Governo substitui tropa de choque por diálogo

Em agosto de 2009, um agricultor sem terra foi atingido com tiros de espingarda calibre 12 nas costas, em uma ocupação em São Gabriel. Seu nome era Elton Brum. No momento em que foi morto, cuidava das mulheres e crianças de seu acampamento. Não viu quando o policial disparou sua arma e tirou a vida de um homem pelas costas.

Os tiros saíram da espingarda de um policial da Brigada Militar. O enfrentamento violento foi ordenado pelo governo do estado, então comandado por Yeda Crusius. A truculência já virara marca de seu governo no trato com os cidadãos. Fora utilizada em manifestações pacíficas na capital e no interior, de diferentes classes de trabalhadores. Claro, apenas contra trabalhadores.

Em 2011, o governo é outro. Tarso Genro assumiu o Piratini com o compromisso principal exatamente com aqueles contra quem Yeda dedicava sua truculência. Os trabalhadores estão no nome do partido do governador. Na Praça da Matriz, as manifestações não estão mais restritas pela grade colocada por Yeda. No campo, as manifestações não são mais reprimidas pelas forças truculentas de tropas de choque.

Ontem, dia 22 de março, o governo negociou com os trabalhadores rurais sem terra que ocupavam a Fazenda Palermo em São Borja. Com diálogo, foi consensuada a saída do movimento da propriedade particular e pré-acertado seu assentamento. Ali, onde hoje mora uma única família, deverão produzir alimentos 64 famílias de agricultores.

Os mesmos que acusam a ocupação de São Borja – que não registrou nenhum ferido – de violenta são os que nada disseram quando Elton Brum foi covardemente assassinado.

O que realmente assusta

Dias atrás a colunista-mor do grupo RBS alertou para a falta de alarde (sic) em torno do fato de o governador ter usado um boné do MST. O que é pior: ocupar um latifúndio improdutivo na luta pela redistribuição de terra, para que todos tenham mais, ou assassinar trabalhadores sem condições de defesa? Em abril, faz 15 anos que os mandantes do massacre que matou 19 agricultores em Eldorado dos Carajás estão impunes.

No Rio Grande do Sul, a grande diferença do governo Tarso para a maioria dos governos anteriores – “com exceção de um ou dois”, como disse Tarso outro dia – é que o atual dialoga com todos os setores da sociedade e não tem medo de melindrar os grandes empresários ao mostrar sua identificação com a causa dos trabalhadores que durante séculos lutam pelo direito à terra. Uma terra que foi dividida arbitrariamente. Que um dia foi tomada, com o único critério do interesse privado. Uma terra que outrora era pública, coletiva, e que se tornou privada devido à “esperteza” dos que chegaram primeiro.

Os agricultores não ocupam terra e ficam meses ou anos acampados porque querem, como bem diz o deputado Edegar Pretto. A ocupação é uma forma legítima de fazer pressão política para lutar pela reforma agrária. Além do diálogo constante e respeitoso, a melhor forma de acabar com as ocupações é fazer uma reforma que quase todos admitem necessária, mas que os grandes e poderosos lutam para impedir – por mesquinhos interesses privados. É entender que a reforma agrária vai distribuir renda e, como consequência, diminuir o êxodo rural, melhorando também as condições de vida nas cidades, especialmente nas maiores. Entender que redistribuir as terras improdutivas de forma mais justa gera todo um desdobramento social que atinge grandes parcelas da população, melhorando a vida dos que mais precisam do Estado.

Edegar Pretto lembrou hoje na tribuna da Assembleia que em abril vai fazer 15 anos que 19 trabalhadores rurais foram mortos no que ficou conhecido como massacre de Eldorado dos Carajás. Até hoje, nenhum dos mandantes foi preso.

Governo substitui tropa de choque por diálogo

A ocupação no Rio: pontos a considerar

Tenho visto muita gente argumentando que a Polícia invade morro mas não quebra sigilo de gente rica. E a afirmação serve de justificativa para questionar a ação policial e se posicionar contra. Existem alguns mitos importantes a se discutir, alguns pontos a se considerar.

1. Polícia não tem poder para quebrar sigilo. Importante diferenciar Poder Executivo de Poder Judiciário.

2. É evidente que é preciso combater o crime de colarinho branco, das “coberturas da Vieira Souto”, como tenho visto em alguns Twitters por aí. Mas uma coisa não anula a outra. É importante cobrar para que todas as formas justas de combate sejam feitas e que não se esqueça de perseguir os bandidos brancos dos bairros nobres, mas não é por isso que o governo deve deixar de tomar providências para combater o crime na favela, para enfrentar momentos de maior tensão, sempre mantendo o respeito à população, evidentemente.

