Prefeitura de Porto Alegre: a ideologia da periferia

A transferência dos moradores da Vila Dique para o Rubem Berta segue uma lógica antiga, um tanto cruel, que ajuda a perpetuar desigualdades.

A Vila Dique existe há cerca de 30 anos, perto do aeroporto internacional Salgado Filho. Ali viviam cerca de 4 mil pessoas em condições subumanas. A imensa maioria de seus moradores, em 2007, ganhava menos de dois salários mínimos, como mostra este estudo. Um dos problemas mais graves da comunidade é a falta de saneamento. Esgoto a céu aberto, água contaminada.

Há décadas a situação é essa. Agora, os moradores da Vila Dique estão sendo removidos. Serão transferidos para um bairro da periferia, na zona Norte de Porto Alegre, chamado Rubem Berta. Um bairro enorme, que cresce cada vez mais, pra lá do sambódromo.

Lá a Prefeitura construiu 1.476 habitações populares para os moradores da Vila Dique. Sua remoção está estampando inúmeros outdoors de propaganda da gestão Fogaça-Fortunati (PMDB-PDT) na capital (em 2010, a Prefeitura gastou R$ 11,3 milhões em saúde e educação e R$ 14 milhões em publicidade), como um grande feito, pelo qual há muito se esperava.

Vale então lembrar algumas coisinhas.

– Em fevereiro de 2008, a Zero Hora publicou matéria afirmando “Vila Dique some a partir de agosto”. O texto dizia que a Vila Dique sumiria ainda em 2008.

– Em 25 de agosto, veio a notícia da abertura da licitação.

– Em outubro de 2009, o Diário Gaúcho, jornal da mesma rede, disse: “A partir de amanhã, uma nova etapa na história de mais de três décadas da Vila Dique, na Capital, começará a ser contada. É quando as primeiras 48 famílias do local serão transferidas para um loteamento construído na Zona Norte”.

– Em janeiro de 2011, o site da Prefeitura diz que a previsão é que terminem as remoções em dezembro.

E sabe por que a Vila Dique está sendo “removida”? Falta de sanemento e de infraestrutura foram toleradas por anos a fio. Mas agora vem aí a Copa do Mundo e é preciso ampliar a pista do aeroporto. A Vila impedia essa ampliação.

Moradores continuam afastados da cidade

Tirar os moradores da vila era extremamente necessário, não só pelas obras de ampliação do aeroporto, mas também e principalmente pelas condições insalubres em que viviam. Sem saneamento básico, vivendo em meio ao esgoto, é impossível a um cidadão manter sua dignidade, sem falar em problemas de saúde decorrentes.

Mas transferir essas pessoas para o bairro Rubem Berta é afastá-los ainda mais do Centro, em uma cidade ainda muito concentrada na região central e seu entorno.

Se houvesse uma descentralização, em que cada bairro se transformasse em mini-cidades, mini-centros, seria possível que os moradores conseguissem manter uma qualidade de vida melhor, sem gastar tempo e dinheiro em deslocamentos gigantes. Mas isso não acontece, e muitos dos moradores dos bairros afastados precisam ir a outras regiões para trabalhar.

Além disso, alguns moradores da vila tinham habitações maiores para suas famílias, e reclamam que serão obrigados a diminuir de patamar.

Jogar essas comunidades para longe é fortalecer a dicotomia centro-periferia, entre os que têm fácil acesso aos serviços e os que não têm. É uma lógica tão perversa quanto antiga, que levou a criar bairros como a Restinga, por exemplo. Vale comparar algumas distâncias para se compreender um pouco melhor:

Centro – Bom Fim: 1,5 km

Centro – Menino Deus: 4 km

Centro – Aeroporto (ao lado de onde ficava a Vila Dique): 9,2 km

Centro – Rubem Berta (onde estão sendo reassentados os moradores da Vila Dique): 15,3 km

Centro – Restinga: 19,1 km

A comunidade da Vila Dique estará melhor no Rubem Berta? Sim, provavelmente. Terão moradia, saneamento, condições mínimas de vida. Mas não é possível que uma administração comemore que uma comunidade vive simplesmente “melhor”, na comparação entre o péssimo e o ruim. É preciso saber se essa comunidade passou a viver realmente bem.

