#2BlogProg amadurece e encontra a união nas diferenças

O balanço do II Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas, que aconteceu entre 17 e 19 de junho em Brasília, não pode ser feito sem remeter ao I Encontro, naquele não tão distante agosto de 2010, em São Paulo. Faz menos de um ano, e lembro de coisas do mesmo período que parece que recém aconteceram. Mas o I BlogProg já está distante, mais pelo profundo amadurecimento da militância digital do que pela lembrança ainda viva do encontro.

A percepção do papel da blogosfera na disputa contra-hegemônica pela informação no Brasil é o grande ganho deste um ano de debates intensos e acontecimentos extremamente marcantes. Entre o I e o II BlogProg, houve uma campanha eleitoral de baixo nível e pouco debate político, que pôde manter um mínimo de coerência e respeito ao eleitor (através do respeito à informação) muito em função da participação dos comunicadores digitais, através de blogs e redes sociais.

Lula entre Enio, do PTrem das Treze, e Maria Frô na abertura do #2BlogProg

Muita coisa aconteceu neste meio tempo, e a consciência de seu papel intensificou-se na blogosfera. Ao mesmo tempo, questionamentos surgiram e problemas de outra natureza apareceram. De repente, os blogs progressistas viraram governistas para alguns dos militantes, que sequer se deram ao trabalho de compreender o significado e o motivo da sua crítica. Já faz tempo que me causa certo estranhamento esta visão distorcida sobra a identificação ideológica com algum partido que componha o governo. Afinal, o governo não é governo por acaso, essa conquista foi fruto de muita militância, da qual se deve ter orgulho. E orgulho, inclusive, pelo fato de ter conseguido eleger um projeto político diferente. O que, claro, não impede uma visão crítica, sempre presente entre os blogueiros progressistas.

Mas esse é tema secundário no debate. Até porque em nenhum momento os questionamentos desse e de outros tipos ofuscaram o BlogProg. Amadurecemos politicamente e o que poderia ser mais temerário não aconteceu: não rompemos, não ameaçamos nossa unidade em torno da luta comum. Mantemos nossas divergências pontuais, extremamente ricas para o debate, mas sabemos que estamos reunidos em torno de uma mesma causa. Que a democratização da comunicação é um ideal comum, independentemente de divergirmos acerca de alguns caminhos para chegar a ela.

Luiza Erundina, Fábio Konder Comparato e Venício Lima no debate sobre marco regulatório. No meio, eu e Rogério Tomaz Jr. mediando.

Em agosto de 2010, boa parte de nós – eu incluída – não sabia muito bem o que representava a união dessa blogosfera. Sequer tinha noção de diversos problemas que já apareciam, como a Lei Azeredo, ou sobre debates também políticos mas mais tecnológicos, a exemplo da neutralidade da rede. O BlogProg contribui também aí, para a troca de informações e a denúncia das ameaças, que nos ajudam a orientar a resistência.

Os acontecimentos destes quase 12 meses entre o primeiro e o segundo encontro legitimaram a existência de um movimento de ativistas digitais, a ponto de, já na segunda edição, um ex-presidente – e não qualquer um! – e o ministro das Comunicações estarem na abertura do BlogProg, garantindo-lhe reconhecimento e credibilidade.

Lula representa o povo que "esquece até o que vai fazer no banheiro pra tuitar"

Crescemos, pois, conceitualmente e enquanto militância. Adquirimos conteúdo, trocamos ideias e fortalecemos nossa presença no cenário da comunicação brasileira. Compreendemos a unicidade conservadora da nossa imprensa tradicional e nos organizamos para pluralizá-la. A reunião de blogueiros no BlogProg faz sentido muito além do debate que se estabelece a cada mesa, mas pelo fato de marcarmos presença na agenda política das comunicações. Tornou-se um evento que não mais pode ser ignorado, que incomoda.

Não tem como ignorar um encontro com a presença do ex-presidente

Mas o BlogProg faz sentido também pela reunião presencial de pessoas “virtuais”. Como disse Renato Rovai e eu cansei de registrar a cada encontro de que participei, fortalecemo-nos ao nos conhecermos. Tornamo-nos amigos. Conhecemos como somos além do que escrevemos. Entendemos que temos diferenças, mas elas se dissolvem, porque não são assim tão grandes. Vemos que temos muito mais em comum e que estamos juntos. Crescemos mais ainda. E, bem, ganhamos amigos, oras.

