Feminismo nada mais é que a luta por igualdade

Já tive épocas de não concordar com isso de Dia da Mulher, Dia do Negro, Dia do Índio etc. Achava que o fato de ter um dia específico para marcar cada categoria (na falta de uma denominação melhor) era por si discriminatório, que escancarava que existiam diferenças onde não deveria haver.

Até que eu me dei conta que o Dia da Mulher não serve para ganharmos flores. Que o Dia da Mulher – assim como do Negro, do Índio e outros – representa a luta de cada um desses que foram oprimidos, discriminados, explorados, submetidos. Que não é o Dia da Mulher, mas o dia da luta da mulher pelo seu espaço na sociedade. Acima de tudo, um dia de reflexão sobre por que diabos a mulher ainda hoje tem menos espaço que o homem.

É por isso que, mesmo atrasada, resolvi escrever.

No colégio, a cada data dessas representantes de alguma luta, discutíamos em sala de aula, pesquisávamos, fazíamos trabalhos a respeito… Entendíamos melhor a história e o contexto que levou à criação da data, e lembro muito bem de ficar espantada e indignada com algumas coisas que eu aprendia. Entendi, com o passar dos anos, que aquela era uma oportunidade justamente disso, de gerar indignação. Que, mesmo que não fosse mudar radicalmente o pensamento e principalmente o comportamento da maioria da população, pelo menos criava uma simpatia pela causa, um debate saudável.

Esse ano, temos um motivo especial para comemorar. Independente de identificação política ou da forma como foi construído o imaginário popular ao longo da campanha do ano passado, não é pouca coisa termos uma presidenta mulher. O fato de ser mulher, evidentemente, não garante bom governo ou acerto político. Não garante comprometimento ou sensibilidade. Não garante nada. Mas termos elegido uma mulher para presidenta do Brasil significa que rompemos barreiras de preconceito paternalista e machista. E é seguindo o mesmo raciocínio da defesa de um Dia da Mulher que hoje defendo a utilização do termo presidenta no lugar do neutro presidente. É preciso marcar a conquista, como uma forma de enfiar na cabeça das pessoas que, sim, ela pode, nós podemos, todos podem.

Feminismo por solidariedade

Ontem assisti a reprise de uma conversa na GloboNews – no Entre Aspas, com Mônica Waldvogel – sobre o feminismo. As convidadas apresentaram perspectivas muito interessantes a respeito. Primeiro, enfatizaram a questão da chamada para a reflexão provocada pelas datas simbólicas.

Não vou entrar no mérito do debate sobre feminismo comparando culturas ocidentais e orientais. Tema delicado, pelo qual passaram muito bem as convidadas. Nesse ponto quero apenas destacar a relação que a filósofa e estudiosa do feminismo Márcia Tiburi estabeleceu entre a alijante vestimenta muçulmana, que proíbe a mulher de mostrar até o rosto, com a nudez ocidental, especialmente a brasileira, que também ofende e subjuga a mulher, tratada como objeto. A cultura da mulher magra, gostosona, um “modelo imposto”, como acrescentou Mônica Waldvogel.

Mas prefiro destacar as posições de Márcia Tiburi que apresentam o feminismo como uma luta por igualdade, pelos direitos dos seres humanos, não simplesmente por um gênero. “O feminismo é uma busca de voz”, para que mulheres tenham os tais “direitos humanos” como todo ser humano.

A parte mais interessante é quando Márcia Tiburi provoca as mulheres para que se tornem “feministas por solidariedade”. Se a mulher já desfruta de direitos iguais aos de seus colegas e amigos homens, ela pode se tornar feminista para garantir condições iguais entre os gêneros que beneficiem a grande maioria de mulheres que sofrem com isso.

