isso é fundamental para entendermos o que está acontecendo. E, apesar de nossa desigualdade ainda ser enorme, aqui, ao contrário da Europa, o Estado funciona, como testou a Katarina Peixoto em Porto Alegre.

O lapso da ministra não é simplesmente uma gafe, o que nos leva à letra ‘b’. É o lapso da ministra de um governo conservador, reacionário, que fala nas classes mais baixas apenas por obrigação, para não ficar feio, e não porque realmente se importe com elas. Um governo que não pensa de verdade em como as pessoas se sentem na rua no frio. Há quase um mês, quando estive em Paris, o frio já era considerável, com temperaturas não muito distantes de zero. Para mim, protegida com um casaco carésimo que comprei com medo do inverno europeu e hospedada em um hostel pra lá de ruim, mas com calefação, já era difícil. Agora imagina pra quem tem pouca roupa e nenhum teto e com um frio muitos graus mais cruel do que aquele, com neve.

Os sem-teto se multiplicam na Europa não só porque ela está em crise, mas porque ela está recheada de governos conservadores. Governos cujas medidas fazem aumentar a crise, o que leva a que se elejam governos ainda mais conservadores (pelo medo que o povo lá tem mostrado sentir, a exemplo recente das eleições espanholas). Mas mesmo em tempos sem crise, ou pelo menos sem uma crise tão grave, é normal a desigualdade crescer durante governos de direita, como nos mostra o Reino Unido. Aumenta o desemprego, fica ainda mais difícil subir de classe social e mais fácil cair. É a tendência natural de governos que governam para o mercado, para as elites de que fazem parte, e não para o povo, para o país. O que assusta é que a direita ganha cada vez mais força. E não é só uma direita moderada. Muitas vezes extrema, ela ganha espaço na França (Marine Le Pen é ameaça nas próximas eleições), na Espanha, na Itália, no Reino Unido etc. etc. À medida que ela ganha espaço, aumentam os os índices negativos dos países, mas ninguém parece perceber muito a relação entre as duas coisas. Não é tão óbvia?

P.S: A foto, da agência AFP, é na Itália, onde o frio está castigando e o governo é ainda pior, tendo passado de um conservador maluco pra um indicado do mercado financeiro alçado ao cargo por um golpe de Estado.

Uma Europa que não é mais a mesma

O mundo dentro do metrô mais antigo do mundo

Continuação do post anterior

Dentro do “tube” – o apelido dado pelos britânicos – algo interessante acontece. Celulares não funcionam, o que faz as pessoas esquecerem seus brinquedinhos tecnológicos por um momento (menos aqueles que usam pra brincar mesmo, já que os jogos não precisam de conexão). O que parece um problema à primeira vista se torna um grande alívio. Assim não precisamos compartilhar a conversa de ninguém, saber dos problemas no trabalho dos outros, ouvir os lamentos de namorados saudosos e nada mais que não nos diz respeito. Mas ainda não nos livramos de ouvir a música de quem está do lado – e às vezes do outro lado do vagão – e não sabe controlar o volume de seu aparelhinho.

Um mundo à parte

Também em função disso, no mundinho do metrô, as pessoas leem mais. Dois jornais diários – matutino e vespertino – são distribuídos gratuitamente em praticamente todas as entradas de estações. Podem não ser os melhores, mas é alguma coisa. Muitas vezes o mesmo jornal é lido por diversas pessoas, que deixam a edição no banco quando chegam ao seu destino. Livros – em papel ou eletrônicos – são bem mais comuns do que no transporte público brasileiro. O Kindle, e-book da Amazon, é sucesso absoluto no Reino Unido, e salta das bolsas de milhares dentro do underground. E ampliando um pouco mais a perspectiva, é interessante pensar como o metrô pode ser simplesmente um tempo para as pessoas pensarem. Afinal, na sociedade da informação, isso não existe mais, estamos sempre fazendo alguma coisa, mesmo que inútil. Vale pensar na sua vida ou na do outro. Observar é extremamente instigante. Imaginar o que o cidadão ali na tua frente faz da vida, com quem ele vive, de onde ele é, no que ele está pensando.

