Lula será colunista da Carta Capital

Mino Carta anuncia em editorial da edição mais fresquinha da Carta Capital que, assim que Lula se tornar ex-presidente, passará a vociferar livremente na revista, como colunista. As restrições que o cargo de presidente lhe impõe ficarão para trás, e o político mais aprovado da história do Brasil falará o que bem entender, sem papas na língua.

Minha ansiedade fica por conta das declarações que já vem dando ainda como presidente com relação à comunicação. Que Lula use o espaço para propor discussões que interessam ao grosso dos brasileiros. Que use sua popularidade para influenciar a agenda.

Lula será colunista da Carta Capital

Por que as denúncias da Carta Capital não repercutem como as da Veja?

Esta semana, a semanal do Mino Carta noticiou a quebra de sigilo de milhões de brasileiros promovido por uma empresa de Verônica Serra, a filha do Zé, junto com Verônica Dantas, herdeira de Daniel Dantas, ainda no governo FHC.

Enquanto isso, a Veja publicou denúncia de tráfico de influência envolvendo o filho da agora ex-ministra da Casa Civil, Erenice Guerra. Como já relatado aqui, a matéria continha apenas uma fonte, que a desmentiu, mas o caso virou escândalo, varreu o noticiário e conseguiu derrubar a ministra.

Tratamentos desiguais

O problema talvez resida na sigla partidária dos envolvidos em cada um dos casos. Serra é do PSDB, Erenice é do PT. Não é preciso ser gênio para perceber que a grande mídia vem favorecendo a furada candidatura tucana. Uma leitura rápida da coluna da ombudsman da Folha de S.Paulo do último domingo confirma que essa não se trata de uma teoria conspiratória ou “trololó petista”.

Que esperanças restam aos comunicadores e à sociedade de um modo geral de que as denúncias efetivas de veículos sérios – o que é comprovado por um resgate histórico simples: Carta Capital denunciou a atuação corrupta de Daniel Dantas anos antes da concorrência, mas lhe fizeram ouvidos moucos – e que contrariam os interesses da classe dominante venham a público?

Luta de todo dia

Brigar para fazer Comunicação de forma mais democrática e ganhar um espaço na agenda de discussão da opinião pública parece trabalho de formiguinha diante de um elefante. É difícil e dá pouco resultado, principalmente a curto prazo (o que não significa que não deva ser feito).

Comunicação: uma política de Estado

Pela luta dentro da própria comunicação, vamos abrindo espaços aos poucos, cada vez mais, mas ainda muito restritos. Resta-nos, então, que ela se torne uma política de governo, uma política de Estado. O Lula está mudando o Brasil, ampliando o acesso da população a diversos serviços importantes, dando condições para que o povo pense por si próprio. Por que então não fazer o mesmo com a comunicação?

Afinal, existe um ministério para o tema e ele é fundamental para a construção de uma sociedade efetivamente democrática. E precisa de um incentivo de cima, de uma política real, contundente, para que efetivamente mude. Para que se repercutam igualmente denúncias de todos os veículos, desde que sérios, desde que elas sejam averiguados e se demonstrem verídicas. Isso seria democracia.

Por que as denúncias da Carta Capital não repercutem como as da Veja?

FHC e suas duas éticas

Cláudio Abramo é muito respeitado entre os jornalistas. É dele o livro “A regra do jogo”, onde diz, em suma, que a ética do jornalista não é diferente da ética do cidadão. Uma ética só. Quem não a tem por princípio, não vai adquiri-la depois de algumas aulas ou experiência prática. Da mesma forma, quem a tem, não a perde. Mantém, leva para a profissão a mesma relação com a ética que tem na vida.

Assim é na vida. Em todas as áreas. Ou se tem ética ou não se tem. Pode-se até adquiri-la ou perdê-la com o tempo (há ainda quem discorde disso), mas não se pode ter ética em determinados momentos e não ter em outros. Saio de casa como um sujeito ético e chego na esquina como um mau-caráter. Isso não existe.

Para Fernando Henrique Cardoso, existe. Mino Carta conta, no editorial de Carta Capital dessa semana, de uma entrevista que fez com o cidadão em questão, nos primórdios de sua trajetória de oito anos como o homem mais importante do Brasil. Em 1994, FHC diferenciou a ética do cientista da ética do político. Por isso fez a merda que fez (desculpem os puritanos, mas se o Lula pode dizer essas coisas, por que não eu?).

Só avisando: quem tem duas éticas não tem nenhuma.

