Lula: O Brasil vai ter que discutir comunicação, pelo bem da democracia

Sempre critiquei a política de comunicação do governo Lula, de seus oito anos. Agora mantenho a crítica, mas observo sua astúcia política nas críticas que tem feito recentemente. Não encarou a bronca quando presidente, porque a disputa ia ser feia, podendo prejudicar outros projetos devido à resistência ainda maior que ia sofrer, na tentativa da mídia de manipular a opinião pública. Mas Lula agora aproveita sua popularidade nas alturas, quando já vai deixando a Presidência, para forçar a discussão. Ele pode fazer isso, vai ser ouvido pelas pessoas – que o respeitam e o admiram – e sem comprometer seu governo. E mais, ainda chama para si a raiva da imprensa, deixando Dilma mais livre nessa reta final de campanha. Chama para si, que é praticamente inatingível, que é um fenômeno de comunicação.

Aliás, é preciso dizer que a astúcia política de Lula nunca para de surpreender – na comunicação e em outros setores. Ele tem uma visão do cenário, da sociedade brasileira, que nunca vi em nenhum outro político. Cada um de seus atos é muito bem pensado, com clareza e lucidez. E, acima de tudo, com inteligência. Isso fica claro na entrevista que concedeu ao portal Terra e que foi publicada na quinta-feira passada (links no final).

Se Lula parecia não valorizar a Confecom e as demandas por uma comunicação mais democrática, ele agora retoma a necessidade de se discutir comunicação, porque a legislação data da década de 60, está caduca. E de a sociedade participar do processo, para que efetivemos as mudanças necessárias da forma mais democrática possível, com ampla participação.

Quem pode ter medo da democracia?

Quem tem o poder, claro. É quem tem o que perder. Para se ter justiça e igualdade, em qualquer setor, uns têm que ceder o que têm sobrando para os que não têm. No caso, o espaço, a voz. Eles estão nas mãos das nove ou dez famílias apontadas por Lula, que concentram os principais meios de comunicação. Quando se veem acuados, atacam. Atacam tentando inverter a lógica da pluralidade democrática, confundindo o leitor-espectador-internauta-ouvinte e acusando o governo de censura ou intimidação.

Comunicação no governo Dilma

O mais sensacional na entrevista de Lula é que parece claro que um próximo governo petista assume disposto a discutir o tema. Parece que a comunicação será, sim, um setor estratégico do governo Dilma, como pedi aqui. Fica explícito quando diz: “o Brasil, independentemente de quem esteja na Presidência da República, vai ter que estabelecer o novo marco regulatório de telecomunicações desse País. Redefinir o papel da telecomunicação. E as pessoas, ao invés de ficarem contra, deveriam participar, ajudar a construir, porque será inexorável”.

A crítica da crítica

Quando jornalistas como Merval Pereira, William Waack, Miriam Leitão dizem que Lula quer cercear a liberdade de expressão por conta de algumas declarações dele reclamando do papel da mídia – sem nenhuma interferência concreta do governo na sua atuação, diga-se –, eles estão cometendo o mesmo “crime” de que acusam o presidente. O crime de se manifestar livremente, de exercer sua liberdade de expressão na crítica a uma instituição.

Tudo isso – a atitude golpista da imprensa, a crítica de Lula a ela, a contracrítica da mesma imprensa e até a manifestação dessa que vos fala – é possível porque vivemos em uma democracia, ainda que algumas partes desse processo abusem da democracia de que usufruem – mentindo, deturpando, difamando. Bem disse Leandro Fortes no Twitter: “Nosso maior dilema republicano: quando Lula critica a mídia, é ataque; quando a mídia ataca Lula, é crítica”.

E como eu mesma disse no post anterior: a imprensa vem batendo na questão da comunicação, como se Lula tivesse fechado os principais órgãos de imprensa e feito a revolução. Infelizmente não fez, apenas exerceu seu direito democrático de criticar quem o critica.

Ou como disse o próprio Lula na entrevista ao Terra: “O que acontece muitas vezes é que uma crítica que você recebe é tida como democrática e uma crítica que você faz é tida como antidemocrática”. Onde está a democracia que vale para um lado e não vale para o outro? Democracia de uma perna só, capenga. Hipócrita. Felizmente, não é o caso brasileiro, em que todos se manifestam até demais.

O que acontece, na verdade, é que a imprensa mente, difama, desonra, acusa sem provas. Isso, em um Estado democrático, não é admissível. Lembra a máxima de que a liberdade de um termina quando acaba a do outro. A liberdade de expressão não pode se sobrepor à presunção de inocência, por exemplo.  Ou a outras liberdades do tipo. Ou seja, para a democracia existir de fato, é preciso fazer valer o controle social da mídia, sim. Afinal, dizer qualquer bobagem, causando danos à sociedade, não é saudável à nossa tão batida democracia.

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Os links da entrevista de Lula ao portal Terra. Vale especialmente a primeira parte, que trata mais da comunicação.

Lula: “nove ou dez famílias” dominam a comunicação no Brasil

Lula: Erenice jogou fora a chance de ser uma grande funcionária

Lula diz que tiveram “medo” de tentar derrubá-lo em 2005

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Fotos de Roberto Stuckert durante a entrevista.

