Em Porto Alegre, nem todos os gatos são pardos

Baita análise sobre as eleições municipais de Porto Alegre!

Por Katarina Peixoto, publicada originalmente na Carta Maior

Em Porto Alegre, muita coisa mudou, mas uma segue a mesma: há dois grupos políticos em disputa. Quando o PT perdeu as eleições para a prefeitura de Porto Alegre, em 2004, o grupo político que hoje está coligado, majoritária, porém não exclusivamente, na aliança da candidatura Fortunati vivia um momento de ascensão na cidade e no estado.

O ponto culminante dessa formação de partidos que começou a se consolidar ainda em 1999 foi a eleição de Yeda Crusius para governadora, em 2006. A desagregação desse aglomerado de direita se deu com o desastre da gestão do PSDB, no RS. Outro fator de desagregação deste bloco gaúcho de centro-direita veio com a consolidação eleitoral do PT, no terceiro mandato no governo federal, conformando uma gestão, desta feita, diretamente vinculada ao PMDB e ao PDT.

Visto de longe, como faz o longínquo candidato do PSDB local, tudo parece a mesma coisa. Fortunati, Manuela e Villaverde seriam representações do mesmo grupo, do lulo-petismo. Esse diagnóstico é grotesco e obscurantista e aceitá-lo envolve um grande risco.

Um destes riscos contamina a candidatura Manuela D’Ávila, cuja propaganda carrega as tintas no individualismo e numa suposta predestinação da candidata ao cargo. Mais do que um pateta desavisado da extrema direita católica, mais do que a grande aliança da direita local, o discurso que embala a candidatura Manuela pode ser a expressão de uma representação um tanto conservadora, num processo eleitoral. De modo geral, a campanha da deputada está centrada nos seguintes atributos: a candidata teve muitos votos, a candidata é mulher, a candidata trouxe 380 milhões para o RS em emendas parlamentares, a candidata “ajudou a trazer a Copa e as Olimpíadas para o Brasil”.

A campanha se desdobra em outros apelos. Inventou também de dizer que a candidata estudou em Harvard e na Universidade de Madri. Não fosse Manuela tão ligada nas redes sociais, jovem que é, esse tipo de postura seria compreensível. Fazer três dias de curso em Harvard não é estudar em Harvard, tampouco participar de seminário de mulheres, na Universidade de Madri, é estudar na Universidade de Madri.

No plano político, essa candidatura encerra um formato mais grave: o apoio de Ana Amélia Lemos. Esta senhora de triste figura, representante do latifúndio, da RBS, da monocultura agroexportadora, dos golpistas do Paraguai, da Monsanto e grande elenco de entidades antirrepublicanas, como a turma das armas e do monopólio da comunicação, é pré-candidata da oposição ao governo do Estado do RS. No mercado da falta de almas dessa política espetacular, o apoio da Ana Amélia tem um preço: derrubar o PT em 2014, no RS. Este preço, vale dizer, não é cobrado, pelo menos não ainda, da candidatura Fortunati.

A gestão Fortunati é medíocre, como é sabido e vivido.

Quando Fogaça saiu é inegável a melhora: a prefeitura passou a ter alguma existência. Fortunati tentou resolver o problema do lixo, e parece que a calamidade foi relativamente enfrentada. Mas a regressão dos avanços na coleta seletiva e nas incubadoras de cooperativas é inegável e, infelizmente, segue assim. As ruas e os parques estão mais limpos, deve-se dizer. É feio, para dizer o mínimo, ter placas da Coca-Cola e da Pepsi parasitando espaços públicos da cidade. É feio e sem justificação republicana, mas não muda voto.

Voto é uma coisa mais séria do que uma marca, uma candidatura encerrada em si mesma e do que diferenças culturais.

A candidatura Fortunati tem uma agenda, que pode ser medíocre, que pode ser, em certa medida, tão pessoal e individualista como a da Manuela.

Mas tem lastro político, partidário, tem enraizamento na experiência política da cidade, inclusive desde a época das gestões do PT, visto que o OP segue aí, as escolas não sofreram grandes mudanças e há uma certa estabilidade institucional que se conformou, sobretudo depois da saída do grupo mais ligado ao Fogaça, que parecia cultivar uma certa repulsa a compromissos mais republicanos e populares, no que concerne à administração da FASC e às políticas sociais, exemplarmente.