Não existe uma ética específica do jornalista: sua ética é a mesma do cidadão. Suponho que não se vai esperar que, pelo fato ser jornalista  o sujeito possa bater carteira e não ir para a cadeia. Onde entra a ética. O que o jornalista não deve fazer que o jornalista não deva fazer? O cidadão não pode trair a palavra dada, não pode mentir. No jornalismo, o limite entre o profissional como cidadão e como trabalhador é o mesmo que existe em qualquer outra profissão. É preciso ter opinião para poder fazer opções e olhar o mundo da maneira que escolhemos. Se nos eximimos disso, perdemos o senso crítico para julgar qualquer outra coisa. O jornalista não tem ética própria. Isso é um mito. A ética do jornalista é a ética do cidadão. O que é ruim para o cidadão é ruim para o jornalista.

Cláudio Abramo, A regra do jogo

FHC e suas duas éticas

Carta Capital manifesta apoio a Dilma

A edição dessa semana de Carta Capital é daquelas de serem guardadas para consulta futura. No editorial assinado por Mino Carta, a revista apóia a candidatura Dilma Rousseff à Presidência da República, como já fizera com Lula há quatro e oito anos. Mas, além do fato em si, já significativo, ela é histórica também pela explicação que dá. Uma verdadeira aula de jornalismo.

Mino Carta explica aos desavisados que defender uma candidatura não significa jornalismo cego, não leva a ignorar os problemas que essa mesma candidatura venha a apresentar. Aliás, a título de exemplo, aponta decisões do governo Lula com as quais Carta Capital não concorda e sobre as quais escreveu no seu devido tempo. Ainda assim, vê Dilma como a melhor entre as opções disponíveis.

O jornalista continua: a prática de apontar uma escolha editorial para a disputa eleitoral é adotada pelos grandes veículos do mundo. No Brasil, esse saudável exercício de democracia não é usual, por isso estranha. Talvez – e agora sou eu quem digo – seja porque não tenhamos veículos de fato grandes no país. Mostrar para o leitor qual a posição da revista é uma demonstração de honestidade, de decência, para ele saber o que está lendo, de quem está lendo.

Reconhecemos em Dilma Rousseff a candidatura mais qualificada e entendemos como injunção deste momento, em que oficialmente o confronto se abre, a clara definição da nossa preferência. Nada inventamos: é da praxe da mídia mais desenvolvida do mundo tomar partido na ocasião certa, sem implicar postura ideológica ou partidária. Nunca deixamos, dentro da nossa visão, de apontar as falhas do governo Lula. (…)

Hoje apoiamos a candidatura de Dilma Rousseff com a mesma disposição com que o fizemos em 2002 e em 2006 a favor de Lula. Apesar das críticas ao governo que não hesitamos em formular desde então, não nos arrependemos por essas escolhas. Temos certeza de que não nos arrependeremos agora.

Carta Capital manifesta apoio a Dilma

Os interesses do Império e os nossos

O editorial do Mino Carta na Carta Capital dessa semana está especialmente saboroso. Se fosse uma pizza, comê-la-ia de joelhos. Aí vai o início, primoroso:

Ao ler os jornalões na manhã de segunda 17, dos editoriais aos textos ditos jornalísticos, sem omitir as colunas, sobretudo as de O Globo, me atrevi a perguntar aos meus perplexos botões se Lula não seria um agente, ocidental e duplo, a serviço do Irã. Limitaram-se a responder soturnamente com uma frase de Raymundo Faoro: “A elite brasileira é entreguista”.

Entendi a mensagem. A elite brasileira aceita com impávida resignação o papel reservado ao País há quase um século, de súdito do Império. Antes, foi de outros. Súdito por séculos, embora graúdo por causa de suas dimensões e infindas potencialidades, destacado dentro do quintal latino-americano. Mas subordinado, sempre e sempre, às vontades do mais forte.

Para citar eventos recentíssimos, me vem à mente a foto de Fernando Henrique Cardoso, postado dois degraus abaixo de Bill Clinton, que lhe apoia as mãos enormes sobre os ombros, em sinal de tolerante proteção e imponência inescapável. O americano sorri, condescendente. O brasileiro gargalha. O presidente que atrelou o Brasil ao mando neoliberal e o quebrou três vezes revela um misto de lisonja e encantamento servil. A alegria de ser notado. Admitido no clube dos senhores, por um escasso instante.

Não pretendo aqui celebrar o êxito da missão de Lula e Erdogan. Sei apenas que em país nenhum do mundo democrático um presidente disposto a buscar o caminho da paz não contaria, ao menos, com o respeito da mídia. Aqui não. Em perfeita sintonia, o jornalismo pátrio enxerga no presidente da República, um ex-metalúrgico que ousou demais, o surfista do exibicionismo, o devoto da autopromoção a beirar o ridículo. Falamos, porém, é do chefe do Estado e do governo do Brasil. Do nosso país. E a esperança da mídia é que se enrede em equívocos e desatinos.

Os interesses do Império e os nossos