Com telhado de vidro, não se deve jogar pedra

Fazia tempo que não me divertia tanto com alguma coisa encontrada num jornal. Juro, estou #rindolitros em casa. Eu já nem chamaria de hipocrisia, uma palavra quase simpática, o que li no editorial da Zero Hora de hoje, intitulado “O limite da notícia”; na verdade, é uma demonstração de absoluta e enorme cara-de-pau.

É esse jornal que, com total desfaçatez, critica hoje não apenas a postura do cidadão que operou as escutas ilegais do News of the World (NoW) de Rupert Murdoch na Inglaterra, mas “a empresa de comunicação que explorava e estimulava a conduta antiética, caracterizada pelo desrespeito e pelo desrespeito à privacidade das pessoas”. É quase um pecado usar a famosa parábola sobre a ética do jornalista de Cláudio Abramo para sustentar esta posição.

A empresa jornalística ora em questão, a gaúcha RBS, é aquela que em 2010 tinha cerca de dez profissionais (não se sabe quais e nem se teve notícia de demissões na empresa por causa disso) vinculados a ela com acesso a um sistema sigiloso e ilegal do governo do estado de obtenção de informações sobre determinadas pessoas sem mandato judicial ou investigação oficial em curso. Marco Weissheimer era um dos jornalistas investigados, por exemplo. Curiosamente, ele fazia oposição ao governo Yeda, aquele que forneceu as senhas aos jornalistas. O filho pequeno da então deputada estadual e hoje secretária de Administração do governo Tarso teve suas fotos vistas por toda essa galera. Mas gente de dentro do governo e da grande imprensa também estava na lista, já que era possível descobrir se corria algum tipo de investigação sobre elas.

Está dando pra pegar a ironia da coisa? O jornal Zero Hora quase se diz ofendido com a atitude de seus pares europeus no que tange a privacidade, justamente o quesito desrespeitado em outubro do ano passado.

Aí ela diz que foi “a imprensa sadia” que denunciou o NoW. Eu diria que foi a concorrente que denunciou, dentro dos mais nobres princípios da competição de mercado. Ou, no caso de jornais do mesmo grupo – News Corp. –, da necessidade de salvar sua pele diante do barco afundado.

Não digo que todo jornalismo é mau. Muito pelo contrário, há muita gente boa por aí peleando. Mas tampouco há santos.

Mas o pior de tudo, não só no jornalismo, é a contradição consciente. A postura de dizer uma coisa e fazer outra sabendo que não age daquela maneira. Não adianta, a palavra para isso é mesmo hipocrisia. Mas sempre tem aqueles casos mais feios dela. Esse é dos piores.

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P.S.: Quando Zero Hora diz que “os cidadãos já controlam a mídia pelo direito de escolha”, finge ignorar que o cidadão tem o direito de escolher entre as restritas opções – especialmente restritas no caso do Rio Grande do Sul – que lhe são apresentadas, e tem poucas oportunidades de questionar sua qualidade ou mesmo propor alternativas, devido a limitações financeiras. “Controle social da mídia” é exatamente a cobrança pela sociedade da observância de “um comportamento ético, responsável e construtivo” por parte dos veículos de comunicação e de regulamentação. Justamente aquilo que o jornal termina dizendo ser importante. Ah, a contradição…

Com telhado de vidro, não se deve jogar pedra

O magnata encabula-se

Está feia a coisa pelas bandas de cá. Se contassem uns tempos atrás, acho que poucos acreditariam, mas o magnata das comunicações Rupert Murdoch está realmente constrangido e acuado. Capa da maioria dos jornais, o escândalo – que já inclui prisão e morte – atinge forte o todo-poderoso do setor. É assunto das rodas de conversa, o principal na TV. E não é só Murdoch que se constrange. Parece que todo um modelo de se fazer o que eles chamam ainda de jornalismo está sendo desmascarado, e ninguém está muito confortável ao noticiar o fato.

