Um post histórico: o fim do JB

Da Carta Capital:

O suspiro final do Jornal do Brasil

Nelson-TanureMÍDIA | Parece se comprovar a lenda: um diário morre muito antes de deixar de circular

Um jornal acaba muito antes de sair de circulação. Essa lenda, que trafega pelas redações, sugere a pergunta: quando teria começado a acabar o Jornal do Brasil cuja data de morte na versão impressa foi anunciada oficialmente pelo empresário Nelson Tanure para o dia 1º de setembro de 2010?

Tanure arrendou o JB por 60 anos, em 2001. O jornal era mantido por uma empresa debilitada economicamente. Tinha circulação reduzida a 60 mil exemplares, incluídas as assinaturas. Além disso, possuía um imenso passivo, trabalhista e de impostos, que atingia, por alto, 100 milhões de reais. O arrendatário tentou se livrar dessa herança, mas a Justiça não permitiu. Para não perder o título e, talvez, por obediência a cláusulas contratuais do arrendamento, Tanure manterá uma versão eletrônica do jornal.

O genoma do JB é formado por uma cadeia de células incompatíveis. O jornal foi lançado em abril de 1891, por Rodolpho Dantas, dois anos após a proclamação da República, Seu objetivo era defender o regime monarquista deposto. Para isso contava com notável elenco de articulistas como Joaquim Nabuco, Oliveira Lima e Aristides Spínola. Sofreu, por isso, pesadas retaliações de Floriano Peixoto, presidente fardado, que o manteve fechado por mais de um ano.

Em 1894, mudou de orientação política. Aderiu à República sob a direção da família Mendes de Almeida. Em seguida, passou à propriedade do conde Pereira Carneiro, título dado por concessão papal e não nobiliárquico. M. F. do Nascimento Brito, casado com uma filha do casal Pereira Carneiro, seguiu orientação liberal. Isto é, sempre que possível.

Em 1964, sob orientação editorial de Alberto Dines, apoiou o golpe. Em 1975, há quem marque essa data como o começo do fim, o Jornal do Brasil construiu uma monumental sede na Avenida Brasil, 500. Para isso, lançou mão de empréstimos fáceis em dólares e foi apanhado por uma valorização do dinheiro americano. Alguns empresários de comunicação foram avisados antecipadamente. Nascimento Brito, não.

Em 2005, o JB nascido monarquista e, posteriormente, imbuído de alma liberal (mas não muito) foi despejado do prédio que construiu e instalou-se em um imóvel representativo do estilo colonial brasileiro que já havia servido de sede para a Fundação Roberto Marinho. Este, implacável adversário empresarial de Nascimento Brito. O imóvel, conhecido como Casa do Bispo, alugado por 70 mil reais por mês, foi o último endereço do JB.

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Torço para que morram todos os veículos de comunicação patronal, oligárquicos, baseados em uma hierarquia antiga e donos de uma voz consoante com a da elite, que coordena todos os meios de comunicação considerados de massa. Torço pela disputa de poder na internet, pelas redes sociais, pela interatividade, multidirecionalidade da informação, que se produz de forma horizontal. Que, como o JB, caiam todos.

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