A grande e única inovação da gestão Fortunati é a SEDA, a Secretaria Especial dos Direitos dos Animais. É uma inovação civilizatória e ambientalmente luminosa, além de uma política pública na acepção quase plena da palavra (esta coisa de ação de gabinete de primeira dama é politicamente regressiva), porque promove e fomenta e dá exemplo de educação e bem estar.

A Porto Alegre onde se inventava de verdade e se pensava e realizava políticas públicas republicanas, democratizantes e oxigenadas, todos os dias do ano, essa Porto Alegre não existe mais. Pode ser que volte a existir, mas não se deve menosprezar os períodos históricos em que as experiências se constituem.

Hoje, o PT não é uma força política em ascensão na sociedade, cultivada na resistência ao neoliberalismo triunfante no país, num período recente pós ditadura. Não, o PT está no terceiro mandato no governo federal, não governa a cidade há quase dez anos e parte importante da atual gestão da prefeitura é formada por quadros de partidos que estão, tanto no governo federal, como no estadual, também do PT.

A candidatura Villaverde tem como principal adversário, paradoxalmente, o seu maior aliado: o poder de que já dispõe o seu partido, a experiência consolidada de uma mudança epocal no país, protagonizada por Lula e a que Dilma dá continuidade, e a consistência de suas possibilidades, na cidade.

Só que as coisas não são tão fáceis quando se tem poder, mesmo que em bons governos. Mais uma vez, é preciso aprender a olhar sem perspectivas grotescas e obscurantistas.

Tudo se passa como se o PT, no governo federal, tivesse consolidado um certo projeto peemedebista dos anos 80, e o país inteiro esteja numa grande onda “centrista”.

O custo político desse tipo de situação pode ser alto, mas o fato de que, no Brasil, essa onda tem se dado num marco democrático, que inclui e abarca a esquerda não tem interditado, a esta, as suas possibilidades. Em todo o país os movimentos sociais estão muito mais vivos e autônomos, seguem produzindo, criticando e mobilizando. Com todas as inflexões e mudanças localizadas de orientação do governo federal, não se pode dizer que há regressão alguma ou que a esquerda esteja em situação mais difícil, hoje.

O que a estabilidade centrista das gestões do PT produziu, no país, tem a consequência peculiar de não interditar as possibilidades da esquerda, mas de assegurar a gestação de suas agendas. Hoje, temos mais democracia e mais república, menos desigualdade e menos barbárie. O país incluiu uma França em oito anos e o PT é responsável por isso.

A candidatura Villaverde tem consistência, trajetória e presente. A sua dificuldade parece ser uma dificuldade do próprio PT, de manter-se como partido vivo, oxigenado, que não sucumba ao jogo eleitoral. É como se o partido tivesse perdido a perspectiva de tal maneira que se tenta apresentar o Villa como um despachante do governo federal.

Uma agenda para uma prefeitura, para uma cidade que tem na democracia um valor cultivado, pode e deve falar da vida, antes e além das obras das grandes empreiteiras e daquilo que é prerrogativa principal do governo federal.

Mobilidade, urbanidade, responsabilidade ambiental, assistência social, políticas e espaços para a juventude, políticas de gênero, políticas para os animais domésticos, política para o lixo. Um horizonte muito maior e mais civilizatório que a Copa do Mundo, que os despachos de ministros, que as figuras e imagens de grandes líderes. Nada impede o PT de fazer a campanha mais pé no chão e a mais promissora de todas. Nada impede o PT de falar em disputa civilizatória. Bem ao contrário.

O centrismo triunfante neste momento produz uma ilusão que pode custar muito caro, tanto à cidade como à esquerda e ao PT.

O risco é entregar a cidade a um acordo espetacular mercantil, sem lastro e sem agenda, cujo horizonte , em termos de consistência programática, é a derrocada do PT no Estado e a retomada, pela direita, do terreno recentemente perdido.

A perspectiva grotesca e obscurantista não pode obnubilar a democracia e o debate altivo sobre os destinos das forças vivas da política da cidade.

Eleição não é uma feira de trocas de votos e de disfarces, e enxergá-la assim é renunciar à democracia.

