O manual de ética (cof cof!) da RBS

Achando pouco colocar em prática sua estratégia de distorcer a informação e basear a construção das notícias na ideia de que o leitor/espectador/internauta/ouvinte é burro, a RBS mais uma vez joga os pés pelas mãos e decide estabelecer normas escritas para a conduta. O título, claro, distorce a ideia. Fala em “autorregulamentação”.

Mal sabem eles que quem está do outro lado (lado?) não é burro (ou bem sabem e estão tentando correr atrás? hmm…).

Com palavras bonitinhas e concatenadas com o objetivo, mais uma vez, de fazer o leitor entender uma coisa que não está escrita, a Zero Hora publicou um editorial sobre o tema. No ar desde ontem no site, o texto vai vir com a edição impressa do próximo domingo, como comemoração ao lançamento do seu “Guia de Ética e Autorregulamentação Jornalística”, a acontecer hoje, sexta-feira.

Pois comecemos pelo começo. Ética. Esse povo gosta de usar a palavra em vão. Vale uma regra: se não tiver, não usa. Simples assim. No caso do grupo que exerce o monopólio das comunicações no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, conviria deixar de fora. Falta honestidade. Mas bom, issa é prática comum para quem não tem a tal da ética.

Ainda no primeiro parágrafo, o editorial fala em “informação independente e opinião plural”. Cof cof. Risos. Murmúrios.

O povo se ajeita nas cadeiras desconcertado e ligeiramente envergonhado. Tudo bem que brasileiro costuma ser meio cara de pau, mas tudo tem limite. Na frase seguinte, vêm as palavras “integridade, autenticidade e transparência”, e aí o leitor se espanta ao perceber que a empresa está falando de si própria, como se a frase anterior não tivesse sido suficiente.

Calma, continua aí que a diversão está só começando.

Ainda temos pela frente “liberdade de expressão”, “promoção do ser humano”, “informação livre”, “ética” de novo (quando muito repetida, sabe como é, vira verdade), “permanente discussão” (provavelmente se referindo ao profícuo debate de ideias dentro da família Sirotski), “mecanismo democrático de transparência”. Tudo muito bonito, mas né.

Isso sem falar na falácia da luta contra a censura, como se monopólio não fosse uma forma de exercê-la. Mas não vamos tão a fundo nos detalhes, para não cansar o leitor, que já deve estar exausto de tantos anos de enrolação. Falemos dos pontos gerais de questão com vários aspectos:

Em primeiro lugar, a ideia de autorregulamentação em si. Convenhamos, quem acredita? Se eu vou me regular a mim mesma (e o pleonasmo é proposital), é só eu não fazer o que eu acho errado, certo? Ou alguém aqui

Ou seja, diante da pressão por mais pluralidade e comprometimento social, a RBS publica um manual (e faz um alarde em cima da história) só pra bonito, pra dizer que faz alguma coisa e manter as aparências (que aparências ainda restam mesmo?).

Engraçado que não comentam quem escreveu o guia. Quem dita as regras da autorregulamentação da Zero Hora. Por que todos os leitores têm que achar essas regras bonitas, se elas representam só os interesses dos donos do jornal, ou, pra ser um pouco mais condescente, que os donos do jornal acham que é o melhor pra sociedade (considerando alguma possível boa intenção)?

E por fim, como se não bastasse o próprio editorial autoadulatório e hipócrita, ainda vem a pergunta cretina, publicada no site como uma enquete a ser publicada junto com o texto na edição de domingo: “você concorda com o editorial que defende a autorregulamentação jornalística como direito do público?”. Entre parênteses, antes do ponto de interrogação, caberia colocar: “que a Zero Hora defende e apresenta a seguir com os argumentos mais bem trabalhados e as palavras mais bem escolhidas e sem contraponto”.

Ops, desculpa, esqueci que honestidade não passa por aquelas bandas…

P.S.: Mudando de assunto, alguém aí viu a cobertura da RBS sobre o livro do jornalista Amaury Jr., divulgado essa semana, que denuncia a privataria tucana? Não estou conseguindo achar…

O manual de ética (cof cof!) da RBS

Pela pluralidade da informação

A mídia brasileira costuma mudar de opinião com frequência, adequando-a a seus interesses. Daí surgem casos esdrúxulos em que situações semelhantes têm tratamentos diferenciados, seguindo a regra do “dois pesos, duas medidas”. Na comparação entre as posturas de Lula e Dilma, não haveria de ser diferente.