Enquanto viverem pobres na periferia e classe média e ricos próximo do Centro, esses moradores serão sempre tratados como cidadãos de segunda classe. O preconceito continuará e a vida permanecerá difícil.

Prefeitura de Porto Alegre: a ideologia da periferia

Copa 2014 em Porto Alegre: Para que e para quem?

Jornalistas, blogueiros e comunicadores populares ligados a movimentos sociais realizam no dia 20 de janeiro (quinta-feira), às 18h, no auditório do CPERS Sindicato (Av. Alberto Bins, 480), um debate sobre as mudanças e os impactos das obras da Copa do Mundo de 2014 em Porto Alegre (RS). O objetivo é informar as alterações que ocorrerão na Capital gaúcha para o evento mundial e analisar os seus desdobramentos, assuntos pouco abordados pela grande imprensa gaúcha até o momento.

As obras da copa a serem realizadas na cidade têm causado grande preocupação às populações, principalmente da periferia. No entanto, afetarão toda a população portoalegrense. Isso porque a maioria das obras prevêem a realocação de centenas de famílias pobres, que hoje moram em áreas valorizadas de Porto Alegre, em bairros carentes e com pouca infra-estrutura. E nem estão previstas obras de infra-estrutura para estes bairros. Já ocorrem também a pressão e a articulação de construtoras para ocupar áreas consideradas de alto valor imobiliário. São os casos do Morro Santa Teresa e da Orla do Guaíba.

OBRAS DA COPA SÃO PREOCUPAÇÃO NACIONAL

Estas questões são compartilhadas pela população e por organizações e movimentos sociais de todo o país. Nos dias 8 e 9 de novembro de 2010, foi realizado o seminário ”Impactos Urbanos e Violações de Direitos Humanos nos Megaeventos Esportivos”, organizado pela relatora especial da ONU para o direito à moradia adequada, Raquel Rolnik, a fim de debater os impactos das obras da copa. Em todas as capitais listadas para sediarem jogos da Copa do Mundo de 2014 estão previstos despejos e realocações de populações pobres, mega investimentos para construtoras e grupos privados e privatização de locais públicos. Ao mesmo tempo, não se constatam preocupações com melhorias na infra-estrutura dos bairros da periferia ou no dia-a-dia das pessoas.

A partir deste seminário, organizações, movimentos sociais e populações que serão atingidas estão organizando comitês da copa em todas as capitais a fim de debater as obras e reivindicar melhorias. Em Porto Alegre já há dois comitês formados: um na região do Centro e outro no Morro Santa Teresa.

Te convidamos a se informar sobre o que está acontecendo aqui na Capital gaúcha e a se inserir nesta luta. Participe!

DEBATE SOBRE AS OBRAS DA COPA DO MUNDO DE 2014 EM PORTO ALEGRE
Data: 20 de janeiro (quinta-feira)
Horário: 18h
Local: Auditório do CPERS (Av. Alberto Bins,480 9º andar)

Para dúvidas ou mais informações, entre em contato com Katia Marko (8191 7903).

Copa 2014 em Porto Alegre: Para que e para quem?

Mural: jornalismo cidadão na internet

Está novamente em discussão (ou melhor, ainda não saiu de pauta) a tal da obrigatoriedade de diploma para exercer o jornalismo. Uma discussão tão secundária…

Dou dois exemplos opostos. O primeiro, de um jornal do porte da Folha de S.Paulo, que tem milhões de defeitos, mas é o mais vendido do país. A Folha faz seleção de trainee, acolhendo recém formados ou estudantes em fim de curso para participarem de um processo seletivo e, se escolhidos, terem uma experiência de quatro meses na redação do jornal. Como repórteres, que fique claro. Mas o curso que o sujeito está concluindo não precisa ser jornalismo.

Mas o exemplo que quero destacar é o de um projeto assinado por Bruno Garcez, jornalista do International Center for Journalists (ICFJ), repórter licenciado da BBC e que já passou pela Folha. Bruno criou uma espécie de laboratório digital. A plataforma é bem simples: um blog. Está aí pra comprovar que bastam boas ideias e vontade pra fazer acontecer.

