Doria e a ração de resto

doria apresenta felizão um programa para distribuir “um granulado nutritivo composto por alimentos habitualmente desperdiçados pela população e que contém importantes propriedades nutricionais, podendo ser adicionado às refeições” para pobres. isso mesmo, resto.

pior que eu consigo até imaginar ele pensando nisso como uma grande ideia. por um lado, tem comida indo pro lixo, aos montes. por outro, gente passando fome. aí vem a lampadazinha, plim, ideia genial: “vamo juntar as pontas”.

eu consigo imaginar porque eu conheço gente que pensaria igualzinho. claro, gente que nunca passou fome e que tá acostumada a ter salmão e filé mignon no almoço do dia a dia. se eles gostariam de comer ração de resto? ah, isso nem passa pela cabeça, porque eles não estão passando fome. “mas melhor isso que nada, né?”

não, amigo, melhor dignidade e comida de verdade do que ração de resto. é engraçado porque as mesmas pessoas que devem estar apoiando esse tipo de medida são as que acham que bolsa família é esmola. e aí a gente vê a situação merda que a gente tá, quando nem a inteligência mínima de ligar pontos sobrevive. garantir dignidade e acesso a direitos a quem nunca teve não pode ser chamado de garantir dignidade, é esmola. mas ração de resto tá de boa ser chamada de comida.

“ai, mas tem muito desperdício.” claro que tem! inclusive o teu, o meu, o do nosso dia a dia. não é dando resto pra pobre comer que a gente vai acabar com ele.

enfim, quando alguém diz que tem pena de quem não tem comida e vem com alguma ideia estapafúrdia como essa, minha questão é: por que você tem direito a comer filé mignon e o pobre tem que ser feliz com resto? porque você nasceu melhor? que chato esse tal de capitalismo, né.

doria racao de resto

Doria e a ração de resto

O preconceito está na TV

A Globo até é mais profissional que a ainda e sempre provinciana RBS e não usar o mesmo palavreado, mas o conteúdo ideológico de mãe e filha é rigorosamente o mesmo.

Quando Luiz Carlos Prates dividiu no ar as pessoas em classes e decidiu que uma pode e a outra não pode – naquele infeliz comentário sobre os pobres e os carros -, não fez diferente do Jornal da Globo de ontem (disponível na íntegra para assinantes). Ambos representam o pensamento da elite preconceituosa e conservadora.

Christiane Pelajo chegou a mudar o tom de voz ao fazer a escalada do jornal – aquele início em que o apresentador lê os destaques do dia. Quando falou no aumento da venda de material de construção, o nojo transparecia no comentário de cunho pejorativo: “Brasil, o país do puxadinho”. Isso porque as classes que mais compraram material de construção foram as que antes não tinham acesso a ele, as classes C, D… É o pequeno consumidor, o que faz “puxadinho”.

Os do nível de Pelajo constroem, mas pobre faz “puxadinho”. As classes A e B fazem reforma, nunca aumentam a laje. A diferença na expressão utilizada demonstra o preconceito. Por que usar palavras diferentes para dizer a mesma coisa?

Qualquer melhoria na vida das classes “inferiores” é tratada com desprezo, como se elas estivessem tomando conta de algo que não lhes pertence.

A imprensa brasileira, neste caso representada pelo Jornal da Globo, tenta a todo custo manter as diferenças de classe, o status. Por isso o ódio do governo Lula, que subtraiu essa diferença, além de ele próprio ser um “pobre” de origem. Afinal, para a mídia, pobre não é condição financeira, é característica intrínseca, que por si só desmerece o cidadão, taxando-o.

Como pode depois querer condenar o preconceito da sociedade, tão exacerbado na última campanha eleitoral, se é ela a principal incentivadora?

O preconceito está na TV