Por que privatização ainda é pauta de debate eleitoral

Acho engraçado que a imprensa reclama do debate sobre privatização da mesma forma que reclama do debate sobre aborto. Como se fossem a mesma coisa. Eles dizem que o tema é velho, “caduco”, como comentou Carolina Bahia na Zero Hora de hoje, e já não faz mais sentido. Reclamam porque não querem que o assunto volte à baila, porque prejudica Serra. Sobre o aborto, parece que nunca tiveram nada a ver com isso. Criticam o espaço do tema na campanha sem dizer que foram os principais incentivadores para que se centrasse a discussão em tamanha bobagem (bobagem porque não convém para uma campanha eleitoral e porque foi feito atravessado).

Aí leio a Carolina Bahia na Zero Hora e vejo que não devemos discutir privatização porque é “uma discussão que, na prática, não existe mais. O impasse veio à tona de forma artificial durante este segundo turno somente para marcar uma antiga disputa ideológica entre PT e PSDB. Grandes empresas públicas, como Petrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, assumiram papéis tão estratégicos, que seria loucura colocá-las à venda”.

Em primeiro lugar, não confio na sanidade de Serra. Em segundo lugar, me paarece que é justamente por isso que temos que discutir. É preciso mostrar para quem quiser ver que nossas empresas nacionais continuam nossas e cada vez mais fortes porque houve uma política para isso. Porque houve interesse para que isso acontecesse.

Essas empresas não eram fortes antes porque não interessava fortalecê-las a quem tinha interesse de vendê-las. Se hoje elas são o que são é justamente porque houve uma mudança na política econômica brasileira, porque o projeto visa o desenvolvimento de um país soberano e forte, que “não fala fino com Washington nem fala grosso com Bolívia e Paraguai”, como disse o grande Chico Buarque. E isso é fundamental para se entender a diferença entre PT e PSDB.

Privatização pode não ser mais tema de debate eleitoral porque não corremos mais tantos riscos de que elas voltem a acontecer (embora eu não tenha muita certeza disso). Mas privatização é tema justamente por não sê-lo, para explicar por que ela já está fora de pauta, por que hoje parece ridículo que se pense em vender a Petrobras. Para mostrar por que as empresas brasileiras agora são fortes. Para ilustrar a diferença entre dois projetos.

Por que privatização ainda é pauta de debate eleitoral

Lula e seu projeto de capitalismo solidário

Comentei rapidamente aqui que um partido tem que ser capaz de mudar com o tempo. Se não muda, é porque não acompanha as mudanças da sociedade. Sendo assim, fica estagnado. Torna-se conservador, ou pelo menos ultrapassado, ainda que revolucionário. Suas ideias perdem aplicabilidade e, muitas vezes, sentido.

Na capitalização da Petrobras, me bateu forte o fim da fala de Lula, comemorando “a maior capitalização da história do capitalismo”.

No fim da Idade Média, o capitalismo surgiu. Demorou alguns séculos e veio de formas diferentes nos diversos lugares. Mas ninguém o criou, ele aconteceu, dadas as transformações sociais.

As tentativas de implantar o comunismo ou o socialismo de forma mais radical falharam. Ou se acabaram, se consumiram – URSS -, ou se transformaram em um capitalismo ferrenho mas totalitário – Coréia, China. Ou se diz socialista, mas trata-se de um capitalismo mais solidário, que é como vejo a Venezuela, por exemplo.

Pois o que Lula assumiu para seu governo, desde o princípio, foi não fazer oposição ao capitalismo, mas fazer com que a população viva melhor dentro do sistema que temos. É uma mudança de discurso, de forma de fazer política, bem significativa.

Ainda no início do governo, Delfim Netto fez uma análise econômica em que dizia que Lula ajudava a salvar o capitalismo. Na época a análise doeu, mas concordei. Hoje vejo que a tentativa de fazer do Brasil um país socialista de forma rápida e radical fracassaria. O novo sistema não se sustentaria, não teríamos uma vida melhor para a população.

Sim, Lula é capitalista. Mas acho possível que seu governo contribua para tornar o capitalismo menos agressivo e, com o tempo – muito tempo -, ir diminuindo sua força e transformando a sociedade em alguma outra coisa diferente. Alguma coisa nova, que surja espontaneamente, a partir das transformações sociais.

O importante é adquirir força política para implementar as melhorias que podem levar a esse surgimento. Por enquanto, adaptemo-nos às condições que temos, e oportunizemos justiça, igualdade, solidariedade dentro do capitalismo. Se todos viverem bem e tiverem condições iguais, não importa em que sistema estejamos. Mas desconfio que, se um dia tivermos de fato essa igualdade, já teremos outro nome para definir o sistema econômico, político e social.

Lula e seu projeto de capitalismo solidário