Sr. Cloaca toma seu toddynho de cevada enquanto a Frô, pra variar, tuíta.

Somos, afinal, um fraterno movimento de esquerda em defesa de mais espaço para cada um de nós, a tal da democratização da comunicação. E fazemos isso por entendermos que todos temos o que dizer. Que todos podemos produzir conteúdo.

Continuemos, pois, fortalecendo-nos nas diferenças.

Fotos: Cíntia Barenho

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#2BlogProg amadurece e encontra a união nas diferenças

#RioBlogProg: Pela ampliação da blogosfera

“Que floresçam mil flores na blogosfera. Cada um de nós tem q ser um blogueiro”
Altamiro Borges no #RioBlogProg

Balizando algumas discussões mais voltadas a experiências específicas, alguma coisa de tecnologia e questões legais, estava a democratização da comunicação. Este foi o foco e a orientação de todos os debates e o objetivo final do I #RioBlogProg. O que unia todos os participantes ali presentes não era simplesmente o fato de ter um blog ou algum tipo de participação em redes sociais. O que unia todos ali era a utilização dos meios digitais como uma ferramenta de produção, disseminação ou consumo de conteúdo progressista.

O mote para todos os encontros regionais de blogueiros desde o I Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas, em agosto de 2010 em São Paulo, é discutir de que forma podemos nos apropriar dos meios de comunicação digitais para fazer o enfrentamento ao discurso hegemônico e como esses meios são importantes para possibilitar que mais vozes participem da agenda de discussões das questões da sociedade.

Foi assim que Eduardo Guimarães lembrou na abertura do papel da blogosfera no episódio da bolinha de papel, durante a campanha eleitoral de 2010, em que o fiasco do candidato tucano ao ser atingido por papel amassado foi desmascarado e comprovado em questão de horas. O #bolinhadepapelfacts é um importante exemplo de como a blogosfera pode utilizar o humor para desconstituir discursos prontos, vazios e distorcidos, quando não descaradamente mentirosos.

Foi dessa forma que Bemvindo Siqueira falou sério em meio a uma atuação teatral divertidíssima na mesa sobre Arte e Humor na Blogosfera. Ele, aliás, deu uma  verdadeira aula sobre a história do humor, voltando aos tempos das comédias de costumes, para explicar que o humor é feito para desmontar costumes, não pessoas. É com a vaidade, a soberba, o preconceito que se brinca, não com o negro, o homossexual, o deficiente. E aí ele diferencia os humoristas de verdade dos que acham que fazem humor agredindo os outros. O que é, enfatizou, muito diferente de defender o “muito chato” politicamente correto.

Regulação

A deputada Jandira Feghali, que integra a Frente Parlamentar em Defesa da Liberdade de Expressão e o Direito à Comunicação com Participação Popular, avisou que vai conversar com Luciano Coutinho, presidente do BNDES para fazer valer o social do nome e financiar meios de comunicação alternativos, como blogs. Ela repetiu algumas vezes que regular não é censurar. Pelo contrário, censura é o que temos hoje. Temos é que “regular para ampliar”.

Um guri de 21 anos, Romario Regis, surpreendeu ao mostrar uma experiência feita por ele e outros jovens de perfil semelhante, de criar uma revista virtual, com conteúdo colaborativo e participação de cerca de 50 pessoas. Romário Regis disse conhecer apenas umas seis ou sete pessoalmente. É a revista Empty.

Sergio Amadeu deu uma baita aula da arquitetura da internet e da liberdade da rede, ligada à neutralidade e à imputabilidade.

Criminalização

No painel sobre radiodifusão, domingo de manhã, Arthur William comparou a produção de conteúdo na internet com a dos rádios pra fazer um alerta: já há uma lei que criminaliza as rádios comunitárias; a internet, não. Mas é preciso tomar cuidado, com as já conhecidas tentativas de criminalizar e proibir a disseminação de conteúdo nos meios digitais. Um atentado à liberdade de expressão (impossível não apontar a contradição de isso estar sendo defendido pelos mesmos setores que criticam a criação de marcos regulatórios e conselhos de comunicação atribuindo-lhes a pecha de censura).