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Lula: O Brasil vai ter que discutir comunicação, pelo bem da democracia

Comodismo mantém o baixo nível do jornalismo brasileiro

A gente usa o termo PIG, consolidado por Paulo Henrique Amorim, para se referir à grande imprensa quando ela faz alguma coisa feia, o que é bem comum. Significa Partido da Imprensa Golpista, e aí cabe uma análise. Partido seria porque essa grande imprensa toma parte na disputa política brasileira. Golpista porque teria interesse em derrubar o atual governo petista.

Até concordo que a maioria dos membros da grande imprensa não gosta do PT, que ela tem tendência a criticar mais Dilma do que Serra e que isso acontece de fato com mais frequência e intensidade. Mas acho que não é fruto de um complô. Pra mim deriva muito mais do que o jornalista econômico Sérgio Leo chamou, no 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo organizado pela Abraji, de “formação de consenso”. Refiro-me especialmente ao jornal impresso.

Especialmente na área de economia, de que ele trata, disse, no Congresso de Jornalismo Investigativo da Abraji, que o grande problema nem é a existência de um PIG ou porque os veículos publicam ou o que os patrões querem, mas a complexidade do assunto. Dá muito trabalho ir contra o pensamento dominante, então os jornalistas, preguiçosos, fazem o mais fácil. Isso significa não dominar o assunto e falar sempre com as mesmas pessoas. Manter essas fontes fixas e óbvias é realmente mais cômodo. Além disso, o tempo é cada vez mais curto, e a demanda, cada vez maior, o que incentiva o pragmatismo, a preguiça de ler, de ir atrás do diferente.

E aí a preguiça se junta ao “conforto ideológico”, que é onde eu queria chegar. Não acredito que o repórter pense a cada matéria “hmm, isso vai ajudar o Serra, então vou falar desse jeito” (imagino ele esfregando as mãos, meio Mr. Burns). O que penso que acontece é que se segue um pensamento que já está lá, que é fácil, que o dia a dia da redação não permite questionar. Falta crítica aos jornalistas, sobra comodismo. E o comodismo leva à manutenção do pensamento dominante, à adaptação ao consenso.

Não que isso justifique a má qualidade do jornalismo, muito pelo contrário. É difícil, mas essencial manter o espírito crítico constantemente para quem está dentro de uma redação. E quem está fora tem o dever de apontar os erros e criticar, para a melhoria da informação produzida e a construção da democracia.

Comodismo mantém o baixo nível do jornalismo brasileiro

A campanha de desqualificação dos argentinos

Roubado do Diário Gauche.

É preciso denunciar uma cumplicidade perversa entre alguns (maus) publicitários, o PIG e anunciantes brasileiros. A aliança maléfica visa envenenar o senso comum contra as populações do Cone Sul, em especial os argentinos.

Ora é a propaganda indigente de uma cerveja fedida (com gosto de urina de rato, como diria o marinheiro Arthur Gordon Pym), que faz dos argentinos objeto de zombaria. Ora são jornalistas idiotas que alimentam uma rivalidade extracampo, para bem além da mera disputa esportiva, entre o futebol argentino e o futebol brasileiro.

Ontem, na televisão, depois do jogo dos argentinos, escutei um repórter fazer comentários sobre a torcida: para ele, os torcedores “argentinos são fanáticos”, os torcedores “brasileiros são alegres e desinibidos”. Apenas um exemplo entre tantos outros que poderiam ser citados como ilustração dessa campanha aparentemente ingênua e desimportante.

A eleição de falsos adversários é artifício rasteiro da mediocridade organizada. Seus instrumentos de trabalho são a má consciência, o preconceito, e a divulgação em tom alto das piores suspeitas que o senso comum guarda dos nossos vizinhos. Além de simplificar a identidade cultural de estrangeiros irmãos, como se estes portassem um único e indivisível espírito nacional, e como se este espírito não fosse fatiado por tantas classes sociais quantas o capitalismo pode produzir.

É preciso protestar contra essa campanha que é o prefácio do fascismo. A técnica continuada de desqualificar o outro, o estrangeiro, o que não é igual, é a ante-sala do obscurantismo.

Coisas da vida.

A campanha de desqualificação dos argentinos

Reinaldo Azevedo: humor gratuito

Atualizado às 00h02min do dia 6 de março.

Eu e Reinaldo Azevedo concordamos em alguma coisa. É uminha só, não se espantem. Hoje ele disse que o Lula é muito inteligente em suas estratégias políticas. Concordo. Ele disse isso no programa Entre Aspas, da GloboNews, e foi adulado o tempo inteiro (mais uma prova de que o PIG anda se soltando por aí, assumindo seu lado mais reacionário abertamente).

Só que, olha que engraçado, ele disse que o Lula não deixaria a Presidência para colaborar na campanha porque, se Dilma estiver tão mal lá por agosto que o Lula precise fazer isso, ele não vai deixar o Sarney no lugar dele, e sim compor com o Serra.

E mais: que a “notícia” havia sido plantada pelo PT para alertar Serra de que teria que enfrentar diretamente o grande Lula. E claro, que o grande Lula – que Reinaldo considera muito inteligente em suas estratégias políticas – tinha fracassado, fazendo uma leitura equivocada das consequências da falsa notícia da licença que tiraria. Ligeiramente contraditório, mas faz parte do discurso.

Sério, alguém acredita no que esse cara diz? Pelo menos temos humor de graça.

Reinaldo Azevedo: humor gratuito