A vida no metrô é meio um mundo à parte. Isolado da realidade de fora, do sol ou da chuva, tem uma correria diferente da das ruas. Todos continuam apressados, mas em uma pressa ordeira, que segue as orientações das placas e respeita o lado que tem que andar nos corredores de ligação entre as linhas dentro das estações para que ninguém se trombe. Esse caminho, aliás, sabe ser bem entediante. Às vezes engana o passageiro, que pega o metrô para fazer mais rápido do que ir a pé de um lugar a outro não muito distante e acaba andando quilômetros para trocar de linha. Quilômetros embaixo da terra, mas ninguém pensa nisso. Ninguém parece perceber que acima de suas cabeças tem gente correndo do lado de fora, ou tomando cerveja num pub, ou sentado no escritório trabalhando.

Dentro do metrô, se perde a noção de distância e de direção. O turista que fica poucos dias e usa só esse meio de transporte de repente se surpreende de como é a cidade de verdade, aquela das ruas. Quando deixa de lado o tube, percebe que as distâncias são menores do que parecem – quando o caminho é mais comprido, a noção se inverte e as distâncias dentro do metrô parecem diminuir. O passageiro perde também o senso de direção. Norte, sul, leste e oeste se perdem, e fica muito difícil apontar para que lado é alguma coisa e até mesmo se orientar quando sai da estação.

Um pouquinho mais perto do inferno

Apesar de rápido e eficiente, o metrô pode, em muitos aspectos, ser bastante desconfortável. Se no inverno, com a função de casacos pesados, a gente sua embaixo da terra, no verão a sensação é de que estamos de fato fisicamente próximos do inferno. E o fato de não se enxergar a luz do dia (ou as luzes da noite) torna a experiência um tanto feia. No fim das contas, o metrô é prático pra turistas, porque é fácil, mas não é turístico, porque ele não vê o que ele veio a Londres para ver. E no cotidiano o confinamento dos metrôs pode tornar a vida um pouco mais pesada, especialmente no inverno, já bem carregado pela pouca luz dos dias curtos.

Dentro das estações, além das caminhadas já mencionadas, tem o sem número de escadas. As mais compridas são rolantes – algumas são imensas – mas muitas outras ficam por conta dos músculos do passageiro. O que não é exatamente prazeroso quando ele carrega um carrinho de bebê – bastante comuns no underground – ou já tem músculos com muitos anos de vida ou está machucado ou simplesmente cansado. Com mala, então, pode ser uma aventura e tanto. E não das mais agradáveis. E muita gente vai de metrô até a estação de trem ou o aeroporto, já que as distâncias enormes encarecem muito os táxis.

Um sistema pouco amigável a portadores de deficiência

Poucas estações têm acessibilidade. Aliás, os prédios em Londres, em geral, não são um grande exemplo no tratamento aos cadeirantes. E não se pode dizer que isso seja um problema de administração, já que os prédios públicos onde era possível adaptar deram um jeito e resolveram o problema. Mas o fato de a cidade ser antiga não se aplica ao metrô da mesma forma. As estações vão aos poucos recebendo elevadores, mas bem aos poucos. A grande quantidade de escadas e os corredores às vezes intermináveis colaboram para tornar o underground um ambiente pouco propício também para deficientes visuais.

O lado negro do tube

Um outro dado assusta. Pouco divulgados por uma questão de ética jornalística, suicídios acontecem com uma frequência considerável dentro do metrô, a ponto de os maquinistas terem treinamento especial para lidar com esse tipo de trauma. Em 2010, foram 80, segundo o jornal britânico The Evening Standard, que acrescenta que é possível observar um aumento no número de pessoas que se jogam em frente aos trens desde a crise econômica de 2008.