Em Porto Alegre, nem todos os gatos são pardos

Não-jornalismo a favor de Manuela, adivinha onde

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Qual é a intenção dessa nota “Dois corações”, da Carolina Bahia, na Zero Hora desta quarta-feira? Que sentido tem uma nota que não informa, que o leitor termina de ler se perguntando o que, quem, quando, onde, como? Ou seja, uma nota que não responde nenhuma das perguntas básicas que são a razão de existência do jornalista. Onde já se viu o leitor terminar de ler uma coisa que deveria ser jornalística curioso pela informação que a jornalista sugere mas que não está ali? Já vi fonte em off, mas a informação toda ser um grande off não é informação.

Vale pensar no que está por trás de passar pro leitor algumas frases sem conteúdo, apenas com insinuações. O que há de concreto ali é que, segundo Carolina Bahia, algum figurão do PT não apoia Adão Villaverde, o candidato do PT à Prefeitura de Porto Alegre, mas Manuela, do PCdoB. Por que se deduziu que ele apoia Manuela também não está dito, já que teoricamente a fonte da informação é a negação do tal ministro de gravar um vídeo de apoio a Villa, ou seja, poderia preferir qualquer outro candidato de qualquer outro partido ou simplesmente ser de outra tendência interna, ser personalista, não gostar do Villa. Enfim, trocentas possibilidades. Mas a não-informação foi construída convenientemente a favor de Manuela. Nada está claro ali, nada ali informa. Resta saber onde ficou o jornalismo.

Não-jornalismo a favor de Manuela, adivinha onde

Porto Alegre e as opções para outubro

O Rio Grande do Sul, estamos cansados de saber, é um universo à parte na política partidária (e em que tantas outras coisas, diga-se!). Aqui, PT e PMDB são adversários ferrenhos. PMDB é sabonete, como no resto do Brasil, mas muito mais identificado com a direita do que em nível nacional, em que tem mais facilidade de transitar pelas diferentes esferas.

Mas há anos o PDT de Brizola anda de mãos dadas com esse PMDB, que agora já confirmou apoio ao candidato trabalhista (sic), José Fortunati, que assumiu o paço quando o peemedebista Fogaça pulou fora pra se candidatar (e sequer ir ao segundo turno, caindo no ostracismo prematuramente) ao governo do estado. Fortunati não só apoiou o retrocesso promovido por Fogaça (formando a queridíssima dupla Fo-Fo) como o aprofundou quando assumiu o barco. Porto Alegre, hoje, não tem mais o protagonismo que tinha no cenário mundial em termos de cidadania e participação popular. E pior, a capital dos gaúchos malemal mantém serviços básicos, totalmente defasados.

Brizola revira-se, coitado!

Enquanto isso, a comunista Manuela D’Ávila corteja o Partido Progressista de Ana Amélia, a senadora da RBS. Se vai levar ou não, ainda não sabemos (embora o PP esteja dividido, a tendência é que indique, sim, o vice na chapa com o PCdoB). O que importa, na verdade, é que os comunistas querem muito dar as mãos à ex-Arena. Tudo isso enquanto vangloria-se da história de 90 anos do Partido Comunista.

Diante da incoerência, quem se revira, agora, é Luis Carlos Prestes e todos os outros tantos líderes do partido (muitos mais do que no PDT de Brizola), muitos dos quais morreram nas mãos da Arena.

E são essas duas coligações esdrúxulas que aparecem na ponta das pesquisas eleitorais. Amarguemos, pois.

Sobre a coligação comunistas-Arena, deixo-vos com Latuff, bastante mais claro e contundente que eu:

Porto Alegre e as opções para outubro

Ao que tudo indica, Manuela deve ser candidata à Prefeitura de Porto Alegre em 2012

Embora todos os partidos envolvidos neguem, fica difícil de acreditar que a disputa para a Prefeitura de Porto Alegre de 2012 não entre na mesa de negociação de cargos do governo Tarso Genro no Rio Grande do Sul. E o PDT é um fator importante nesse cenário, a ser observado.

Cito o PDT porque tem o comando da Prefeitura hoje e porque é um partido ainda um tanto forte, cujo apoio em 2012 é importante para o PT voltar ao Paço municipal. Já se falou em apoiar a reeleição de Fortunati em troca do apoio ao governo Tarso, já que o PDT é dono de importantes votos na Assembleia Legislativa, o que acredito que não deve acontecer.