Através de um perfil no WordPress, Bruno criou o que chama de “agência da periferia”, um “Projeto multimídia de Jornalismo Cidadão”, o Mural. Me lembra muito a iniciativa da Rosina Duarte no Boca de Rua, em Porto Alegre. A diferença é que o Boca, até pela época em que foi criado, é feito em papel. A descrição do Mural em seu primeiro post não podia ser melhor: “Um canal para todos aqueles que querem abolir a divisão centro x periferia, todos os que desejam inverter a lógica da produção de notícias”, através do trabalho de “correspondentes comunitários”. O objetivo é romper com o vício da grande mídia e produzir conteúdo com a visão de dentro da periferia. E conteúdo multimídia.

Bruno publica posts com dicas, verdadeiras aulas de como fazer jornalismo de verdade. Tem uma parte técnica também, aquela coisa da sacada, de saber lidar com as situações, de como proceder, que se aprende com o tempo, além da estrutura da reportagem, coisas do gênero. Apresenta exemplos práticos, dá sugestões. Mas também tem muito da ética da profissão, de como produzir conteúdo cidadão, honesto, socialmente responsável.

Ainda não há exemplos de material produzido por seus alunos, até por se tratar de um projeto recente (o primeiro post é de 11 de junho). Mas o objetivo é esse. Entre os participantes, blogueiros, com alguma noção de jornalismo, e pessoas egressas da periferia. No blog, Bruno coloca exercícios que seus alunos devem desenvolver. Já fez três encontros presenciais, o que ainda limita um pouco a São Paulo. A vantagem da internet é justamente poder atingir públicos maiores, o que está nos planos. Mas tudo bem, se é preciso se ver para mobilizar de verdade, que seja assim. São Paulo já tem bastante gente precisando de mais cidadania.

Mural: jornalismo cidadão na internet

Uma outra cidade é possível – parte II

Continuando a discussão, para se planejar as cidades – e para falar disso parto de Porto Alegre, mas amplio o debate para as grandes cidades do mundo – há que se considerar a imensa quantidade de gente vivendo na pobreza. Cerca de um bilhão de pessoas, segundo o arquiteto urbanista do Instituto Pólis Kazuo Nakano, na Le Monde Diplomatique Brasil do mês passado.

Betânia Alfonsin coloca em dois lados opostos os interesses do capital imobiliário e os interesses da cidadania. Parece óbvio, já estamos acostumados a pensar o mercado como um mecanismo autônomo, que deve correr livre e solto. Não parece fazer sentido impedir quem tem dinheiro de comprar, de construir, de fazer acontecer. Até porque, em alguns casos, essas iniciativas trazem dinheiro para a cidade, para o estado. Mas é um dinheiro que não é bom, que não compensa. Porque em troca vem a elitização do espaço urbano, que valoriza apenas os interesses de uma minoria endinheirada. O papel do governo é impedir isso, regular, criar normas.

A extrema pobreza de que Nakano falava vem acompanhada de uma bagunça urbana, com moradias precárias e toda a situação que acompanhamos muito bem na recente tragédia no Rio de Janeiro, por exemplo. As residências são segregadas, há uma divisão social muito nítida na configuração do espaço urbano. Esses “padrões desiguais, precários e predatórios de urbanização” são causados justamente pela desregulação do mercado de que fala Betânia. “É necessário regular as forças do mercado para evitar ataques especulativos e ampliar o acesso adequado ao solo nas cidades, em especial nas partes centrais”, diz Nakano. Para satisfazer os interesses da cidadania, aqueles da Betânia.

Isso não vem acontecendo nas cidades brasileiras. Aqui o melhor exemplo é São Paulo, que mostra muito claramente a divisão entre Centro e periferia, mas também Porto Alegre, Salvador, qualquer das grandes. A ideia é afastar o feio de quem tem dinheiro. Ou seja, tirar dos olhos da classe média as favelas, os pobres. Uma matéria de Rodrigo Martins na Carta Capital sobre o descaso no Rio de Janeiro é explícita: esse modelo, que começou com Carlos Lacerda, no Rio, mostra “o quanto o País é governado por uma minoria e para uma minoria”. No Rio de Janeiro, a favela é do lado do bairro nobre. Solução: murar as favelas para não atrapalharem a vista. Em São Paulo, empurrar para longe. Longe do trabalho, que fica no Centro, longe de condições de vida decentes.

Continua…

Uma outra cidade é possível – parte II