Para Veja, quem cuida de casa, claro, é a mulher

Esgotaram as almofadas no mercado. Os consumidores, loucos pelo conforto, disputam a única que sobrou na loja aos tapas.

Almofada. Um objeto. Podia ser caneta, relógio, espelho, bolsa.

Mas na verdade são domésticas. Um objeto.

Na visão da Veja, um objeto. Exatamente isso. O preconceito de classe estampa a capa da Veja São Paulo, com a qual tive o desprazer de topar no aeroporto de Congonhas.

A matéria era a diminuição no número de empregadas domésticas. Pauta: trabalho. Em tantas matérias que tratam de questões trabalhistas, avalia-se o que muda na vida do trabalhador. Aqui não. Aqui, trata-se única e exclusivamente do conforto das donas de casa.

Repara ainda em outro detalhe: todas as personagens da capa são mulheres. Ou donos de casa ou dondocas ou domésticas. Porque quem cuida das coisas da casa, claro, são as mulheres, não importa se mandando ou obedecendo. Os homens nem tomam conhecimento a respeito, é assunto de mulher. Pff.

Os termos são sempre no feminino também, explicitando que quem trabalha nessas funções são sempre mulheres.

Preconceito de classe e de gênero em uma só capa de revista. Bingo.

Para Veja, quem cuida de casa, claro, é a mulher

Racismo, machismo e homofobia: a dificuldade de uma transformação cultural

O que mais surpreende na entrevista que o deputado Jair Bolsonaro deu pro CQC e na nota de explicação publicada a seguir é a naturalidade com que ele disse as coisas que disse. Ele não achava que estava falando nenhum absurdo quando fazia comentários machistas ou homofóbicos. Isso mostra o tamanho do desafio que a gente tem pela frente, que é o de enfrentar distorções culturais arraigadas na nossa sociedade.

Assim como a violência contra a mulher, fruto de uma cultura paternalista que coloca o homem em posição superior à mulher na sociedade, o mesmo tipo de influência cultural faz com que sejamos racistas, com que desprezemos os relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo. Por quê? De que forma essas relações nos prejudicam, nos afetam negativamente? Por que a gente não pode entender o outro como um igual? Por que a gente não pode respeitar as decisões do outro?

Assim como um tem olhos escuros e outro olhos azuis, um é branco e outro é negro.

É uma cultura forte que vem de séculos, por conta da influência religiosa, da escravidão, da disputa entre nações e outros fatores. O que explica, mas de forma alguma justifica. Não há explicação que justifique esse ódio, essa discriminação, esse preconceito tão grande.

Mudar isso, transformar a cultura, é muito complicado, um desafio enorme. Mas que está posto e que temos que enfrentar em nome de uma justa. Em nome de mais igualdade, dos direitos humanos, dos direitos de cada cidadão. Porque não há lugar algum que diga que um ser humano é superior é outro pela sua cor, pela sua orientação sexual, pelo seu gênero.

Racismo, machismo e homofobia: a dificuldade de uma transformação cultural

Feminismo nada mais é que a luta por igualdade

Já tive épocas de não concordar com isso de Dia da Mulher, Dia do Negro, Dia do Índio etc. Achava que o fato de ter um dia específico para marcar cada categoria (na falta de uma denominação melhor) era por si discriminatório, que escancarava que existiam diferenças onde não deveria haver.

Até que eu me dei conta que o Dia da Mulher não serve para ganharmos flores. Que o Dia da Mulher – assim como do Negro, do Índio e outros – representa a luta de cada um desses que foram oprimidos, discriminados, explorados, submetidos. Que não é o Dia da Mulher, mas o dia da luta da mulher pelo seu espaço na sociedade. Acima de tudo, um dia de reflexão sobre por que diabos a mulher ainda hoje tem menos espaço que o homem.

É por isso que, mesmo atrasada, resolvi escrever.

