Dia do trabalho ou do trabalhador?

Faz tempo que estou me enrolando para escrever a respeito porque queria um post bem feito. Mas hoje achei que a data se sobrepunha à qualidade do texto e decidi fazer agora.

É dia do trabalho ou do trabalhador? Para mim, do trabalhador, sem sombra de dúvida. Cultuar o trabalho em vez do trabalhador é valorizar uma cultura que oprime. A supervalorização do trabalho é uma herança de nossos antepassados, e não é saudável. Parece que todos, para sermos dignos, temos que querer trabalhar em todos os momentos possíveis. Temos que ter vontade de preencher o dia inteiro, todas as horas em que estamos acordados, com trabalho. Senão, não somos dedicados, não gostamos do que fazemos e, pior e mais comum, somos preguiçosos.

Isso não pode fazer bem. Nem para os indivíduos nem para a sociedade. Para os indivíduos, já foi comprovado, causa estresse e um monte de doenças correlatas. Para a sociedade, causa desemprego e baixa produtividade.

O lucro pelo lucro, a acumulação

Já tive que argumentar com diversas pessoas que me questionavam o que eu faria se fosse empregador. Afinal, contratar mais profissionais diminui o lucro das empresas. Em primeiro lugar, diminui em parte, porque a produtividade aumenta com funcionários mais descansados. Em segundo lugar, isso só importa porque partilhamos de uma lógica em que o lucro vem em primeiro lugar, acima de tudo. Os grandes empresários, que administram grandes empresas, gerenciam milhões. Mas, se seu lucro for de 4,9 milhões de dólares e o do ano passado tiver sido de 5 milhões, é sintoma de crise. Gente, não é possível. Ele não vai usar esses 100 mil que sobraram. É a lógica da acumulação, que só faz mal. É ter por ter, sem objetivo. Para poder investir e acumular mais e guardar mais. E não usar. Para quê?

Além disso, quanto mais cada um trabalha, menos empregos existem. O mercado está competitivo, difícil de entrar, de “se dar bem”, vemos matérias nos jornais todos os dias a respeito. Mas está assim muito em função dessa cultura. Ou seja, é uma forma de administração excludente, que gera desemprego. O que não é bom para o país.

E eu com isso?

E claro, não é bom para cada um de nós. Com mais tempo livre – e, claro, sem diminuir o poder aquisitivo –, teríamos mais lazer. Seríamos mais felizes. Afinal, o que importa na vida? Acumularmos dinheiro? Viemos todos ao mundo para juntar papeizinhos e metaizinhos e administrá-los de cara fechada? Eu acho que viemos ao mundo para curti-lo, para termos ideias boas, para dividirmos os momentos com família, amigos.

Claro que isso só é possível com a sociedade funcionando direitinho. Portanto, não sou contra o trabalho. Acho que ele inclusive alimenta a alma, quando é prazeroso. Faz-nos sentir úteis. Mas não o trabalho em excesso. Quando ultrapassa determinado limite, faz-nos sentir cansados, apenas. E não termos vontade de fazer mais nada. Defendo, pois, que cada pessoa trabalhe no máximo seis horas por dia. E olha, já acho muito, mas vejo que por enquanto é inviável querer estipular limites menores.

Ócio criativo

Isso tudo sem contar que os momentos fora do trabalho também servem para gerar ideias, para tocar outros projetos, para pensar e movimentar a sociedade. É o tal do ócio criativo.

Ou seja, uma carga horária menor não apenas melhora a qualidade de vida como também é útil para que o mecanismo, meio automático meio regulado, da sociedade funcione melhor. Através do estímulo a iniciativas de lazer, que geram lucro, que movimentam a economia. Através da maior produtividade das empresas. Através dos projetos tocados fora do horário de trabalho. Quantos livros teríamos perdido se os escritores não tivessem tempo de ter ideias, por exemplo?

Trabalhadores

O primeiro de maio, então, merece ser comemorado. Mas como o dia daqueles que se dedicam, que ajudam a fazer funcionar tudo o que temos ao nosso redor, que trabalham. Mas que vivem. Homenageio também aqueles que são vítimas dessa cultura do trabalho e não têm alternativa a não ser trabalhar demais.