Lula sempre foi falante demais, e suas gafes eram constantemente criticadas. Foram as gafes de Lula, sua capacidade de adequar os discursos a cada situação e à relação que estabelecia na hora com cada público o que, fora do âmbito estritamente político, mais contribuiu para levar sua popularidade aos níveis recordes que chegou.

Dilma não é Lula. Reservada, não tem a mesma empatia com cada público. Não tem a mesma capacidade de improviso de Lula. São pessoas diferentes, estilos diferentes. Mas agora é a falta de gafes de que reclamam. A falta de improviso, a falta de discursos populares, as poucas aparições.

Nada disso significa que Dilma governará melhor ou pior que Lula, evidentemente. Mas ela está começando a fazer falta.

Nunca estive entre os críticos à postura de Lula, a sua identificação com o povo, então me sinto no direito de querer um pouco mais de Dilma. Isso de informar por notas, de aparecer pouco, de se manter excessivamente discreta não influencia na qualidade de sua gestão, mas seria interessante que uma presidente estabelecesse uma comunicação mais direta com seu povo.

Sinto falta da presença de Dilma. Sei o que ela anda fazendo, mas pouco do que ela anda pensando. Uma presidente de esquerda, com espírito democrático como o de Dilma, deveria se fazer presente para dialogar com os brasileiros.

Compreendo a diferença de estilo, e não espero que Dilma apareça e encante da mesma forma que Lula, mas, dentro do seu jeito, com sua postura mais formal e sua linguagem menos simples, ela poderia mostrar a cara.

O tempo ainda é curto. De empossada, apenas uma semana. Mas já desde o fim das eleições Dilma mostra-se discreta demais. Um pouco mais de debate cairia bem.

Já comentei que a internet possibilita a relação mais direta entre o brasileiro e a informação, diminuindo a necessidade – e a influência sobre a notícia – do intermediário. É óbvio que Dilma não vai tuitar as decisões de governo, mas ela está supervalorizando o intermediário da informação, que interpreta a notícia e a repassa ao público adaptada. Se Dilma aparecesse mais, as fontes de acesso às notícias aumentariam e conheceríamos os fatos mais genuínos, menos modificados. Ou pelo menos através de mais canais, com diversas interpretações. Mais plural.

Pela pluralidade da informação

A esperteza de Zero Hora

A Zero Hora não costuma primar pela qualidade. Me refiro tanto à falta de isenção, que diz ter, quanto à questão mais prática de apuração e qualidade dos textos. Mas às vezes se mostra mais esperta que seus parceiros do Centro do país. Enquanto Folha, O Globo e Estadão deram destaque à entrevista coletiva de Lula a blogueiros, ironizando e recriminando o presidente e debochando dos blogueiros (não tenho cá comigo a imagem, mas quem se superou em todos esses quesitos foi o jornal O Globo), a Zero Hora deu uma notinha em uma página insignificante com um relato breve do acontecido, sem foto. Os jornalões citados escancararam os rostinhos dos comunicadores presentes ao lado de Lula.

Com a entrevista do governador eleito Tarso Genro, seguindo os moldes do presidente, ela fez parecido e deu uma nota seca em um pé de página par. É possível que nem tivesse mencionado o encontro, ou falasse em apenas duas linhas, se Tarso não tivesse forçado a notícia. Afinal, se a Zero Hora é esperta, o governador é mais, e aproveitou a ocasião para anunciar a competente Vera Spolidoro para a Secretaria de Comunicação e Pedro Osório para a presidência da Fundação Piratini, forçando a menção ao encontro.

O jornal evitou fazer juízo do conteúdo da coletiva. Aliás, mal entrou no mérito, indo pouco além da alfinetada que não poderia faltar sobre a censura que a grande imprensa costuma ver em qualquer tentativa de democratizar a comunicação. Acho tão engraçado, porque contradizem o que eles mesmos dizem. Como uma “democratização” pode significar censura? O significado do termo é exatamente o oposto de censura, e vai na direção do que hipocritamente a ZH defende, embora não pratique: a pluralidade.

