Ousadia e vanguarda, mas não pra todo o mundo

Continuação do post anterior

Da primeira vez que vim para Londres, em 2007, ainda era possível entrar por qualquer porta do ônibus e só encostar o cartão em algum dos leitores. Hoje, o fluxo é da frente para trás, aumentando o controle sobre as tentativas de driblar o motorista e andar de graça. Para quem for pego fazendo isso, a multa é salgadinha. Sinal dos tempos de crise, mais desemprego, mais desigualdade. Os ônibus não têm cobrador – o que poderia muito bem baratear o preço –, até porque não podem ser pagos em dinheiro, só com tickets ou o cartão que é o principal passaporte para o transporte na cidade. O Oyster Card funciona em praticamente qualquer tipo de transporte dentro de Londres. Ele pode ser carregado com um valor a ser descontado a cada uso ou com passes diários, semanais ou mensais.

Não admira que a tentativa de andar de graça tenha obrigado a administração a aumentar o controle. O transporte é caro e pode ser bem cruel com quem ganha menos ou está desempregado. E convenhamos que esse não é um problema a ser desconsiderado, afinal, Londres é a capital do país famoso pelo seu sistema classista e pela sua desigualdade. Burlar a cobrança do transporte, então, é uma questão de necessidade, em alguns casos. Especialmente porque – e isso dá a impressão de ser feito por pura sacanagem – quanto mais longe se mora do centro, mais caro é o transporte. O passe só de ônibus dá direito a todas as zonas pelo mesmo preço, mas o que inclui metrô tem preço menor quando é só para andar pelas zonas 1 e 2 e vai aumentando gradativamente. A conclusão óbvia é que, mais uma vez, os mais pobres são os que se dão mal, já que moram mais longe. Ou porque perdem muito mais tempo andando de ônibus, que é bem mais barato, ou porque têm que pagar muito mais para ir para sua zona. E estudante aqui tem 30% de desconto no transporte, não 50%, como no Brasil.

Um dos motivos por eu só ter andado de táxi quando estava com malas realmente incarregáveis é o fato de não depender deles a nenhuma hora do dia. O metrô fecha logo depois da meia-noite, mas Londres tem ônibus 24 horas a cada 20 ou 30 minutos (e em alguns casos até menos). Não são todas as linhas, mas as opções são bem grandes. Uma cidade desse tamanho e com tanta vida não podia não ter um sistema noturno realmente eficiente, ainda que eu ache que Londres merece também linhas noturnas de metrô (mas isso é assunto para o post sobre o underground).

Sobre duas rodas

O que é estranho é que não se veem muitas motos por aqui. Em compensação, bicicleta é meio de transporte para muita gente. O mais legal é que os motoristas respeitam. Em muitos lugares, não tem ciclovia, até porque as ruas podem ser consideravelmente estreitas. Mas os ciclistas não se deixam acuar e seguem pelo seu caminho, seja ele onde for. Muitas vezes andam mais devagar que os carros, e falta espaço para passarem ambos ao mesmo tempo. É comum, então, vermos motoristas diminuírem a velocidade e andarem pacientemente atrás da bicicleta até que tenham uma oportunidade de ultrapassar. O mesmo acontece com os ônibus, já que os ciclistas também usam a faixa destinada ao transporte público.

Para quem não tem a sua própria, é possível também alugar bicicletas na rua, a qualquer hora. Tem decks em diversos lugares pelo centro, até partes da zona 2, e é só retirar uma onde for mais perto e devolver no destino. E elas até são boas, apesar de um pouco pesadas. Mas de novo, podia ser mais barato. Pra de vez em quando, tudo bem, nem se sente. Mas se quiser usar com frequência o preço compete com o do ônibus. A vantagem é que, com esse meio de transporte, se a distância for média, é mais rápido do que ir de ônibus ou táxi, que ficam presos no trânsito. E mais interessante e barato do que de metrô (e às vezes também mais rápido). Além de mais ecológico e saudável, claro.

