E eles insistem em curar a doença com a droga que a causou

O grande problema da crise atual é que ela está sendo “debelada” pelos mesmos que a criaram (ou representantes do mesmo espectro ideológico). Ou seja, estão sendo tomadas medidas semelhantes às que causaram a tormenta para curá-la. As últimas décadas viram o mundo inteiro adotar a desregulamentação e diminuir o investimento em políticas sociais, deixando o mercado agir livremente e impor a sua regulamentação, de acordo com os seus interesses. E o mercado sabe ser bem cruel. Ele não é uma entidade magicamente autoguiada, na verdade segue regras ditadas por um grupo proporcionalmente muito pequeno da sociedade. Pequeno, com muito dinheiro e muito poderoso.

Este grupo não está lá muito preocupado com o bem-estar das pessoas de um modo geral. Seu único objetivo é acumular dinheiro, custe o que custar.

O problema é que os políticos, eleitos pela grande maioria que não pertence a esse reduzido grupo, seguem as regras ditadas por ele. As políticas neoliberais – as preferidas desse grupo – vêm prejudicando milhões de trabalhadores nas últimas décadas. Nos países que continuaram deixando de investir nos seus cidadãos – destacadamente EUA e países-membro da União Europeia –, o desemprego atinge índices recordes e a qualidade de vida piora. Os ricos pagam cada vez menos taxas, e a conta sobra para os pobres e a classe média.

É por isso que a colunista da revista Time Rana Foroohar diz, na edição desta semana (íntegra disponível para assinantes), que a desigualdade não é sintoma da crise, mas sua causa. Com isso ela quer diz dizer que a origem da crise coincide com a origem da desigualdade. As causas são as mesmas. E combater uma passa por enfrentar a outra.

A medida anunciada pelo presidente americano, Barack Obama, esta semana vai exatamente na direção contrária. Corta gastos do governo em um momento em que a maioria das pessoas está vivendo pior do que duas décadas atrás e a distância entre ricos e pobres vem aumentando. Em que a maioria das pessoas precisa da ajuda do governo.

A primeira conclusão, mais fria, é de que o remédio não vai curar a doença. Pelo simples motivo de que o remédio é feito da mesma droga que a causou. Mas vale ir além e refletir um pouco sobre os porquês de se tomar determinadas decisões políticas. Sobre o que motiva o governo e o Congresso americanos e o que devia motivá-los.

Na minha concepção ingênua de política – essa macropolítica envolvendo partidos, governos, deputados, senadores –, ela serve para organizar a sociedade, já que somos muitos e precisamos de alguns representantes que ordenem a bagunça, criem regras e distribuam a riqueza. Ok, isso bem a grosso modo. Mas o importante é que é um sistema representativo no qual os representantes devem governar para o povo. É a tal da democracia – se bem que eu acho que em qualquer sistema se deveria pensar no bem comum. Mas aí entra um tal de poder no meio, que gera uma sede incontrolável por ele e que distorce as coisas e turva visões. Transforma os objetivos, inverte as práticas.

Resumindo, a minha grande questão é: mesmo que as medidas adotadas tanto pela Europa quanto pelos EUA solvessem a crise atual, de que adianta tomá-las se trarão como consequência direta uma piora na qualidade de vida da imensa maioria dos cidadãos? Não faz o menor sentido que qualquer política que prejudique as pessoas seja tomada, especialmente quando não há perspectiva de reverter esse mau cenário.

O que fica é a esperança já reciclada de que, por não resolver o problema, a “solução” da crise leve a uma crise ainda maior, que torne impossível manter esta forma cruel de se fazer política e acabe gerando uma transformação mais radical.

E eles insistem em curar a doença com a droga que a causou

Revista Época defende privatização

Não está nas entrelinhas ou subentendido. A tinta está lá, preenchendo todas as letras das palavras que se articulam para dizer que a privatização é uma solução para o Brasil, no editorial da revista Época de 7 de março, edição nº 668.

Confesso que até achei a revista interessante, olhando a capa sobre homossexualidade. Até que descobri que é quase igual à da revista Fórum de janeiro deste ano. Coincidência, hmm? A matéria de capa é interessante, mas não parece ter recebido a importância devida. Relegada às páginas finais, quase que some ao lado de páginas e mais páginas de uma em geral machista reportagem sobre o Dia da Mulher, sobre o novo partido de Kassab, sobre os cortes no Orçamento de Dilma.

