Resistência à mídia conservadora: “América Latina ainda é basicamente audiovisual”

As iniciativas estatais em televisão, que não necessariamente são chapa-branca, são uma opção para fugir da pressão conservadora da mídia. A opinião é do jornalista Mário Augusto Jakobskind, que lançou o livro A América que não está na mídia essa semana em Porto Alegre e Pelotas (aqui o primeiro post sobre o lançamento) e louvou a criação da TV Brasil. “Seu mérito não é o enfrentamento, mas abrir um canal para sair da mesmice”, e afirma que um governo tucano será um retrocesso no incipiente processo da TV pública brasileira.

Não deu pra evitar a pergunta: e a internet? É uma alternativa de resistência? Jakobskind acha que sim, mas não se empolgou muito na resposta. Acha que ainda é uma faixa restrita, porque, embora 60 milhões de pessoas tenham acesso a ela de alguma forma, os mesmos grupos que controlam o resto da comunicação também controlam a internet. Isso sem contar que a “América Latina é uma região basicamente audiovisual”, ou seja, a resistência ainda se dá prioritariamente na radiodifusão.

Por fim, um tema polêmico, o diploma. Jakobskind defende a exigência, por um motivo: “não se exigir vai fazer com que o patronato dê mais as caras, através da desregulamentação, uma exigência do neoliberalismo para todas as profissões”. Mas ressalva que isso não garante a qualidade do conteúdo produzido.

A luta pela democratização na comunicação, por abrir espaços na mídia conservadora, é uma batalha de todos os cidadãos, para o jornalista. “Sem isso, vamos morrer na praia e ficar sempre sob controle do capital.”

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Resistência à mídia conservadora: “América Latina ainda é basicamente audiovisual”

“Para grande mídia, liberdade de imprensa é ter o direito de fazer o que bem entender”

Jornalismo e América Latina. Dessa dupla surgiu uma discussão mais ampla, não apenas sobre o continente é retratado nos nossos jornais, mas principalmente sobre como o jornalismo é vilipendiado por essas bandas. Em Porto Alegre e Pelotas, o jornalista Mário Augusto Jakobskind lançou seu A América que não está na mídia apontando o dedo na cara da mídia que chamou de conservadora. Sem dó nem piedade, como deve ser.

O principal ponto em questão foi como furar o bloqueio imposto por ela, que impede a sociedade de gerar grandes discussões e, quando o faz, é para posar de democrata. Mas mesmo assim daquele jeitinho meio discreto. A bravata é muito maior do que o espaço que de fato é aberto para questões que não interessam muito. Questões como liberdade de imprensa, mídia comunitária, agricultura familiar, movimentos sociais. Fugir da criminalização é papel apenas dos nanicos. (Lembrando que a mídia é controlada pelo agronegócio, que tem no Estadão e na Globo alguns de seus participantes.)

Para Jakobskind, a cobertura de América Latina é preconceituosa, e é isso que ele pretendeu demonstrar no livro. O exemplo mais evidente é a Venezuela de Hugo Chávez, chamado frequentemente de ditador, onde “a liberdade de imprensa é concreta de 11 anos para cá”, com crescimento vertiginoso da mídia alternativa, incentivada pelo Estado. “Para nós, isso é democrático. Para grande mídia, é falta de liberdade, porque para eles liberdade de imprensa é liberdade de empresa (terem o direito de fazer o que bem entenderem).” Representante dessa visão é o Instituto Millenium, que tem como um de seus coordenadores o apresentador do Jornal da Globo, William Waack.

Citou também Argentina, Equador, isso sem nem falar em Cuba. Todos criticados por tentarem quebrar o monopólio, por buscarem o que Umberto Eco definiu como termômetro da democracia nos países: só é democrática a nação em que todos os setores da mídia têm vez e voz. No Brasil, a realização da I Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), no fim do ano passado, foi ainda tímida, mas importante, e assustou os setores conservadores, que passaram a esbravatear ainda mais, usando os exemplos dos vizinhos para dizer que o Brasil seguia o mesmo caminho, como se isso fosse gravíssimo. “Uma grande balela para assustar os incautos”, detonou Jakobskind.