Por experiência própria

Eu circulo entre pessoas de esquerda, muita gente esclarecida, que luta diariamente pela igualdade, pelos direitos dos que mais sofrem, dos que normalmente não são vistos pela maioria da população. Dos que não são lembrados. É gente que luta pelos direitos humanos, enfim. E convivo quase que diariamente com manifestações de incredulidade. Me olham torto, com uma cara de interrogação, como quem pergunta o que eu estou fazendo ali, naquele trabalho de homens. Pior ainda são os que se surpreendem ao constatar que ela até que é competente para uma mulher. Não é o pessoal com quem trabalho diretamente, mas muitos dos homens com quem acabo tendo que lidar em função do trabalho ou de outras atividades. Independente de vinculação partidária, identificação política, classe social ou estilo de vida.

Mas o pior, péssimo mesmo, é ter que desconversar sempre que um homem não consegue conversar com uma mulher sem ver nela algo a mais do que uma profissional. Dia desses recebi no trabalho a visita de um blogueiro que, além de ficar extremamente surpreso com o fato de eu manter um blog que lhe rendeu elogios, não conseguiu conversar sem elogiar traços físicos. Em não mais do que cinco minutos. E garanto, isso não é pela mulher ser linda, gostosa ou o que for. É só por ser mulher. Porque mulher, para ainda muitos homens, é só isso. Ou é principalmente isso. Eles até admitem a possibilidade de uma mulher se destacar em alguma atividade intelectual, mas muitos não conseguem ignorar o corpo. É o resultado de muito tempo de cultura machista. E justamente por isso é que é preciso afirmar, cada vez mais alto, que está errado. Que cada homem e cada mulher tem que fazer um exercício diário de conscientização. Para mudar. Para acabar de vez com o machismo. Espero pelo dia em que discutir feminismo seja algo ultrapassado e retrógrado. Algo desnecessário.

Feminismo nada mais é que a luta por igualdade

Ela pode

Me obriguei a reproduzir a foto tirada pela Maria Frô em Brasília, na festa da posse da Dilma. Lembrei de uma tuiteira comentando ontem que agora ensinava pra filha, de dois anos, que esse negócio de querer ser princesa é bobagem. Que mulher pode querer é ser presidenta. E não é de arrepiar?

Ela pode

A única negra do Miss RS

Ontem 30 meninas caminharam em uma passarela do Barra Shopping Sul, em Porto Alegre, sorrindo e acenando, fazendo de tudo para convencer o júri de que era a mais bonita do estado. Todas altas, magras, cabelos lisos. Uma delas era negra. No Miss Rio Grande do Sul, apenas uma negra representou a mulher gaúcha. Como escolher a mulher mais bonita entre 30 mulheres quase iguais?

De um modo geral, aquelas 30 meninas não representam a mulher gaúcha. Podem, no máximo, representar o tipo físico das gaúchas. Apenas uma em cada 30 mulheres em nosso estado é negra? E, como já era de se esperar, essa uma já foi vítima de preconceito, como atesta o leitor Nélio Schneider, que printou um comentário no Wikipedia e sugeriu o post.

Vale dar uma bisbilhotada nos vídeos de apresentação das 30 concorrentes a miss. A representante de Alvorada diz que seu papel como miss é “ajudar a sociedade”. Faltou dizer como.

A menina de Estância Velha quer “mostrar nossa cultura, nossa história”. Alguém explica pra ela, pra todas elas, pros organizadores, que é um concurso de beleza, não de conhecimento. Exigir – ou mesmo fingir que exige – domínio de história, de política ou de qualquer outra coisa é uma baita hipocrisia. Sejamos honestos, a considerada mais bonita ganha, e ponto.

A Miss Nova Petrópolis quer “atuar na sociedade”. Ela tem a nobre missão de mostrar pras pessoas “que mulheres bonitas têm conteúdo”. Amiga, nós vivemos em uma ditadura da beleza, são as que não são bonitas que são discriminadas, e não as que não têm conteúdo, infelizmente. Aliás, o que as candidatas a miss fazem ali é justamente fortalecer essa ideia. Elas podem até não se dar conta, mas concursos de beleza fazem isso. De repente valeria a pena mostrar para a sociedade que não precisa ser bonita para ser feliz, que tal? Além disso, a própria beleza é padronizada. Quem determinou que o diferente não é belo?