Como tudo na vida, o metrô não é perfeito. Ganha na balança entre qualidades e defeitos, ao contrário de muito na vida. Mas ainda tem um caminho pela frente para superar alguns problemas que não passam por defeitinhos normais, mas que afetam consideravelmente o peso dos contras na comparação com os prós. Preço e acessibilidade são os dois fatores principais para reduzir a injustiça e minimizar a desigualdade. Londres ainda não está sabendo melhorá-los, mas tem todo um futuro pela frente esperando para ser preenchido. É só uma questão de prioridades. Que o Reino Unido passe, então, a priorizar quem precisa.

O mundo dentro do metrô mais antigo do mundo

O metrô mais antigo do mundo

Três milhões de pessoas, duas vezes a população de Porto Alegre, passam pelo metrô de Londres todos os dias. O underground, ou tube, virou símbolo da cidade, disputando o espaço com os ônibus de dois andares, os táxis pretos e os potes de chá nas lojas de souvenir. Canecas com a famosa frase “Mind the gap”, dita em quase todas as estações para que as pessoas cuidem o vão entre o trem e a plataforma, abundam em meio às quinquilharias.

Pois a fama não vem do nada. O metrô de Londres é o mais antigo do mundo, prestes a fazer 150 anos, em 2013. E o sistema é realmente eficiente, e impressiona. Para quem vem de uma cidade em que ele não existe, é ainda mais excitante (mesmo que o meu maior choque tenha sido em 2007, em Madri, na primeira vez em que andei de metrô).

Em primeiro lugar, impressiona o tamanho e a quantidade das linhas. Londres é uma cidade enorme, não só em número de habitantes, mas em área. Com não muitos prédios altos, é espalhada. Só pra se ter uma ideia, com cerca de 3,5 milhões de habitantes a menos, a capital londrina tem aproximadamente 50 km² a mais que São Paulo (dados da Wikipedia). Na prática, isso torna a vida menos sufocante, mas muito mais difícil em termos de locomoção. E as 11 linhas de metrô chegam a todas as suas seis zonas, ainda que ele seja mais concentrado no centro e, em muitos lugares mais distantes, seja preciso ir de ônibus até a estação mais próxima.

Como comentei essa semana, Londres é uma cidade concêntrica, dividida em zonas. Começa com um círculo no meio, onde fica o centro e é a parte mais antiga (a zona 1) e vai abrindo em anéis. Mais longe, mais barato de se viver. E mais difícil.

A utilização do underground é às vezes um pouco complicada, principalmente quando as linhas bifurcam, mas extremamente bem sinalizada. Para quem ainda não está acostumado com o sistema, é só dispor de um pouquinho de tempo para ler as diversas placas e os painéis eletrônicos. Estes, aliás, indicam a direção do próximo trem e quanto tempo falta para ele chegar – geralmente dois ou três minutos. O que nos leva a outro ponto: o metrô é ágil. A frequência é enorme e a velocidade é razoável, o que poupa um tempo enorme no cotidiano da cidade.

O sistema funciona até pouco depois da meia-noite (fecha ainda mais cedo nos domingos), o que, para mim, é inaceitável numa cidade não só do tamanho de Londres, mas com toda a vida que vibra aqui. A cidade do multiculturalismo, onde tudo acontece. É a cidade que mais recebeu turistas no mundo em diversos dos últimos anos . Com o preço que cobra para levar pessoas de um lado a outro, especialmente quando elas vão de metrô, seria mais do que honesto oferecer um serviço 24 horas.

Aliás, o preço é um problema ainda maior do que a falta de metrô durante a madrugada. Bem mais caro que ônibus, impede que muita gente tenha acesso a esse sistema que pode ser muito bom, mas que acaba se tornando um tanto injusto. Até porque, quanto mais zonas o teu cartão abranger, mais caro fica, o que prejudica os que moram mais longe, muitos dos quais acabam recorrendo ao ônibus e perdendo bastante tempo no transporte diário (da minha casa, na zona 2, até o centro eu levo menos de meia hora de metrô e mais de uma de ônibus).

