As velhas novidades do WikiLeaks

Nenhuma novidade na terrinha. Um monte de documentos veio à tona através de uns vazamentos. O responsável pela publicação – não por vazar os dito-cujos, fique bem claro – foi preso, é o inimigo número 2 dos Estados Unidos. Muito se tem questionado o motivo de sua prisão. Comentaristas apontam para o fato de ele não ter cometido crime ao divulgar os documentos e a falta de coerência na sua prisão enquanto outros que ajudaram a espalhar a notícia continuam soltos e louvados como defensores da liberdade de imprensa. Mas tem outra questão.

Por que tanto esforço pra prender o cara se a única coisa que ele fez foi provar aquilo que todo o mundo já sabia? Afinal, o que apareceu de mais polêmico, entre outros, foi que:

– Os Estados Unidos se acham os donos do mundo e querem que todos os países – que julga inferiores – lhe prestem obediência;

– O ministro da Defesa brasileiro, Nelson Jobim, é devoto do imperialismo norte-americano e não é confiável;

– O PSDB quer entregar o Brasil de lambuja para investidores estrangeiros;

– O Vaticano procurou esconder casos de pedofilia envolvendo padres;

– O ex-presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, gostaria de ter invadido a Venezuela com forças militares;

– As mudanças no Código Florestal propostas pelo deputado Aldo Rebelo (PC do B) favorecem interesses estrangeiros;

– O golpe sobre Manuel Zelaya em Honduras foi exatamente isso, um golpe, inconstitucional.

Qual a novidade? Fora, é claro, a comprovação de que não somos loucos paranóicos por dizer tudo isso tempos antes de ser comprovado, como a mídia brasileira gostava de fazer crer.

Mais informações qualificadas sobre os vazamentos do WikiLeaks no blog mantido pela jornalista independente Natália Viana na Carta Capital.

As velhas novidades do WikiLeaks

Zero Hora continua cobertura golpista

A Zero Hora se esmera mais uma vez. Hoje, várias matérias mereceriam comentários, mas vou focar apenas em Honduras e, mais especificamente, nas Cartas do Editor, Ricardo Stefanelli.

zelaya rodrigo lopesAntes, uma rápida observação sobre a matéria do Rodrigo Lopes falando da embaixada brasileira. Matéria golpista, de novo. Críticas a Zelaya e ao governo brasileiro dão o tom. Não importa que o mundo inteiro aprove a atuação do Brasil em Honduras, que só a mídia nativa se ponha contrária. Ela insiste. Os destaques de Rodrigo Lopes são a bagunça da embaixada e o fato de Manuel Zelaya, segundo o repórter, se achar o “dono” do lugar, esquecer que é só um “hóspede”. “O modo como Zelaya utiliza a embaixada como palanque irrita a oposição e constrange o Itamaraty”, cujos diplomatas estariam desesperados, na visão reacionária do jornalista. Para ele, as picuinhas do dia-a-dia são muito mais importantes do que o contexto político global. Através delas, pode-se criticar. Já a situação política não se presta a críticas, não mostra por onde. Afinal, o ministro de Relações Exteriores brasileiro, Celso Amorim, foi apontado essa semana como o melhor chanceler do mundo por David Rothkopf, no blog da revista Foreign Policy. O Financial Times diz que o povo brasileiro é sortudo por ter um líder reconhecido no mundo todo. Menos na imprensa local, evidentemente.

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caricatura gilmar fragaMas então vamos às Cartas do Editor da Zero de hoje, dia 11. Em primeiro lugar, a gafe óbvia de colocar no mesmo nível uma reportagem sobre a Lagoa Mirim e a cobertura da crise em Honduras. Acreditem, ele compara, na maior cara dura. Aliás, é o mote do texto, ele vai de uma pra outra, como se fossem da mesma importância.

Agora, me apego às partes do texto que falam de Honduras:

1. “Rodrigo tinha de tentar traduzir a polêmica diplomacia brasileira de dar guarida às estripulias do deposto Manuel Zelaya” – Em primeiro lugar, é “polêmica” só no Brasil, como já enfatizado na primeira parte do post. Em segundo lugar, “estripulias” é uma palavra no mínimo inapropriada para descrever as ações de um presidente deposto por um golpe de Estado e que está lutando para recuperar o seu posto e a legalidade. Uma forma do jornal de desmerecer Zelaya, de descaracterizar sua política e até de ridicularizá-lo.