No colégio, a cada data dessas representantes de alguma luta, discutíamos em sala de aula, pesquisávamos, fazíamos trabalhos a respeito… Entendíamos melhor a história e o contexto que levou à criação da data, e lembro muito bem de ficar espantada e indignada com algumas coisas que eu aprendia. Entendi, com o passar dos anos, que aquela era uma oportunidade justamente disso, de gerar indignação. Que, mesmo que não fosse mudar radicalmente o pensamento e principalmente o comportamento da maioria da população, pelo menos criava uma simpatia pela causa, um debate saudável.

Esse ano, temos um motivo especial para comemorar. Independente de identificação política ou da forma como foi construído o imaginário popular ao longo da campanha do ano passado, não é pouca coisa termos uma presidenta mulher. O fato de ser mulher, evidentemente, não garante bom governo ou acerto político. Não garante comprometimento ou sensibilidade. Não garante nada. Mas termos elegido uma mulher para presidenta do Brasil significa que rompemos barreiras de preconceito paternalista e machista. E é seguindo o mesmo raciocínio da defesa de um Dia da Mulher que hoje defendo a utilização do termo presidenta no lugar do neutro presidente. É preciso marcar a conquista, como uma forma de enfiar na cabeça das pessoas que, sim, ela pode, nós podemos, todos podem.

Feminismo por solidariedade

Ontem assisti a reprise de uma conversa na GloboNews – no Entre Aspas, com Mônica Waldvogel – sobre o feminismo. As convidadas apresentaram perspectivas muito interessantes a respeito. Primeiro, enfatizaram a questão da chamada para a reflexão provocada pelas datas simbólicas.

Não vou entrar no mérito do debate sobre feminismo comparando culturas ocidentais e orientais. Tema delicado, pelo qual passaram muito bem as convidadas. Nesse ponto quero apenas destacar a relação que a filósofa e estudiosa do feminismo Márcia Tiburi estabeleceu entre a alijante vestimenta muçulmana, que proíbe a mulher de mostrar até o rosto, com a nudez ocidental, especialmente a brasileira, que também ofende e subjuga a mulher, tratada como objeto. A cultura da mulher magra, gostosona, um “modelo imposto”, como acrescentou Mônica Waldvogel.

Mas prefiro destacar as posições de Márcia Tiburi que apresentam o feminismo como uma luta por igualdade, pelos direitos dos seres humanos, não simplesmente por um gênero. “O feminismo é uma busca de voz”, para que mulheres tenham os tais “direitos humanos” como todo ser humano.

A parte mais interessante é quando Márcia Tiburi provoca as mulheres para que se tornem “feministas por solidariedade”. Se a mulher já desfruta de direitos iguais aos de seus colegas e amigos homens, ela pode se tornar feminista para garantir condições iguais entre os gêneros que beneficiem a grande maioria de mulheres que sofrem com isso.

Por experiência própria

Eu circulo entre pessoas de esquerda, muita gente esclarecida, que luta diariamente pela igualdade, pelos direitos dos que mais sofrem, dos que normalmente não são vistos pela maioria da população. Dos que não são lembrados. É gente que luta pelos direitos humanos, enfim. E convivo quase que diariamente com manifestações de incredulidade. Me olham torto, com uma cara de interrogação, como quem pergunta o que eu estou fazendo ali, naquele trabalho de homens. Pior ainda são os que se surpreendem ao constatar que ela até que é competente para uma mulher. Não é o pessoal com quem trabalho diretamente, mas muitos dos homens com quem acabo tendo que lidar em função do trabalho ou de outras atividades. Independente de vinculação partidária, identificação política, classe social ou estilo de vida.

