Marina: “decisão responsável é aquela que aponta no sentido de manter as conquistas”

Entrevista de Marina Silva à IstoÉ desta semana:

No dia 31, a senadora Marina Silva vai cumprir seu dever cívico e votar em Rio Branco, no Acre. Ela não revela o voto, mas deixa claro que não pretende votar nulo, apesar de o Partido Verde ter feito opção institucional pela neutralidade. “Pode afirmar que vou votar de acordo com minhas responsabilidades”, disse Marina, em entrevista à ISTOÉ. “Para mim, a decisão responsável é aquela que aponta no sentido de manter as conquistas.” Apesar do sigilo, Marina foi taxativa e fez questão de destacar que muita gente do Partido Verde tem preferência pela petista Dilma Rousseff, ao comentar o apoio de Fabio Feldmann e Fernando Gabeira ao tucano José Serra. “Há muitos nomes de peso do PV apoiando a ministra Dilma.” Do alto dos 19,6 milhões de votos que recebeu no primeiro turno da eleição, a senadora pelo Acre não vê problema em ficar sem mandato a partir de 1º de janeiro. Diz que vai retomar a agenda de viagens pelo País para difundir suas ideias a respeito do desenvolvimento sustentável. E des­­­­­­­conversa, mas não nega o projeto de se candidatar novamente à Presidência em 2014, quando poderá enfrentar nas urnas o presidente Lula.

Istoé – Ficar independente no segundo turno é coerente com a campanha feita pela sra.?

Marina Silva – No meu entendimento, não só é coerente como foi a decisão mais correta. Fizemos uma campanha programática e não podíamos ter uma atitude de neutralidade.

Istoé – A posição não foi de neutralidade?

Marina Silva – Apresentamos a Dilma e Serra um conjunto de pontos que achamos que são os melhores para contribuir com o programa dos dois. É uma contribuição programática, não nos velhos moldes da discussão de cargos ou apenas baseada nas relações políticas.

Istoé – Muitos argumentam que a sra. lavou as mãos e ficou em cima do muro.

Marina Silva – Não foi uma decisão fácil, mas não foi a de Pôncio Pilatos. Foi a decisão de contribuir com os dois candidatos. Cabe a eles internalizar a plataforma que apresentamos. A prerrogativa de convencer aqueles que no primeiro turno votaram em mim também é deles. Não temos a atrasada visão patrimonialista de política, em que as lideranças pensam que são donas dos votos dos eleitores. As pessoas que votaram em mim votaram em opinião.

Istoé – Como falar em independência se os ex-candidatos Fabio Feldmann e de Fernando Gabeira apoiam Serra?

Marina Silva – Fabio Feldmann e Fernando Gabeira não falam em nome do partido. São nomes importantes do PV, mas muitos outros nomes de peso estão apoiando a ministra Dilma. Não é só o deputado Sarney Filho, mas várias outras lideranças. Muita gente do PV vai votar na Dilma. O apoio é dado na condição de cidadão, pessoalmente, sem os símbolos do partido.

Istoé – E como a sra. define decisão responsável?

Marina Silva – É aquela que corrige os erros, encara novos desafios e aponta no sentido de manter as conquistas.

Istoé – A sra. vai votar no domingo 31 de outubro?

Marina Silva – Vou votar sim. Pegarei um avião e vou lá para Rio Branco.

Istoé – Vai anular o voto?

Marina Silva – Vou votar com a responsabilidade que tenho com o meu voto. Mas o voto é secreto. Pode afirmar que votarei de acordo com minhas responsabilidades. Quanto ao voto nulo, é uma decisão do cidadão, do eleitor. Para mim, a melhor forma é aquela que contribui com o País.

Istoé – É possível traçar diferenças entre os perfis de Dilma e de Serra?