Mas faz sentido que não gostem. Afinal, democratizar traz embutido dividir. Para que os que têm menos tenham mais, os que têm mais devem perder alguma coisa, nem que seja apenas poder (o que faz todo sentido, em uma perspectiva de mais igualdade). Isso se aplica a qualquer setor da sociedade, inclusive comunicação. Como quem tem poder hoje são esses jornalões citados, que pautam a discussão e formam opinião, eles não gostam da ideia de democratizar.

Nenhum deles gosta, mas é aí que entra a esperteza do negócio. A RBS, ao não dar destaque ao tema, neutraliza o debate em setores da sociedade que praticamente só têm acesso à informação através dela. Já os jornais do Centro do país acabaram caindo na armadilha e exalando despeito, em seus comentários mal intencionados, recheados de inveja e mau-caratismo.

Nesse caso, a “inteligência” da Zero Hora é prejudicial à sociedade, pois enfraquece o debate sobre democratização, ajudando a impedir que muitos setores tenham voz. O jornal podia usar sua esperteza para produzir conteúdo de mais qualidade para a sociedade e valorizar seus funcionários. #ficaadica

A esperteza de Zero Hora

A entrevista de Lula à blogosfera: que seja bem aproveitada

A imprensa não pode ser só de esquerda, só de direita, só feminista, só conservadora… Refiro-me à linha ideológica dos veículos. Sabe-se que todos inevitavelmente a têm, por mais plural que tentem ser.

O grande problema é que, se conversarmos com a grande maioria dos brasileiros, eles se informam pelos mesmos veículos. E é com eles que os governantes conversam. Afinal, eles têm uma força realmente muito grande, que pode abalar estruturas.

É nesse sentido que amanhã se torna um dia histórico. Amanhã o presidente do Brasil concederá entrevista coletiva a dez blogueiros. Blogueiros sujos, segundo o candidato da oposição nas eleições de 2010.

Não sei se sairão informações muito diferentes. Não sei se algumas perguntas não serão muito chapa-branca. É possível, embora eu confie na capacidade jornalística dos representantes dos blogueiros brasileiros que se reunirão com o presidente às 9h de amanhã em Brasília.

Que vire rotina

É um formato a ser adaptado com o tempo, por ambos os lados, até adquirir sua melhor forma. Talvez a novidade atrapalhe um pouco. Dá aquela sensação de ter que aproveitar da melhor forma, fazer a melhor pergunta, não decepcionar. Se virar rotina, isso tende a melhorar. Ainda mais se nas próximas vezes for aberta a possibilidade de inscrições diversas.

De qualquer forma, está sendo anunciada a possibilidade de participação dos internautas, e alguns dos blogueiros inclusive pediram sugestão de perguntas. Uma entrevista que já tem o mérito de ser, pelo menos, diferente de tudo o que já se fez no gênero.

O que faz deste um acontecimento importante é o fato de o governo reconhecer o papel dos blogs e valorizá-los. É a iniciativa na direção de pluralizar o debate e de abrir uma relação nova com essa mídia que vem mostrando sua força, mas ainda tem muito pouco espaço e muito pouco acesso (já comentei aqui sobre quando tentei entrevistar um secretário do governo Yeda no RS e ouvi da assessora que no Palácio “nem era permitido abrir blogs”, o secretário não “perderia o tempo dele” comigo).

É por essa valorização dos meios alternativos que este momento merece divulgação. Espero que todos os lados entendam a importância de se aproveitar da melhor forma a ocasião.

Presidente Lula vai dar a primeira entrevista à blogosfera

Por Renato Rovai em seu blog

23/11/2010

Amanhã (quarta-feira) o presidente Lula concederá a primeira entrevista “da história deste país” à blogosfera. Solicitada por um grupo de blogueiros progressistas, ela já tem as presenças confirmadas de: Altamiro Borges (Blog do Miro), Altino Machado (Blog do Altino), Cloaca (Cloaca News), Conceição Lemes (Viomundo), Eduardo Guimarães (Cidadania), Leandro Fortes (Brasilia Eu Vi), Pierre Lucena (Acerto de Contas), Renato Rovai (Blog do Rovai), Rodrigo Vianna (Escrevinhador) e Túlio Vianna (Blog do Túlio Vianna). Outros dois blogueiros buscam desmarcar compromissos para se integrar ao grupo.

