Candidato trabalhista ataca com Arcanjo Gabriel e o fogo do inferno em Londres

Muito critiquei a última campanha eleitoral no Brasil. Foi baixa, mesquinha e manipuladora, com um candidato tentando criar uma falsa, maniqueísta e infantil oposição entre bem e mal, para atuar na subjetividade de uma população majoritariamente católica, em que vigoram os conceitos de céu e inferno e outros da mesma laia.

Pois o “Serra é do bem” de 2010 parece até ingênuo diante do que a política britânica tem se mostrado capaz. Dois partidos apenas disputam o poder no Reino Unido, o Trabalhista e o Conservador. Ainda que as diferenças de plataforma não sejam tão gigantescas – ambos atuam dentro de uma perspectiva conservadora neoliberal, sendo um apenas mais conservador que o outro -, o fato de serem só dois, em uma oposição muito definida, leva-os a um embate mais aberto e feroz.

A ponto de o futuro candidato à prefeitura e ex-prefeito de Londres pelo Partido Trabalhista – importante frisar que se trata do menos pior -, Ken Livingstone, sugerir uma comparação com os tempos de Segunda Guerra. Ao criticar o prefeito atual, o conservador Boris Johnson, desfiou pérolas da seguinte estatura:

“É uma escolha simples entre bem e mal. Não acho que isso tenha sido tão claro desde a grande batalha entre Churchill e Hitler. Aqueles que não votarem em mim em 2012 serão pesados na balança do no Dia do Julgamento. O Arcanjo Gabriel dirá: ‘Você não votou em Ken Livingstone em 2012. Oh, querido, queime para sempre. Sua pele será queimada por toda a eternidade.'”

A referência religiosa não podia ser mais explícita, e a ameaça moral mais escancarada. O jogo é semelhante, o objetivo e o método são os mesmos, mas as cartas inglesas são mais incisivas. OO mundo civilizado consegue ganhar na baixaria.

Candidato trabalhista ataca com Arcanjo Gabriel e o fogo do inferno em Londres

Líderes políticos britânicos unidos contra Rupert Murdoch

The Independent, publicado na Carta Maior

Os três principais partidos políticos se unirão hoje, em ataque sem precedentes contra o homem que os mesmos partidos vivem, há décadas, de cortejar incansavelmente: Rupert Murdoch. Os líderes dos três principais partidos políticos britânicos instruíram seus deputados para que votem a favor de uma moção que exige que Murdoch, depois do escândalo dos telefones grampeados, desista da proposta que apresentou para comprar a BSkyB.

Esse show de pensamento único é consequência de intervenção dramática de David Cameron. A decisão foi tomada depois que Cameron percebeu que poderia perder a votação na Casa dos Comuns para a oposição (partidos Trabalhista e Liberal Democrata). Dizia-se ontem que o clima, na residência do primeiro-ministro em Downing Street, era “sombrio”.

A moção – que agora será garantidamente aprovada por vasta maioria – aumenta muito significativamente a pressão sobre a empresa News Corp para que desista completamente de tentar comprar a BSkyB – num momento em que não param de surgir denúncias de crimes e erros de má administração na News International, subsidiária britânica da News Corp, de Murdoch.

As ações da BSkyB caíram mais 3%, depois que a City concluiu que a pressão da opinião pública torna o negócio praticamente impossível, pelo menos nesse momento. Ao longo do dia de ontem, o affair teve os seguintes desdobramentos:

* Dois dos mais graduados comandantes da Polícia britânica acusaram a empresa News International de mentir e prevaricar no curso do primeiro inquérito policial;

* A Scotland Yard admitiu que, até agora, só notificou 170 das pessoas cujos celulares podem ter sido grampeados, de um total de 4.000 nomes que aparecem nos arquivos de Glenn Mulcaire;

* Uma comissão da Câmara dos Comuns convocou Rupert e James Murdoch a comparecer pessoalmente ao Parlamento na próxima 3ª-feira, com Rebekah Brooks, para serem interrogados publicamente pelos deputados sobre o escândalo; e

* David Cameron, Ed Miliband e Nick Clegg reuniram-se privadamente para discutir os termos de referência para uma investigação pública sobre o escândalo.