Marina Silva – Cabe ao eleitor fazer essa distinção. A escolha dele vai para o programa de governo, as propostas que apresentam, as atitudes, as trajetórias, a visão de mundo e de País que têm. No primeiro turno, eu dizia que os dois têm um perfil gerencial, que são semelhantes, que têm uma visão de desenvolvimento semelhante. Foi dada uma forte sinalização de que as pessoas estão cansadas desse confronto fratricida que está colocado na política brasileira, estão cansadas do retrocesso na política. Nós avançamos do ponto de vista econômico, do ponto de vista social, mas do ponto de vista político há um retrocesso enorme.

Istoé – Quem aposta na guerra religiosa perde ou ganha voto?

Marina Silva – A religião e a fé devem ser utilizadas para promover a paz e o entendimento, como dizem os ensinamentos do Novo Testamento. Podemos fazer política baseados nos valores do afeto, da espiritualidade, como Martin Luther King, Nelson Mandela e Mahatma Gandi. Os valores do amor, da liberdade e da justiça, da fraternidade são uma dádiva de Deus no coração de todos os homens. E é nesse lugar de encontro que devemos buscar o equilíbrio para que nosso país continue sendo uma democracia que tenha um Estado laico – e Estado laico não é Estado ateu – que respeite a liberdade religiosa.

Istoé – A democracia corre algum risco no Brasil?

Marina Silva – Acho que a ameaça maior à democracia no Brasil é a dualidade plebiscitária que queriam impor. É uma ameaça, porque quando o cidadão tem apenas a dualidade do plebiscito não tem como escolher. Para escolher se supõe um terceiro. Esse terceiro que surgiu foi uma construção para que tivéssemos essa escolha, foi um investimento. Essa candidatura, essa campanha aconteceu nas condições mais adversas. Muitos tinham um verdadeiro arsenal de meios eleitorais, coligações, tempo de televisão, prefeituras, governos de Estados, etc. Já há um enfrentamento a essa forma antiga de fazer política, na qual a sociedade fica no anonimato e ficam na cena apenas os que acham que são os donos dos votos.

Istoé – Ficou espantada com seus quase 20 milhões de votos?

Marina Silva – Eu fiquei agradecida a Deus e à sociedade brasileira, por terem dado concretamente esse sinal de que o modelo de política que nós temos no Brasil está esgotado. Esse é o sinal mais contundente que foi dado. Eu sabia e dizia o tempo todo que o que estava nas ruas era maior do que o que era mostrado nas pesquisas e as urnas de fato mostraram isso.

Istoé – Alguns tucanos dizem que seus votos foram “transitórios”, que não teriam sido dados em função de sua capacidade governativa.

Marina Silva – Espero que as pessoas tenham um olhar para além da realidade aparente, que às vezes é mais perceptível a uma avaliação apressada de fenômenos políticos e sociais. As pessoas que votaram na nossa proposta são pessoas que se orientam por opinião, por atitude, por um olhar diferente que não o dessa guerra fratricida que aí está. Tenho a clareza de que é um embrião. Quando Lula e outros criaram o PT, as pessoas diziam que aquilo não tinha como prosperar, como falam hoje do PV. Olha no que deu.

Istoé – Qual o projeto que a sra. está traçando para os próximos quatro anos, já que vai ficar sem mandato?

Marina Silva – Continuar meu trabalho pela sustentabilidade. Contribuir na medida do possível para que possamos manter as conquistas que já tivemos, para que possamos reparar os erros e também para que possamos encarar os novos desafios, principalmente o de integrar economia e ecologia.

Istoé – Na carta aberta sobre a decisão do PV, a sra. diz que PT e PSDB se deixaram capturar pela lógica do embate. Esses dois partidos ainda podem compartilhar projetos políticos?

Marina Silva – Precisam. São dois partidos da social-democracia que precisam fazer esse gesto em favor do Brasil e do avanço na política. Tanto é que eu dizia que se ganhasse a eleição queria governar com os melhores quadros do PT, do PSDB e dos demais partidos. Para mim, nós temos a necessidade de fazer esse realinhamento histórico no Brasil, sob pena de continuarmos com os atravessadores da política ditando aquilo que os verdadeiros agentes transformadores da política e dos processos sociais deveriam estar fazendo.

Istoé – Independentemente do resultado do segundo turno, se o PV for convocado a participar do futuro governo, vai aceitar o convite?

