Quem é o incoerente?

Entendo que a situação de parte da imprensa gaúcha é mesmo delicada. Por exemplo, Rosane de Oliveira, a colunista de política da RBS. Como criticar o governo do estado por não pagar o piso ao magistério se ela apoiou os governos que mais contribuíram justamente para sucatear o salário da categoria?

Não é fácil mesmo resolver esse problema. Aí resta apelar para a incoerência e fazer uma manobra pra criticar sem se contradizer abertamente e, ao mesmo tempo, sem ficar mal com a opinião pública, o que aconteceria se defendesse que o governo simplesmente não pagasse o piso. O resultado é um texto publicado na Zero Hora deste domingo que deixa o governador sem alternativa: ou é irresponsável ou incoerente. Se correr o bicho pega; se ficar o bicho come.

Segundo a argumentação da colunista, não tem escapatória: ou Tarso dá o piso e é, portanto, irresponsável, já que o estado não tem dinheiro para isso; ou não dá o piso e é incoerente com seu discurso de campanha. O engraçado é que Rosane demonstra concordar com o governo, sabe que não tem como pagar o piso integral, mas não pode simplesmente dizer isso, porque aí estaria elogiando um governo que ela não apoia. Não pode, né. Mas por que ela não apoia um governo com o qual concorda?

E o Tarso é que é incoerente…

Mas não é tão difícil assim achar a explicação. Rosane não pode dizer que o governo tem que dar o piso, mesmo que pensasse isso, porque apoiou os governos anteriores, que não só não deram os R$ 1.451,00 como concederam reajustes pífios à categoria (e a todas as outras categorias do funcionalismo). Então, em vez de dizer que o governo atual está dando um reajuste histórico e valorizando a categoria como há muito tempo não se via, ela diz que ele está sendo incoerente.

É uma postura estranha essa, mas não incompreensível. É estranha porque não liga muito para o contexto, o que não condiz com o bom exercício da profissão. Mas não é incompreensível quando a gente pensa que os interesses do jornal não são mesmo fazer bom jornalismo e valorizar o cidadão gaúcho.

Ironicamente, ao contrário do que diz dos outros, é Zero Hora que é incoerente com o discurso. Mas é extremamente coerente com sua postura comprometida com o empresariado e com interesses neoliberais, que sempre adotou e mantém até hoje.

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Quem é o incoerente?

Má vontade?

A Rosane de Oliveira disse no programa Atualidade, na Rádio Gaúcha, hoje de manhã, que a oposição de ontem, que agora é governo, faz as mesmas coisas que o governo de ontem. Quase nessas palavras. Não lembro da Yeda ter dado o maior reajuste da história do magistério. E também não vi o Tarso jogar a Brigada pra cima dos professores. Lembra do Cel Mendes, Rosane?

Criticar o governo, ok. Dizer que é igual ao anterior é mudar a realidade. É no mínimo má vontade.

Má vontade?

Aumento dos professores e a inversão da lógica de esvaziamento do Estado

O reajuste oferecido pelo governo Tarso ao magistério e aprovado ontem por ampla maioria em assembleia do Cpers mostra a que veio o governador. Com um estado quebrado, as condições de oferecer aumento ou abrir concurso são mínimas, mas as mais diversas categorias de servidores públicos enfrentam defasagem salarial, e a falta de profissionais na estrutura do Estado é crônica. Ou seja, é preciso fazer alguma coisa.

Os 10,91% já aprovados, que antecipam as ações judiciais da Lei Britto e incorporam metade da parcela autônoma ao vencimento básico, estão bem longe do ideal. Não chega ao piso salarial nacional do Magistério, prometido por Tarso para até o final do governo. O piso, aliás, ainda está muito longe do ideal, infelizmente.

Vivemos em uma sociedade que sofreu um processo muito grande de desvalorização de seus profissionais mais essenciais, que desrespeita não só esses profissionais, mas toda a sociedade, que sofre com a negligência e a piora no atendimento público. Atingiu o Brasil e sobrou para o Rio Grande do Sul, que enfrenta por mais tempo essa situação. O resultado é um cenário de baixa qualidade dos serviços públicos, que começa a ser revertido. E, pelo que se viu no Gigantinho ontem e pelo que registra a pesquisa Ibope sobre o governo Tarso, a inversão dessa lógica conta com amplo apoio dos gaúchos.

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Foto: Divulgação Cpers

Aumento dos professores e a inversão da lógica de esvaziamento do Estado

A sacanagem da Zero Hora com os professores

Não é tão difícil manter a RBS aliada. Basta ser contra movimentos sociais, a esquerda de um modo geral e negar qualquer reivindicação de categoria profissional, seja qual for. Desde, é claro, que o governo seja de direita. Afinal, ser contra a esquerda vem antes de ser contra os sindicatos.

Depois de colocar claramente essas posições, é só chamar a imprensa pra participar de alguma coisa. Eles se derretem. O governo Yeda chamou para a reunião com o Cpers. Pronto, recebeu elogios explícitos de Paulo Germano, o repórter da Zero Hora que colocou seu texto na página 8 do jornal de hoje. Começa assim: “Para sublinhar em público sua disposição ao diálogo, o Piratini convocou uma reunião com o Cpers aberta à imprensa”. Governo bonzinho, professores maus, feios e bobos.

Afinal, 6% de aumento são mais do que suficientes. Esses professores gananciosos ficam querendo muito, e ainda falam que com todo esse aumento não vão conseguir sair da miséria. Afinal, seu piso é tão bom. R$ 640 por mês é uma fortuna, vai dizer. Ou seria R$ 862? Dá uma olhada no quadro que quer explicar ao leitor de forma simplificada o que está acontecendo:

Diz que a proposta do governo é passar de R$ 862 para R$ 1,5 mil o salário inicial de professores com 40 horas semanais. Na segunda coluna, diz assim: “Atualmente, o salário básico de um professor com contrato de 40 horas semanais é de R$ 640. Com o reajuste, vai para R$ 679”.

Diante disso, fica difícil escolher um foco para demonstrar a indignação. Reclamo pela manipulação dos dados que confunde o leitor e faz com que a proposta do governo pareça mais bacana (e prova disso é que os números nem são citados no texto principal) ou fico pê da vida com a cara de pau de defenderem uma coisa que eles chamam de aumento, mas que eu nem sei definir, de tão ultrajante. Quem no Brasil consegue passar um mês com R$ 679? E isso vai ser depois do aumento. Que, absurdo dos absurdos, vai ser completo apenas em março de 2011, quando já vai estar ainda mais defasado.

Lembra aquela velha história de o magistério ser a profissão mais nobre que existe? Como?

E depois a Zero Hora faz matéria mostrando que os alunos gaúchos perderam vagas nas universidades porque foram pior no Enem (teve essa, essa, essa, comentário de Rosane de Oliveira e no Blog do Editor). É óbvio. Que qualidade pode ter o ensino de um professor que tem que trabalhar 80 horas pra sobreviver?

A sacanagem da Zero Hora com os professores

A conta de Fogaça não fecha

Bem lembrou Rosane de Oliveira na Página 10 da Zero Hora de hoje, dia 26. Quatro anos de Assembleia, quatro de Câmara, 16 de Senado e cinco de prefeitura não deixam tempo para os “30 anos de magistério” que o prefeito de Porto Alegre se atribuiu na aula inaugural do ano letivo. Se ele tivesse começado a trabalhar aos dez anos, teria que ter 69 de vida. Será botox ou falta de vergonha na cara?

O prefeito podia aproveitar a reunião e marcar umas aulas com um professor de matemática…

A conta de Fogaça não fecha