E homenageio a luta dos que conquistaram tantos avanços nas relações de trabalho. Dos que dedicaram a vida a melhorar a vida dos outros, garantindo maior qualidade de vida à população.

Feliz dia do trabalhador.

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Dia do trabalho ou do trabalhador?

O destino obsceno do lucro do Goldman Sachs

Da Reuters: “O Goldman Sachs afirmou nesta terça-feira que seu lucro no primeiro trimestre praticamente dobrou, ficando acima das expectativas do mercado”.

As bolsas de valores do mundo inteiro estão se refestelando, tendo orgasmos, dando pulos de felicidade por causa das “boas notícias” do Goldman. Boas notícias…

Momento em que cabe a pergunta: boas notícias para quem, cara pálida? Provavelmente para o flanelinha da minha rua. O viciado em crack que a Zero Hora condena como criminoso. O desempregado de Nova York. O pai de família que ganha dois salários mínimos. Talvez para o aidético da Somália. Todos esses estão levando uma parcela dos  US$ 3,29 bilhões do lucro líquido do Goldman Sachs. Não é?

Partindo do pressuposto de que governos são eleitos pelos cidadãos e têm como objetivo atender as necessidades desses cidadãos, achei que os lucros do Goldman seriam revertidos para os americanos em geral, já que os governos vêm investindo nesses bancos há meses, tentando salvar o sistema financeiro. Imaginei que então o dinheiro ia para os que precisam dos governos. Aqueles que elegem os governos, diga-se de passagem.

Não vai? Puxa vida.

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E mais: “Os resultados chegam quatro dias depois do banco nova-iorquino ter sido acusado de fraude”. Bonito, né? Uma belezura!

O destino obsceno do lucro do Goldman Sachs

Uma outra cidade é possível, sim

Crescem prédios, elitizam-se espaços antes coletivos, cortam-se paisagens, as ruas enchem de carros. O ar fica impuro, a cidade oprime. Essa é a tendência que vemos, principalmente nas grandes cidades, pelo menos no Brasil. Torna-se fundamental discutir um modelo de cidade.

Esse que está se impondo revela uma inversão de valores que não é só urbana. É um modelo que coloca o lucro na frente das pessoas, o mercado antes do bem-estar. Parece heresia desperdiçar uma oportunidade de ganhar dinheiro, então investe-se. Para ganhar o máximo possível, sempre, senão é burrice.

Os custos disso são uma qualidade de vida cada vez pior, poluição, congestionamentos, utilização pouco democrática do espaço urbano.

Conversando com a advogada e coordenadora do Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico Betânia Alfonsin, tive clareza de algumas coisas importantes, que vêm sendo discutidas por bastante gente nos últimos tempos. O Fórum Urbano Mundial e o Fórum Social Urbano, que aconteceram concomitantemente esse mês no Rio de Janeiro (o primeiro da ONU e o segundo em oposição ao primeiro), são prova dessa tendência. A questão principal é discutir uma cidade inclusiva, voltada para todos, que propicie uma vida saudável para seus habitantes.

Por vida saudável, entendo ter possibilidade de andar na rua sem medo, de se locomover de um lado a outro sem stress e no menor tempo possível, de respirar ar puro, enxergar a paisagem, ter parques. É não ser oprimido por prédios gigantescos e colados um no outro, que, não parece, mas nos sufocam, tiram a vontade de andar na rua. Vida saudável pressupõe transporte coletivo decente, ciclovia.

Tem que ter casa para todo o mundo, mas não se pode jogar os pobres para a periferia. A política habitacional não pode partir do pressuposto de que qualquer coisa é melhor que nada. As pessoas não são pobres porque querem, e tem os mesmos direitos de escolher onde morar que qualquer cidadão. Tudo bem, não podemos colocar todos em áreas nobres, a coisa tem que ser feita de forma organizada.

Mas tomando como exemplo o caso do terreno da Fase, fica clara a política que impera. Se a área for mesmo permutada ou alienada, os moradores dali vão acabar sendo expulsos, se a Justiça fechar os olhos, ou vão vender seu espaço por uma mixaria qualquer. Como resultado, vão acabar sendo transferidos para a periferia e percebendo, com o tempo, que foi um péssimo negócio. Dali, vão em 15 minutos pro Centro. Da Restinga, se vai em uma hora, por exemplo.

Continua…

Uma outra cidade é possível, sim