Marina Silva – Não estou colocando estas questões nestes termos, durante essa fase do segundo turno. Nós temos que olhar para compromissos programáticos. Qualquer composição e alinhamento terá que se dar em cima de programas, e não em cima da disposição a priori de ocupar cargos.

Istoé – Depois do surpreendente resultado do primeiro turno, seu nome passou a ser apontado como o de forte candidata à Presidência em 2014. Existe esse projeto?

Marina Silva – Nunca fico me antecipando em torno de qual é, enfim, o pleito político, o cargo político que vou disputar na próxima eleição. Só vou fazer aquilo que acho que é o melhor. Vou trabalhar com os diferentes segmentos que fomos capazes de mobilizar e integrar durante essa campanha. E vou estar muito imbuída de mobilizar o Brasil em torno da mudança de modelo de desenvolvimento. Nunca me programei para ser candidata à Presidência da República. Aliás, eu estava me preparando para sair da política institucional quando veio o convite do PV. Aprendi com a política que cada um faz o melhor de si e, quando chega um determinado momento, aquele que deve cumprir com determinado papel, que a história está colocando diante da sua responsabilidade, deve fazê-lo.

Istoé – Se a história lhe reservar uma disputa à Presidência em 2014 contra o presidente Lula, a sra. vai enfrentá-la?

Marina Silva – Não quero ficar agindo sob conjecturas. Nunca imaginei que iria disputar uma eleição da qual estariam participando o governador Serra, a ministra Dilma e outros candidatos. Na minha abordagem, quando você participa é porque está lutando a favor de algo. E não contra alguém. Eu tenho uma visão para defender um projeto com o qual estou alinhada, muito mais do que para combater outra pessoa. Se a visão que tenho, se a proposta que tenho é diferente das propostas e da visão daqueles que estão concorrendo comigo, ao afirmar a visão que tenho da política, do desenvolvimento, da educação, da segurança pública, estou carregando esse projeto. Antes de a gente negar o outro, é melhor que a gente afirme o que a gente quer.

Istoé – Comenta-se que a sra. saiu das urnas muito maior do que entrou. É isso mesmo?

Marina Silva – Lutei muito para este segundo turno e queria muito que o Brasil tivesse ali uma contribuição nossa, do nosso programa, da nossa visão de País, da nossa visão de política, mas não foi esse o resultado. Nem por isso deixo de estar feliz. Estou feliz, agradecida, e recebo com respeito, gratidão e humildade tudo que aconteceu.

Marina: “decisão responsável é aquela que aponta no sentido de manter as conquistas”

Neutralidade de Marina e Plinio é irresponsabilidade

O que está em jogo são dois projetos políticos. Não adianta, por mais que o eleitor ache que não há nenhum 100% bom, ou Dilma ou Serra vão se tornar o próximo presidente do Brasil. Não há alternativa.

Agora, um dos dois vai ser o presidente, não tem mais o que fazer para mudar isso. Se o eleitor não gosta de nenhum dos dois, vai ter que escolher, sim, o que achar menos ruim para o Brasil que queremos. Deixar de opinar neste momento é se omitir. É deixar que os outros decidam no seu lugar.

Para um eleitor comum, seria uma atitude irresponsável votar em branco. Irresponsável porque joga nas mãos de pessoas que não conhece a responsabilidade de fazer uma escolha tão importante para o Brasil, da qual poderia participar. Mas, para quem participa ativamente da política, com papel protagonista no jogo, deixar de opinar é quase temerário.

Por isso, não posso admitir a postura de Plinio de Arruda Sampaio e Marina Silva.

Pedir a seus eleitores que votem em branco ou nulo no segundo turno já seria grave quaisquer projetos que estivessem em jogo.

Diante do retrocesso representado por Serra, que vai muito além de qualquer erro do governo Lula, qualquer política mal executada ou aliança com a qual eventualmente não concordemos, abster-se de decidir é permitir que o PSDB ganhe força. Não apoiar Dilma é fornecer aos seus eleitores o aval ideológico para deixar que outros – que podem ser de direita – decidam em seu lugar.