A programação do II Encontro de Blogueiros Progressistas, que vai ter como tema central o marco regulatório, foi antecipada por Altamiro Borges na abertura do #RioBlogProg. O ministro Paulo Bernardo, Zé Dirceu, Venício Lima, Fábio Konder Comparato, um blogueiro egípcio que participou da revolução que derrubou o presidente-ditador, entre outros, estão confirmados. Falta agora a confirmação daquele que garantiu que depois de uns meses longe do poder criaria um blog. #LulanoIIBlogProg

E isso é só uma amostrinha do que aconteceu no Memorial Getúlio Vargas nos últimos três dias. Um encontro muito bem organizado, com participações extremamente representativas, ajuda a dar o start para o encontro nacional, como disse o Miro. Antes vêm ainda mais 13 encontros estaduais – além dos seis que já ocorreram –, entre os quais o do Rio Grande do Sul, que ajudo a organizar. Que cada um mantenha o perfil e a característica de sua blogosfera local, mas discuta de forma assim qualificada a democratização da comunicação. Assim, vamos construindo projetos, somando ideias, agregando conteúdo e ampliando a rede.

Bem falou Renato Rovai, nós não temos ainda a dimensão do momento histórico que estamos vivendo.

#RioBlogProg: Pela ampliação da blogosfera

O PT e a democratização da comunicação

Desabafo de Claudia Cardoso, militante pela democratização da comunicação e autora do Dialógico, depois de a presidenta Dilma Rousseff prestigiar a festa de 90 anos da Folha de S.Paulo:

Se tem uma coisa que a militância pela democratização me ensinou é que a esquerda – em particular o PT – não tem política de comunicação.

Não basta ter uma editora, como a Perseu Abramo, que edita páginas e páginas sobre o tema. Não bastam os acadêmicos que escrevem e ensinam sobre o tema, centenas deles filiados. Não bastam movimentos sociais, muitos deles compostos por filiados ao partido, lutarem pela democratização das comunicações. Os dirigentes fazem o que bem entendem!

Ao custo de quê? Vivem a ilusão de que podem usar a mídia. Bernard Cassen, no Fórum Social Mundial de 2003 já denunciava isso.

Eu já não me surpreendo mais com isso. O presidente Lula resolveu dar o nome de Roberto Marinho a um prêmio que existia há anos no Ministério das Comunicações.

Assim, ainda está para nascer um mandatário de cargo eletivo que faça diferente em matéria de relacionamento com a mídia corporativa. Ou vocês acreditam que sai o Marco Regulatório das Comunicações neste novo período legislativo? A saber.

Veremos se sai uma nova Confecom esse ano, pra voltarmos a nos organizar em torno da democratização das comunicações.

No Rio Grande do Sul, pelo menos a intenção é positiva. Se o governo vai ter pernas para mudar alguma coisa são outros quinhentos. Mas a equipe que está trabalhando para isso só aumenta as expectativas. Parece que temos aqui um mandatário pensando assim, embora não prescinda do contato com a “imprensa corporativa”, “grande imprensa” ou como acharem melhor chamar aqueles jornais tradicionais que representam um discurso elitista de uma pequena camada da sociedade. Ainda falta alguém que assuma a bronca a nível nacional. No aguardo.

O PT e a democratização da comunicação

Paulo Bernardo deixa jornais impressos fora do marco regulatório

Começou manca a discussão do marco regulatório proposta pelo ministro das Comunicações, Paulo Bernardo. Depois de admitir derrota antes mesmo de encaminhar o projeto, ao afirmar que há poucas chances de aprovar restrições a TVs e rádios de políticos, agora decidiu deixar de fora da discussão os jornais impressos, como se eles não cometessem vários deslizes e não sofressem as transformações tecnológicas que em boa parte justificam a existência do marco regulatório.

Mesmo não fazendo mais por merecer, o jornal impresso ainda é referência de credibilidade e pauta os outros veículos. Pode não chegar a tantas pessoas, mas influencia a informação das emissoras de TV e rádio e dos grandes portais de internet. Precisa, portanto, trazer uma informação séria, confiável e de interesse público.

Os jornais impressos de maior circulação no Brasil são controlados por muito poucos grupos, assim como as redes de televisão. O agravante dessa situação é que muitas vezes a TV e o jornal – além de rádio e portais na internet – pertencem a um mesmo grupo. Em diferentes estados, estão todos nas mãos de uma mesma família, como no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Nesses casos, o que não interessa a esses meios acaba ficando fora da pauta ou sendo tratado de forma parcial e distorcida.

É preciso, pois, que o ministro Paulo Bernardo tenha firmeza frente às poderosas pressões da mídia e leve em frente o projeto que regulamenta TVs, rádios e jornais, diminuindo sua concentração, aumpliando a diversidade informativa e proporcionando a democratização da comunicação.