Lembrei da entrevista que Jorge Pontual fez com a blogueira cubana Yoani Sánchez quando Jakobskind falou no “jornalismo convescote”, muito comum na nossa imprensa, quando “os caras levantam a bola para o entrevistado falar o que bem entender”. Um belo exemplo de como se maltrata a América Latina nas nossas telinhas.

Continua…

“Para grande mídia, liberdade de imprensa é ter o direito de fazer o que bem entender”

“A América que não está na mídia” será lançado no RS hoje e amanhã

O livro A América que não está na mídia, de autoria do jornalista Mário Augusto Jakobskind, Conselheiro da ABI e secretário-geral do SPJERJ (Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro), será lançado em Porto Alegre e Pelotas, nos dias 12 e 13 de maio, respectivamente. A promoção é do Blog Somos andando, Coletivo Catarse e jornalistas independentes. Tem apoio do SindsprevRS, SindBancários de Pelotas, SemapiRS, Universidade Católica de Pelotas e Bancada PT na AL.

Grandes nomes
 
Com prefácio do jornalista Flávio Tavares e apresentação do coordenador do MST, João Pedro Stédile, além de comentário de Eduardo Galeano, A América que não está na mídia, editado pela Editora Altadena, aborda questões relativas a vários países da América Latina, geralmente não divulgadas pela mídia convencional, e discute a cobertura jornalística de um continente que está em processo de transformação. A orelha é do saudoso jornalista Fausto Wolff e a capa do cartunista Carlos Latuff.

O autor    
 
Jakobskind, além de integrante do Conselho Editorial do jornal Brasil de Fato é correspondente do jornal uruguaio Brecha e nos últimos 25 anos tem se dedicado ao estudo da América Latina, tendo já publicado livros que versam sobre o continente, entre os quais, América Latina – Histórias de Dominação e Libertação. É editor do site Página 64, que se auto-define como “um novo espaço fora do esquema do pensamento único”.

Nas palavras do próprio Jakobskind, “o objetivo principal [dos encontros hoje e amanhã] é debater. Quem for ao lançamento deve também estar imbuído desse espírito. Debater, participar do debate, contestar se achar que deve ou aprovar o ideário contido nas reflexões do A América que não está na mídia“.
 
SERVIÇO
 
PORTO ALEGRE
QUARTA – 12 de maio – 19h
Avenida Lima e Silva, 280 (Semapi/ Sindicato)
 
PELOTAS
QUINTA – 13 de maio – 19h
Auditório Campus II UCPel
Rua Almirante Barroso, 1202

“A América que não está na mídia” será lançado no RS hoje e amanhã

A América que não está na mídia

A AMÉRICA QUE NÃO ESTÁ NA MÍDIA

Coletivo Catarse de Comunicação, Associação Cultural José Martí e jornalistas independentes realizam o lançamento da segunda edição de A América que não está na mídia, de Mário Augusto Jakobskind.

Será no dia 12 de maio, no Semapi/Sindicato (Av. Lima e Silva 280) a partir das 19h. Em Pelotas, no dia 13 e mesmo horário, ocorre o lançamento no Auditório do Campus II da UCPel.

Apesar de novos governos progressistas terem chegado ao poder, a manipulação midiática permanece uma realidade inalterada no continente.

O evento foi viabilizado com o apoio do Sindsprev RS, Semapi RS e Bancada do PT na Assembleia Legislativa.

Histórico do autor

Mário Augusto Jakobskind é jornalista e escritor. Foi colaborador dos jornais alternativos Pasquim e Versus, repórter da Folha de S.Paulo (1975 a 1981) e correspondente da Rádio Centenária de Montevideo, além de editor de Internacional da Tribuna da Imprensa (1989 a 2004) e editor em português da revista cubana Prisma (1988 a 1989). Atualmente é correspondente do semanário uruguaio Brecha e membro do conselho editorial do Brasil de Fato. É autor, entre outros, dos livros América Que Não Está na Mídia (Adia, 2006), Dossiê Tim Lopes – Fantástico/Ibope (Europa, 2004), A Hora do Terceiro Mundo (Achiamê, 1982), América Latina – Histórias de Dominação e Libertação (Papirus, 1985) e Cuba – apesar do bloqueio, um repórter carioca em Cuba (Ato Editorial, 1986).

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