E Merval Pereira virou imortal

Tem momentos em que a gente entende direitinho o que significa ter #vergonhaalheia. O brabo é quando a vergonha alheia não é só pelos outros, ou seja, quando os outros tomam decisões em nome de um grupo muito grande de gente. E quando a gente faz parte desse grupo, então…

Hoje foi um dia de bastante vergonha. Começa assim, pelo absurdo dos outros, por aquela coragem que as pessoas têm de fazer algo tão esdrúxulo. Mas quando a gente fala em Academia Brasileira de Letras, ela deve representar o melhor da literatura nativa. Está ali, no nome. Mas quem decide quem vai integrar o clubinho são os que já fazem parte dele. Ou sejá, não é lá muito democrático.

O fato é que hoje foi escolhido para entrar para a confraria uma pessoa que escreveu dois livros. Tudo bem, o critério é ter um livro publicado, então não há irregularidade. Mas cabe questionar se Merval Pereira foi escolhido pela sua capacidade literária ou se pelo papel deprimente que faz ao comentar política em “grandes” emissoras de TV e jornais. A polêmica tem uma força engraçada, que operou aí. Merval Pereira ocupa seu posto pelas opiniões de suas colunas, que, na minha humilde avaliação, são tão elitistas quanto mal-fundamentadas. Mas o fato de suas opiniões e sua visibilidade terem influenciado na decisão – e não me venham dizer que não influenciou! – é grave indepentendemente de se concordar ou não com elas, mas porque isso não representa em nada sua capacidade literária. Até porque literatura é muito diferente de jornalismo, e ter qualidade em um (quando é o caso) não significa que se vá ter no outro.

E mais, vale pensar sobre por que outros tantos nomes muito mais significativos nas nossas Letras não entraram na disputa. Uma entidade que escolhe José Sarney para integrá-la sem qualquer tipo de critério e que deixou tantos nomes importantíssimos da história da nossa literatura de fora já caiu em descrédito faz tempo.

Que a Academia Brasileira de Letras deixe, pois, de ser notícia. Porque já não serve mais ao que se propõe. Que não seja referência de nossas Letras. Isso, claro, sem desmerecer os grandes nomes que um dia já honraram seu posto.

E Merval Pereira virou imortal