2. “Como ainda não existe um Turismo do Golpe, por exemplo, que permitiria a viajantes abonados se instalar na bagunçada embaixada de Tegucigalpa” – Dá a ideia – e tenho certeza que é proposital – que o golpe em Honduras não passa de uma brincadeira, que deveria atrais olhares turísticos, como qualquer ponto que desperte interesse e curiosidade. É bem isso, deve despertar curiosidade, segundo o jornal, não revolta ou protestos por uma situação POLÍTICA descabida. Fora isso, a reiterada afirmação da ZH de que a embaixada é uma bagunça, para desmerecer a atitude do governo brasileiro em Honduras. Como se a “bagunça” que eles dizem existir anulasse a excelente política diplomática do melhor chanceler do mundo.

3. “sete barreiras, todas com policiais descontentes com o que consideravam intromissão verde-amarela em seu território” – Mais uma crítica sem sentido ao governo brasileiro, por estar se metendo onde não foi chamado.

4. “teve de mandar seu primeiro texto do país conflagrado por telefone, ditado para a base em Porto Alegre” – Parece que Rodrigo Lopes está enfrentando grandes dificuldades e é o repórter mais esforçado do mundo. Balela.

5. “Em Honduras, Rodrigo enfrentava as mesmas dificuldades de conexão com o Brasil devido a bloqueadores instalados pelo Exército para isolar a embaixada e impedir a comunicação internacional” – Isso o jornal não critica.

6. “Na América Central, no mesmo dia, Rodrigo contava com a boa vontade de funcionários da embaixada ao ser presenteado com um naco de papelão suficiente para estender seu corpo por algumas horas nas madrugadas – a mochila era o travesseiro.” – Olha como ele sofre! E certamente a culpa é do governo brasileiro, que dá todo conforto para o hondurenho Manuel Zelaya e maltrata o pobre do jornalista porto-alegrense, cidadão brasileiro. Ah, me poupe!

charge_bier7. “Poderíamos, sim, nos contentar com textos das agências internacionais para noticiar um dos principais fatos do ano envolvendo o Brasil. (…) Poderíamos ter nos conformado, como fazem outros jornais, a resumos sem cheiro nem cor de fatos do dia – ou, pior, de fatos do dia anterior. Mas aí não seria Zero Hora.” – Esse é o encerramento do texto. É pra mostrar como a Zero Hora é dedicada e realmente faz matérias boas. Pelamordedeus, mandar um reporterzinho chinfrim pra Honduras pra fazer uma cobertura golpista e fraca de um golpe de Estado é bom jornalismo? Não, é Zero Hora.

* A caricatura é do Gilmar Fraga e a charge é do Bier, ambas tiradas do Tinta China, o blog da Grafar.

Zero Hora continua cobertura golpista

Ah, a mídia…

celsoamorim_afpA postura do Brasil em Honduras foi realmente a mais acertada, um golpe de mestre. O país se destaca como líder regional, defensor da soberania e da legalidade, com alta capacidade diplomática e ainda assume uma posição clara de defesa de um governo que, se não é o melhor do mundo, representa uma postura de esquerda. O mundo inteiro reconhece o Brasil como o grande mediador e vê no país a importância estratégica fundamental que assumiu ao asilar Zelaya em sua embaixada. Ali, naquele momento, o Brasil contribuiu de forma decisiva para encurralar o governo golpista de Micheletti. Ao “presidente de facto”, como chama a nossa mídia golpista, não restam muitas alternativas.

A mídia. Ah, essa mereceria um estudo à parte. Como foi dito, o mundo inteiro reconhece e louva o papel do Brasil. Menos os golpistas de Honduras, alguns setores mais direitistas dos Estados Unidos e a mídia brasileira. Para eles, o Brasil está se metendo onde não deve, invadindo a soberania de Honduras, criando tumulto, gerando violência.

Balela, mentira, lorota, aldrabice. 

Salvam-se alguns jornalistas e alguns poucos veículos – talvez só a Carta Capital, dos de periodicidade mais frequente -, mas a imprensa, de um modo geral, está corrompida por uma visão extremamente reacionária. Porque, como disse Cynara Menezes no fim da excelente matéria sobre Honduras na edição dessa semana da Carta – todas dela o são, diga-se, como já comentei aqui -, “não se trata de simpatia ou antipatia pelo neobolivariano, mas de defesa de princípios”.

