A Globo hipócrita

A campanha de final de ano de 2010 da Globo reforça uns quantos estereótipos. É uma série de vinhetas de 30 segundos com artistas e jornalistas da emissora entregando presentes na casa de pessoas que escreveram cartas de Natal com seus pedidos.

Incentiva o imaginário popular de que basta acreditar muito que os sonhos se realizam, sem esforço, como se fosse mágica. Tudo muito fácil. “Realizar sonhos é mais simples do que você imagina”, dizem as vinhetas.

Segue a visão de que o povo precisa de alguém que consiga as coisas para ele. Dois equívocos são reforçados: primeiro, o de que não é capaz. Segundo e mais grave, o de que o que o povo precisa é de caridade e não de políticas públicas de redução das desigualdades.

Essa imagem afasta a população das decisões políticas, porque incentiva a ideia de que não vale lutar por distribuição de renda e justiça, porque as soluções parecem simples e rápidas. Fica difícil compreender a necessidade de planejamento e políticas de transformação social para mudar a realidade de todos, não de alguns escolhidos. Se a Globo pode realizar sonhos, decerto o governo não realiza porque não quer. Simplifica um problema bastante complexo, essa tal desigualdade social.

Tudo isso é feito com o objetivo principal de fortalecer a ideia da Globo boazinha, que esconde os verdadeiros e representativos atos da emissora, que surgiu para referendar a ditadura militar e ajudou a eleger governos corruptos e perpetuadores de desigualdade. A Globo hipócrita.

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A Globo hipócrita

Como seria o nascimento de Jesus na Belém de hoje

Presépios por todos os lados. Alguns lugares têm até tradição de reproduzir de formas variadas a Belém do nascimento de Jesus. Como seria esse nascimento se o menino viesse ao mundo hoje, em 2010?

Em Madri, o humorista italiano Leo Bassi montou um presépio diferente, porque sabe que, mais que um adorno, Belém é um lugar real e porque achou por bem denunciar o estado atual da cidade. “Desde já alguns anos, quando chegam as festas de Natal, vejo com crescente frustração e tristeza a terrível contradição entre as imagens tradicionais da Belém bíblica, com sua mensagem de paz e inocência, e a realidade trágica de Belém, hoje partida em dois pelo muro da ocupação de Israel. Este ano me ocorreu fazer alguma coisa para conscientizar as pessoas de boa vontade ante o problema da paz na Palestina”, disse.

Assim, Bassi criou uma Belém de 16 metros quadrados com soldados armados, arame farpado, helicópteros de vigilância, elementos presentes hoje na cidade e que impede a vida normal por lá. O “presépio” mostra as dificuldades extras que as Marias e Josés enfrentam hoje para ter seus Jesuses na Terra Santa.

Fotos: Gabriel Pecot/Publico.es e Cristóbal Manuel/El País

E como o Brasil também tem excelentes profissionais do humor, Angeli nos brinda com suas charges:

Como seria o nascimento de Jesus na Belém de hoje

Até no Natal, Zero Hora tem que marcar posição

Rosane de Oliveira faz uma comparação esdrúxula em sua coluna na Zero Hora de hoje:

“O pronunciamento de despedida de Lula, em cadeia de rádio e TV, foi uma espécie de carta-testamento, como a de Getúlio Vargas, com a diferença de que não há crise, ele deixa o poder com popularidade recorde e nenhuma ameaça institucional paira sobre o país.”

E de que Lula sai vivo, não morto. Mas isso Rosane esqueceu. Da nota dela apreende-se que, tirando praticamente tudo, o pronunciamente de Lula é igual à carta de Getúlio. Fora quase tudo, sobra quase nada. Mas ela precisava marcar posição, dizer que não há ameaça a Dilma, como se não houvesse uma imprensa feroz tentando um golpe branco desde 2005, mais ou menos, de forma intensificada em 2010, na campanha.

Seguindo a leitura do jornal, o outro colunista de política, Fábio Schaffner, substituindo Carolina Bahia, que ocupou o lugar de Ana Amélia Lemos ao trazer as informações de Brasília aos leitores gaúchos, diz que “nem durante o regime militar, o presidente que saiu teve tanto poder para indicar ministros e influenciar as decisões centrais da administração seguinte”.

É o dia das comparações descabidas. Primeiro, não o de Lula com Getúlio, mas da saída de um com a saída de outro, em nada semelhante. A seguir, contrapõe o melhor com o pior período da história do Brasil. Lula tem “poder” sobre Dilma porque não é de “poder” que se trata, mas de identificação com um projeto vitorioso. Dilma mantém a linha do governo, como prometeu para o povo. Ruim seria se fizesse ao contrário e mudasse tudo quando todos esperam continuidade. Aí as críticas da imprensa viriam da mesma forma, só que invertidas. Mas igualmente ácidas. Dilma mantém a linha porque a linha é boa e tem um baita mestre, não porque a briga de poder assim determina. Fábio, por favor, cita pra mim só um dos ministros da ditadura militar que merecessem ser copiados ou tivessem tanto a ensinar a seu sucessor.