O evento acontecerá às 9h da manhã, no Palácio do Planalto, e será transmitido ao vivo pelo Blog do Planalto, pelos blogs que participarão do encontro e por todos que tiverem interesse de fazê-lo. Ainda hoje vamos explicar como isso será possível.

Será uma entrevista coletiva, mas também é um momento de celebração da diversidade informativa. Ao abrir sua agenda à blogosfera o presidente demonstra estar atento às transformações que acontecem no espaço midiático e ao mesmo tempo atesta a importância dessa nova esfera pública da comunicação.

Como as coisas na blogosfera são diferentes e mais colaborativas, não serão só os presentes ao encontro que participarão. A coletiva será aberta ao público que poderá participar enviando perguntas pelo chat. O objetivo é garantir o maior grau possível de interatividade.

Por conta dos senões da agenda presidencial, só agora nos foi confirmado o evento e liberada a divulgação. Por isso temos pouco tempo para nos organizar e produzir a repercussão que a entrevista merece.

Contamos com vocês nessa tarefa: divulgando, transmitindo em seus blogs e fazendo perguntas pelo chat.

A blogosfera dá mais um passo importante.

Um passo “nunca dado na história deste país”.

A entrevista de Lula à blogosfera: que seja bem aproveitada

Pelos indicadores da Unesco, a mídia brasileira é uma piada

Provavelmente não terá muitos resultados práticos, mas a Unesco se mostra interessada em discutir a comunicação. Saiu a versão em português do documento “Indicadores de Desenvolvimento da Mídia: Marco para a avaliação do desenvolvimento dos meios de comunicação”, que pretende avaliar o estágio de desenvolvimento da mídia em diferentes países.

Já se sabe que uma sociedade verdadeiramente democrática pressupões liberdade de imprensa, com amplo acesso a todos os setores da população à produção e distribuição de conteúdo. Mas as formas de avaliar se ela acontece na prática talvez possam ser consideradas abstratas. O objetivo da Unesco é fornecer indicadores para que essa avaliação seja feita a partir de critérios objetivos.

As cinco categorias que baseiam o documento são:

1. Um sistema regulatório favorável à liberdade de expressão, ao pluralismo e à diversidade da mídia;
2. Pluralidade e diversidade da mídia, igualdade de condições no plano econômico e transparência da propriedade;
3. A mídia como uma plataforma para o discurso democrático;
4. Capacitação profissional e instituições de apoio à liberdade de expressão, ao pluralismo e à diversidade;
5. A capacidade infraestrutural é suficiente para sustentar uma mídia independente e pluralista.

Fico imaginando o momento de avaliar a imprensa brasileira. Um desavisado levaria um verdadeiro susto ao não encontrar sistema regulatório, pluralidade, diversidade, igualdade, transparência etc. etc. etc. A mídia brasileira chega a ser risível. O caso típico do cômico se não fosse trágico.

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O documento será lançado dia 23 de junho na Câmara dos Deputados, mas já pode ser acessado gratuitamente aqui.

Pelos indicadores da Unesco, a mídia brasileira é uma piada

Pluralidade e democratização

A Carta Capital dessa semana traz dois exemplos de Jornalismo, um relativo à pluralidade e outro à democratização, embora uma coisa pressuponha a outra (ou seja, os dois casos tratam da mesma coisa: democracia, acesso aos meios de comunicação, benefícios para o cidadão).

Caso 1. EUA: “Das páginas de opinião do Chicago Tribune, Eric Zorn aponta para a importância de se dar cor ao noticiário. E reforça que ‘o jornalismo mais partidário, no caso dos EUA, em que você tem meios dos dois lados, é fundamental para que as pessoas apreendam de fato a substância dos debates nos temas de grande interesse público. Por mais irritante e superficial que o jornalismo ideológico pareça ser, ele é vital para a saúde da sociedade.'”

Caso 2. Argentina: “A Lei de Serviços Audiovisuais, proposta pelo governo Cristina Kirchner, mexeu no vespeiro de regimes de concessão de rádios e tevês e, por extensão, nos interesses dos principais grupos de comunicação da Argentina. […] Entre os pontos mais criticados pelos empresários está o limite ao número de concessões por grupo econômico e área de abrangência – uma norma corriqueira em países desenvolvidos.”

A reportagem sobre os EUA é de Eduardo Graça. A nota sobre a Argentina é de Luiz Antonio Cintra. Íntegra só na edição impressa.

Pluralidade e democratização