No caso, princípios democráticos, pois, quando um presidente não-eleito toma o lugar de outro que foi eleito pelo povo e o expulsa do país sem lhe dar direito à defesa, isso caracteriza um golpe. Diz Luiz Gonzaga Belluzzo que “os fatos relatam que Zelaya, alta madrugada, foi retirado da cama, enfiado no avião e despachado para fora do país. Em qualquer região civilizada do globo habitada por cidadãos acostumados ao exercício da democracia e ao respeito às regras do Estado de Direito, tal cometimento dos gorilas de Honduras, fardados ou não, seria chamado de golpe”. Não importam os motivos. E os motivos, em Honduras, não justificam a expulsão, mesmo se a defesa tivesse sido garantida.

zelaya embaixada

Ao contrário do que dizem as vejas e as folhas por aí, Zelaya não pretendia ficar indefinidamente no poder. Ele pretendia apenas propor uma consulta sobre a celebração de um referendo, que definiria uma Constituinte e a possibilidade de reeleição, à qual ele próprio não concorreria. E o fato de ele chamar o povo a resistir e desobedecer o governo também não é ilegal. Descobri na matéria de Cynara Menezes que Honduras tem um artigo na Constituição que nenhum outro país tem e que é muito bacana:

“Ninguém deve obediência a um governo usurpador nem a quem assuma funções ou empregos públicos pela força das armas. (…) O povo tem o direito de recorrer à insurreição em defesa da ordem nacional.”

Mas a mídia brasileira, que hoje parece, pelo grau de certeza das suas declarações, ter estudado profundamente a história e a política hondurenhas, não sabe nada disso.

Ou seja, poupem-me, né.

Os trechos citados são da matéria de Cynara Menezes e do artigo sobre as “teratologias semânticas” da imprensa brasileira, de Luiz Gonzaga Belluzzo. Vale também a leitura da matéria do Luiz Antonio M. C. Costa sobre a postura clara do Brasil contra o golpe versus a postura ambivalente norte-americana e de seu texto curto de desmistificação das lendas urbanas que se criaram em torno do golpe (uma parte já postada aqui). Todos da Carta Capital dessa semana.
Ah, a mídia…

Lendas urbanas de Honduras, por Antonio Luiz M. C. Costa

“Zelaya queria manter-se indefinidamente no poder.
O presidente planejava uma consulta sobre a celebração de um referendo a respeito de uma Constituinte juntamente com a eleição de seu sucessor. Se o resultado da consulta fosse positivo, serviria apenas como argumento em favor do referendo ante o Legislativo. Se o Congresso cedesse e o resultado do referendo fosse positivo, a Constituinte seria eleita no próximo governo e, mesmo que aprovasse a reeleição, Zelaya só poderia se candidatar em 2014.

Zelaya incorreu no artigo 239 da Constituição de 1982, que cassa o mandato e os direitos políticos, por dez anos, de quem propor reeleição.
O presidente não incorreu no artigo 239. Não propôs reeleição e sim um referendo sobre uma ampla Constituinte. Já Micheletti, deputado em 1985, propôs expressamente uma reforma constitucional para prorrogar o mandato do então presidente Roberto Suazo. Desistiu por pressão dos militares, mas nem ele nem Suazo foram punidos.

A deposição de Zelaya foi legal e regular.
Pelo artigo 313 da Constituição, a Suprema Corte tem jurisdição para processar e julgar o presidente, mas se cabia processo por abuso de autoridade por tentar rea-lizar uma pesquisa de opinião sem autorização legal, teria de ser dentro de procedimentos legais com direito de defesa e contraditório (art. 82). Não foi assim: na madrugada do domingo da consulta, os militares invadiram o palácio e expatriaram o presidente, o que é expressamente proibido pela Constituição (art. 102). A ordem de prisão apareceu depois do fato consumado, embora o procurador-geral e um dos juízes da Corte alegassem tê-la emitido e aprovado em segredo, na sexta-feira. Se fosse regular, deveria ser executa-da pela polícia, depois das 6 da manhã.”

Quer mais? Tem aqui.