Paulo Bernardo deixa jornais impressos fora do marco regulatório

Atualização do marco das comunicações é citada, mas não aparece entre as prioridades do novo Minicom

03/01/2011
Samuel Possobon, PAY-TV

A proposta de Lei de Comunicação Eletrônica aparece nos discursos, é um tema referente nas entrevistas do novo ministro das Comunicações Paulo Bernardo, mas ainda não ganhou o status de prioridade da pasta.

Segundo Paulo Bernardo, ele ainda não teve oportunidade de ler o anteprojeto que estava sendo elaborado pelo ex-ministro Franklin Martins, da Secretaria de Comunicação do governo Lula, e seria deixado para a sua gestão. “Na semana passada conversei com o ex-ministro Franklin sobre isso e ele quis me entregar o anteprojeto, mas pedi para que só me fosse enviado depois que eu chegasse aqui (no Minicom). Estava em processo de mudança naquela semana”, disse Paulo Bernardo em entrevista coletiva. Segundo o ministro, o texto deve ter chegado nesta segunda, dia 3, ao seu gabinete, mas ainda não há uma agenda de discussão nem possíveis datas para publicação de uma consulta pública.

Perguntado se esse era um tema colocado pela presidente Dilma como prioridade, Bernardo repetiu apenas que ainda não há um cronograma definido. Ele disse durante a entrevista coletiva que já participou de algumas reuniões sobre o tema e que é um assunto “delicado, que envolve aspectos econômicos, o usuário e a questão da democracia, que sempre repercute de maneira torta”. Segundo o ministro, existe a possibilidade de se criar uma única agência para as comunicações, ou tratar o assunto em duas agências distintas. “A maior parte das opiniões é por duas agências, mas eu não tenho posição formada sobre isso”.

Mesmo que não haja ainda um cronograma definido, o tema foi citado pelo ministro na segunda metade de seu discurso de posse. Ele disse que não se pode “omitir a necessidade de atualizar o marco regulatório das comunicações”, que precisa ser modernizado e regulado “conforme prevê a Constituição”, mas ressaltou que em nenhum momento se fala ou pensa em algo que implique “desrespeitar a liberdade de expressão”.

Atualização do marco das comunicações é citada, mas não aparece entre as prioridades do novo Minicom

Liberdade só para alguns não é liberdade – Parte 2

Conselhos de comunicação

O ministro Franklin Martins pede mais participação na comunicação brasileira, não menos. Isso inclui a participação popular nas discussões sobre o marco regulatório e as definições que se devem obter no futuro. Passam por aí a produção de conteúdo e a fiscalização do que é produzido. Fiscalização que não é censura, mas avaliação se o que está sendo feito respeita a Constituição brasileira e se a complexidade da sociedade está contemplada nos meios de comunicação.

A criação de conselhos de comunicação, por exemplo, é uma forma de permitir que mais gente participe do processo de produção, distribuição e avaliação da informação. Tudo que é profissão tem conselho, por que não a nossa?

Controlar a imprensa não é censura

É estabelecer o direito democrático de a população opinar sobre a informação que chega a ela. É avaliar se o trabalho, feito por grupos empresariais não eleitos pelo voto popular, está bem feito e o que deve melhorar.

Iniciativas como essa existem em diversos países do mundo, “civilizados”. É preciso compreender que a liberdade de empresa que vemos, de concorrência geralmente desleal, impede que grupos menores participem do processo de produção de conteúdo. Essa liberdade acaba por tolher esses grupos. Ou seja, eles sofrem uma espécie de censura financeira. Essa restrição impede que a sociedade esteja de fato retratada e participando de todo o processo. Impede a total liberdade de expressão e limita o conteúdo. Acabamos vendo na TV sempre o mesmo tipo, sempre as mesmas situações, os mesmos sotaques. Diversidade zero.

A contradição da grande imprensa: prega democracia mas não aceita crítica

Assim como tacha de censura a ideia de estabelecer qualquer marco que regule as nossas leis, a imprensa atribui às críticas que recebe a acusação de que estão tentando calá-la, censurá-la. Liberdade de expressão inclui a liberdade de crítica. Ela pode criticar o governo, por exemplo, mas não pode ser criticada pelo presidente.