Mas voltemos ao ponto. O título do editorial já é bem claro: “Privatização não é palavrão”. Ok, continuemos. O primeiro parágrafo diz que o PT tentou, na última campanha, imprimir nos adversários – que não são nominados em nenhum momento do texto – o “estigma das privatizações”, como se os coitadinhos inocentes do PSDB nunca tivessem sido governo e nunca tivessem privatizado nada. Ou seja, eles não têm nada a ver com isso, os ingênuos, que se deixaram levar para sórdida manobra do governo. Isso na interpretação da revista, claro.

É interessante como a Época consegue dizer tanto em tão poucas linhas. São ao todo seis parágrafos. Na sequência do texto, critica a política econômica levada a cabo “há anos”, sem dizer se essa crítica se refere aos oito anos de governo Lula ou se abrange também os oito de FHC ou ainda antes. É uma forma de não criticar o governo FHC – porque, dentro do contexto, ele não aparece, e o leitor não relaciona o comentário ao governo tucano – sem poder ser acusada de mentir, já que não diz que o PSDB não executou a política que a revista está criticando.

Em seguida, Época elogia o ajuste fiscal de Dilma, explicita brevemente as medidas e, pimba, levanta a bola das privatizações, “tratadas como um anátema pelas alas mais ideológicas do PT”, no dizer da revista. E aí ela incorre em um erro bastante comum, de atribuir o “caráter ideológico” apenas às ideias de esquerda. Como se defender privatizações, Estado mínimo, livre mercado etc. não fosse também uma ideologia. Um erro intencional, é importante ressaltar. A ideia aí é mostrar para o leitor que a ideologia cega, impede de ver com clareza os aspectos técnicos. É o famoso tecnicismo que a direita defende na política. Mas é importante frisar que este tecnicismo também é ideológico. O objetivo aí é agir para que os números da economia fiquem bem bonitos, independente da situação da conta bancária e da mesa de cada cidadão.

O próximo passo é explicar os motivos da defesa da privatização como parte da política do governo. Defende a venda de empresas como a Infraero, os Correios, Companhias de Docas, Companhia Brasileira de Trens Urbanos com o argumento de que seriam geridas de forma mais produtiva e competente. Resta saber: produtivo e competente para quem, cara pálida? O papel do governo, de forma extremamente simplificada, é agir para a maioria da população, gerindo os bens públicos para que tragam maior benefício para seus cidadãos e cidadãs. Nas mãos da iniciativa privada, talvez os lucros das empresas até aumentassem, mas ficariam nas mãos da empresa privada, não seriam revertidos para a sociedade brasileira. E provavelmente essas empresas seriam geridas com o único objetivo de aumentar seus lucros e fazer um bom trabalho para quem mais pagar. Qual o interesse público – pelo qual o Estado deve zelar – de tal política?

Por fim, recorre mais uma vez à “carga ideológica”, pedindo que ela seja tirada da discussão, como se isso fosse possível. Como se os defensores da privatização não fosse uma defesa dos adeptos da ideologia neoliberal. A última frase pede que Dilma se afaste do discurso “vazio e irreal” da campanha e adote as privatizações. Epa, uma revista pedindo que o governante não aja de acordo com o que prometeu e pelo que foi eleito. Época pede que Dilma traia os brasileiros e aja de forma oposta à que afirmou durante a campanha. Eita, imprensa contraditória, sô!

O resto da revista

Eu gostaria ainda de poder comentar cada uma das matérias desta edição de Época. Em todas elas, uma contradição diferente e um forte conteúdo ideológico – aquele mesmo que a revista pediu que fosse afastado – de direita. Mas isso tomaria muito o teu tempo, caro leitor, ainda mais por uma revista que já nem mais está nas bancas – e peço desculpas pela crítica atrasada, mas só fui ter acesso a ela agora, e não podia deixar passar em branco essa defesa tão contundente das privatizações. Além do mais, a crítica teria que ser feita a cada edição de Época, o que se tornaria um tanto chato.

Mas há algumas observações que cabem ser feitas. Foco em duas matérias mais emblemáticas. A primeira é sobre a política externa do governo Lula. Uma crítica ao investimento em países pobres, alguns com governos de esquerda, o que seria uma “preferência ideológica” do governo. Hein, como assim? A política externa também não pode conter ideologia? Que critérios usamos, então? Vale lembrar que a simples definição de quais critérios serão adotados para decidir para onde vai a ajuda humanitária também é ideológica.