Mas esses concursos existem há tempos e devem continuar a existir. Que pelo menos então tornem-se um pouco mais representativos, considerando a beleza de todos os tipos de mulheres, cada uma com suas peculiaridades.

A única negra do Miss RS

Depoimento de violência #FimdaViolenciaContraMulher

Recebi esse depoimento do pessoal que está mais ativo na campanha pelo Fim da Violência Contra a Mulher. É o relato de uma mulher que sofreu violência do ex-namorado. O nome dela, evidentemente, é fictício.

Com vergonha, admito meu preconceito. Quando li, achei um depoimento meio fraco. Não tinha violência física, não era dos casos mais graves. Aí saí da observação simples de um caso estranho a mim e me coloquei no lugar de Lua. Senti o inferno que virou sua vida. Imaginei seu cotidiano, a fuga diária de um maluco que passava o dia, todos os dias, tentando humilhá-la. As mudanças na vida impostas por um fator externo que ela não controlava, a desestruturação. Com que direito ele interferia dessa forma na sua felicidade?

Nome: Lua
Porto Alegre, RS
Funcionária Pública
51 anos
curso superior incompleto
casada
1 filha

O agressor foi um ex namorado de 3 anos. Nunca dependi dele emocionalmente. Morávamos cada um em sua casa.

Relato da violência

Após eu ter terminado o namoro passou a me constranger publicamente, seguir e me perseguir em todos os locais onde eu estava. Ele chava que eu não teria coragem de denunciá-lo e que teria medo dele. Num só dia me mandou mais de 30 torpedos e fez mais de 50 ligações para o meu celular. Foi quando fiz a primeira denúncia. Todas as mensagems eram de xingamentos – puta, vagabunda, fracassada, e por aí eram todos. Acabei trocando de celular por causa disso.

Aí ele começou a ligar pra minha casa, insistentemente. Meu telefone passava o tempo todo fora do gancho. Até que uma noite foi até minha casa e tentou entrar. Não abri a porta e chamei a polícia. Ele acabou indo embora, mas publicou meu telefone num site pornô e vários tarados ficaram ligando pra minha casa. Na época minha filha tinha 12 anos.

Troquei também o telefone de casa e fiz nova denúncia 15 dias depois, quando ele contra-atacou também pela internet me ameaçando.

Situação do processo

Na época não tinha Maria da Penha, mas consegui denunciá-lo na Delegacia da Mulher e na cidade de Viamão, onde ele trabalhava na época na Prefeitura. Ele acabou sendo demitido e eu o denunciei por calúnia e difamação, perturbação do sossego e ameaças de violência.

Houve uma audiência (constrangedora) em que ele foi condenado a ficar longe de mim e não se aproximar.

Mas, não satisfeito com tudo isso, ele se matriculou na mesma faculdade que eu, na mesma turma. Quando eu soube, desisti da minha faculdade.

Opinião da vítima sobre o atendimento recebido

Tive o melhor atendimento das amigas que faziam uma rede de solidariedade e me avisavam quando ele aparecia.

A delegacia me fazia sentir que eu era uma idiota, pois sempre me perguntavam: “mas ele te bateu?”, “te ameaçou de morte?”. O juiz disse que ele se afastasse “20m” – foi ridículo.

Meu desejo nunca foi de vingança, mas que ele parasse.

Isso fez com que eu passasse a desconfiar de todos os caras que apareciam. Só voltei a ter um relacionamento estável dois anos depois. E hoje vivo uma vida plena de respeito mútuo, valorização e amor, pois encontrei uma pessoa que jamais faria qualquer violência contra mim.

Depoimento de violência #FimdaViolenciaContraMulher