Até no Natal, Zero Hora tem que marcar posição

Leonardo Boff: “Natal: ver com os olhos do coração”

Compartilho esse texto de Leonardo Boff, teólogo e escritor, para que seja lido com os olhos do coração que ele menciona. Não para que seja interpretado como uma mensagem religiosa, mas para que seja compreendido como um recado de humanidade. Pode ser lido por católicos, como o padre excomungado por sua Teologia da Libertação, por evangélicos, protestantes, judeus, umbandistas, ateus. Pode ser lido por quem compartilha de qualquer fé, seja ou não religiosa. Eu, particularmente, sou daquelas que acreditam profundamente na solidariedade. Acredito no homem. Nos homens e mulheres do nosso mundo e em sua capacidade de exercer a generosidade.

Somos obrigados a viver num mundo onde a mercadoria é o objeto mais explícito do desejo de crianças e de adultos. A mercadoria tem que ter brilho e magia, senão ninguém a compra. Ela fala mais para os olhos cobiçosos do que para o coração amoroso. É dentro desta dinâmica que se inscreve a figura do Papai Noel. Ele é a elaboração comercial de São Nicolau – Santa Claus – cuja festa se celebra no dia 6 de dezembro. Era bispo, nascido no ano 281 na atual Turquia. Herdou da família importante fortuna. Na época de Natal saia vestido de bispo, todo vermelho, usava um bastão e um saco com os presentes para as crianças. Entregava-os com um bilhetinho dizendo que vinham do Menino Jesus.

Santa Claus deu origem ao atual Papai Noel, criação de um cartunista norte-americano Thomas Nast em 1886, posteriormente divulgado pela Coca-Cola já que nesta época de frio caía muito seu consumo. A imagem do bom velhinho com roupa vermelha e saco nas costas, bonachão, dando bons conselhos às crianças e entregando-lhes presentes é a figura predominante nas ruas e nas lojas em tempo de Natal. Sua pátria de nascimento teria sido a Lapônia na Finlândia, onde há muita neve, elfos, duendes e gnomos e onde as pessoa se movimentam em trenós puxados por renas.

Papai Noel existe? Esta foi a pergunta que Virgínia, menina de 8 anos, fez a seu pai. Este lhe respondeu:”Escreva ao editor do jornal local! Se ele disser que existe, então ele existe de fato”. Foi o que ela fez. Recebeu esta breve e bela resposta:

Sim, Virgínia, Papai Noel existe. Isto é tão certo quanto a existência do amor, da generosidade e da devoção. E você sabe que tudo isto existe de verdade, trazendo mais beleza e alegria à nossa vida. Como seria triste o mundo se não houvesse o Papai Noel! Seria tão triste quanto não existir Virgínias como você. Não haveria fé das crianças, nem a poesia e a fantasia que tornam nossa existência leve e bonita. Mas para isso temos que aprender a ver com os olhos do coração e do amor. Então percebemos que não há nenhum sinal de que o Papai Noel não exista. Se existe o Papai Noel? Graças a Deus ele vive e viverá sempre que houver crianças grandes e pequenas que aprenderam a ver com os olhos do coração.

É o que mais nos falta hoje: a capacidade de resgatar a imaginação criadora para projetar melhores mundos e ver com o coração. Se isso existisse, não haveria tanta violência, nem crianças abandonadas nem o sofrimento da Mãe Terra devastada.

A mensagem de Leonardo Boff continua aqui.

Leonardo Boff: “Natal: ver com os olhos do coração”

O significado do Natal

Natal.

Faz tempo que ele não tem pra mim o significado religioso. Melhor, nunca teve. Quando eu era pequena, ainda não decidira que essa coisa de religião não serve pra mim, passava o Natal com minha família católica, que continua tendo a religião como uma coisa séria e importante. Poderia ter tido natais comemorativos do nascimento de Jesus. Afinal, essa é a data mais importante para os católicos (muito embora incongruente, já que a contagem dos anos começou a partir do nascimento de Cristo, o que nos levaria a crer que isso teria ocorrido em primeiro de janeiro – nunca entendi direito essa parte).

Mas mesmo quando eu ainda me deixava levar apenas pelo que os outros diziam, o Natal era a data de comer bem e ganhar presentes, muitos, os melhores. E só.

Depois, passaram a ler algumas orações, mas nada que prejudicasse a parte dos presentes e da comida. Eu sentia que aquilo era mais pra dar um sentido à coisa. A oração vinha como uma forma de diminuir a culpa, de dizer “olha, eu não sou tão interesseiro assim, eu vejo o verdadeiro significado do Natal”. Mas ele continuava girando em torno do pecado – a gula, a avareza, a soberba. Houve épocas em que celebrei o Natal com um certo sentimento de obrigação. Criticava a data, o consumismo exagerado me irritava, via hipocrisia em todas as palavras de todas as pessoas. Uma fase mais adolescente.

Hoje, a celebração do consumo ainda me incomoda profundamente e tenho diversas críticas à forma com que essas datas são celebradas, até à existência das datas em si. Enfim.

Mas tenho uma visão um pouco mais otimista. Não tenho mais meus avós, mas agora já aparecem as primeiras crianças da família depois de mim. Se antes o Natal era uma forma de reunir a família e deixar minha avó feliz, hoje é uma forma de reunir a família e celebrar as crianças. Esse ano voltam as armações para fingir que o Papai Noel entrou pela janela enquanto a Ester dorme. É meio mágico. É inocente, bonito.

Não, o Natal não tem significado religioso pra mim. Muito longe disso. Mas percebi que o que mais me marcou nos natais, o que nunca era diferente, e o que é bacana, é que eu estava sempre com minha família. E acho que esse foi o significado bom que ficou, resumindo. Família. Em memória dos meus avós.

O significado do Natal