Apesar de os jornais já terem cotado inúmeros nomes para praticamente todas as secretarias, é possível tirar algumas tendências das negociações em curso. Os partidos trabalhistas, que não ajudaram a eleger Tarso, estão mordendo boa parte do alto escalão do governo. O PTB chegou pedindo 19,3% dos cargos, e o PDT, quatro secretarias importantes. O fato de eles pedirem não significa que vão levar, mas o novo governador dá sinais de que não vai deixar o PDT na mão.

Enquanto isso, o PSB e o PC do B, parceiros do PT desde o início do processo, disputam cargos menores. O PSB já tem o vice e Tarso já indicou Beto Albuquerque para uma pasta importante, de grande orçamento. Mas o PC do B leva por enquanto a pequena Secretaria do Turismo e parece que não vai contar com fatia muito significativa do governo.

Ou seja, o PT não concederia ao PDT tantos cargos mais a cabeça de chapa para a disputa à Prefeitura daqui a dois anos. Ao mesmo tempo, projeta-se como um nome forte da coalizão que elegeu Tarso a recordista em votos, reeleita para a Câmara Federal e jovem Manuela D’Ávila. Assumir a ponta da disputa seria o caminho mais natural, tendo em vista a lealdade e a dedicação dos aliados a Tarso e a disposição do PT de abrir mão do nome do prefeito da Frente ou Unidade Popular.

Considerando que o PDT está abocanhando, ao que tudo indica, um número significativo de secretarias e, portanto, ficaria fora da indicação do prefeito, e que o PC do B vem amargando um leve escanteamento na composição do governo, a tendência é que seja o partido a indicar o candidato que o PT vai apoiar em 2012 mesmo.

Mas claro, a política é imprevisível e muitos fatores ainda hão de ser considerados até a escolha definitiva do nome. O que vemos são tendências…

Ao que tudo indica, Manuela deve ser candidata à Prefeitura de Porto Alegre em 2012

Estaria Ana Amélia de olho no governo do estado?

Ficaram pendentes algumas observações sobre o resultado das eleições:

– O maior medo pós-eleição é um provável fortalecimento da ideia de Ana Amélia se candidatar ao governo do RS em 2014, ainda mais depois que a Zero Hora já deu destaque para o fato de ela “não pensar no Piratini”. Motivo extra para o PT fazer um baita governo no estado. E para comemorarmos o primeiro lugar de Paulo Paim na corrida ao Senado.

– A eleição de Manuela é surpreendente. Sei que ela tem um carisma muito grande e uma campanha muito forte, mas achei que já tivesse passado a onda mais alta e agora ela fosse simplesmente se eleger bem. Mas ela fez um número extraordinário de votos, mais de 480 mil. Apesar de ela ter conteúdo e ser uma boa política, com desempenho reconhecido, boa parte dessa votação é por impulso e sem conotação política. Ela tem tudo para vir com boas chances para a disputa para a Prefeitura daqui a dois anos.

– A eleição para o Senado é a tal da “eleição de 200%”. O número de votos é o dobro do dedicado aos outros cargos. Tem também mais candidatos concorrendo às mesmas vagas. Ainda assim, chama a atenção o fato da desconhecida Abgail Pereira, que entrou na disputa apenas para garantir a vaga de Paim, ter feito mais votos que a atual governadora, que concorria à reeleição. Foram 1.551.151 de votos para a candidata do PCdoB ao Senado, e 1.156.386 para Yeda. Quase 400 mil votos a menos. Resultado de um dos piores governos, quiçá o pior, da história do Rio Grande.

– Sobre a composição do governo do estado, está certo Tarso ao não dar a opção de o PMDB, o PSDB, o DEM e “partidos que tiveram uma posição nítida oposicionista” de comporem o governo. Como disse o governador eleito, “isso não quer dizer desrespeito nem ausência de diálogo, mas não acho que sejam partidos passíveis de uma composição conosco”. Dessa forma, Tarso deixa longe de seu governo o oportunismo do PMDB, mostrando com elegância que o partido adversário saiu derrotado.

– Ainda no domingo à noite, Serra deu entrevista em que passou bastante tempo agradecendo Marina. De fato, ele tem muito a agradecer, foi graças à candidatura verde que se concretizou o segundo turno que o tucano queria. No frigir dos ovos, o PSDB foi o único que colheu frutos com a entrada da Marina na disputa. O que só confirma a tese de que sua candidatura serviu muito mais à direita do que à esquerda.

Estaria Ana Amélia de olho no governo do estado?