A obscena fortuna de Eike

Se alguém me dissesse que tem na conta quase 700 milhões de reais, eu acharia o mundo injusto.

Perguntado por Marília Gabriela sobre o valor pago ao imposto de renda no ano passado, o empresário Eike Batista respondeu: “eu assinei um cheque de 670 milhões”. Não foi possível pagar no Rio de Janeiro porque o sistema não comportava o número de zeros. Teve que ir a São Paulo.

Nesse caso, já não é uma simples injustiça. É obsceno.

Emir Sader disse em mais de uma ocasião que só há pobres porque há ricos. É a oposição entre os extremos que perpetua a desigualdade. A culpa não é especificamente do Eike. Ele fez o jogo direitinho, se apropriou com inteligência das ferramentas que teve à disposição e acumulou muito dinheiro. Isso não faz dele uma má pessoa, mas demonstra que as coisas estão erradas, estão tortas.

Um sistema de sociedade justo deveria impedir que essas distorções ocorressem. O governo Lula vem conseguindo diminuir as distorções para menos, reduzindo a pobreza. Dilma fala agora em acabar com a miséria no Brasil. Mas não se fala em corrigir as distorções para mais.

Tudo bem, eles fazem o mais importante e urgente. Dar condições dignas de vida a todos é imperativo. Mas isso seria inclusive facilitado se alguma providência fosse tomada também com relação às grandes fortunas.

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A obscena fortuna de Eike

Superpopulação e as metas do milênio

A população mundial pode chegar a 10 bilhões até 2050. Já são quase 7 bilhões, segundo estimativas da ONU. Matéria do Jornal do Comércio de ontem, 12, relata que 156 países vão recontar seus habitantes nos próximos dois anos. Se só no Brasil já é mobilizado um verdadeiro exército de 190 mil recenseadores para auferir seus quase 200 milhões de pessoas, imagina a quantidade de gente para entrar na casa de mais de 6 bilhões. É 30 vezes a população brasileira.

Os números assustam. Nas próximas décadas, o boom demográfico deve continuar, o que significa mais necessidade de energia, de moradia, de comida, de infraestrutura, em uma maioria de países que não dão conta de distribuir esses direitos de forma igual. A vantagem é que Brasil e América Latina agora contam com a maioria de sua população em idade ativa, o que melhora a economia. Não é mais preciso que uma pessoa trabalhe para sustentar outra. Como desemprego já não é mais a principal preocupação do país (foi o que responderam os gaúchos em pesquisa divulgada ontem, 12, na Zero Hora), a situação é positiva.


Crise prejudica cumprimento das metas do milênio

O que preocupa mesmo é o que está na página ao lado no Jornal do Comércio. As matérias são independentes, mas seu conteúdo está estreitamente ligado. A crise mundial pode comprometer o cumprimento das regras do milênio no nosso continente, segundo a Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal). A principal das metas afetadas pela crise que começou em 2008 é a redução da pobreza pela metade, que se pretendia conseguir até 2015.

Se a redução da pobreza diminuiu seu rumo e a população só aumenta, a sitaução tende a se complicar. A proporção de pessoas que saem de condições de vida degradantes tende a se tornar cada vez menor.

A boa notícia é que o Brasil está entre os três países da região que já cumprem a meta de reduzir a pobreza pela metade, junto com Chile e Peru. O país historicamente marcado pela sua desigualdade agora mostra os resultados de um governo preocupado com o social, que efetivamente investiu na sua população e reduziu as diferenças.

Superpopulação e as metas do milênio

Tanta riqueza é imoral

Ainda que não seja ilegal, uma fortuna de 27 bilhões de dólares é imoral. Não tem como não ser. Por mais correto que o dono dela seja – não que isso se aplique ao caso -, tanto dinheiro é uma afronta.

Tá, sou contra aquelas pessoas que engolem toda a comida porque tem gente passando fome. Acho que isso não faz o menor sentido, assim como também não precisamos nos privar de pequenos luxos porque o mundo é cruel.

