Governo dos EUA tuita para que Irã imite Egito

Vejamos, “Hillary diz que EUA querem revolução como a do Egito no Irã”, está na capa da Folha.com. Interessante perspectiva. Bacana querer que outras ditaduras caiam. Epa, mas peraí, não são outras ditaduras. É uma só, apenas. Uma chegadinha na Wikipedia diz, por exemplo, que “os principais parceiros comerciais da Arábia Saudita são os Estados Unidos da América, o Japão, o Reino Unido, a Alemanha, a França e a Coreia do Sul”. Diz também que a “Arábia Saudita é uma monarquia absoluta, de forma que o rei não é apenas o chefe do estado mas também do governo” e que “o país tem mostrado um profundo desprezo pelos direitos humanos“.

Ainda que a enciclopédia não possa ser fonte para trabalhos científicos, ela se tornou bastante respeitada recentemente, justamente porque a colaboração, que a fundamenta, impede que erros grotescos ou distorções forjadas sejam mantidas. E lá diz que os Estados Unidos têm fortes interesses comerciais na Arábia Saudita, uma monarquia que desrespeita os direitos humanos, país mais poderoso que o Irã – e de muito petróleo.

Isso sem falar em Israel, onde há eleição, mas o governo assume praticamente só para impor sua política de força sobre os outros países da região e excluir os palestinos de seu território de forma completamente desumana. E o que dizer do próprio Egito, que durante 30 anos era um país bonzinho e dócil, mas de repente virou uma ditadura sangrenta, na opinião dos Estados Unidos.

Mas a política externa americana atua apenas e exclusivamente em causa própria, o que não é nenhum crime. Afinal, é natural, em praticamente tudo, que se defenda o que é seu. O grande problema é fazer isso independente das consequências, sem avaliar se isso vai fazer mal para alguém ou para algum grupo grande de pessoas. E “fazer mal” pode ser entendido como perder liberdade, perder direitos, perder dignidade, entre outras coisas ainda piores.

Os Estados Unidos chegam ao cúmulo de tuitar em farsi, para provocar uma revolta semelhante no Irã. O velho dois pesos e duas medidas, com o agravante de meter o bedelho no país dos outros. Agora, imagina se fosse o contrário. Uma nação emergente – e, importante, em uma conta que representa o governo dos Estados Unidos, que fala em nome da nação – criticar por uma rede social e provocar a insurgência entre os americanos. Não seria tratado como um verdadeiro atentado à soberania nacional?

O que, afinal, vale na cartilha americana?

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O mapa que ilustra o post foi tirado da Folha.com, e é bastante significativo. Estava intitulado, no site original, como “mapa-eixo_do_mal”, que aponta apenas três países como acusados de desenvolver armas de destruição em massa – um deles, o Iraque, comprovadamente uma mentira.

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Governo dos EUA tuita para que Irã imite Egito

Não é só futebol e carnaval

Acho que o governo Lula tem, sim, milhões de problemas – e eu começaria a lista pela falta de uma reforma política. Mas há de se convir que, em matéria de política externa, está dando um banho em qualquer oposição, em qualquer país. O primeiro passo foi romper com a relação de submissão aos Estados Unidos. E os elogios que Obama dá a Lula não são porque o Brasil continue nas mãos dos norte-americanos. Afinal, para que elogiar quem já está no papo?

Quando eu paro pra pensar, parece mentira que um operário que veio lá do interior do interior do Nordeste, pobre, que virou sindicalista e acabou caindo na cadeira de presidente da República esteja influenciando de forma tão contundente as relações entre nações. E não só entre as nanicas, mas entre as grandes ou as pequenas mas com grandes problemas.

Alguém há de dizer que não é só o Brasil o responsável por essas coisas todas, mas é inegável o seu protagonismo em questões como o golpe de Honduras, a inversão nas trocas comerciais dos países do Sul – antes Sul/Norte, agora cada vez mais Sul/Sul – que está em curso e, por que não?, até nos conflitos do Oriente Médio. Ok, não vai haver paz na região de uma hora pra outra porque o Lula meteu o bedelho. Mas, diante da indefinição norte-americana, o Brasil vai se destacando como um mediador, uma referência. Receber os três líderes – de Israel, da Autoridade Palestina e do Irã – foi uma sinalização nesse sentido. De que aqui é possível haver diálogo. Não foi uma concordância com tudo o que acontece dentro de cada país, muito pelo contrário.

O caso de Honduras é exemplar. O Brasil se posicionou enfaticamente contra o golpe de Estado enquanto os EUA acabaram acatando as eleições. Mas não só isso, a política externa norte-americana se mostrou confusa, com cada um dizendo uma coisa diferente, sem uma política clara.

O Lula vai ocupando o espaço que o Obama vem deixando em aberto, por apatia, por inação. As reuniões do G-20 hoje são mais importantes que as do G-7. O Brasil aparece como o líder dos BRIC’s (Brasil, Rússia, Índia e China). E isso não é bom só para o Brasil. O que vai se consolidando é um mundo multipolar, que não depende apenas dos Estados Unidos para as coisas acontecerem.

E quando entram mais atores na jogada, quanto mais agentes estiverem participando, mais democrática é a relação de poder. Diminui a possibilidade – ainda que isso aconteça de forma muito incipiente, ainda muito restrita – de grandes e poucas potências interferirem em pequenas nações. Isso é bom para todos os países de Terceiro Mundo. É bom, na verdade, para o mundo inteiro.

Esse post foi baseado em matéria de Antonio Luiz M. C. Costa, na Carta Capital, para a qual não encontrei o link.
Não é só futebol e carnaval