Mas o pior, péssimo mesmo, é ter que desconversar sempre que um homem não consegue conversar com uma mulher sem ver nela algo a mais do que uma profissional. Dia desses recebi no trabalho a visita de um blogueiro que, além de ficar extremamente surpreso com o fato de eu manter um blog que lhe rendeu elogios, não conseguiu conversar sem elogiar traços físicos. Em não mais do que cinco minutos. E garanto, isso não é pela mulher ser linda, gostosa ou o que for. É só por ser mulher. Porque mulher, para ainda muitos homens, é só isso. Ou é principalmente isso. Eles até admitem a possibilidade de uma mulher se destacar em alguma atividade intelectual, mas muitos não conseguem ignorar o corpo. É o resultado de muito tempo de cultura machista. E justamente por isso é que é preciso afirmar, cada vez mais alto, que está errado. Que cada homem e cada mulher tem que fazer um exercício diário de conscientização. Para mudar. Para acabar de vez com o machismo. Espero pelo dia em que discutir feminismo seja algo ultrapassado e retrógrado. Algo desnecessário.

Feminismo nada mais é que a luta por igualdade

Jornalismo popular?

Do blog da Raquel Melo:

Caros segue abaixo uma mensagem que a Raquel Melo, jornalista e cidadã, acaba de enviar para a Ouvidoria-Geral da Cidadania da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República no e-mail: direitoshumanos@sedh.gov.br

Boa tarde,

Peço à ouvidoria da Secretaria de Direitos Humanos que esta mensagem chegue ao senhor Gustavo Bernardes da Coordenadoria Nacional de Promoção dos Direitos LGBT.

O jornal Meia Hora, que pertence ao grupo EJESA (Empresa Jornalística Econômico S.A.), é conhecido pela população carioca, e mais recentemente pela paulistana, pelo que seus editores chamam de ‘jornalismo popular’ para retratar situações do cotidiano no país.

O grupo EJESA, segundo o próprio site da empresa, detém três jornais impressos e online: O Dia, Meia Hora e Marca Campeão que juntos chegam a mais de 3,5 milhões de leitores.

Em uma rápida busca no site do jornal considerado mais popular do grupo, o Meia Hora, é possível ter acesso às capas de algumas edições publicadas. Fato é que o que estes senhores chamam de ‘jornalismo popular’ está pautado na mais explícita banalização da violência e violação de direitos das mulheres, homossexuais e outros grupo historicamente vítimas de preconceito neste país.

Em um governo que começa seu mandato afirmando o compromisso de combater a homofobia e outras formas de preconceitos é de extrema urgência que se criem mecanismos que impeçam empresas de comunicação com ou sem concessão pública de perpetuarem a discriminação e incitarem a violência, principalmente contra os homossexuais.

Que criem e garantam nosso direito de resposta às publicações e veiculações absurdas que ferem nossa Constituição e a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Abaixo, as capas do jornal Meia Hora publicadas pelo grupo EJESA somente em janeiro de 2011. Reparem nas palavras usadas pelos jornalistas para se referirem às mulheres e aos homossexuais: bibas, gostosa, traveco, piriguete. Imaginem tudo que foi publicado em 2010.

Terça-feira, 18 de janeiro de 2011:

Sábado, 15 de janeiro de 2011:

Sexta-feira, 14 de janeiro de 2011:

Segunda-feira, 10 de janeiro de 2011:

Quinta-feira, 6 de janeiro de 2011:

Terça-feira, 4 de janeiro de 2011:

Obrigada,

Raquel Melo

http://www.facebook.com/rackmelo
http://rackmelo.blogspot.com/

Jornalismo popular?

Depoimento de violência #FimdaViolenciaContraMulher

Recebi esse depoimento do pessoal que está mais ativo na campanha pelo Fim da Violência Contra a Mulher. É o relato de uma mulher que sofreu violência do ex-namorado. O nome dela, evidentemente, é fictício.