É aquela sensação de ter que apontar o dedo para não parecer cúmplice, porque a coisa estourou, mas sem muita segurança sobre se de repente não se está criticando um modo de fazer que também é seu. O fato é que o jornalismo mudou. Ele se “adaptou” aos tempos. Tempos em que especular vale mais do que comprar efetivamente. E comprar vale mais do que viver. E, bem, trapacear para conseguir qualquer coisa é ser esperto. Ética, pra quê? A visão do poder suplanta esse tipo de bobagem.

A Inglaterra ri e chora de seus figurões. Figuras que já não são mais de um país só, mas magnatas globais, com investimentos ao redor do mundo. Como se fosse bonito ter um estrangeiro se ocupando de informar das coisas de nossa terra, qualquer que seja ela.

Mas não que a gente possa olhar de longe e dizer que no Brasil tudo é diferente. Pobre, mas limpinho. Well, nós temos as nossas fichas falsas na capa do jornal mais vendido, jornalistas acessando senhas que davam informações de investigações sigilosas de governo, entre outros. Ninguém parece muito santo.

Talvez a Inglaterra possa servir de exemplo por fazer disso notícia e encabular-se. Na nossa pátria amada… bem, deixa pra lá.

O magnata encabula-se

Nós também temos o nosso News of the World

O povo por aqui tem a memória um tanto curta. Isso não é novidade, mas às vezes é engraçado. Hoje quero falar numa situação aqui do Rio Grande do Sul, lembrada pela jornalista Beatriz Fagundes no jornal O Sul. A gente vê o que acontece pelas bandas europeias e aponta o dedo, como se o nosso telhado não fosse de vidro.

É o seguinte: o News of the World, jornal centenário (na verdade são exatos 168 anos) da Grã-Bretanha, fez uma coisa bem feia, não só para os parâmetros jornalísticos, mas dentro de uma noção ética de sociedade. Repórteres inescrupulosos pegaram o celular de uma adolescente desaparecida e apagaram algumas mensagens de seus pais, que renderam notícia, mas dificultaram a investigação e levaram a crer que ela ainda estava viva.

Vale aí lembrar de Cláudio Abramo e sua ética do marceneiro, no livro “A Regra do Jogo”, em que sustenta que a ética do jornalista é a mesma de qualquer cidadão. Dentro desta perspectiva, vale pensar também nos limites da profissão, que devemos sempre respeitar. Não se coloca em risco uma vida por uma manchete. Não se quebram sigilos por uma investigação. Não se invade a privacidade por um furo. Tem até palavra pra isso: respeito.

Pois e não é que a gente também teve nosso caso de “excesso de interesse jornalístico”, em um eufemismo cretino? Alguém aí lembra das senhas do sistema de segurança do governo do estado, utilizadas impropriamente durante o governo Yeda e, pior, vazadas para não-integrantes do governo? E olha que engraçado, esses não-integrantes do governo também eram imprensa, coincidentemente todos do mesmo grupo de comunicação, aquele que de forma ilegal mantém 18 canais de TV, jornais impressos, emissoras de rádio também ilegais (além da propriedade cruzada e do monopólio, há problemas na outorga da Rádio Atlântida e ilegalidade na Gaúcha, que transmite a mesma programação em AM e FM).

Cerca de dez jornalistas do Grupo RBS tinham acesso a senhas do sistema Guardião, da Casa Militar do Estado, e sabiam detalhes de diversas investigações fechadas. Tinham acesso até a fotos do filho pequeno da então deputada estadual Stela Farias, hoje secretária de Administração (ver aqui, aqui e aqui).

É sempre bom lembrar das coisas erradas que fazemos, para que não deixemos serem repetidas.