Mas é importante lembrarmos que a pobreza só existe pela oposição à riqueza. Uma não existe sem a outra, elas são interdependentes. Uma gera a outra, se retroalimentam.

Eike Batista teve um incremento em sua fortuna de 19,5 bilhões de dólares em apenas um ano. Não é que ela dobrou, ela triplicou. Tanto que ele subiu da 61ª para a 8ª posição no ranking dos mais ricos do mundo da revista Forbes.

E outra: não só o primeiro lugar deixou de ser norte-americano como ele agora é ocupado por um mexicano do ramo das… telecomunicações. O famoso Carlos Slim é a figura, cujos bilhões são fruto da privatização da telefonia mexicana. UM homem ficou rico. Podre de rico. O resto povo? Comeu neoliberalismo…

Não, comunicação não dá dinheiro. Dá dinheiro usar a comunicação de forma imoral, antiética, ilegal. Usar como ferramenta de poder.

O poder que o dinheiro dessas criaturas lhes dá é o que perpetua a situação de desigualdade da sociedade. A existência dessas fortunas, e seu constante crescimento, são a prova de que a desigualdade de renda se perpetua em vez de diminuir. Sabe aqueles números famosos que dizem que uma pequena parcela da população concentra a maior parte da riqueza? Está aí ó.

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A notícia saiu na imprensa hoje. Reparem no texto da Wikipedia sobre Eike: “Antes conhecido por ser ex-marido de Luma de Oliveira e filho de Eliezer Batista, tornou-se ainda mais conhecido para o público em geral ao conquistar a maior fortuna do país, avaliada em 27 bilhões de dólares, segundo a revista Forbes (estimativa feita em março de 2010).”

Tanta riqueza é imoral

Desigualdade a partir da riqueza

Riqueza-DesigualdadeUma das coisas mais interessantes no seminário Riqueza e Desigualdade na América Latina, que eu assisti essa semana, foi a perspectiva de que ele parte. Está no nome, mas demorei pra me dar conta. Na verdade, só percebi quando o coordenador, Antonio Cattani, disse com todas as letras.

Noventa por cento dos estudos sobre desigualdade são associados à pobreza. É preciso estudar também a ótica da riqueza. Pobreza e riqueza, segundo o sociólogo (seu currículo é realmente extenso e rico), estão interligadas. Uma existe por causa da outra. É tão óbvio, não? Só que a gente não vê.

A ideia corrente é de que a riqueza é boa. Ela é invejada, é a solução dos problemas. A pobreza, essa sim, é o problema. Essa é uma visão deslumbrada da riqueza. Na verdade já faz um tempo que eu insisto que é um absurdo existirem pessoas tão ricas e que o fato de elas existirem é que gera pessoas tão pobres – em muito mais quantidade. Mas o professor Cattani colocou essa questão de forma tão simples e clara…

4 mil pessoas têm renda mensal declarada de 120 mil reais
200 pessoas têm renda mensal declarada de 500 mil reais
138 pessoas têm renda mensal declarada de 27 milhões de reais

Nas palavras de Cattani: é uma mega sena por mês!

O poder, tido como a possibilidade de controlar o Congresso, a mídia, a cultura, a vida e a morte, ter impunidade, está nas mãos de muito poucos. O Brasil não é um país pobre, é uma potência. O fato de ter uma brecha social tão grande mostra que algo está errado. O que acontece é uma “apropriação privada do que é produzido socialmente”. A tese neoliberal de que, ao produzir riqueza, haveria um debordamento que beneficiaria os demais mostrou-se falha. Quem a desmistifica é Sonia Alvarez, também palestrante do seminário e citada por Cattani.

Em um resumo meu bastante grosseiro: para combater a desigualdade, para eliminar o problema da pobreza, é preciso combater a riqueza. Impedir essas grandes fortunas. Distribuir, em suma.

Desigualdade a partir da riqueza