Os passes podem ser para uma viagem, um dia, uma semana ou um mês. Nos três últimos, o uso é ilimitado dentro das zonas escolhidas. Ter um passe para viajar quantas vezes quiser em um período de tempo é extremamente útil e barateia bastante para quem usa muito o transporte. O crédito é feito em um cartão, o Oyster, que pode ser adquirido por 5 libras. Vale a pena, mesmo para quem for ficar pouco tempo, porque é mais prático, fica um pouco mais barato e as 5 libras são devolvidas quando o cartão é entregue de volta. Estudantes podem fazer um cartão próprio, com foto, pela internet, que dá direito a um desconto de 30%. É fácil, depende apenas da aprovação da escola ou universidade. E é entregue em casa.

Continua…

O metrô mais antigo do mundo

Ousadia e vanguarda, mas não pra todo o mundo

Continuação do post anterior

Da primeira vez que vim para Londres, em 2007, ainda era possível entrar por qualquer porta do ônibus e só encostar o cartão em algum dos leitores. Hoje, o fluxo é da frente para trás, aumentando o controle sobre as tentativas de driblar o motorista e andar de graça. Para quem for pego fazendo isso, a multa é salgadinha. Sinal dos tempos de crise, mais desemprego, mais desigualdade. Os ônibus não têm cobrador – o que poderia muito bem baratear o preço –, até porque não podem ser pagos em dinheiro, só com tickets ou o cartão que é o principal passaporte para o transporte na cidade. O Oyster Card funciona em praticamente qualquer tipo de transporte dentro de Londres. Ele pode ser carregado com um valor a ser descontado a cada uso ou com passes diários, semanais ou mensais.

Não admira que a tentativa de andar de graça tenha obrigado a administração a aumentar o controle. O transporte é caro e pode ser bem cruel com quem ganha menos ou está desempregado. E convenhamos que esse não é um problema a ser desconsiderado, afinal, Londres é a capital do país famoso pelo seu sistema classista e pela sua desigualdade. Burlar a cobrança do transporte, então, é uma questão de necessidade, em alguns casos. Especialmente porque – e isso dá a impressão de ser feito por pura sacanagem – quanto mais longe se mora do centro, mais caro é o transporte. O passe só de ônibus dá direito a todas as zonas pelo mesmo preço, mas o que inclui metrô tem preço menor quando é só para andar pelas zonas 1 e 2 e vai aumentando gradativamente. A conclusão óbvia é que, mais uma vez, os mais pobres são os que se dão mal, já que moram mais longe. Ou porque perdem muito mais tempo andando de ônibus, que é bem mais barato, ou porque têm que pagar muito mais para ir para sua zona. E estudante aqui tem 30% de desconto no transporte, não 50%, como no Brasil.

Um dos motivos por eu só ter andado de táxi quando estava com malas realmente incarregáveis é o fato de não depender deles a nenhuma hora do dia. O metrô fecha logo depois da meia-noite, mas Londres tem ônibus 24 horas a cada 20 ou 30 minutos (e em alguns casos até menos). Não são todas as linhas, mas as opções são bem grandes. Uma cidade desse tamanho e com tanta vida não podia não ter um sistema noturno realmente eficiente, ainda que eu ache que Londres merece também linhas noturnas de metrô (mas isso é assunto para o post sobre o underground).

Sobre duas rodas

O que é estranho é que não se veem muitas motos por aqui. Em compensação, bicicleta é meio de transporte para muita gente. O mais legal é que os motoristas respeitam. Em muitos lugares, não tem ciclovia, até porque as ruas podem ser consideravelmente estreitas. Mas os ciclistas não se deixam acuar e seguem pelo seu caminho, seja ele onde for. Muitas vezes andam mais devagar que os carros, e falta espaço para passarem ambos ao mesmo tempo. É comum, então, vermos motoristas diminuírem a velocidade e andarem pacientemente atrás da bicicleta até que tenham uma oportunidade de ultrapassar. O mesmo acontece com os ônibus, já que os ciclistas também usam a faixa destinada ao transporte público.