A política externa tem uma orientação, assim como qualquer política do governo. Durante o governo FHC, também ocorria isso: tínhamos uma posição de subserviência, de pedir esmolas para tentar estar entre os mais poderosos do mundo, em uma estratégia falha e burra, que afastava o Brasil de outros países em condições semelhantes, sem contribuir com sua influência para que os mais pobres ganhassem espaço. O texto contradiz completamente o título – “Humanitário e oportunista” – e a linha de apoio, extremamente agressivos e, olha aí, ideológicos. Os entrevistados afirmam claramente que essa ajuda humanitária se dá porque estamos em outro patamar na geopolítica mundial, e que acontece de forma natural, dada a política externa desenvolvida.

A segunda reportagem que destaco é a do Dia da Mulher. Uma série de matérias compõe a “homenagem”. Tratam das dificuldades das mulheres no Brasil de hoje. Pena que é apenas das mulheres de uma determinada camada social e, ainda assim, de forma preconceituosa. Em nenhum momento, são mencionadas as agressões que uma em cada cinco mulheres sofrem no Brasil. Não se fala nas diferenças de raça que ainda assolam as relações sociais e deixam as negras em desvantagem. A segunda matéria, embora trate de empresas privadas, tem um título cretino: “Presidente? Não, obrigada”. Aliás, não se fala na enorme conquista de uma mulher ter chegado ao posto mais alto da nossa República. Mais da metade das matérias trata das questões tradicionalmente “de mulherzinha”, como a preferência por determinado tipo de homem e um “guia essencial” de compras, com dicas de roupas, cremes, bolsas, sapatos.

Chama a atenção a matéria “Diários públicos”, que trata da predominância de mulheres na blogosfera. E aí são citados blogs de moda, cool variedades e literatura, diário íntimo, casa e decoração e gastronomia. É como se não existissem blogueiras econômicas ou políticas – em uma lista geral de blogs certamente apareceria o Noblat, por exemplo – ou blogs femininos de defesa de causas, como meio ambiente e feminismo. Ou seja, a mulher ganha seu espaço, invade terrenos “masculinos”, mas continua a mesma mulherzinha de sempre, com interesses restritos. Reportagem elitista e machista.

Revista Época defende privatização

Breve balanço desse início de governo

Nestes primeiros quase dois meses de governo Dilma, há alguns destaques positivos e alguns negativos a serem feitos.

Lado A

De nítida melhoria em relação ao seu antecessor, desponta na liderança o compromisso enfático com a defesa dos direitos humanos. Compromisso que a fez questionar inclusive algumas atitudes da política externa de Lula, como a relação com o Irã. Embora eu defenda a tentativa de intermediar o conflito no Oriente Médio, é preciso deixar claro um posicionamento inamomível de certas visões políticas. Isso inclui também a crítica aos jornalistas presos em Cuba, ainda que a situação não seja exatamente a que a grande imprensa tenta nos fazer engolir. De qualquer forma, qualquer restrição ideológica nesse sentido é preocupante. O que é preciso buscar é a difícil capacidade de estabelecer os mesmos critérios de avaliação para qualquer situação que se enquadre dentro de determinadas características. Louvo, então, o governo Dilma, por buscar esse ideal e, principalmente, a própria presidenta, que orienta pessoalmente essa política.

Ainda dentro do positivo, e cito só mais um fator para não me alongar muito, vejo a relação do ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, com as mídias digitais. Já promoveu ou participou de mais de uma situação em que falou direta e exclusivamente para a rede, em detrimento dos jornais tradicionais. Não nega, contudo, o diálogo com nenhuma parte, o que também é positivo. Apenas ressalto a importância que dedica às formas alternativas de se fazer comunicação, como uma forma de mostrar que existem outros meios, que os jornais dos grandes grupos não são os únicos transmissores de informação. É uma forma de valorizar a pluralidade da disseminação da informação. Um incentivo a sua democratização. Ficamos no aguardo de políticas concretas nesse sentido, que já foram sinalizadas, mas ainda não efetivadas – e temos que dar um desconto pelo ainda curto período de governo.