Fica fácil defender-se assim, sempre partindo para a acusação. Distorce o significado do processo democrático de troca de ideias. Ao tentar fazer acreditar que a crítica é um tipo de censura, ela presta um desserviço à democracia. Agride aquilo que diz defender.

Sabe-se que apenas o cidadão maduro tem capacidade de receber críticas e crescer com elas. Com a imprensa funciona da mesma forma. Ou ela é imatura demais ou é mau-intencionada. Afinal, “todos nós somos alvos de críticas. Aliás, quando temos uma atitude madura diante das críticas, de um modo geral, melhoramos com elas”, argumentou o ministro Franklin Martins, ao defender que a imprensa pode, sim, ser observada e criticada. E acrescenta que “a liberdade de imprensa não está arranhada quando alguém critica um órgão ou outro da imprensa; ao contrário, isso faz parte do ambiente democrático”.

O famigerado controle social da mídia e a farsa do controle remoto

Nesse sentido, estabelecer um controle social da mídia é garantir informação de qualidade. Com informação, o povo entende melhor os processos sociais, sejam eles políticos, culturais, o que for, e tem mais autonomia para tomar suas próprias decisões.

Garantir informação de qualidade é, pois, garantir uma democracia mais consolidada. Afinal, “isso não é uma discussão apenas sobre economia […]; isso diz respeito à comunicação, à democracia, à criação de oportunidades, a uma sociedade de informação e conhecimento, à participação política, à produção cultural”, diz Franklin Martins.

E o argumento de que o melhor controle é o controle remoto é fácil e insuficiente, perpetua as distorções que vemos no Brasil, com a existência de oligopólios de mídia. Se a informação é ruim, mas tecnicamente bem feita, é bastante comum ela convencer. Só percebe que a informação é ruim quem procura outras fontes, mas só procura outras fontes quem acha que aquela primeira é insuficiente. Ou seja, na maioria dos casos o pessoal nem se dá conta que tem acesso a uma meia verdade (ou a uma mentira).

Então, cito mais uma vez Franklin Martins, pela sua representatividade e pela clareza de ideias: “É ‘mais’ e não ‘menos’ o que está em jogo neste debate sobre o novo marco regulatório”. Não parece óbvio?

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Leia aqui a primeira parte do texto.

Liberdade só para alguns não é liberdade – Parte 2

Liberdade só para alguns não é liberdade: em defesa de um novo marco regulatório para a comunicação

“É o direito dos telespectadores e ouvintes, não o direito dos controladores da radiodifusão, que é soberano”

Juiz Byron White, da Suprema Corte dos EUA

Censura. É atrás dessa palavra que se escondem e se protegem os setores mais poderosos da mídia brasileira. Qualquer tipo de avaliação da sociedade sobre o que fazem o deixa de fazer é taxada com essa palavrinha feia e assustadora, que lembra anos de chumbo. E assim reina o poder absoluto em algumas poucas mãos.

Aqueles eram anos de silêncio. O que se reivindica hoje é barulho. Mais barulho. O principal argumento dos críticos à regulamentação é o direito à liberdade de expressão. Esquecem de dizer que essa liberdade não existe, por conta da falta de concorrência, causada por uma concentração histórica. Se muito poucos podem falar, significa que tantos outros não conseguem. Assim, a liberdade de expressão não é democraticamente exercida, não é um direito de todos. Liberdade só para alguns não é liberdade.

“A liberdade de expressão pertence aos cidadãos, não é propriedade deles [empresários, donos de jornais]”, defendeu Gustavo Bulla, diretor Nacional de Supervisão da Autoridade Federal de Serviços de Comunicação Visual (AFSCA).

Argumenta a jornalista Cynara Menezes que por trás dessa suposta preocupação com a liberdade de expressão está o medo de que um projeto de regulação desconcentre a mídia e diminua o poder dos poderosos. Poder político, diz José Dirceu, porque os meios são utilizados para fins políticos, para “fazer oposição ou apoiar governos”.

A grita é tão grande que opõe radicalmente dois lados, que defendem posições opostas e preconcebidas e que não se ouvem. E quem está do outro lado é um monstrinho que veio assustar a população. O monstro que censura. O governo, o Estado, os defensores da regulação são apontados como a encarnação do mal. Pairando sobre esse fuzuê, a mídia conservadora, acima do bem e do mal. Mas quem lhe concedeu esse poder?