Sobre o Plinio, recomendo a leitura do Blog do Tsavkko.

No caso de Marina a situação é ainda mais feia. Sua pauta principal é a defesa ambiental. O governo Lula falhou gravemente no setor, mas ela era a ministra de Meio Ambiente durante boa parte do governo. De qualquer forma, o projeto da direita mais conservadora, representada pelo PSDB, desconsidera as questões ambientais, porque antes delas vêm os interesses de mercado.

Se Marina concordou com a política do governo por seis de seus oito anos a ponto de permanecer ministra, o saldo de sua avaliação do governo é positivo. Afinal, ninguém aceita ser ministro de um governo com cuja política não concorde. É preciso ter uma identificação com o projeto, hoje representado por Dilma.

Marina eximir-se de opinar é uma traição não ao PT nem a Lula, muito menos a Dilma. É uma traição a sua própria história e a sua defesa das causas ecológicas.

E ela deve sair mais perdendo do que ganhando. Quem entende do assunto e pode dar umas dicas é José Fogaça, candidato derrotado ao governo gaúcho. Do PMDB.

Neutralidade de Marina e Plinio é irresponsabilidade

Lembretes para o segundo turno de 2010

Por Flávio Aguiar

Aos meus amigos verdes, gostaria de lembrar que Fernando Gabeira já declarou apoio a Serra, o que mostra como de fato ele considera Marina da Silva e as instâncias do próprio partido.

Assim como a causa ambiental, uma vez que entre Serra/DEM/Índio da Costa e causas ambientais há uma distância de anos-luz.

É bom lembrar também que Serra ganhou nos estados do chamado “espinhaço do agro-business”, que vai de Santa Catarina a Rondônia. Isso permite uma bela previsão do que vai ser o seu governo, muito mais do que frases sem cabeça nem pé.

A propósito de anos-luz: o que ajudou a empurrar Serra para o segundo turno, dando mais votos a Marina, foi a campanha obscurantista, retrógrada, caluniosa e que usa o nome de todas as religiões em vão, acusando, por exemplo, Dilma Rousseff de ser a favor do aborto.

Aos preocupados com a liberdade de imprensa, lembro que na mídia que apóia a candidatura de Serra, velada ou abertamente, desde 2006 tornaram-se comuns as “operações limpeza” (inclusive a pedido), eliminando jornalistas (inclusive de renome) dissidentes (como durante a ditadura) ou que não tocavam de acordo com a música.

Já a quem se preocupe com política externa, lembro que, se Serra levar a sério suas declarações durante a campanha, erguerá uma cortina de ferro nas fronteiras do nosso país, acabando com a integração continental. Sem falar que retornaremos aos tempos do beija-mão e da barretada à potência de plantão. O Brasil vai perder todo o prestígio que acumulou nos últimos anos. Vai murchar em matéria de contatos com a África, Ásia e América Latina, sem que isso signifique uma melhor posição diante da Europa ou da América do Norte.

Se a preocupação for com a idéia de que “é bom alternar quem está no poder”, sugiro que comecemos por pensar no caso de S. Paulo, o segundo orçamento da nação, que completará vinte anos sob a batuta da coligação PSDB/DEM, com resultados precários na educação, saúde e segurança.

Para quem ache que “é tudo a mesma coisa”, lembro que a arte da política (de acordo, entre outros, com Gramsci) é a de discernir as diferenças para além das aparentes semelhanças, e que essas diferenças aparecem mais pelo acúmulo de atos do que pelo de palavras e promessas.

Lembro ainda que, devido aos resultados do primeiro turno, uma vitória de Serra vai transformar o governo federal em cabide para uma penca de políticos subitamente desempregados da sua coligação, que já deviam estar defenestrados (pelo voto, como foram) da nossa vida pública há muito tempo.

É bom não esquecer que Serra não apresentou qualquer programa. Mas seu último ato significativo no governo de S. Paulo foi a privatização da Nossa Caixa, brecada porque adquirida pelo Banco do Brasil. Isso é um bom prognóstico para o que vai acontecer com o Banco do Brasil. Caixa Econômica Federal, Petrobrás, etc.