Lado B

Mas não só de louros foram feitos esses primeiros dois meses. No aspecto negativo competem colados dois pontos de difícil aceitação. Um deles ainda é um tanto polêmico, mas outro é absolutamente repreensível e, em parte, contradiz o primeiro ponto positivo. Dilma compareceu ao aniversário de 90 anos da Folha de S.Paulo, homenageando o jornal que lhe publicou uma ficha falsa como terrorista durante a ditadura e tentou a todo custo fazer com ela perdesse as eleições para o opositor, José Serra. O mesmo jornal que chamou a ditadura da qual a presidenta foi vítima de “ditabranda”. E Dilma nem precisava ter sofrido o que sofreu nas mãos de seus torturadores para fazer dessa pauta uma defesa incansável. Qualquer defensor dos direitos humanos que se preze, mesmo sem sofrer diretamente o aviltamento, não admite o tratamento que o jornal deu aos militares golpistas.

Na disputa pelo primeiro lugar (ou o último?), está o corte de 50 bilhões de reais no orçamento da União. Talvez até possa ser considerado necessário, de acordo com interpretações econômicas que não me sinto apta a fazer, mas estremece os que defenderam a política econômica de Lula com base na comparação com FHC. Era o presidente do investimento contra o do arrocho e da privatização. O corte faz acender a lanterna quando lembra da tão temida e assustadora palavra para os cidadãos brasileiros, que os fez ficarem desempregados e perderem poder de compra e, mais tarde, provocou terrível crise nos sistemas financeiros dos países mais desenvolvidos: o neoliberalismo.

Conjunto da obra

Dois meses ainda são poucos para se fazer uma avaliação do governo. Sabemos que é impossível seu desempenho ser totalmente positivo, mas, se a balança ficar equilibrada ou apenas levemente pendente para um dos lados, tampouco estará bom. É preciso que o governo Dilma Rousseff se destaque com folga pela execução de políticas públicas que beneficiem a maioria de seus cidadãos. Duas ações teriam peso decisivo no prato que responde pelos aspectos positivos: uma regulamentação concreta da comunicação e uma eficiente reforma política. A ver.

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Fotos: Roberto Stuckert Filho / PR – Dilma com as mães e avós da Praça de Maio;

Caio Guatelli / Folhapress – “A presidente Dilma Rousseff e o editor-executivo da Folha de S.Paulo, Sérgio Dávila, se cumprimentam durante evento em comemoração aos 90 anos da Folha, na Sala São Paulo” (legenda da Folha)

Breve balanço desse início de governo

Os irresponsáveis sofismas de PSOL e PSDB

Não é difícil ouvir por aí, ou concluir por si próprio, que ser oposição é muito mais fácil que ser governo. Claro, não tem que fazer, o que já é bem menos trabalho, mas, principalmente, pode cobrar bastante sem a responsabilidade de colocar em prática. Sem ser cobrado.

E essa conclusão não desqualifica ninguém por ser oposição. Se está errado, tem que falar mesmo, tem que dizer por quê, e exigir que seja feito diferente. O que tem gente que não percebe é que oposição também tem responsabilidade. Oposição por oposição, qualquer um faz. Afinal, um governo não agrada a gregos e troianos, e sempre haverá descontentes. Mas exigir o que é impossível de ser feito é fazer política com má fé.

A discussão sobre o salário mínimo mostra a má fé de bastante gente. Dois sujeitos dessa história são mais notórios. Em primeiro e óbvio lugar, o PSDB, que arrochou os trabalhadores nos oito anos em que foi governo e, por conta de sua política econômica neoliberal, retirou o Estado da vida do cidadão. O que inclui diminuir a exigência, por parte do Estado, de um pagamento mínimo aos trabalhadores. O neoliberalismo deixa os mercados se virarem, e os mercados se viram melhor se o empregado ganha menos. Agora, na oposição, esquece sua história – é mais fácil pedir para esquecer o que escreveu, já que não traz resultados concretos à vida de ninguém – e cobra um valor que ele, PSDB, enquanto governo, dificilmente adotaria. E o fato de Serra ter prometido durante a campanha não quer dizer muito, porque era promessa de campanha (dã), porque ele não disse de onde ia tirar o dinheiro (provavelmente de outros benefícios sociais) e porque já teria herdado uma economia mais consolidada do que a que seu partido deixou no que diz respeito aos direitos dos trabalhadores.

Pode até ser contraditório o Partido dos Trabalhadores defender um aumento modesto, mas é contradição muito maior – para não dizer hipocrisia – o PSDB se fazer de arauto das causas trabalhistas.