Para quem não tem a sua própria, é possível também alugar bicicletas na rua, a qualquer hora. Tem decks em diversos lugares pelo centro, até partes da zona 2, e é só retirar uma onde for mais perto e devolver no destino. E elas até são boas, apesar de um pouco pesadas. Mas de novo, podia ser mais barato. Pra de vez em quando, tudo bem, nem se sente. Mas se quiser usar com frequência o preço compete com o do ônibus. A vantagem é que, com esse meio de transporte, se a distância for média, é mais rápido do que ir de ônibus ou táxi, que ficam presos no trânsito. E mais interessante e barato do que de metrô (e às vezes também mais rápido). Além de mais ecológico e saudável, claro.

Para os mais sofisticados…

Pretos, rechonchudinhos e elegantes, os táxis são sinônimo de sofisticação. Pra ser sincera, nunca andei em um, mas a quantidade deles pelas ruas é estarrecedora. E depois têm os minicabs, os táxis que não parecem táxis e só podem ser pegos quando reservados por telefone ou internet, dando origem e destino antes da viagem, o que faz com que o cliente já embarque sabendo quanto vai pagar. Não sei se isso já existe no Brasil, mas outro dia reservei um por um aplicativo para Android no celular. Tá, ele chegou bem atrasado, mas me mandaram uns quantos e-mails e me ligaram (o motorista e a companhia) a cada minuto para me avisar que o trânsito estava horrível e me avisar em quanto tempo chegaria.

O lado “errado”

Por fim, não poderia faltar um dos maiores charmes do Reino Unido: a mão invertida das ruas. O visitante literalmente de primeira viagem não precisa se preocupar (muito) porque em todas as sinaleiras há um aviso de pra que lado da rua se deve olhar. Claro que em algum momento ele vai esquecer e ser xingado por algum dos não muito corteses motoristas ingleses. E pode ficar tranquilo que, se não tiver sinaleira, mas tiver faixa de pedestres, mesmo o mais mal-educado dos motoristas para.

(Porque toda aquela tradição de educação em excesso não se aplica ao trânsito, onde não é totalmente incomum ver gente saindo do carro para discutir com o motorista de trás.)

O interessante é que o fluxo de ir pela esquerda e voltar pela direita às vezes funciona também nas calçadas, com os pedestres. Dentro do metrô, é regra, e chega a ser engraçado. Mesmo em momentos de maior tumulto, quando o fluxo de que vem é muito grande, sempre se deixa um espaço para o sentido inverso. Sem cordas ou ninguém controlando, quem vai tem seu espaço garantido e não invadido pela montoeira de gente que vem. Em resumo, um senso de ordem que está no sangue britânico (e que, convenhamos, nem sempre pode ser considerado um elogio) e que resiste em muitos aspectos mesmo com toda a mistura de línguas e culturas da capital da diversidade.

Ousadia e vanguarda, mas não pra todo o mundo

Ousadia e vanguarda em transporte

Centro de um dos maiores impérios que já existiram, coração do maior mercado financeiro da Europa, sede da monarquia mais famosa do mundo, destino de milhares de imigrantes, palco de todo tipo de atividade cultural, cidade da diversidade. Ao contrário de muitas cidades em que a história está em cada esquina, Londres mantém-se viva. Não vive do passado, mas de um sem número de pessoas que por aqui chegam todos os dias de olho no futuro. Mas também não esquece a história e faz o possível para preservar seus patrimônios. Seus imponentes, exuberantes patrimônios.