Para os mais sofisticados…

Pretos, rechonchudinhos e elegantes, os táxis são sinônimo de sofisticação. Pra ser sincera, nunca andei em um, mas a quantidade deles pelas ruas é estarrecedora. E depois têm os minicabs, os táxis que não parecem táxis e só podem ser pegos quando reservados por telefone ou internet, dando origem e destino antes da viagem, o que faz com que o cliente já embarque sabendo quanto vai pagar. Não sei se isso já existe no Brasil, mas outro dia reservei um por um aplicativo para Android no celular. Tá, ele chegou bem atrasado, mas me mandaram uns quantos e-mails e me ligaram (o motorista e a companhia) a cada minuto para me avisar que o trânsito estava horrível e me avisar em quanto tempo chegaria.

O lado “errado”

Por fim, não poderia faltar um dos maiores charmes do Reino Unido: a mão invertida das ruas. O visitante literalmente de primeira viagem não precisa se preocupar (muito) porque em todas as sinaleiras há um aviso de pra que lado da rua se deve olhar. Claro que em algum momento ele vai esquecer e ser xingado por algum dos não muito corteses motoristas ingleses. E pode ficar tranquilo que, se não tiver sinaleira, mas tiver faixa de pedestres, mesmo o mais mal-educado dos motoristas para.

(Porque toda aquela tradição de educação em excesso não se aplica ao trânsito, onde não é totalmente incomum ver gente saindo do carro para discutir com o motorista de trás.)

O interessante é que o fluxo de ir pela esquerda e voltar pela direita às vezes funciona também nas calçadas, com os pedestres. Dentro do metrô, é regra, e chega a ser engraçado. Mesmo em momentos de maior tumulto, quando o fluxo de que vem é muito grande, sempre se deixa um espaço para o sentido inverso. Sem cordas ou ninguém controlando, quem vai tem seu espaço garantido e não invadido pela montoeira de gente que vem. Em resumo, um senso de ordem que está no sangue britânico (e que, convenhamos, nem sempre pode ser considerado um elogio) e que resiste em muitos aspectos mesmo com toda a mistura de línguas e culturas da capital da diversidade.

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Ousadia e vanguarda, mas não pra todo o mundo

Quando acidentes deixam de ser só estatísticas

Acidentes de trânsito acontecem todos os dias. Eles são números. Números escabrosos, que só aumentam, sempre e sempre. Mas ainda assim são números. Não comovem. Chocam, mas não embrulham o estômago. E o pior, não mudam as atitudes de quem está no trânsito.

Ver a coisa ali, com o sangue vermelho, os corpos no chão, a moto caída. Comprovei que isso, sim, choca. E realmente embrulha o estômago.

Não foi preciso ir para uma estrada em fim de feriadão. Zona de classe média em Porto Alegre, lugar tranquilo, rua não muito movimentada. Primeiro, vi a moto. Não é a primeira vez que essa cena aparece na minha frente, achei que era mais um motoqueiro caído que já se levantara e só esperava a EPTC chegar. Até que ouço o comentário: “Bah, é um casal, olha ali”.

Quando o carro passou do lado, enxerguei a mulher e o homem estirados na calçada. A coisa era recente, a SAMU nem tinha chegado ainda. A perna do homem estava praticamente descolada do corpo.

Quando lia comentários de pessoas vomitando ao ver acidentes, achava estranho. Pensava que eu teria um choque, uma coisa mais psicológica, mas não a esse ponto. Hoje não sei por que não vomitei. A vontade efetivamente veio, o estômago se embrulhou.

Eu nunca vira uma cena tão forte ao vivo. No jornal, na TV não conta. Ao vivo dói, e fica martelando na cabeça todo o resto do dia.

Mas o mais triste é sair dali e enxergar, como todos os dias, todas as barbeiragens que são cometidas nas ruas de Porto Alegre. Todas as imprudências que provavelmente levaram ao acidente de hoje. E que são feitas por esperteza, pra chegar na frente do carro vizinho, pra roubar uma vaga. Quem sabe roubar uma vida.

Não sei como nem quando, mas uma hora as pessoas têm que se dar conta que dirigir não é um videogame. Talvez com mais fiscalização, punições mais rígidas. O trânsito mata, e mata porque se cometem crimes. Em São Paulo, ultrapassou os homicídios como principal causa de morte não natural em 2007 e 2008 (ainda não foram divulgados os números de 2009). A maioria envolvendo motoqueiros.

Infelizmente, vemos esses números todos os dias e já não nos comovemos mais, de tantos que são. Mas são números tristes, e precisamos lembrar disso todos os dias, a cada nova estatística, a cada novo acidente, a cada morte.

Quando acidentes deixam de ser só estatísticas