Mas eu citava dois sujeitos, e por enquanto só falei em um. O outro é o PSOL.

A oposição “de esquerda”

O PSOL não chega a ser contraditório nem hipócrita, só ridículo. É evidente que quanto maior o salário mínimo, melhor seria. Acredito que ninguém negue isso. Mas propor aumento para R$ 700 é irresponsável. É a tal da oposição pela oposição.

Cobrar uma política impossível é desonesto com o governo e com o cidadão. Não se pode exigir dos outros aquilo que não tem como ser feito. Na verdade, é uma mentira. É como dizer que dá, é enganar. O PSOL também não diz de onde viria o recurso para isso. Não explica como domaria o rombo no orçamento da União. Não fala nas consequências que um aumento desses traria para o povo brasileiro.Mostra que não tem uma diretriz que lhe permitisse governar e implementar as mudanças que, enquanto oposição, exige que os outros façam. Governaria sem planejamento e sem diálogo.

Além de tudo, não é nada inteligente. Com essa defesa, o PSOL demonstra claramente sua falta de critérios e se mostra um partido fraco e ridículo. Não que seus membros sejam ridículos, não é isso. Em mais de uma ocasião defendi aqui a importância de uma oposição de esquerda. Só que ela só dá resultado se for coerente e sensata. No fim, a linha política que conduzem, quando aplicada ao partido político, causa essa impressão.

E aí fica desacreditado e não contribui para uma construção coletiva que beneficie o cidadão. E uma esquerda sofista que valoriza mais o discurso do que resultado prático mal pode ser chamada de esquerda. É uma pena.

Os irresponsáveis sofismas de PSOL e PSDB

Tarso Genro: Estado atuante baseado no diálogo e na participação

Na abertura do Encontro Brasileiro de Legislativos, na manhã desta quarta-feira (19), o governador Tarso Genro defendeu o papel do Estado na realização de políticas para a sociedade, valorizou o diálogo e questionou a atuação da mídia. A conferência, realizada no auditório Dante Barone da Assembleia Legislativa, teve como tema “O Rio Grande que saiu das urnas”.

“Através do Estado, os cidadãos podem promover a igualdade, buscar os seus direitos e também fazer a crítica às ações do Estado”, disse. Tarso garantiu que irá incentivar a participação, para que os cidadãos se apropriem dos dados e façam sua própria avaliação das questões políticas, além da leitura da mídia.

“A mídia também é uma instituição política”

Com isso, trouxe um questionamento ao papel da imprensa, com quem pretende estabelecer uma relação de transparência para que os jornalistas tenham acesso aos dados e possam tratar dos temas com conhecimento de causa, evitando simplificações.

Afirmou que nem tudo que é pautado pela imprensa é fundamental para o Estado e para a democracia. “A mídia é uma instituição política, e assim deve ser tratada e respeitada, e não como uma instituição neutra”, disse.

O diálogo como construção de alternativas

Por diversas vezes em sua fala, o governador valorizou a concertação no lugar do enfrentamento como uma alternativa para se buscar soluções coletivas. Essa perspectiva é favorecida, segundo ele, pelo momento positivo que o estado vive, que permite “um diálogo muito mais aberto com a comunidade política da mídia, do Estado e da sociedade civil”.

O “palco da concertação” será o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), que atuará no controle das situações de conflito, evitando a radicalização do enfrentamento e encontrando pontos comuns que levem a um consenso. Mas o governador ressaltou também a importância de toda a comunidade política, inclusive a mídia, adotar uma postura favorável ao diálogo.

Tarso valoriza o Estado democrático

Para embasar a defesa do Estado, Tarso citou a queda do muro de Berlim, em 1989, e a crise do sistema financeiro global, em 2008, que teriam mostrado que o Estado é necessário dentro de um contexto de democracia. Para o governador, tanto a ditadura estatal do socialismo soviético quanto o Estado mínimo do neoliberalismo impedem o diálogo e a construção de soluções.

“Eu sou um apaixonado pelo Estado”, finalizou, argumentando que a estrutura estatal na democracia fornece alternativas para a execução das políticas públicas. Aos moldes do que foi feito entre as instituições federais, Tarso defendeu um pacto entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, no qual o governo está trabalhando “para fundamentar um futuro melhor para todos”.

Tarso Genro: Estado atuante baseado no diálogo e na participação