Lendas urbanas de Honduras, por Antonio Luiz M. C. Costa

Esses jornalistas…

Só um comentário rapidinho. No Entre Aspas de terça (29), que eu vi ontem de manhã, na Globo News, foi engraçada a situação em que ficou a jornalista Mônica Waldvogel. Não sei se o produtor se atrapalhou ou o que foi que aconteceu, mas o fato é que os dois entrevistados – Marco Aurélio Garcia, do governo, e um cientista político que eu não lembro o nome e não consegui ver no site -, de formas diferentes, defenderam a postura brasileira em Honduras e afirmaram peremptoriamente que o que aconteceu foi um golpe e que o presidente de direito é Manuel Zelaya. Mônica, ultrapassando a sua função de entrevistadora/mediadora, ficou tentando argumentar e convencê-los de que estavam errados. Não pôde fazer mais do que tentar.

Esses jornalistas…

Com os olhos de Zelaya. Será?

Fabiano Maisonnave é um dos nove jornalistas que estão dentro da embaixada brasileira em Honduras. O único brasileiro. Muito embora a Folha esteja exalando odores golpistas em suas matérias e editoriais, as condições são propícias para se fazer um excelente trabalho jornalístico. Para tanto, Fabiano criou um blog, vinculado ao jornalão. A tendência é que seja dos bons – por enquanto só tem dois posts -, com informações exclusivas e uma visão diferente da que a grande imprensa tem passado nos últimos dias. Afinal, ele está vendo a situação com os olhos de um exilado. Seus olhos estão no mesmo lugar dos olhos de Zelaya. Pode-se dizer que é igualmente tendencioso defender o governo legítimo nesse caso.

Eu acredito que não é exatamente igual que declarar posição de defesa de Micheletti, como a imprensa vem fazendo – descarada ou disfarçadamente -, já que esse é, como eu disse, o governo legítimo, eleito pelo povo. Ainda assim, mesmo que se considere tendencioso – afinal, voltamos à velha discussão, todo relato é uma versão -, pelo menos é uma voz dissonante. Um pouquinho de pluralidade faz bem à democracia. Mesmo que essa situação não seja exatamente um exemplo de pluralidade. De qualquer forma, e voltamos, assim, ao assunto do post, espera-se um bom trabalho jornalístico, ao contrário de outros blogs de pessoas que se dizem jornalistas por aí.

Com os olhos de Zelaya. Será?

Os valores escondidos no texto

Zelaya0A matéria é sobre impressões dos gaúchos que convivem de perto com a crise hondurenha. Aparentemente inocente, ela é muito mais. O repórter Rodrigo Lopes, de Zero Hora, utiliza essas impressões para dar a sua opinião. Coloca na boca dos outros o que ele mesmo quer dizer. Tanto que todos os gaúchos entrevistados dizem a mesma coisa. O título e a linha de apoio são confusos, mas de caráter nitidamente golpista.

Mais uma vez, uma matéria golpista, que não só justifica o golpe de Roberto Micheletti contra Manuel Zelaya como faz crer que a população concorda com o golpe. E, de quebra, ainda critica o governo Lula e o governo Chávez. A estratégia é simples: Honduras está um caos (não há nenhuma menção ao fato de estar um caos por ter sofrido um golpe e estar com as liberdades cerceadas por um governo ilegítimo)  e a culpa, segundo Rodrigo Lopes, é de Lula e Chávez.

Como se não bastasse, termina colocando nas mãos de Deus, falando em igreja, em religião. Desse detalhe, a primeira conclusão é mais evidente: a solução não será dada por Deus, as coisas têm que ser resolvidas politicamente. Há uma situação de golpe, ela tem solução e essa solução deve ser buscada pelos agentes envolvidos. Colocar nas mãos de Deus é dizer que não há solução.

Mas há uma outra conclusão a se tirar dessa alusão à religião: ela reforça valores burgueses, elitistas. É por causa desse tipo de coisa que os ateus são a categoria que mais sofre preconceito. O jornal reforça um preconceito e uma visão conservadora, de manutenção do status quo. Porque, nada contra quem acredita em Deus, mas os valores católicos são completamente conservadores.

Não sei como ele conseguiu dizer tanta besteira em tão pouco espaço.

Quem me falou da tal matéria foi o Isma Cardoso, que, teimoso, desativou o blog que tinha.

Os valores escondidos no texto