Ao invés de programas, Serra distribuiu gestos e palavras a esmo. Dizer que quem fuma é contra Deus, puxar Ave Maria em missa, falar em austeridade fiscal e ao mesmo tempo prometer aumentos vertiginosos do salário mínimo, dizer que tem preocupação ambiental e ao mesmo tempo prometer no Pará que vai mexer na legislação que protege a Amazônia não é um programa nem um bom começo para quem quer alardear honestidade política e coerência.

E por aí se vai.

Dilma, por sua vez, defende um programa (que pôs em prática) ao mesmo tempo social e austero, demonstrou ser uma candidata de idéias próprias e não um factóide de si mesmo que fica esgrimindo promessas a torto (sobretudo) e a direito. Foi atacada, caluniada, difamada e manteve a linha o tempo inteiro (ao contrário de Serra, que seguido perdeu a linha quando confrontado com perguntas incômodas), não recorreu a esses golpes baixos tão típicos das campanhas da direita. Não é o caso de se concordar com ela em tudo. Mas Dilma é diálogo.

Leia, medite e passe adiante, se achar que é o caso. Obrigado pelo seu tempo.

Lembretes para o segundo turno de 2010

Estaria Ana Amélia de olho no governo do estado?

Ficaram pendentes algumas observações sobre o resultado das eleições:

– O maior medo pós-eleição é um provável fortalecimento da ideia de Ana Amélia se candidatar ao governo do RS em 2014, ainda mais depois que a Zero Hora já deu destaque para o fato de ela “não pensar no Piratini”. Motivo extra para o PT fazer um baita governo no estado. E para comemorarmos o primeiro lugar de Paulo Paim na corrida ao Senado.

– A eleição de Manuela é surpreendente. Sei que ela tem um carisma muito grande e uma campanha muito forte, mas achei que já tivesse passado a onda mais alta e agora ela fosse simplesmente se eleger bem. Mas ela fez um número extraordinário de votos, mais de 480 mil. Apesar de ela ter conteúdo e ser uma boa política, com desempenho reconhecido, boa parte dessa votação é por impulso e sem conotação política. Ela tem tudo para vir com boas chances para a disputa para a Prefeitura daqui a dois anos.

– A eleição para o Senado é a tal da “eleição de 200%”. O número de votos é o dobro do dedicado aos outros cargos. Tem também mais candidatos concorrendo às mesmas vagas. Ainda assim, chama a atenção o fato da desconhecida Abgail Pereira, que entrou na disputa apenas para garantir a vaga de Paim, ter feito mais votos que a atual governadora, que concorria à reeleição. Foram 1.551.151 de votos para a candidata do PCdoB ao Senado, e 1.156.386 para Yeda. Quase 400 mil votos a menos. Resultado de um dos piores governos, quiçá o pior, da história do Rio Grande.

– Sobre a composição do governo do estado, está certo Tarso ao não dar a opção de o PMDB, o PSDB, o DEM e “partidos que tiveram uma posição nítida oposicionista” de comporem o governo. Como disse o governador eleito, “isso não quer dizer desrespeito nem ausência de diálogo, mas não acho que sejam partidos passíveis de uma composição conosco”. Dessa forma, Tarso deixa longe de seu governo o oportunismo do PMDB, mostrando com elegância que o partido adversário saiu derrotado.

– Ainda no domingo à noite, Serra deu entrevista em que passou bastante tempo agradecendo Marina. De fato, ele tem muito a agradecer, foi graças à candidatura verde que se concretizou o segundo turno que o tucano queria. No frigir dos ovos, o PSDB foi o único que colheu frutos com a entrada da Marina na disputa. O que só confirma a tese de que sua candidatura serviu muito mais à direita do que à esquerda.

Estaria Ana Amélia de olho no governo do estado?