Ficou acertado entre os três que Cameron anunciará hoje a instauração de comissão de inquérito, comandada por juiz especial, para tratar de dois tópicos: o fracasso da Polícia (que não investigou devidamente as denúncias de invasão de telefones celulares) e temas mais amplos da ética na mídia. As testemunhas a serem ouvidas nessa comissão falarão sob juramento. Espera-se que o primeiro-ministro, no mesmo ato, nomeie o juiz que presidirá os trabalhos da comissão de inquérito.

(…) Uma fonte do governo disse que, depois de aprovada a moção conjunta, a empresa News Corp só poderá comprar 100% das ações da BSkyB, se vender os três jornais que ainda controla – The Sun, The Times e The Sunday Times. “A moção conjunta altera todo o jogo” – disse.

(…) Em New York, os altos executivos da News Corp estão sendo pressionados a separar-se dos problemas atuais na Grã-Bretanha, para que a empresa possa concentrar-se nas partes do negócio que têm maior potencial de crescimento: a televisão a cabo nos EUA.

Na tentativa de tranquilizar os acionistas, Murdoch anunciou que destinará 5 bilhões de dólares dos lucros da News Corp para ‘segurar’ o preço das ações. A companhia informou que o dinheiro seria gasto ao longo dos próximos 12 meses para recomprar as ações da empresa – medida que reduz o risco de a cotação despencar. Com essa medida, Murdoch espera obter a simpatia dos investidores, enquanto tenta encontrar meio para impedir que o escândalo britânico contamine todo o império de $45 bilhões.

Murdoch sabe que, se nada fizer, os acionistas poderão concluir que ele próprio e a família, que controla o negócio, estariam ‘segurando’ o dinheiro investido. O próprio Murdoch e vários diretores já são alvo de processo movido por acionistas rebeldes, que alegam que os executivos da empresa puseram os interesses da família acima do interesse dos demais investidores.

A jogada de Murdoch parece estar dando certo. O preço das ações estabilizou-se e vários grandes acionistas já manifestaram apoio aos Murdochs. O príncipe saudita Alwaleed bin Talal – principal acionista da News Corp, depois da família Murdoch – deu várias entrevistas, dizendo que o fechamento do jornal News of the World bastava, para encerrar o escândalo. E que a empresa News Corp continuava sólida. “A News Corp é muito mais que um jornal” – disse o príncipe.

Mas ontem começaram a aparecer sinais de que os problemas da empresa News Corp na Grã-Bretanha podem contaminar outras partes do negócio. Em depoimento aos deputados, dois altos oficiais de Polícia acusaram a empresa de deliberadamente encobrir provas de que muitos telefones estavam sendo grampeados e invadidos, durante o tempo em que a News International foi dirigida por Les Hinton – braço direito de Murdoch há décadas, que hoje é diretor de Dow Jones nos EUA. É provável que também seja convocado para prestar depoimento no inquérito público, sobre se teria autorizado ou não, que seus jornalistas sonegassem provas e produzissem as provas falsas que foram entregues à Polícia.

Tradução: Vila Vudu

Líderes políticos britânicos unidos contra Rupert Murdoch

E agora, José?

Quando visitei o Parlamento Britânico, em 2007, além de quase ter que tirar a roupa pra conseguir entrar, outra coisa me chocou. Tinha cadeiras de um lado, cadeiras de outro e um espaço no meio. Veio a explicação: os do partido de esquerda sentavam de um lado, os de direita do outro. Na hora pensei onde sentaria o PMDB se fosse no Brasil, mas isso são outros quinhentos.

Não explicaram quem eram os de esquerda. Os conservadores não tinha como ser. A “Terceira Via” trabalhista de Tony Blair e Gordon Brown? Tá bom, e o pessoal no Brasil reclama que o Lula não é de esquerda. Imagina se os britânicos conhecessem o PSTU.

Mas agora a pulga se instalou atrás da minha orelha (a direita): como vai ser daqui para a frente, com a existência de três partidos de peso na desacostumada Inglaterra? Onde sentarão os liberais-democratas?

A foto é da cerimônia de abertura do Parlamento. Da Reuters, pescada do Terra Brasil.

E agora, José?