Com vergonha, admito meu preconceito. Quando li, achei um depoimento meio fraco. Não tinha violência física, não era dos casos mais graves. Aí saí da observação simples de um caso estranho a mim e me coloquei no lugar de Lua. Senti o inferno que virou sua vida. Imaginei seu cotidiano, a fuga diária de um maluco que passava o dia, todos os dias, tentando humilhá-la. As mudanças na vida impostas por um fator externo que ela não controlava, a desestruturação. Com que direito ele interferia dessa forma na sua felicidade?

Nome: Lua
Porto Alegre, RS
Funcionária Pública
51 anos
curso superior incompleto
casada
1 filha

O agressor foi um ex namorado de 3 anos. Nunca dependi dele emocionalmente. Morávamos cada um em sua casa.

Relato da violência

Após eu ter terminado o namoro passou a me constranger publicamente, seguir e me perseguir em todos os locais onde eu estava. Ele chava que eu não teria coragem de denunciá-lo e que teria medo dele. Num só dia me mandou mais de 30 torpedos e fez mais de 50 ligações para o meu celular. Foi quando fiz a primeira denúncia. Todas as mensagems eram de xingamentos – puta, vagabunda, fracassada, e por aí eram todos. Acabei trocando de celular por causa disso.

Aí ele começou a ligar pra minha casa, insistentemente. Meu telefone passava o tempo todo fora do gancho. Até que uma noite foi até minha casa e tentou entrar. Não abri a porta e chamei a polícia. Ele acabou indo embora, mas publicou meu telefone num site pornô e vários tarados ficaram ligando pra minha casa. Na época minha filha tinha 12 anos.

Troquei também o telefone de casa e fiz nova denúncia 15 dias depois, quando ele contra-atacou também pela internet me ameaçando.

Situação do processo

Na época não tinha Maria da Penha, mas consegui denunciá-lo na Delegacia da Mulher e na cidade de Viamão, onde ele trabalhava na época na Prefeitura. Ele acabou sendo demitido e eu o denunciei por calúnia e difamação, perturbação do sossego e ameaças de violência.

Houve uma audiência (constrangedora) em que ele foi condenado a ficar longe de mim e não se aproximar.

Mas, não satisfeito com tudo isso, ele se matriculou na mesma faculdade que eu, na mesma turma. Quando eu soube, desisti da minha faculdade.

Opinião da vítima sobre o atendimento recebido

Tive o melhor atendimento das amigas que faziam uma rede de solidariedade e me avisavam quando ele aparecia.

A delegacia me fazia sentir que eu era uma idiota, pois sempre me perguntavam: “mas ele te bateu?”, “te ameaçou de morte?”. O juiz disse que ele se afastasse “20m” – foi ridículo.

Meu desejo nunca foi de vingança, mas que ele parasse.

Isso fez com que eu passasse a desconfiar de todos os caras que apareciam. Só voltei a ter um relacionamento estável dois anos depois. E hoje vivo uma vida plena de respeito mútuo, valorização e amor, pois encontrei uma pessoa que jamais faria qualquer violência contra mim.

Depoimento de violência #FimdaViolenciaContraMulher

Chargista da RBS agride o bom senso

Machista, baixo, agressivo e sem graça. A charge do Marco Aurélio na Zero Hora de hoje mostra o quanto uma pessoa se rebaixa para agredir o adversário. Esquece que a batalha é política, não pessoal e que furar o olho do inimigo não faz parte das regras do jogo. Não enxerga que quem merece a crítica é a Folha, por se portar como Caras, essa sim uma grande piada. Ofende as mulheres, ofende qualquer ser que pense. E os que não pensam também.

E o pior é que o Marco Aurélio não é só equivocado, de direita, nefasto, agressivo. Ele não apenas faz mal à sociedade incentivando um preconceito nos mesmos moldes que a campanha de Serra. Um dia ainda tenho pretensão de entender, se é que isso é possível, como a RBS mantém empregado um chargista que não cumpre com o único objetivo inerente à profissão, seja o executor da ideologia que for: o humor.

Chargista da RBS agride o bom senso