Marina trairá seus princípios se apoiar Serra

A indicação do PV de que apoiaria o PSDB em um eventual segundo turno entre Dilma e Serra demonstra duas coisas em especial. Em primeiro lugar, o partido de Marina Silva já declara derrota antecipada. Onde já se viu um candidato que pede para ser alçado ao segundo turno indicar apoio para outro nome no segundo antes do resultado das eleições? É um atestado de derrota.

Em segundo lugar, mostra de que lado está, ou pelo menos para qual pende. É triste ver um inivíduo que participou de quase todo o governo como ministra do Meio Ambiente declarar apoio à oposição dessa forma. Não sei que tipo de ressentimento Marina guarda do PT, mas é grande. Agora resolveu colocar para fora suas posições conservadoras e se colocar ao lado das elites contra o progresso do povo. Sua plataforma é focada em meio ambiente e desenvolvimento sustentável. Ela começa sua traição dedicando-a a seus princípios. Ao apoiar o PSDB, apoia um projeto elitista, privatista, que privilegia o lucro em detrimento de qualquer vantagem social. E sabe-se que o desenvolvimento sustentável se dá abrindo-se mão de alguns benefícios financeiros, com investimentos maiores em setores que não trazem retorno financeiro imediato. Sabe-se, portanto, que um possível governo de Serra não seguiria esse rumo.

Marina, pois, dá as costas definitivamente ao partido que a fez política, que confiou em seu trabalho e na defesa do meio ambiente desenvolvida por ela durante toda uma vida. Mas trai essencialmente seus ideais. O ambientalismo, o ecologismo não se identificam com a direita. E Marina hoje coloca-se definitivamente à direita na agenda política brasileira.

Marina trairá seus princípios se apoiar Serra

Dilma oscila e Marina lucra, mas o Datafolha sacaneia

Não credito a diferença no percentual apurado pela última pesquisa Datafolha a uma manipulação na margem de erro, como tem sido dito no Twitter. A ideia que origina essa tese é a de que as pesquisas não teriam mudado, mas o Datafolha teria adaptado os resultados dentro da margem de erro. Não creio.

Credito essa diferença na pesquisa a uma manipulação na informação, isso sim. O que fez os números oscilarem esse tantinho foi a forcinha que a imprensa vem dando à oposição. Não acredito em uma subida de Serra. Já esperava, porém, que Dilma baixasse um pouco seu percentual (importante observar que Dilma não “caiu”, ela oscilou dentro da margem de erro – aprendi com José Roberto de Toledo, jornalista do Estadão). Natural, diante dos factoides produzidos. Não há como dizer a todos que aquilo é uma criação se o Jornal Nacional, que ainda mantém uma aura de credibilidade, repercute.

Mas há que se considerar que a pesquisa não parece lá tão honesta. Bem o apontou o blogueiro Eduardo Guimarães, a partir, diga-se, de um estranhamento postado pelo jornalista do grupo Folha Lauro Jardim em seu blog. As perguntas feitas aos entrevistados são, de fato suspeitas. Diz-se que foram feitas depois de questionar quem o cidadão votaria para presidente da República caso as eleições se dessem naquele dia, mas Guimarães coloca em dúvida essa ordem e pede investigação. Não vou tão longe, mas acho uma baita sacanagem a forma com que o tema da ministra Erenice foi abordado na pesquisa, como mostra a imagem, que Guimarães tirou do blog do Lauro Jardim.

Quem deve lucrar com essa função toda é a Marina. Sinceramente, não consigo entender como alguém pode pensar em votar no Serra. Não por uma questão ideológica, porque entendo que existam pessoas direita. Mas porque sua campanha é ruim, muito ruim. Porque não consigo acreditar em alguém que diz que vai asfaltar a rodovia Transamazônica, elevar o salário mínimo a 600 reais, aumentar a aposentadoria em 10%, tudo isso enquanto baixa os impostos. O povo sabe diferenciar promessa de mentira. Por isso e pelo fato de Marina ter sido ministra do governo Lula, por ser uma candidata simpática e não agressiva, que os votos perdidos por Dilma devem migrar para a acreana.

Dilma oscila e Marina lucra, mas o Datafolha sacaneia