Nós também temos o nosso News of the World

Após grampos e prisão de jornalistas, Cameron promete regras para imprensa britânica

Do Opera Mundi

A polícia britânica prendeu nesta sexta-feira (08/07) o ex-editor do jornal News of the World Andy Coulson e o ex-repórter do tabloide britânico Clive Goodman, responsável pela cobertura da família real britânica. Coulson é acusado de ter ligação com o escândalo de grampos telefônicos realizados pelo jornal na época em que comandou o tablóide, entre 2003 e 2007. Já Goodman é acusado de pagar propina a policiais.

Coulson trabalhou como porta-voz do primeiro-ministro britânico, David Cameron, e renunciou ao cargo no começo do ano, após fortes pressões que enfrentava pelas investigações no caso dos grampos. Horas antes da prisão, Cameron disse que contratar Coulson foi uma decisão pessoal e que ele assumia total responsabilidade. “Eu dei a ele uma segunda chance. O povo é quem pode julgar se eu errei ao fazer isso”, afirmou. O governante assumiu que ficou amigo de Coulson durante o tempo em que eles trabalharam juntos e que essa amizade ainda existe, embora os dois não tenham tido muito contato nas últimas semanas.

Culpa

Cameron anunciou hoje que as denúncias sobre os grampos serão investigadas por dois inquéritos públicos independentes. Um deles será coordenado por um juíz e vai começar logo após o fim dos trabalhos policiais. O governo quer saber porque a polícia falhou no primeiro inquérito sobre o caso. A outra investigação será conduzida por um corpo misto e terá como alvo a cultura, a prática e a ética da imprensa britânica. O objetivo é entender como os jornais são regulados e fazer recomendações para o futuro.

O primeiro-ministro afirmou que “a imprensa é livre, mas não está acima da lei”. Para ele, “o jeito como a imprensa é regulada no Reino Unido já não funciona mais”, O primeiro-ministro disse que o problema é coletivo. “Estamos todos juntos nisso. A imprensa, os líderes, os partidos, incluindo eu mesmo”, completou o líder britânico.

O líder da oposição no parlamento, Ed Miliband, havia pedido que o primeiro-ministro admitisse os próprios erros de julgamento por ter contratado Coulson. Miliband disse achar que outra ex-editora do News of the World, a atual chefe do grupo News International, Rebekah Brooks, também deveria ser responsabilizada pelo uso dos grampos telefônicos. A News International é um conglomerado de mídia que controla o tablóide inglês e faz parte do grupo News Corporation, do magnata Rupert Murdoch.

Interesse comercial

O fechamento do News of the World foi considerado uma ação para que Murdoch possa assumir o controle sobre a rede de TV Sky. A News Corporation é dona de 39% do capital da empresa atualmente. A negociação precisa ser aprovada pelo Departamento de Cultura do Reino Unido e era considerada quase certa até o começo desta semana.

Nesta sexta-feira, um porta-voz disse que o secretário de Cultura, Jeremy Hunt, “vai considerar todos os fatores relevantes para o caso, incluindo o fechamento do News of the World” e que “a decisão vai demorar o tempo que for necessário”. O processo de consulta pública para a compra da Sky termina hoje. O número de respostas de interesse durante a consulta subiu de 40 mil para cerca de 100 mil após  a divulgação das mais recentes denúncias sobre o escândalo dos grampos.

Desempregados

O caso das escutas telefônicas levou ao fechamento do News of the World após 168 anos de existência. O veículo é o jornal mais lido do mundo em língua inglesa e emprega 200 pessoas, que só devem trabalhar até domingo (10/07), quando será impressa a última edição.

O editor de política David Wooding, que trabalha no News of the World há um ano e meio, disse à BBC que “dos 200 funcionários atuais, há dois ou três que trabalhavam no local na época dos grampos. Muita coisa aconteceu com um editor diferente e com outros empregados”.

“Fomos trazidos para limpar a imagem do jornal, mas a lama acabou espirrando em nós”, afirmou Wooding.

Após grampos e prisão de jornalistas, Cameron promete regras para imprensa britânica