3. Se não agisse, o governo estadual manteria as comunidades sob risco, nas mãos dos traficantes. Minha conclusão a respeito do começo do confronto é de uma revolta frente à perda de poder que eles temiam perder com a implantação das UPPs e a chegada do Estado às favelas. Ou seja, se não ocupasse agora, era deixar que a população dos morros continuasse sob domínio dos traficantes.

4. É ingenuidade criticar a ação policial com base na necessidade de se fornecer serviços públicos às comunidades. Ela é evidente e tem que ser defendida. Mas em um momento de crise uma escola não dá conta. O acesso a saúde, educação, segurança, lazer é importante para que não ocorram crises, para que haja dignidade nos morros. Mas em um momento agudo é preciso tomar providências urgentes. Que não sejam matar todo o mundo, evidentemente, mas que seja firme.

5. Ouvi falar em carnificina, mas não vi as fontes da informação. Houve alguns abusos, injustificáveis e que devem ser punidos, mas são alguns casos. É preciso avaliar a ação como um todo, a orientação que foi dada pelo governo. E essa orientação foi no sentido certo, de combater sem massacrar, como é de praxe. De evitar o confronto direto para não tirar a vida de inocentes.

6. A grande maioria dos comentários contrários à ocupação do Complexo do Alemão parte de pessoas que estão distantes e não conhecem a realidade da favela. Como eu, têm limitação na capacidade de avaliação. Para romper essa barreira e entender melhor o que se passa com os moradores das favelas, nada pode ser melhor do que ouvir quem está lá dentro vivendo essa realidade. Recomendo seguir alguns perfis no Twitter: @vozdacomunidade, @JJAfroReggae, @celsoathayde, @Cufa_Brasil. É com base neles e, claro, em especialistas, que tento formar minha opinião.

Os donos da razão

Pelo que se lê e ouve, todo o mundo conhece melhor a favela do que os moradores de lá. Chama a atenção como os ouvidos se fecham ao que não se quer ouvir. Em entrevista à Rádio Gaúcha hoje de manhã, José Junior, coordenador do AfroReggae, quase perdeu a paciência. Ao fim da conversa, fiquei curiosa para saber onde a Rosane de Oliveira e o André Machado, ambos jornalistas políticos gaúchos, fizeram suas especializações em segurança pública, para falar com tanta propriedade sobre o tema.

Chegou a ser patético quando a Rosane perguntou sobre os 16 mil envolvidos com o tráfico no Complexo do Alemão e, ao ser questionada se a informação abrangia a Penha, não respondeu, limitou-se a dizer que “é, são os números que a mídia nacional está divulgando”. Ficou sem argumentos quando José Junior rebateu que “a mídia nacional não entra no Alemão; os institutos de pesquisa não entram no alemão, então esses números são um chute, que não condiz com a realidade”.

Depois de desligar o telefone, leu um comentário de um ouvinte questionando a entrevista, com base no argumento de que o coordenador do AfroReggae teria citado serviços privados quando questionado sobre os serviços públicos levados ao complexo pelo governo Cabral. O comentário não considerou que ele começou, sim, falando nas empresas, mas sua resposta foi mais ampla, apesar da tentativa dos jornalistas de interrompê-la, e terminou fornecendo dados de investimentos já feitos e a serem realizados no Alemão.

Mas a Rosane de Oliveira “viu pela TV” que faltam serviços públicos na Penha. Ah bom! Então deve ser verdade. Se deu na Globo…

(Observação: é óbvio que faltam serviços públicos na Penha. Faltam em praticamente todas as favelas do Brasil. São décadas sem serviços públicos, suponho que demore um pouquinho para conseguir levá-los a todas as comunidades de forma a atender todas as pessoas, o que não anula o mérito de se ter começado. Inclusive, no Rio de Janeiro, ainda é um número reduzido de comunidades que têm UPPs. Elas estão sendo instaladas aos poucos. E mesmo as que já têm estão recém começando um processo de transformação, que ainda leva muito tempo.)

A lição que tiro, pra mim e pra todos, é que é sempre bom ouvir e ler bastante quem entende do assunto antes de formar uma opinião. Não precisa ficar especialista no tema, mas é importante prestar atenção em quem é diretamente envolvido.

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Legenda e crédito das imagens:

Policiais e comunidade convivem pacificamente no Complexo do Alemão. Uma nova realidade para os moradores, que estavam acostumados com o poder do tráfico. Reinaldo Marques / Terra

Um ônibus é queimado durante os ataques que vêm ocorrendo desde o final de semana no Rio de Janeiro. Jadson Marques / Futura Press

As duas acima foram tiradas do portal Terra. Recomendo uma olhada nas outras imagens. São muitas, de muita qualidade.

Tweet do José Junior, coordenador do AfroReggae.

Da reportagem do New York Times sobre as UPPs, tirada do Viomundo.

A ocupação no Rio: pontos a considerar