Exemplos internacionais apontam a necessidade de um marco regulatório

E aí é só pensar em falar sobre regulação que vêm as acusações. Chavismo é a mais comum, em alusão ao governo venezuelano. Já que as iniciativas do país vizinho causam polêmica, principalmente por questões ideológicas, partamos para outros exemplos de países ditos civilizados, contra os quais os grupos de mídia poderosos não levantam a voz.

Foi o que fez a Secretaria de Comunicação da Presidência, Seminário internacional das comunicações eletrônicas e convergência de mídias, organizado essa semana em Brasília para compartilhar experiências internacionais. França, Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Portugal, Argentina e tantas outras nações apontadas como exemplo de democracia praticam a regulação do que é produzido em termos de informação. Por que eles não são acusados de censura?

A regulamentação no Brasil é sugerida pelo consultor da Unesco Toby Mendel. Ele inverte a ótica com que geralmente o tema é visto e mostrado. Não olha mais do ponto de vista do emissor, mas do público. “[A liberdade de expressão] É também o direito do receptor, do telespectador, do leitor, receber uma variedade de informações e de pontos de vista. Se a propriedade dos meios não é regulada, isso pode até ser ok do ponto de vista do emissor, mas o direito do receptor de receber idéias plurais começa a ser reduzido.”

Estado x Mercado: regular é garantir a concorrência

Não se trata do direito de uns, mas do direito de todos. O Estado, como garantidor dos direitos de seus cidadãos, deve estar presente para não deixar que o mercado regule o setor. As empresas de comunicação esperneiam contra a atuação do Estado para garantir que seja cumprido o que está na Constituição, mas nada falam sobre a interferência do mercado que censura quem pode menos ($$), não falam na concorrência desproporcional que se impõe se não há a devida regulação. “Quando o mercado regula, quem ganha é o mais forte”, alertou Franklin Martins.

“A regulação é necessária para impedir a propriedade cruzada e a concentração do controle nas mãos de umas poucas famílias e oligarquias políticas; garantir competição, pluralidade e diversidade”, diz o jornalista Venício A. de Lima em artigo no Observatório da Imprensa. Parece contraditório, mas o Estado deve agir para garantir as leis de mercado, a existência de concorrência.

Discussão aberta e transparente contra a hipocrisia

O ministro Franklin Martins defendeu a regulação, disse que o governo Dilma deve dar mais espaço ao tema e que temos que afastar “fantasmas” que nos impedem de fazer uma discussão aberta, transparente e tranquila.

O que se quer é justamente a participação de todos para se construírem alternativas mais próximas do consenso e do modelo mais democrático. Ou seja, longe de censurar, trata-se de ouvir todos os envolvidos. Inclusive e principalmente o cidadão consumidor de informação. Como disse Franklin Martins, é deixar mais gente falar, não menos.

Soma-se à defesa de um marco regulatório o fato de a legislação estar extremamente atrasada. Na Constituição de 1988, foi estabelecida a garantia a direitos como a tão saudada liberdade de expressão. Mas é preciso que seja dito de que forma eles são garantidos. Isso é feito através de um marco regulatório.

Franklin Martins faz sua defesa ao mesmo tempo em que critica a hipocrisia com a qual convivemos hoje. “Se nós achamos que não vale a pena, nós não queremos produção nacional, garantias para ela, nós não queremos garantia para produção regional, nós não queremos garantia para que haja produção independente, nós não queremos evitar a concentração excessiva da propriedade. Se nós achamos tudo isso, nós devemos revogar essa Constituição”, disse. Isso sem contar a existência de flagrantes irregularidades, como televisões pertencentes a deputados e senadores.

Ele apresenta a discussão atual como uma oportunidade de impedir esse tipo de coisa e regular de forma “mais cidadã e democrática”, através de “um processo de discussão público, aberto, transparente”, que encare os preconceitos.

Continua…

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Um pouco mais sobre o assunto:

Mídia: regulação no governo Dilma, já!, por Zé Dirceu

Para Franklin Martins, regulação da comunicação é prioridade para Dilma

Por que a mídia teme o debate? – Balaio do Kotscho

Regulamentação da mídia não é sinônimo de censura – Cynara Menezes

Experiência internacional indica que regular comunicação não causa censura, diz assessor do Parlamento europeu

Marco regulatório da mídia não é censura à liberdade de imprensa

Comunicação deve ser área estratégica para governo Dilma – Bia Barbosa

O corajoso discurso de Franklin Martins, na íntegra

Liberdade só para alguns não é liberdade: em defesa de um novo marco regulatório para a comunicação