Gay Talese e o velho Novo Jornalismo

Não faz muito tempo, numa conversa de bar, um texto qualquer foi criticado porque era pouco profundo, “muito jornalístico”. Estava implícito – ou explícito até – que faltava qualidade, que quase faltava credibilidade.

Hoje terminei, já meio envergonhada pela demora, de ler “Fama e anonimato”, o clássico livro de reportagens feitas por Gay Talese nos anos 60 que deveria ter figurado como leitura obrigatória no começo da faculdade e que eu já me sentia mal em não ter lido. A edição da Companhia das Letras traz ainda um posfácio de Humberto Werneck comentando não só a obra que eu tinha em mãos, mas todo um fazer jornalístico, de “sujar os sapatos”.

O jornalismo é sempre uma atividade de segundo plano, comparada com as análises sociológicas, antropológicas, históricas, que o deixam raso, ou, por outro lado, com os textos literários, que o deixam sem-graça. Bem, evidentemente, jornalismo não é nem um nem outro, mas não deixa de ter seu fascínio e sua função social.

Para Talese, cita Werneck, “o realismo é fantástico, os sonhos e impulsos da América moderna, se narrados com exatidão, podem ser tão socialmente significantes e historicamente úteis quanto as vidas e situações fictícias criadas por dramaturgos e romancistas”.

Pois bem, Talese prova que o jornalismo pode ser bonito como um texto literário sem perder seu caráter essencialmente informativo. E aproveita para criticar a cada vez maior ausência de reportagens de fôlego nas redações atuais.

A culpa não é necessariamente do repórter, que ficou preguiçoso. Bem, culpa é uma palavra meio forte. Na verdade, o jornalismo se transformou muito, até o ponto de casos de falta de ética na apuração de informações tornarem-se quase corriqueiros, como vimos na Zero Hora e no News of the World, apenas para citar dois exemplos bem distantes entre si. A internet e a velocidade da informação contribuem muito para isso. A necessidade de atualização constante sob o risco de ficar – ou deixar os leitores – desinformado.

E isso não é simplesmente uma nostalgia do que já passou, porque, já mostrou Woody Allen, o passado sempre parece melhor. É que é inegável a diferença de qualidade na profundidade, no tempo de apuração, na redação elaborada. Mas são coisas diferentes, e acho que todas necessárias, mas possível de conciliá-las. Reportagens de fôlego, de tempo, de profundidade. Matérias do dia-a-dia feitas nas ruas, sujando o sapato, sentindo o fato e não apenas tomando conhecimento dele através de tantos filtros. E também o hoje já inevitável repórter de redação, que não sai na rua, mas vai manter o ritmo de atualização das notícias. E tantos outros, porque não há fórmulas que se adequem a todos os casos.

O importante, sempre, é encontrar o equilíbrio. Se for com o talento de um Gay Talese, tanto melhor.

Gay Talese e o velho Novo Jornalismo

Tom Wolfe decepciona no Fronteiras

Uma penca de gente pagou uma grana pra ver o ícone do Novo Jornalismo, o jornalista e escritor americano Tom Wolfe. Pra quem não fechou o pacote completo do Fronteiras do Pensamento, tinha ingresso avulso hoje a 100 reais. E confesso, se eu fosse rica e tivesse dinheiro sobrando, eu teria pago os 100 pilinhas.

Ainda bem que não sou rica e não botei meu dinheiro fora. Fui de graça graças à professora Sandra de Deus, que cedeu convites à equipe do Jornalismo B. Decepcionante, no mínimo. Chata e sem noção também se aplicam à aula proferida por Tom Wolfe. A péssima tradução simultânea contribuiu para que a coisa não desse certo.

Ele falou de tudo, em um sem nexo absurdo. Os assuntos foram se intercalando inarticulados e sem motivo. Começou na crise econômica, passou por religião, arte, macacos, controle de natalidade, sexo, universidades americanas, Paris Hilton, genética. E pasme-se, não chegou em jornalismo e literatura. Falou até que Picasso e Matisse deveriam ter estudado arte por mais tempo para aprender a desenhar mãos.

E, por mais que o público insistisse, com uma pergunta atrás da outra – muito boas, por sinal – sobre o passado, o presente e o futuro do jornalismo, suas possibilidades criadoras, a linguagem literária, o jornalista tergiversava e inseria assuntos que nada tinham a ver.

E pior, o velhinho de terninho branco e meias xadrez – começo a desconfiar que ele é como a Mônica ou a guria da Uniban, que abrem o guarda-roupa e veem o mesmo vestido repetido diversas vezes – não só acrescentava informações desnecessárias. Ele simplesmente ignorava a pergunta.

No primeiro minuto da palestra, abri meu caderninho de anotações, saquei a caneta e preparei a máquina fotográfica. Tirei algumas fotos rapidamente, antes que ele falasse alguma coisa interessante que eu tivesse que parar para anotar. Imaginei que o início esquisito fosse apenas uma introdução que seria explicada pelas informações subsequentes. Insisti um pouco, mantendo a caneta destampada entre os dedos da mão direita e o caderno a postos na esquerda. Até que desisti. Guardei o caderno em branco.

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Um ótimo texto sobre o assunto está n’Os Estrangeiros. Vale inclusive a crítica ao preço do ingresso, à compra do saber e tudo o mais. E a reflexão sobre Tom Wolfe, evidentemente.
Tom Wolfe decepciona no Fronteiras