Cidade com história, cidade antiga. Ou seja, urbanizada quando ainda não existiam carros, ônibus, trens. Ou seja, ruas e prédios não planejados para toda seus mais de 7 milhões de habitantes e os tantos milhares de turistas que passam por ela todos os dias. Tampouco para as nossas necessidades tão contemporâneas e as máquinas que fomos criando com o tempo. Isso inclui os carros.

São muitos. O que faz de Londres uma cidade demorada no trânsito. É comum um trajeto levar uma hora ou mais. O centro da cidade é muito antigo, não tem ruas geometricamente planejadas nem grandes avenidas. E é lá que tudo acontece. Isso significa não simplesmente um bairro, mas toda uma grande zona central. Londres é dividida em zonas concêntricas, a mais antiga e principal no meio e outros cinco anéis ao redor. Como na maioria das grandes cidades, geralmente a periferia é a região mais pobre. Quanto mais central, mais fácil de viver. E mais caro.

Resumindo, o transporte tem tudo para ser caótico e, em muitos pontos, realmente o é. O ponto negativo reside basicamente no trânsito. Um inferno. No centro, principalmente ônibus vermelhos e táxis pretos avançam devagar tentando levar pessoas de um canto a outro. Por outro lado, mesmo que a velocidade não seja grande, é muito difícil parar completamente. Isso porque a cidade tem tradição em transporte e é ousada no tema.

Em 2013, a primeira linha de metrô do mundo vai fazer 150 anos. Hoje ela é parte da Hammersmith & City, no centro de Londres. O underground merece um capítulo a parte, que fica para mais adiante. Por enquanto, fica o registro do papel de vanguarda da capital da Revolução Industrial.

Mas não é só. Diante dos problemas de trânsito, a cidade adotou uma medida polêmica. Todo carro tem que pagar uma taxa diária bem alta para circular no centro. É por isso que o que não se veem tantos automóveis particulares nas ruas quanto no Brasil.

Ainda nas ruas está outro dos principais símbolos de Londres. Os ônibus vermelhos de dois andares são mesmo charmosos. Com calefação, têm o conforto suficiente para atender bem seus passageiros, ainda que geralmente estejam sujos – como a cidade em geral. Mas são razoavelmente frequentes – não tanto quanto o metrô – e muito bem sinalizados.

Cada parada (ou ponto, para os não-gaúchos) tem uma letra ou duas que a identificam. Com ela, é possível ir ao mapa afixado ali do lado e visualizar as outras paradas por perto. Isso se torna especialmente útil por causa da lista de destinos logo abaixo, onde o passageiro pode localizar para onde quer ir e descobrir qual ônibus pegar e em qual parada. Do lado, um poste indica os números das linhas que passam por ali, com o itinerário resumido e a frequência. Uma mão na roda para turistas e nativos.

Continua…

Ousadia e vanguarda em transporte

A cidade mais multicultural do mundo

Ainda que alguns possam argumentar que Nova York faz concorrência direta, Londres é, para mim, a cidade que mais mistura gente. Uma observação um tanto leviana, aviso, já que nunca fui aos Estados Unidos e, bem, não conheço quase nada do mundo. Mas simplesmente parece impossível ter mais gente de tantos lugares tão diferentes do que aqui.

Faz quase seis meses que estou na capital do Reino Unido. Eu sei, eu sei, deveria ter escrito muito antes sobre o que a gente vê por aqui. Mas, antes tarde do que nunca, resolvi me redimir. Espero que a contento.

Londres não cabe em um post. Claro, Londres não cabe nas observações de uma só pessoa. Mas nem só a minha Londres cabe em tão pouco espaço.

O primeiro assunto de praticamente qualquer um que chega aqui, além do clima maluco, é o transporte. Mão invertida, metrô, táxi, bicicletas, carros, ônibus de dois andares, organização das ruas.

Um pouco atrasada, começo agora uma pequena série de posts, com impressões – muito mais do que certezas – a respeito desse mundo multicultural, tão rico, cheio de coisas boas e ruins, certas e erradas. Ou… sem certo nem errado.

A cidade mais multicultural do mundo